
A SAGA DOS HERDEIROS
03


O HERDEIRO DRAGO

CINDA WILLIAMS CHIMA

Traduzido por Claudia Santana Martins

FAROL
2010



Para Eric e Keith, que acreditam em drages.

Agradecimentos

Um livro  como um navio.  preciso muitas pessoas para se
lanar um. Alguns ajudam na estrutura e no planejamento,
outros fornecem o financiamento; alguns ficam aplaudindo
na praia, enquanto outros pem mos  obra e o empurram
at tir-lo do ancoradouro.
Sou grata a todas as pessoas talentosas na Hyperion,
especialmente a minha preparadora de texto, Arianne
Lewin, que me fez reescrever o livro todo e aperfeio-lo.
Obrigada a Elizabeth Clark, que, junto com o artista Larry
Rostant,  responsvel pelas belssimas capas. Obrigada a
Angus Killick e sua equipe, que colocaram meus livros nas
mos de professores e bibliotecrios. (E obrigada tambm a
esses professores e bibliotecrios, que colocaram meus livros
nas mos dos leitores.)
Muito obrigada, Christopher Schelling. Alm de ser um
agente fantstico, muitas vezes ele me convence, correta ou
incorretamente, de que eu no sou louca.
Obrigada a Pam Daum, que  um gnio, pelas maravilhosas
fotografias. Escritora, artista, amigas para sempre. Saudades.
Obrigada aos meus generosos colegas da Hudson Writers e
Twinsburg Writers por sua crtica amvel e detalhada.
Obrigada principalmente a Marsha McGregor, que aturou
telefonemas bastante incoerentes e conversou comigo at
que eu me acalmasse.
Devo um agradecimento sincero a Rod, que forneceu apoio
moral, emocional e tcnico (website, fotografias, layout e
design, assistncia tcnica para a impressora) ao mesmo
tempo que agentava reclamaes ocasionais e cumpria mais
do que a sua cota no trabalho domstico e em questes de
relacionamento. (Aqueles cartes de aniversrio que foram
enviados  no fui eu.)
Finalmente, obrigada aos meus primeiros leitores, Eric e
Keith, que deram incio a tudo.



Prlogo
Sete Anos Antes

O nevoeiro aderia  montanha Booker como um velho
casaco esfarrapado. Os faris da picape atravessaram a nvoa.
Embora a estrada fosse estreita e traioeira, Madison no
estava preocupada. A av, Min, era capaz de achar o
caminho de olhos vendados e em sono profundo.
Min diminuiu a marcha quando a subida se tornou mais
ngreme. Seu rosto exibia duros traos de irritao, mas
Madison sabia que Min no estava zangada com ela. Sentia-
se a salvo, aninhada na picape com John Robert no colo e
Grace espremida entre ela e a porta. Grace estava dormindo,
a cabea apoiada na janela, os cabelos emaranhados ao redor
do rosto. Min no teve tempo para pente-la.
        Mame no vai ficar preocupada quando chegar em casa e
descobrir que a gente foi embora?  indagou Madison,
falando baixinho para no assustar John Robert, que chupava
o polegar com aquela expresso concentrada, tpica dos
bebs.
        Um pouco de preocupao vai fazer bem a Carlene, se
quer saber o que acho  disse Min.  Que idia, deixar
uma menina de dez anos tomando conta de um beb e de
uma criana pequena por dois dias.
        Algum provavelmente faltou  sugeriu Madison.  Ou
quem sabe Harold Duane pediu pra ela trabalhar at tarde.
        O bar s fica aberto at as duas. Ela no tinha por que ficar
fora a noite toda.
        Eu sou bem adulta pra minha idade.  o que a mame diz.
Min bufou e revirou os olhos.
        Eu sei que , querida. Voc  mais adulta do que a sua
me. Voc nasceu sbia.
Eles passaram pelo muro de tijolos e pedra e pelos pilares
iluminados do porto que marcava a propriedade dos Ropers.
Min fez um sinal com a mo ao atravessarem a larga entrada
para carros.
        Pra que  isso?  perguntou Madison, sabendo que era
uma maldio.
Min no respondeu. Min sempre dizia que bons cristos no
amaldioavam pessoas.
        Por que a senhora quer amaldioar os Ropers?  insistiu
Madison.
Brice Roper morava ali. Ele era seu colega de classe na
escola. Havia um brilho em torno dele, como a luz atravs
de um vidro molhado pela chuva. O tipo de brilho das
pessoas ricas, talvez. Brice tinha quatro cavalos rabes e
deixava aqueles de quem gostava montarem neles.
Madison nunca cavalgara nas terras dos Ropers.
        Os Ropers querem a nossa montanha  disse Min.
Madison pensou: "A montanha Booker? O que eles queriam
com ela?"
        Mas a terra deles  muito melhor!  exclamou ela.
Para quem gostava de luxuosas casas de pedra com pilares e
gramados verdejantes e quilmetros de cerca branca. E
cavalos rabes.
        Carvo  respondeu Min secamente.  Bryson Roper
no consegue tirar o resto do carvo dele da terra sem passar
pela montanha Booker. E ela pertence a mim.
Contornaram a ltima curva, passando pela caixa do correio
que dizia M. BOOKER, CARTOMANTE E CONSELHEIRA.
A picape chacoalhou at parar junto aos degraus da varanda.
Madison levou John Robert no colo, e Min carregou Grace.
Madison caminhou pisando com toda a sola dos ps nas
tbuas desgastadas da varanda, para no ficar com farpas nos
ps descalos. Aps terem subido os degraus, cruzado a
varanda e levado as crianas para os quartos nos fundos, Min
ficou com a respirao pesada, o rosto estranhamente cinza.
Madison sentiu o beijo frio do medo na nuca.
        Vov? A senhora est bem?
Min apenas agitou a mo, sem flego para falar. Abriu o
colarinho da blusa, revelando o pingente de opala que
sempre usava. Aquele que ela s vezes deixava Madison
experimentar.
Assim que os pequenos estavam na cama, Madison acendeu
o fogo e fez caf para as duas. Min nem se queixou do
gosto, o que era preocupante.
        Vai ser um inverno frio  previu Min, acomodando-se na
nica poltrona com braos e cobrindo os ombros com um
xale. Um pouco da cor lhe voltara.  Mais neve do que
temos tido por muito tempo. Um tempo de morte.
Quando Min profetizava algo, era melhor escutar. Porm
Madison era velha o bastante para se perguntar como era
possvel que uma pessoa capaz de prever o futuro tivesse
tanta m sorte.
Madison gostava de se sentar  mesa na sala da frente para
tomar com Min caf com acar. O gato listrado, deitado
diante do fogo, ronronava. Apenas uma coisa tornaria aquilo
melhor ainda, se Min concordasse.
        Leia a sorte pra mim, vov!  pediu Madison.
Ler a sorte era assunto srio, a av sempre dizia, e no para o
entretenimento de menininhas. Entretanto, Min observou
Madison por um momento, os plidos olhos azuis cintilando
como pedras da lua, as hbeis mos envolvendo a caneca de
caf, e acabou concordando.
        Muito bem. Est na hora. Pegue aquelas cartas que esto
em cima da lareira.
        Mesmo?
Madison se apressou em sair da cadeira antes que Min
mudasse de idia.
Min guardava dois baralhos numa surrada caixa de madeira
com uma cruz entalhada na tampa. Ela as chamava de 'cartas
ciganas', mas pareciam cartas normais de jogo para Madison,
com algumas a mais. A caixa continha tambm uma bolsa de
couro cheia de pedregulhos e ossinhos, mas Madison nunca
tinha visto Min us-los.
Min passou-lhe o baralho mais grosso. Madison embaralhou
as cartas desajeitadamente, cortou trs vezes e embaralhou
de novo.
        Coloque as cartas em trs fileiras de trs  disse Min, e
Madison obedeceu.
A av virou as cartas, estapeando levemente a madeira
envelhecida da mesa.
        Madison Moss.  Agora a voz dela era a de uma estranha,
a voz da cartomante.  Quer ouvir a verdade?
        Sim, senhora  respondeu Madison, engolindo em seco,
torcendo para que no houvesse ali nada de assustador.
Min estudou as cartas, empurrou os culos nariz abaixo e
estudou-as um pouco mais. Madison se inclinou para a
frente, fixando os olhos nas cartas. A carta central em cada
fileira era um drago com olhos de cobra e uma longa cauda
retorcida, brilhante em suas cores, cintilante em seu
dourado.
Repentinamente, Min recolheu-as e passou-as de volta a
Madison.
        Embaralhe de novo.
Espantada, Madison embaralhou de novo e distribuiu-as.
Drages novamente. Min franziu a testa para eles. Moveu-os
de um lado para o outro com as pontas dos dedos. Tirando a
bolsa de couro da caixa, ela esvaziou-a na palma da mo.
Lanou os pedregulhos e ossos sobre a mesa. Catou-os e
deixou-os de lado, resmungando consigo mesma.
        Qual  o problema?  perguntou Madison, desapontada.
 No esto funcionando?
        Oh, minha filha  disse Min, balanando a cabea. A cor
sumiu de seu rosto novamente. Ela estendeu a mo trmula
em direo a Madison, e depois a recolheu, como que por
medo de toc-la.  No importa. Vamos tentar outra coisa.
Min passou-lhe o baralho menor de 32 cartas, apenas com as
cartas maiores do que sete.
Madison embaralhou de novo e posicionou-as no familiar
arranjo cigano, trs fileiras de sete cartas aos pares. Passado,
presente e futuro.
Nenhum drago.
Pessoalmente, Madison no estava to interessada no
passado ou no presente. Mas tinha esperanas no futuro. Ela
se inclinou para a frente, ansiosa, enquanto Min virava as
cartas uma de cada vez. Min sussurrava, como se estivesse
insegura.
        Uma disputa por dinheiro  disse ela, virando o sete de
ouros. No par seguinte, o nove de espadas jazia sobre a dama
de paus.  A morte de uma mulher sbia.  Um trs de
ouros sobre os outros dois.  Um documento legal e uma
herana.
Madison ficou entediada com a idia de disputas por
dinheiro e documentos legais.
        Vou ter um namorado algum dia?  perguntou ela. J
tinha idade suficiente para saber que no gostava muito dos
meninos de Coal Grove.
Min virou as cartas de figuras. Dois reis: o de paus e o de
espadas. Valete de ouros. Ela virou as cartas auxiliares, fitou-
as por um momento. Parecia no gostar do que via. Min
segurou as mos de Madison, aproximando-se, os olhos azuis
como janelas para uma Min mais jovem enclausurada na pele
enrugada.
        Maddie, querida, me escute. Cuidado com as ordens
mgicas  murmurou ela.  Especialmente os magos.
        Vov, nunca conheci nenhuma ordem mgica  disse
Madison, no conseguindo entender.
        Brice Roper  disse Min.  Ele  um dos ruins. No tem
nada de bom nele.
Madison pestanejou.
        O velho Brice ou o jovem Brice?  perguntou ela.
        O jovem Brice  disse Min, o que a surpreendeu, pois o
velho Brice era assustador e malvado, e todos diziam que o
jovem Brice tinha charme. As pessoas cercavam o jovem
Brice como abelhas em torno da limonada.
        No se misture com os dotados, Madison. No se meta
com magia. Isso s trouxe problemas para a nossa famlia.
Jure que no vai se envolver com eles.
Min soava quase como o pregador da igrejinha a que
Madison fora uma vez, que falava sobre aqueles que faziam
pactos com o demnio.
        Mas, vov, as cartas no so mgicas?  arriscou Madison.
Min apertou-lhe as mos com tanta fora que lgrimas
saltaram dos olhos de Madison.
        Jure!
        Tudo bem, eu juro!  disse ela, piscando rpido para
impedir que as lgrimas lhe escapassem dos olhos e
corressem pelo rosto. Ela no achava que os Ropers iriam
querer se envolver com ela, de qualquer forma.
Min soltou as mos de Madison. Parecia mais triste do que
zangada.
        Voc no d valor  minha sabedoria, menina.
A av olhou de novo para as cartas.
        Vejo quatro belos meninos bruxos se aproximando. Dois
vo lutar por seu corao de maneiras diferentes. Dois so
impostores que viro  sua porta: um moreno, outro loiro.
Todos eles tm magia...
Mas quela altura Madison tinha perdido um pouco da noo
de quem era quem. Fosse como fosse, aquela era uma
previso maravilhosa, com quatro belos meninos com os
quais sonhar.
Min acariciou as pequenas gravuras dos reis com as pontas
dos dedos.
- Lembre-se disto, Madison Moss: eles s vo ter o poder
que voc entregar a eles.

Captulo Um
A Ravina do Corvo

O vento uivava desde a Esccia, assolando Solway Firth,
forando passagem por entre os picos e montanhas dos lagos
da Cmbria, empurrando a neve  frente. Jason Haley
curvou os ombros para se proteger da chuva misturada com
neve que lhe alfinetava o rosto e as mos.
A Ravina do Corvo se estendia diante dele, ora sendo
escondida, ora revelada por redemoinhos de nuvens e gelo.
Uma traioeira trilha de ovelhas, coberta por cascalho, descia
em direo ao p do vale.
A pedra de mago de Jason vibrava dentro dele, respondendo
 proximidade da pedra Weir. A enorme pedra cristalina
brilhava como uma safira contra o flanco da montanha
conhecida como Cabea do Corvo. Piscando para remover a
neve dos clios, Jason contemplou-a. Tambm conhecida
como o Dente do Drago, a pedra Weir era a fonte de poder
de todas as ordens mgicas.
Tinham se passado seis horas de carro desde Londres at
Keswick, por estradas cada vez mais perigosas, lutando
contra o clima e o estranho costume britnico de dirigir do
lado esquerdo da estrada. Quando chegara a Keswick, os
olhos de Jason tremiam pelo esforo de enxergar atravs dos
flocos rodopiantes, e seus braos e ombros doam de segurar
o volante.
Aquela havia sido a parte fcil.
Ele fizera a longa escalada at o topo da ravina, os ps
escorregando nas pedras desgastadas apesar das botas com
travas, especiais para alpinismo. Tivera de se esgueirar entre
as sentinelas postadas pelas Rosas nas montanhas ao redor.
As Casas dos Magos das Rosas Branca e Vermelha haviam
sitiado a Ravina do Corvo depois que o senhor da ravina,
Claude D'Orsay, traiu ambas na ilha de Second Sister.
Pelo menos Jason estava em boa forma  melhor do que
nunca. Os magos eram, em sua maioria, fracos, porque
usavam magia para fazer o trabalho pesado. Jason, por outro
lado, vinha treinando sob a suave orientao de Leander
Hastings, que no abria mo de corridas de oito quilmetros
antes do caf da manh. Jason tinha apenas 17 anos,
enquanto Hastings andava pelo mundo havia mais de um
sculo, mas mesmo assim no era fcil acompanhar o ritmo
do atltico mago.
Dando as costas ao vento, criando um pequeno abrigo com
uma das mos, Jason acendeu um cigarro. Hastings estava
sempre pegando no p dele por causa do fumo. Mas o risco
parecia pequeno, se comparado ao perigo que corria agora,
ali na beira do abismo.
Teria sorte se chegasse aos 18 anos. Para comear, havia uma
grande probabilidade de que Hastings o matasse quando
descobrisse o que estava aprontando.
Em algum lugar l embaixo estava D'Orsay, mago traidor que
levava consigo o pacto fraudulento assinado em Second
Sister  o documento que ameaava escravizar a todos eles.
D'Orsay era tudo o que Jason no era: um boa-vida,
privilegiado por nascimento, ex-Mestre de Jogos, herdeiro
de uma aristocrtica Casa de Magos. Jason era um punk de
rua, quase sem nenhum poder, um rfo de sangue mestio
e vingativo.
Jason torcia para que D'Orsay no tivesse a menor idia de
que ms notcias estavam descendo a montanha na direo
dele. Torcia para que ningum esperasse um intruso numa
noite como aquela. Torcia para que conseguisse encontrar o
pacto e fugisse com ele antes que algum notasse sua
presena.
Se no conseguisse encontrar o pacto, ele procuraria o
lendrio tesouro de armas de D'Orsay  o ltimo legado da
Magia Antiga. Aquele boato era a nica coisa que mantinha
as Rosas a distncia.
No mnimo, ele localizaria as fortificaes de D'Orsay e
descobriria quantos magos protegiam a ravina. Se fosse bem-
sucedido em qualquer um desses empreendimentos, talvez
Hastings lhe desse mais folga.
Pelo menos ele estava fazendo alguma coisa. Talvez Hastings
se contentasse em ficar em Londres, observando e
esperando at que algum se mexesse. Mas no havia nada
mais tedioso do que observar as Rosas observarem D'Orsay.
Quando terminou o cigarro, Jason ps a mochila nas costas e
iniciou a longa e penosa descida at o sop da ravina.
Chamar aquilo de trilha era um exagero  ele a escolhera
por ser obscura. D'Orsay no tinha como monitorar cada
trilha de ovelhas coberta de mato e cada atalho que levasse 
ravina.
Jason esperava que o clima melhorasse uma vez que
estivesse sob a sombra do pico, mas o vento cortante ainda
lhe jogava neve no rosto e o puxava pelos braos e pernas,
ameaando arranc-lo da montanha.
 frente, uma nvoa amarelada cobria a trilha junto ao cho,
o que era estranho, considerando-se o clima e a hora do dia.
Era uma cor que seria estranha em qualquer estao. Jason
olhou-a com cautela, estendeu a mo enluvada e pronunciou
um feitio. Nada. Ele no sabia se o problema estava no
feitio ou nele mesmo. Aquilo no era Shakespeare?
Ele tentou mais alguns feitios, sem sucesso, at que a nvoa
cedeu, de m vontade,  magia dele, dissolvendo-se em tiras
que o vento carregou para longe.
Naquele momento, j estava escuro na ravina l embaixo. Os
picos ao redor ficaram dourados sob os ltimos raios de luz.
Lmpadas se acenderam no castelo da Ravina do Corvo, na
extremidade oposta do vale. A forma escura da construo se
agigantava em meio aos redemoinhos de flocos e rajadas de
neve.
Ele conseguiu se mover com maior rapidez ao se aproximar
da base da montanha, pois as encostas ngremes deram lugar
a caminhos mais retos, em ziguezague. At que fez uma
curva e se chocou contra um emaranhado  como uma
gigantesca teia de aranha feita de fios grossos e translcidos
 quase invisvel sob a luz que desaparecia.
Era uma teia Weir, uma rede mgica feita para capturar os
dotados. Ele tentou recuar, mas ela era incrivelmente
grudenta, e cada movimento o deixava mais enredado.
L se ia o ataque surpresa. Jason se forou a ficar imvel,
mexendo apenas o brao direito, que usou para apanhar a
faca que trazia consigo. Segurando o cabo, ele a sacou e
cortou com cuidado as gavinhas ao seu alcance. A teia se
partiu com relutncia. Fora projetada para resistir  magia, e
ele no estava se saindo muito melhor com uma lmina de
verdade.
Algo brilhante riscou o cu como um cometa e detonou no
pice de seu arco, enchendo a ravina de luz fosforescente.
"Agora comea a diverso", pensou Jason.
Ele levou dez preciosos minutos para se libertar. Ainda
assim, a abertura era ampla apenas o suficiente para que ele
se esgueirasse atravs dela.
Sabia que deveria abortar a misso e sair dali enquanto podia.
Mas a sua vida inteira havia sido uma srie de ms decises.
No tinha nenhuma vontade de voltar para Hastings com o
mesmo gosto amargo na boca que vinha sentindo desde que
Leicester e D'Orsay assassinaram o seu pai.
Forou a entrada pela brecha. Ao emergir, rajadas de chamas
mgicas irromperam da encosta da montanha acima, e ele se
jogou para o lado. Engatinhou para dentro de um arvoredo,
depois se virou para olhar.
Em toda a volta, magos vestidos de negro se moviam
silenciosamente pela floresta, lanando um fogo cada vez
mais fraco em direo ao rasgo na teia.
Jason analisou as opes de que dispunha. Se D'Orsay fosse
esperto (e era), ficaria escondido dentro da fortaleza at que
tudo acabasse. O tesouro de peas mgicas de D'Orsay estaria
l dentro tambm. Junto com o Pacto que tornava D'Orsay
governante de todas as ordens mgicas.
Para o castelo, ento. Mas seria melhor que no o notassem.
Jason enfiou os dedos dentro do casaco e retirou uma argola
de pedra opaca com runas entalhadas. Era uma dyrne sefa, o
que significava corao secreto, um amuleto de poder.
Apesar do frio, era quente ao toque, soltando fumaa no ar
gelado, drenando poder da pedra Weir prxima. Esfregando
a superfcie com as pontas dos dedos, ele pronunciou um
feitio.
Agora imperceptvel, Jason atravessou a floresta e a campina
aberta do sop do vale em direo ao castelo. Distante do
abrigo das paredes da ravina, o vento atacou-o novamente.
Mas agora ele estava invulnervel ao frio, inflamado pelo
poder e pela determinao.
A campina era pontuada por arbustos queimados pelo vento,
polvilhada com neve fina e seca, e rachada por fendas. A
necessidade de prestar ateno onde pisava entrava em
conflito com o desejo de olhar em torno como um turista.
Aqueles deviam ser os campos do torneio.
Ali o sangue de geraes de guerreiros havia sido derramado
em batalhas rituais que decidiam o poder entre as Casas dos
Magos. Ali os guerreiros Jack Swift e Ellen Stephenson
disputaram o torneio que rompera o Pacto original e
desafiara o poder das Rosas.
Ali o santurio de Trinity havia nascido.
O que Jason mais queria era deixar aquele mesmo tipo de
marca no mundo.
Labaredas mgicas cruzavam o ar como foguetes e
iluminavam a ravina como se fosse meio-dia. rvores se
acendiam como tochas, soltando rolos de fumaa que subiam
ao cu. Jason pensou que deveria ficar lisonjeado pela
intensidade da reao  sua invaso. Era como usar uma
espingarda contra um mosquito. A neve ainda caa,
cintilando em cores impossveis quando a luz a atingia.
A frente dele o castelo se agigantava, uma estrutura
ameaadora de pedra que poderia ter sido entalhada a partir
da encosta da montanha. Era cercado por jardins em
patamares, cobertos com os esqueletos de plantas mortas
pelo inverno, como as runas de uma civilizao erguida nos
tempos de clima ameno.
Esquadres de magos subiam e desciam o vale correndo,
escudos mgicos posicionados, lanando poder em todas as
direes. Alguns passavam a poucos metros de distncia
dele, fantasmas brancos luminosos em capas impermeveis
com capuzes, salpicadas de neve. Jason continuou sua
marcha teimosa para o forte.
Ele esperara que eles desistissem, supondo que o intruso
havia fugido. Que nada. Os magos de D'Orsay se reuniram
junto ao castelo, formando uma larga falange de poder
blico. Feitios foram lanados, e uma grande muralha verde
formada por vapor venenoso cruzou a campina vindo em
sua direo.
Guerra qumica  moda dos magos.
Praguejando baixinho, Jason desativou o feitio de
imperceptibilidade para que pudesse usar outras magias.
Estendeu a mo e tentou reproduzir o feitio que usara sobre
a nvoa amarela. Ou ele cometeu um erro ou simplesmente
no era forte o bastante. A nuvem continuou se
aproximando, engolindo rvores, pedras e animais em fuga,
sem piedade. No sobraria nada vivo na ravina pela manh.
A nica esperana de Jason era ficar acima da nuvem. Ele se
virou, correu para a Cabea do Corvo e comeou a escalar. 
medida que o caminho ia se tornando mais ngreme, ele
precisava se esticar cada vez mais para encontrar apoio para
as mos, lanando-se desesperada-mente para cima,
insinuando-se nas fendas e firmando os ps nas imperfeies
que marcavam a face de pedra da montanha.
J estava achando que os pulmes iam explodir quando
alcanou uma plataforma logo abaixo da pedra Weir e subiu
sobre ela. Ficou deitado de bruos na neve at recuperar o
flego, depois se levantou.
A ravina l embaixo era um mar de nvoa, uma vasta fossa
poluda que subia cada vez mais alto nos declives ao redor.
Ento os terremotos comearam. Troves ribombaram pela
ravina, e as pedras sob os ps de Jason ondularam como uma
prancha de skate fora de controle. A montanha se deslocou
e estremeceu, tentando jog-lo para longe. Rochas
despencavam de cima, arrancadas de seus antigos ninhos no
alto das encostas, e saltavam ao passar por ele,
desaparecendo no mar de nvoa l embaixo. Aquilo era mais
do que travessura de magos. Parecia... apocalptico.
Jason se agachou junto  Cabea do Corvo, e seus braos
envolviam a cabea para se proteger dos destroos em
queda, enquanto o olhar se deixava atrair pela chama azul da
pedra Weir.
Ela assomava sobre sua cabea, um cristal lapidado da cor
verde-azulada do oceano mais profundo e mais lmpido.
Com a pedra to prxima, o sangue agitava-se em seu corpo,
inebriando-o, aquecendo-o at os dedos das mos e dos ps.
O poder o assaltava por todos os lados, vibrando-lhe nos
ossos como o baixo dilacerante de uma banda mgica de
rock.
Enquanto ele observava, uma fenda irregular se abriu na face
de rocha slida acima dele. A fenda foi ficando cada vez
maior, um corte exposto na sombra da pedra. Pedregulhos e
brita aguilhoavam a pele de Jason, e ele fechou os olhos com
fora para no ficar cego.
Gradualmente, a terra se aquietou e o brilho da pedra
esmaeceu. Jason abriu os olhos. Rastejou para a frente e
espiou por cima da borda da rocha. A nvoa verde ainda
subia as montanhas devagarinho.
Ele se sentou de pernas cruzadas, observando a caverna
recm-criada. O ar frio, vindo debaixo da pedra Weir,
beijou-lhe o rosto. Talvez ele pudesse se arrastar mais para
dentro da montanha at que a nvoa baixasse. Sem ter visto
nenhuma outra alternativa, mergulhou na abertura.
O ar estava surpreendentemente fresco, considerando-se


que estivera represado na montanha por tanto tempo. Jason
concentrou luz na ponta dos dedos, uma lmpada
improvisada para mostrar-lhe o caminho. Quando ele se
insinuou no interior da rocha, percebeu que o terremoto
havia reaberto uma caverna entalhada havia sculos na
montanha. No cho de pedra, espalhavam-se evidncias de
ocupao anterior: ossos de grandes animais, fragmentos de
cermica e utenslios de metal.
Jason foi adiante, o vento da caverna soprando contra o
rosto. "timo", pensou ele. "Aquilo manteria a nvoa 
distncia".
A passagem terminava numa cmara do tamanho de um
grande salo de baile. Muito acima, o vento assobiava atravs
de uma abertura. Aquela, ento, era a fonte do ar fresco.
Jason tentou iluminar o teto, mas a abbada escura ficava
bem no alto, alm do alcance de sua pequena lmpada. A
pedra Weir cintilava, um longo raio penetrando fundo na
montanha.
A fuligem manchava as paredes em todos os lados, como se
tivesse sido formada pela fumaa de milhares de fogos
antigos. Em um canto, erguia-se uma plataforma dois metros
e meio acima do cho. Jason encontrou apoio para os dedos
e iou-se para o topo.
Ali havia fragmentos de tecido: veludos, cetins e rendas que
se desintegravam quando tocava neles. Mais ossos grandes
jaziam empilhados num canto, inclusive alguns esqueletos
que talvez fossem de seres humanos. Crnios de animais e de
pessoas sorriam de nichos na parede. Ele estava no covil de
algum grande predador ou no local de uma batalha ocorrida
havia muito tempo.
Na extremidade oposta da plataforma havia uma enorme
porta de carvalho.
Jason estudou a porta. Num filme, aquela seria a porta que
no se deveria abrir.
Mas  claro que seria aberta.
quela altura, a ravina, a nvoa e os magos que procuravam
por ele l fora pareciam uma ameaa distante. Ele tinha de
passar por aquela porta. Algo o incitava a prosseguir.
Jason libertou a dyrne sefa mais uma vez. Usando-a como
um monculo, ele examinou a entrada. Estava coberta por
um delicado labirinto de cordas cintilantes, invisveis a olho
nu. Um outro tipo de teia.
Estendendo a mo, ele murmurou:
 Geryman. Abra.
A porta se manteve fechada.
Jason olhou em volta, procurando por ferramentas.
Erguendo um dos longos ossos de uma perna, ele se
aproximou da porta pela lateral, estendendo o osso e
cutucando cautelosamente a teia de luz.
Com um som semelhante ao tiro de uma espingarda, a porta
explodiu num jorro de chamas. Se Jason estivesse no limiar
da porta, teria sido incinerado. Ali onde ele estava, quase
molhou as calas.
Quando sentiu o pulso acelerado se firmar, ele se aproximou
da entrada, novamente pela lateral, e espiou para dentro.
Alm da entrada havia uma outra porta, com seis painis
folheados a ouro, cada um gravado com uma imagem. Jason
levou alguns instantes para compreender o que estava
vendo.
Cada gravura retratava uma das ordens Weirs. Uma bela
mulher de cabelos ondulados e roupas flutuantes estendia as
mos em direo a Jason, sorrindo. Ela obviamente
representava os encantadores, que tinham o dom de
encantar e seduzir. Um homem alto e musculoso vestindo
um peitoral de armadura e kilt atacava, brandindo uma
espada. Aquele era o guerreiro, que se destacava nas
batalhas.
Em outra cena, um velho olhava num espelho, enquanto
lgrimas rolavam por suas faces enrugadas. Devia ser um
adivinho, que podia prever o futuro, embora imper-
feitamente. No quarto painel, uma mulher triturava razes
com almofariz e pilo. Era uma feiticeira, especialista na
criao e uso de ferramentas e substncias mgicas.
Finalmente, um homem de rosto magro numa aurola de luz
manipulava as cordas de uma marionete que parecia no
perceber seu manipulador.
"Bem, a est o mago", pensou Jason. "O nico no bando que
podia moldar a magia com palavras e, por essa razo, o mais
poderoso."
O painel central, o maior, exibia a gravura de um drago
magnfico, as pernas da frente estendidas, cheias de garras, e
as asas abertas.
A lenda era que os fundadores das ordens mgicas eram
primos que haviam ido parar na ravina e se tornado escravos
de um drago que governava a fortaleza. Aps um tempo,
trabalhando juntos, eles haviam conseguido enganar o
drago. Em algumas verses, eles o matavam, em outras o
colocavam num sono mgico. Rebatizaram o vale como a
Ravina do Corvo, preferindo esquecer que o drago um dia
havia existido.
Ento quatro dos primos foram ludibriados e assinaram um
pacto que os tornava subservientes ao quinto primo.
O mago.
Por volta do sculo XVI, a hierarquia das ordens mgicas
estava bem estabelecida. Os governantes magos haviam se
organizado nas faces rivais da Rosa Branca e da Rosa
Vermelha, cujas batalhas interminveis dizimaram as Casas
com o passar do tempo. O sistema de torneios conhecido
como o Jogo foi implantado para limitar o banho de sangue
entre os magos. A Casa do Drago,  qual Jason pertencia,
remontava a um tempo anterior ao momento em que os
magos haviam assumido o papel hegemnico.
Jason estudou a gravura do drago, sabendo que tais peas
muitas vezes continham pistas importantes. O trabalho havia
sido feito com Magia Antiga, utilizando um talento artstico
perdido no tempo. O poder parecia ondular sob as escamas
metlicas do drago. Humor e inteligncia brilhavam nos
olhos dourados. Um manto requintado se derramava em
dobras cintilantes pelas costas do drago, sendo recolhido
pelos braos de uma dama postada logo atrs do animal.
A dama estava bem-vestida para uma serva, se  que ela era
uma. O cabelo estava cuidadosamente arranjado, e ela exibia
um colar com uma nica pedra preciosa luminosa engastada
no metal. Embora fosse minscula junto ao drago, a dama
no parecia ter medo. Ela apoiava uma mo na perna do
drago de forma afetuosa, e a cabea do drago se arqueava
na direo dela como se fosse continuar uma conversa
ntima.
Numa plida escrita contnua ao redor do painel central
liam-se estas palavras: "Entre com um corao virtuoso, ou
no entre".
"Bem, isso me deixa de fora", pensou Jason. Embora pelos
padres de um mago ele talvez se qualificasse.
Quem teria feito algo to belo e escondido na montanha para
ser encontrado apenas por acaso? E o que havia por trs
daquilo?
" intil. Voc vai entrar. No consegue resistir."
Respirando fundo, estendendo a mo, ele sussurrou mais
uma vez:
 Geryman.
Ele esperava uma outra exploso.
Dessa vez, as portas duplas se abriram silenciosamente para
dentro.
Mais uma vez, ele usou a dyrne sefa para examinar a entrada
em busca de armadilhas mgicas. No encontrou nenhuma.
Carregando o osso da perna diante de si, brandindo-o como
uma espada, ele passou pela entrada.
Era um depsito, com pilhas que iam at o teto de barris,
bas e tonis, cofres e caixas-fortes, cestas e caixas.
Ele ficou pestanejando como um idiota por um momento,
depois largou o osso e abriu a tampa do barril mais prximo.
Enfiando a mo bem fundo, sem nenhum cuidado, deixou o
contedo escorrer-lhe pelos dedos.
Prolas. Em todas as cores, do precioso preto ao branco
cremoso, ao rosa-claro e ao amarelo. Grandes, redondas e
perfeitas. "Devem valer uma fortuna", pensou ele.
Ele ergueu a tampa de um pequeno ba com detalhes em
lato. Esmeraldas de um verde profundo, com coraes
faiscantes. Um pequeno cofre de ouro estava cheio de
diamantes to grandes que em qualquer outro lugar ele teria
imaginado que eram falsos.
Havia pedras de todas as cores, carretis de corrente de ouro,
tanto gemas soltas quanto jias em peas medievais. Moedas
gravadas com os retratos de reis e rainhas havia muito
tempo. Rolos de veludo e cetim envoltos em capas de linho
resistente. Armrios cheios de rolos de pergaminho, frgeis
pela idade, e livros em capas de couro. Pinturas em molduras
folheadas a ouro estavam alinhadas contra as paredes em
fileiras de quatro.
Em algumas das grandes cestas, ele encontrou o melhor
tesouro at ento: talisms de proteo, amuletos de poder,
inscritos com runas de feitios na linguagem misteriosa da
magia. Muitos eram confeccionados com as pedras pretas
lisas que lhe eram familiares de sua prpria coleo, as peas
mgicas que herdara da me. Outros eram feitos de metais
preciosos  criados por mtodos hoje esquecidos entre as
ordens.
Os talisms estavam misturados sem nenhum critrio. Jason
os separou em pilhas, louco para experiment-los. Ele no
era especialmente poderoso, mas, com aquelas peas  sua
disposio, at o Castelo da Ravina do Corvo poderia cair.
Seria esse o lendrio tesouro das armas? Parecia improvvel.
Dizia-se que o tesouro era um arsenal ativo, que os D'Orsays
utilizavam regularmente e ao qual acrescentavam peas.
Aqueles objetos ali pareciam ter ficado intocados por
sculos. Embora algumas das sefas pudessem ser usadas
como armas, o que mais havia ali eram sofisticadas peas de
decorao: jias, livros, obras de arte, pedras preciosas.
Seria possvel que D'Orsay no soubesse que aquilo estava l?
Totalmente possvel.
Jason se apoiou contra a parede, esfregando o queixo. Bem, e
agora? No seria bom se aquilo casse nas mos das Rosas ou
de D'Orsay.
Ele no tinha como carregar tudo para fora em uma nica
viagem, mas tambm no podia garantir que seria capaz de
voltar. Talvez no conseguisse sair vivo dessa vez. E, se fosse
capturado, eles logo arrancariam dele a informao sobre a
localizao da caverna.
Ele teria de se concentrar em objetos menores e escolher
com cuidado. Abriu o zper da mochila e depositou-a no
cho da caverna.
Os artefatos mgicos eram a prioridade. Ele, Hastings e o
resto da Casa do Drago estavam naquela guerra para
sobreviver. Qualquer coisa que mantivesse as outras Casas
dos Magos longe do santurio de Trinity valia ouro.
Os rebeldes poderiam usar aqueles amuletos a fim de tornar
o preo da conquista alto demais para Claude D'Orsay ou
para as Rosas.
Jason vasculhou metodicamente a caverna, dividido entre
uma crescente claustrofobia e o medo de negligenciar algo
importante. Embrulhou algumas das peas mais frgeis e de
aparncia perigosa em tiras que rasgou dos rolos de tecido.
Enfiou jias mgicas, cristais, espelhos e pedras de
adivinhao na mochila, tomando muito cuidado, torcendo
para no quebrar nada nem ativar algo sem querer. Era como
carregar bombas caseiras num carrinho de supermercado.
No fundo da caverna, uma espada numa bainha incrustada
de jias estava sozinha, como se o dono a houvesse apoiado
contra a parede, com a inteno de voltar e busc-la. Ele
agarrou o punho delicadamente. O metal tiniu em sua mo,
em um tipo de saudao mgica.
 O que temos aqui?  murmurou Jason, sentindo uma
excitao crescente.
O punho e a guarda eram de estilo bem simples, adornados
com uma cruz celta no copo da espada, com uma rosa de
ptalas achatadas no centro. Era, de certa forma, ainda mais
bonita por sua simplicidade. Jason no era nenhum
guerreiro, mas reconhecia qualidade quando a via. Ao sacar a
lmina de seu invlucro, ela pareceu incendiar-se,
empurrando as sombras para os cantos.
Poderia ser aquela uma das sete grandes espadas?
Das sete, sabia-se da existncia de apenas uma outra: a
Sombra Assassina, a lmina carregada pelo amigo de Jason, o
guerreiro Jack Swift, de Trinity. Afagando o metal cintilante,
Jason desejou poder se unir com a arma, como Jack fazia.
Mas no. Era sempre melhor ser um mago do que um
guerreiro na hierarquia das ordens mgicas.
Enfiando a espada na bainha novamente, ele a colocou junto
 mochila cada vez mais cheia.
 O que mais?  perguntou ele  sala.
Havia nichos na parede dos fundos, na sombra azulada do
Dente do Drago. Alguns estavam vazios, outros exibiam
tesouros, e outros ainda estavam lacrados com cimento.
Raciocinando que os nichos fechados deviam ter o contedo
mais valioso, ele os arrombou sem pressa, com pequenos
golpes de magia contida. A montanha estremeceu sob o
assalto. Poeira escorria sobre a cabea e os ombros de Jason.
Um surrado ba de madeira com um adereo de runas estava
num nicho aberto logo abaixo da pedra Weir. Jason ergueu-
o, colocou-o no cho da caverna e levantou a tampa. Dentro
havia uma coleo de pergaminhos, unidos com uma corda
de dois fios de linho, cobertos com uma escrita que ele no
conseguiu decifrar. E um grande livro lacrado com um fecho
incrustado de pedras preciosas.
Jason no era muito f de livros, e aquele parecia difcil de
manusear e pesado  como saber se valeria a pena carreg-
lo consigo? Por outro lado, algum tivera o trabalho de lacr-
lo.
O fecho se desfez nas mos dele, e a velha capa protestou
com um estalo ao ser aberta. Aquilo era quase fcil demais. O
texto estava escrito em caligrafia de escriba ou literato. Na
pgina do ttulo estava escrito: dos ltimos dias do glorioso
reinado e como ele passou  histria: uma tragdia.
Projetando luz a partir de seus dedos, Jason observou as
primeiras pginas.
Era o dirio da camareira de alguma antiga rainha, escrito na
linguagem da magia. Ele quase fechou o livro e o ps de
lado, mas algo o impeliu a continuar lendo.
Minha senhora, a rainha Aidan Ladhra, saudou os reis de
Gaul na torre principal! Como ela fulgurava sob a luz do
fogo, a armadura incrustada de jias, polida pelas minhas
mos! Sua formidvel beleza petrificou os nossos convidados
e deixou-os atordoados de admirao. Eles se ajoelharam
escondendo os rostos, e se ergueram somente quando ela
lhes implorou para faz-lo, com a voz mais gentil.
Eles jantaram conosco, e, devo dizer, minha senhora ficou
muito desapontada com a conversa deles. Ela foi graciosa
como sempre, mas os convidados estavam impossveis! Ela
chamou os msicos, e eles os ignoraram, comendo e
arrotando, cantando canes indecentes e enfiando a
prataria nos bolsos. Ela falava de arte e feitiaria, e eles
ficaram confusos. Eles no sabem nada de magia...
Jason pulou adiante no texto.
Minha senhora Aidan enviou uma mensagem gentil aos reis
da Bretanha, convidando-os a comparecer  sua corte de
inverno. Mas eles vieram com exrcitos e mquinas de
guerra de todos os tipos, e enviaram um mensageiro exi-
gindo que ela se entregasse. Era uma mensagem arrogante;
evidentemente a julgavam estpida e incapaz de negociar.
Receio que a minha senhora tenha ficado to irritada que
matou o mensageiro ali mesmo e o devorou na ceia. Ento
destruiu os exrcitos que vieram em seguida.
Caramba!
Jason pulou adiante novamente.
Fracassando em sua tentativa de encontrar amigos entre os
reinados existentes, e desencorajada pelas respostas deles s
suas tentativas amigveis de dilogo, a senhora Aidan decidiu
criar sua prpria comunidade de pares, artistas e intelectuais
agraciados com o dom da magia, um talento que passaro aos
filhos. Eu vi o futuro em meu cristal e disse a ela que isso 
arriscado, mas a minha senhora est solitria, tendo apenas a
minha pobre pessoa como companhia. Quanto a mim, no
necessito de nenhuma outra ddiva alm da presena dela.
A montanha ribombou e se moveu l em cima. Embora
estivesse fresco na caverna, Jason enxugou o suor do rosto
com a manga. Consciente da passagem do tempo, virou
apressadamente as pginas frgeis, os dedos midos deixando
marcas.
A senhora Aidan se cansa das constantes disputas entre
aqueles a quem dotou de poder. Onde ela buscou
companheirismo, s encontrou problemas. Talentos
preciosos ela deu a todos, entretanto cada um deles tem
inveja dos outros. Temo que estejam conspirando contra ela,
em especial o mago Demus, que molda a magia com
palavras. Vejo-os lanar olhares invejosos para o tesouro que
ela acumulou. Mas ela no escuta os meus avisos. Ela
considera esses contendores como filhos, corretamente ou
no, e no aceita que se fale mal deles.
Em algum lugar ao longo da passagem subterrnea,
Jason ouviu rocha se chocar contra rocha. Era hora de ir, e
ele ainda no sabia se valia a pena levar o livro. Ele pulou
para o fim, procurando pelo ltimo registro. Parecia ter sido
rabiscado s pressas, as pginas manchadas e borradas, como
que marcadas por lgrimas.
Aconteceu como previ. Demus e as outras vboras ingratas
nos envenenaram. A minha senhora retirou-se ao grande
salo na Ravina do Drago para morrer. Cuidei dela da
melhor maneira que pude, mas no havia nada que eu
pudesse fazer. Ela faleceu algumas horas atrs.
Ela morre sem filhos. Antes de cair no sono, ela deixou em
minhas mos o Corao do Drago, que  agora a fonte do
poder de todas as ordens mgicas. Apesar de tudo, ela ainda
tem esperanas em relao a eles. A despeito de minhas
objees, ela me nomeou a Herdeira Drago, e encarregou a
mim e a meus descendentes de manter as ordens sob
controle e impedi-los de causar a destruio uns dos outros e
do mundo. Prometi que o faria, para que ela morresse em
paz, embora eu mesma esteja morrendo. No tenho nenhum
apreo por esta tarefa. Eu preferiria que meus filhos no
tivessem nada a ver com os dotados.
Quando seguro a pedra do Drago em minhas mos,  como
se a minha senhora ainda vivesse. A chama do esprito dela
queima em seu centro, mais a salvo neste receptculo do que
em qualquer domiclio carnal, poderosa o bastante para
destruir todos os seus inimigos. Eu s gostaria de ser forte o
suficiente para us-la.
A fortaleza do drago est cercada. Meus filhos esto
espalhados aos quatro ventos. No me atrevo a enviar
nenhuma mensagem a eles para que no seja interceptada,
embora eu tenha mandado alguns pequenos itens de valor
por um mensageiro confivel. Sinceramente, cultivo a espe-
rana amarga e rebelde de que eles cresam e prosperem
ignorantes de sua responsabilidade.
Antes de morrer ao lado da minha senhora, enterrarei a
pedra do Corao do Drago na montanha com todas as
protees que posso fornecer, na esperana de que o acaso a
coloque sob a posse de algum com o corao e o desejo de
libertar todo o seu poder. Essa pessoa obter controle sobre
os dons ofertados. Essa pessoa reinar mais uma vez sobre as
ordens. Ou as destruir, como merecem.
Jason pousou o livro nos joelhos. Seria aquela apenas outra
das lendas fantsticas criadas para explicar uma complicada
herana mgica?
Ele largou o livro e espiou de novo pelo buraco na rocha,
iluminando o nicho com a luz nas pontas dos dedos.
No fundo do nicho havia um pedestal de metal
requintadamente torneado, com uma opala do tamanho de
uma bola de softball em cima. Com cuidado, Jason enfiou a
mo dentro do nicho e retirou a pedra de sua base.
Jason sentou-se de pernas cruzadas no cho, aninhando a
pedra entre as mos. Tinha formato ovide, faiscando com
lampejos de fogo verde, azul e roxo. Era perfeita, cristalina,
sem nenhuma falha visvel. Aquecia-lhe os dedos, como se
houvesse mesmo chamas ardendo no centro, e parecia
crepitar de poder. Longos minutos se passaram enquanto ele
olhava para o corao da pedra, hipnotizado. Uma corrente
pulsante parecia fluir entre a pedra em suas mos e a pedra
Weir que trazia ao peito, reforando-a. Como o Dente do
Drago encravado na montanha, s que... porttil.
Um intensificador do poder? Exatamente o que ele pre-
cisava.
Inclinando-se para a frente de novo, ele puxou a base de
metal do nicho. Era um emaranhado de bestas mticas, ou
talvez uma besta mtica com mltiplas cabeas. Drages.
Sentindo um pouco de vertigem, Jason jogou fora as gatas
de um saco de veludo e guardou a pedra l dentro. Rasgando
um pedao de veludo carmesim de um rolo, embrulhou o
suporte com cuidado. Colocou-os na mochila. "Isto  meu",
pensou.
Separando rapidamente as jias, escolheu vrias peas
interessantes, inclusive um grande brinco de ouro para si
mesmo, uma estrela celta. Enfiou as pedras soltas e as jias
nos cantos vazios da mochila, ento fechou o zper. Passou-a
por sobre um dos ombros, inclinando-se um pouco sob o
peso. Pendurou no outro ombro a espada dentro da bainha e
alojou o grande livro debaixo de um brao. Queria poder
carregar mais.
Em torno dele, a montanha ficava cada vez mais inquieta,
grunhindo  medida que rocha deslizava contra rocha,
espalhando areia e pedregulhos sobre o cho de pedra. Era
como se a Cabea do Corvo reconhecesse o ladro em seu
corao e quisesse det-lo. Jason percebeu que havia
permanecido ali por tempo demais.
Saiu pelas portas duplas, e elas se fecharam atrs dele.
Grandes rachaduras fenderam a abbada de pedra,
ramificando-se  frente dele.
"Essa no".
Ele correu para a entrada da caverna, saltando sobre os
destroos, desviando-se de rochas e do cascalho em queda,
contorcendo-se para descer pela passagem estreita, sentindo
a inclinao e o tremor da rocha sob os ps. Viu uma luz 
sua frente, o que significava que estava quase a salvo.
A montanha vibrava, tremia e sacudia. Lascas de pedra
feriam-lhe o rosto. Adiante, ficou horrorizado ao ver que os
dois grandes blocos de rocha que haviam se partido para
abrir a caverna deslizavam, desmoronando um contra o
outro. A cunha de luz estava desaparecendo. Ele ficaria
preso dentro da Cabea do Corvo.
Espremeu-se pela entrada que desmoronava, escorregando
como uma enguia, segurando o livro contra o corpo,
esfolando cotovelos e joelhos, machucando as mos, con-
torcendo-se para libertar a mochila carregada, arrastando a
espada atrs dele, as peas de metal faiscando sobre a pedra.
Finalmente ele estava do lado de fora, agarrando-se ao
peitoril gelado na entrada da caverna enquanto a montanha
se fechava atrs dele.
Jason ficou deitado de bruos sobre a rocha  a espada, o
livro e a mochila estavam ao seu lado, e suas mos feridas
deixavam manchas de sangue na neve.
Ele se permitiu alguns minutos mais de descanso antes de se
sentar e espiar alm da borda.
A batalha desigual parecia haver terminado. A nvoa
esverdeada se dissipava, rasgando-se em longas fitas que se
afastavam serpenteando ao vento. A floresta ainda fumegava
nas encostas da ravina. Fogo mgico era notoriamente difcil
de se apagar.
Jason se recostou contra a Cabea do Corvo e pegou outro
cigarro. No foi fcil acend-lo. As mos tremiam, e no era
de frio. A pedra na mochila fornecia todo o calor de que
precisava. De alguma forma, tinha de sair da ravina.
Usando uma corda elstica, ele amarrou o livro  mochila,
distribuindo o peso da melhor forma que podia. Ento se
deitou e dormiu um sono inquieto, com a pedra mgica
iluminando-lhe os sonhos.



Jason esperou at a hora mais escura antes da manh, dando
 nvoa mortal mais tempo para desaparecer. Depois desceu
pela encosta, lutando contra o peso do incmodo fardo e
contra a espada, que se enroscava na vegetao e nas
rachaduras. Soltou um longo suspiro quando chegou ao sop
do vale.
O Castelo da Ravina do Corvo ainda estava fulgurante-
mente iluminado, e Jason pde ver figuras sombrias se
movendo ao longo dos muros, sem dvida alertas para um
possvel ataque. Jason comparou o risco de voltar pelo
caminho por onde viera com o de encontrar uma nova
sada. Decidiu arriscar-se a voltar pelo trajeto que conhecia.
Ele se fez imperceptvel e tomou o caminho vale acima,
enquanto o peso da mochila se tornava cada vez mais difcil
de suportar,  medida que avanava. De vez em quando, o
som baixo de conversas ou uma leve luz penetrando atravs
das rvores lhe dizia que havia magos vigiando a floresta ao
seu redor. Quando alcanou a base da trilha, voltou-se para a
subida, caminhando com mais cuidado ainda. Estreitou os
olhos para enxergar em meio ao vento, buscando as sombras
escuras sob a copa dos pinheiros.
Estava to amortecido pelo frio que mal sentiu o fio de
arame quando roou nele. Jason foi imediatamente en-
golfado por uma nuvem brilhante, reluzente, e sua forma
antes imperceptvel se revelou, num contorno radiante.
        Ah!  gritou uma voz atrs dele.
Agindo completamente por instinto, Jason desativou o
feitio de imperceptibilidade e ergueu um escudo a tempo de
desviar um jorro de chamas abrasadoras de mago. Virou-se
para enfrentar o atacante.
Era um menino, mais jovem do que ele, com uns 13 anos
talvez, quase bonito, olhos de um azul-claro por trs de
culos com aros finos, os cachos loiros polvilhados de neve.
"Que droga", pensou Jason. "O plano era sair sem ser
notado."
        Eu sabia que voc devia ter se tornado imperceptvel 
vangloriou-se o menino.  No tem outro jeito de passar
pelos guardas do meu pai.
Jason saiu da trilha para contornar o novo obstculo, mas as
palavras do menino o detiveram.
        Os guardas do seu pai  repetiu Jason.  Quem diabos 
voc?
        Meu nome  Devereaux D'Orsay  disse o menino.  Eu
moro aqui. Quem  voc?
        Geoffrey Wylie  disse Jason, dizendo o primeiro nome
de mago que lhe veio  cabea. Ganhar um pouco mais de
fama no faria mal ao mago da Rosa Vermelha.
        Est invadindo a nossa propriedade, senhor Wylie  disse
Devereaux D'Orsay. Ele estendeu a mo de forma imperiosa.
 Entregue a espada e a mochila.
        Ceeeeerto  disse Jason.
Jason fez meno de se virar, e Devereaux lanou um feitio
de imobilizao que ele conseguiu desviar, mas que o deixou
atordoado e cambaleante. O garoto tinha talento.
Infelizmente.
O menino franziu o cenho, empertigando-se em toda a sua
pequena altura.
        Venha comigo. Vou levar voc para o forte. Meu pai e eu
vamos interrogar voc e descobrir o que est fazendo aqui e
para quem trabalha.
Jason suspirou, soltando uma baforada de vapor. Ele e Seph
McCauley haviam matado Gregory Leicester em legtima
defesa. Imaginava que conseguiria matar Claude D'Orsay
sem que isso o fizesse perder o sono. Mas no um garoto de
13 anos. E isso significava deixar uma testemunha para trs.
        V embora, est bem?  disse Jason, cansado.  Vamos
esquecer que isso aconteceu.
Aquilo pareceu enfurecer Devereaux D'Orsay, que se jogou
sobre Jason, conseguindo penetrar em seu escudo e derrub-
lo. Eles rolaram juntos para dentro de uma pequena vala, um
n de braos e pernas, como num desenho animado.
Devereaux atacou-o, puxando as cordas que prendiam a
mochila at que o livro se soltou e caiu na neve.
Jason socou o menino no nariz. O sangue jorrou, distraindo
o pequeno D'Orsay o suficiente para que Jason pudesse jogar
um feitio de imobilizao sobre ele. Jason conseguiu se
desvencilhar e se levantou, olhando para o imobilizado filho
de Claude D'Orsay, desejando poder fazer com que ele
desaparecesse.
 Diga ol ao Claude por mim  resmungou ele.  Diga a
ele que passarei por aqui outro dia para uma visita.
No havia tempo para procurar pelo livro perdido. A luta
mgica que tinham travado no passaria despercebida.
Revigorado pelo desejo de permanecer vivo, Jason subiu a
trilha a passos largos, rumando para a estrada de volta a
Keswick, sentindo o peso da pedra misteriosa na mochila.
Atrs dele, a montanha estava encoberta por trevas
ininterruptas. A chama no corao do Dente do Drago
havia se apagado.



Captulo Dois
Santurio

Madison Moss atravessou a rua gelada, segurando o portflio
junto ao corpo para que no apanhasse vento. O uniforme
que vestia para o trabalho de garonete na Penso Lendas 
uma saia longa esvoaante e uma blusa vitoriana rendada 
no era prtico para circular pelas caladas de uma cidade
pequena no inverno do nordeste de Ohio.
Por cima, ela vestia um casaco com forro de l que
encontrara no Exrcito da Salvao e, nos ps, calava um
par de botas de couro vermelho trabalhado que comprara de
um camel no centro da cidade. Aquilo fora em setembro,
quando se sentira rica.
Agora Madison tinha dez dlares e 55 centavos no bolso do
casaco. O preo total da lista de livros e materiais para o
prximo semestre era 455 dlares e 79 centavos, mais
impostos. Talvez pudesse encomend-los por menos pela
internet, mas ela chegara ao limite do carto de crdito no
outono.
Em seu quarto havia uma conta do seguro de sade  150
dlares  exigido pela Faculdade de Trinity. O tipo de
emprego que a me dela, Carlene, conseguia arranjar no
inclua previdncia social.
O que mais? A transmisso da velha picape de Madison
estava a ponto de quebrar. Ela ainda conseguia mov-la
acelerando o motor e passando diretamente do ponto morto
para a segunda marcha.
Se estivesse em suas terras, convenceria algum mecnico de
fundo de quintal a consert-la. Ele teria medo de dizer no.
Medo de que sua loja ou casa pegasse fogo com a famlia dele
dentro.
Havia algumas vantagens em ser chamada de bruxa.
O estmago de Madison se contraiu de um jeito familiar at
que ela expulsou o pensamento da mente. Havia
preocupaes demais para manter  distncia. Era como um
daqueles fliperamas em que os jacars emergem e  preciso
acertar-lhes a cabea com um martelo antes que eles
mordam.
Embora o Estado pagasse os cursos que estava fazendo na
faculdade e ela trabalhasse o mximo de horas que Rachel
lhe oferecia na Lendas, estava endividada e em situao cada
vez pior. O Natal passara e ela gastara mais do que seria
recomendvel em presentes para Grace, John Robert e
Carlene.
E Seph.
Olhou de relance para o relgio e caminhou mais rpido.
Janeiro estava chegando ao fim, mas a praa de Trinity ainda
era um carto-postal natalino dos velhos tempos: a praa
coberta de neve, cercada pelos prdios antigos de pedra da
faculdade, laos e verdes guarnecendo as luminrias de rua
de estilo antiquado. Fachadas pitorescas de lojas cintilavam
com as ofertas ps-natalinas e compradores se acotovelavam
com pacotes e sacolas.
Absolutamente perfeito.
Absolutamente irritante.
Mas melhor do que em sua terra natal. L, no Condado de
Coalton, ela era o tema dos sermes em igrejinhas podres
onde os pregadores usavam-na como um mau exemplo.
 Bruxa , gritavam eles. E sussurravam  incendiria.
As pessoas atravessavam para o outro lado da rua quando a
viam se aproximar. Reuniam-se em grupinhos aps ela
passar, todos com um ar puritano, como estorninhos
cochichando.
As caladas de Trinity estavam repletas de pessoas cintilantes
cuja magia brilhava atravs da pele como luzes de Natal por
meio de camadas de neve. Eram na maioria Weirs Anamagos
 membros das ordens mgicas que no a dos magos e que
haviam se refugiado da guerra no santurio de Trinity.
Era uma guerra que passava despercebida pelos Anaweirs (as
pessoas sem magia), mas o derramamento de sangue havia se
espalhado por todo o mundo. Era uma batalha constante
entre faces de magos, o pesadelo que se tentara impedir
com o Pacto. Aqueles nas subordens que se recusaram a
participar haviam fugido para Trinity e eram considerados
rebeldes por causa disso.
Madison no brilhava, por isso eles nunca prestavam ateno
nela.
O aroma de canela e patchuli assaltou-lhe as narinas quando
ela entrou no interior aquecido da Mos Mgicas, a loja de
arte em consignao na praa. ris Bolingame estava  sua
mesa de trabalho nos fundos, soldando vidro, ris fazia
mgica com o vidro colorido. Literalmente.
        Oi, Maddie  disse ris, largando o trabalho e lavando as
mos.  Preciso lhe dizer que as pessoas adoram o seu
trabalho. Est despertando muito interesse!
Madison passou os dedos pelos brincos de contas pen-
durados na rvore de Natal no balco e lanou um olhar de
desejo para as jias no mostrurio de vidro.
        Eu s estava, sabe como ... Eu queria ver se alguma das
minhas peas foi vendida.
        Humm.  ris foi at o balco e folheou o arquivo de
cartes.  Vejamos. Trs estampas, uma aquarela, quatro
caixas de cartes de visita.  Ela ergueu o olhar para
Madison.  Uau. Em apenas duas semanas. Isso  timo,
hein?
        Estava me perguntando se eu poderia pegar o dinheiro
agora.
ris hesitou.
        Normalmente a gente espera at o fim do ms para
processar todos os cheques de uma vez, mas se for uma
emergncia...
        Deixa pra l  disse Madison, fingindo examinar os
caleidoscpios no balco.  Eu ia fazer umas compras, s
isso.
Lgrimas traidoras queimavam-lhe os olhos. "Odeio isso",
pensou ela, "e  o que tenho feito a minha vida toda. Catar
migalhas, poupar, dar desculpas."
        Voc est bem, querida?
Madison ergueu o olhar e encontrou os olhos preocupados
de ris.
        Estou tima  sussurrou ela, torcendo para que ris no
insistisse.
Num impulso, a maga estendeu o brao na direo dela, mas
recolheu a mo no ltimo momento, fingindo arrumar os
ornamentos que pendiam de sua longa trana, ris no
estivera em Second Sister, mas certamente ouvira a respeito.
Os magos desconfiavam de uma pessoa que era capaz de lhes
sugar a magia.
" como se eu tivesse uma doena incurvel", pensou
Maddie, "e ningum soubesse o quo contagiosa . Nem
mesmo eu."
        Se voc tiver algo mais que queira colocar aqui...
As faces de ris estavam rosadas de embarao.
Madison se endireitou, levantou o queixo e pigarreou.
        Na verdade, tem algo que eu gostaria de retirar, pelo
menos, por enquanto.  Madison revistou a caixa de
desenhos foscos, tirou um e inseriu-o no portflio. Entregou
a etiqueta para ris, que a anotou no carto de Maddie. 
Tenho algumas outras estampas l no meu quarto. Trago
amanh.
Ela saiu de Mos Mgicas e virou na rua Maple, chutando
pedaos de gelo lanados pelo limpador de neve, rumando
para o colgio.
Com alguma sorte, conseguiria algumas gorjetas naquela
noite na Lendas. Os negcios costumavam ser menos
intensos durante o inverno, mas no naquele ano. Naquele
ano Trinity parecia Aspen nas frias. Fora o que a prima
Rachel dissera, pelo menos. Ela estivera em Aspen, certa
vez, numa conveno de hoteleiros.
Era a hora da sada no Colgio de Trinity, e os alunos
desciam ruidosamente os degraus, distribuindo-se pelas ruas
adjacentes e entrando nos nibus. Alguns deles acenavam 
era uma cidade pequena, afinal, e eles a haviam visto com o
garoto mais popular da cidade, Jack Swift, e os amigos dele,
Harmon Fitch e Will Childers.
Algumas das meninas a fitavam com um olhar perscrutador,
sem dvida se perguntando o que o extico Seph McCauley
vira nela. Mas a maioria dos rostos no exibia nenhuma
preocupao com ela. Trinity podia ser uma cidade pequena,
mas, comparada a Coal Grove, era uma metrpole.
Enrolando-se firme naquele bem-vindo manto de anoni-
mato, Madison atravessou o corredor lotado da escola at o
escritrio principal.
Ela tirou um envelope de manila do portflio e entregou- -o
 secretria.
- Para o senhor Penworthy  disse ela.  Os relatrios
de avaliao da doutora Mignon, com as notas do semestre
passado.
 A doutora Mignon devia ter mandado isso diretamente
para mim, Senhorita Moss  disse o senhor Penworthy da
entrada de seu escritrio.  Eu j lhe disse isso antes.
O diretor do Colgio de Trinity usava botas de salto alto, um
cinto de caubi com fivela de prata e uma gravata-borboleta.
Madison baixou o olhar rapidamente para as prprias botas
vistosas e deu de ombros. Era tudo uma questo de escala e
contexto. Em todo caso, foi o que ela disse a si mesma.
Madison fez uma pausa antes de falar, com medo do que
pudesse deixar escapar.
        Eu... eu sinto muito, senhor. Ela insistiu em que eu desse
isso ao senhor. Disse que queria me manter inteirada do
assunto. Disse para o senhor telefonar para ela se tiver
alguma pergunta.
Desde o incio, o diretor no havia gostado da idia de
supervisionar o programa ps-secundrio de Madison,
embora tudo o que ele precisasse fazer fosse lidar com a
papelada.
O senhor Penworthy arrancou o envelope das mos da
secretria e sacudiu-o diante de Madison.
        Como vou saber se as suas notas no foram alteradas?
Madison conteve as primeiras palavras que lhe vieram 
mente.
        Bem, eu... Acho que pode telefonar para ela, senhor.
Ela praticamente fez uma reverncia ao sair de costas do
escritrio.
"Voc no pode se dar ao luxo de se meter em mais
encrencas", disse ela a si mesma. "Voc veio para c para
recomear do zero."
Tudo havia comeado no Colgio de Coal Grove, com
mensagens voando para todos os lados: deixadas no armrio
dela, enfiadas na mochila ou enviadas para celulares.
Mensagens dizendo que Madison Moss era uma bruxa. No a
bruxa boazinha ou a vovozinha tradicional naquela regio.
No. Maddie era uma harpia maligna e diablica, que podia
sugar a alma de algum pela orelha e amaldioar jardins ou
seduzir namorados.
Ela no fazia idia de onde viera aquilo, mas a fofoca se
espalhara e era persistente. As crianas faziam sinais contra o
mau-olhado no corredor quando ela passava. As meninas
tentavam conseguir uma mecha do cabelo dela para usar em
simpatias de amor. Os meninos desafiavam uns aos outros a
convid-la para sair.
No era que as pessoas ainda acreditassem naquele tipo de
coisa. Era mais como se todos estivessem sob efeito de algum
encanto, ou algo assim. Madison tentou ignorar tudo,
torcendo para que aquilo sumisse, ou para que algum outro
escndalo aparecesse para eles falarem a respeito.
Ento os incndios comearam. A princpio, foram celeiros,
barracos em runas e montes de feno que queimaram como
plvora, por todo o condado. Mais tarde, foram celeiros
ocupados, chals de caa e igrejinhas. No havia como
apagar os incndios. Tudo queimava at as cinzas. Os
criminosos marcavam cada local com um smbolo de
bruxaria  uma estrela de cinco pontas, uma cruz lfica, um
clice. Madison nem sabia o que eles queriam dizer at que
foi procurar na biblioteca.
O medo varreu o condado, e a suspeita se concentrou na
montanha Booker, reforada por boatos que haviam corrido
anteriormente. A polcia veio e procurou por pistas, embora
no parecesse saber ao certo o que procurava. Algum
deixou um caldeiro cheio de sangue no curral junto ao
celeiro. As pessoas deixavam mensagens ameaadoras pelo
telefone (na poca em que eles ainda tinham telefone).
Algum entrou no cemitrio da famlia na montanha Booker
e quebrou algumas das lpides, rabiscou ameaas e palavres
em outras. Uma delegao da Igreja do Evangelho
Quadrangular realizou um exorcismo em frente ao porto
deles at que Madison trouxe a espingarda de Jordie e
brandiu-a na direo deles.
Aquilo no ajudou nada.
Era um pesadelo que ia ficando cada vez pior. Carros cheios
de aventureiros comearam a segui-la por todo lado, na
esperana de flagr-la no ato. As pessoas se recusavam a
servi-la em restaurantes ou a serem servidas por Carlene. Os
poucos amigos que tinha sumiram.
Carlene foi finalmente forada a agir quando achou que ia
perder o emprego. Ela telefonou para Rachel, e Rachel
ofereceu a Madison quarto, comida e um emprego em
Trinity. E a professora de arte, a senhora McGregor, explicou
a Madison como ela poderia usar os crditos da faculdade
para se formar no segundo grau. Madison partiu do Condado
de Coalton no fim do segundo ano.
E, de uma hora para a outra, os incndios cessaram. O que
confirmava a culpa dela, segundo alguns.
Ela sentiu o estmago embrulhar e afastou a lembrana.
Aquilo eram guas passadas para ela.
Os corredores j estavam vazios quando ela deixou o
escritrio, e os nibus haviam partido. Ela olhou para os
alunos que tinham permanecido nos degraus da frente do
colgio, pensando que talvez visse a forma alta e magra de
Seph entre eles. Mas no. Ele havia dito que a encontraria no
Corcoran's, e ela j estava atrasada. Por sorte, era logo ali,
naquele mesmo quarteiro. Ela atravessou o estacionamento
e subiu a rua.
Bateu os ps para tirar a neve das botas  frente do
Corcoran's, olhando feio para a rena de plstico montada
sobre a porta, o nariz iluminado brilhando alegremente na
luz evanescente da tarde. Os sinos pendurados na coleira
tocaram seu som estridente quando ela abriu a porta. Ser
que ningum na cidade havia notado que o Natal j havia
passado?
O Corcoran's estava lotado com a clientela de costume aps
as aulas. Madison sondou o lugar  as cabines em imitao
de couro vermelho na lateral, os banquinhos dilapidados
junto ao bar de refrigerantes.
Nada do Seph.
Madison olhou para o relgio. Ela estava 20 minutos
atrasada. Quem sabe ele havia vindo e ido embora? Abriu o
celular. Nenhuma mensagem.
Harmon Fitch e a namorada, Rosie, estavam aconchegados
diante do laptop de Fitch  mesa de costume, junto  janela
da frente.
Fitch ergueu a cabea.
        Oi, Maddie. Puxe uma cadeira.
Ele virou o laptop para Rosie, que jogou para trs as longas
tranas rastafri e comeou a digitar furiosamente.
Provavelmente hackeando o Pentgono.
Madison balanou a cabea.
        Obrigada. No posso ficar. Tenho que ir trabalhar.
Madison transferiu o peso do corpo de um p para o outro.
Rosie passou o laptop de volta para Fitch. Ele estudou a tela e
abriu um sorriso cruel.
        Brilhante. Vamos tentar isso.
Os dedos dele voavam sobre o teclado, transmitindo
seqncias de letras e nmeros.
        Ahn... Vocs viram o Seph?  Ela inclinou o portflio na
direo de Fitch.  Ele ficou de me encontrar aqui. Tenho
uma coisa pra ele.
Os dedos de Fitch no pararam de se mover.
        A ltima vez que vi o Seph foi no segundo perodo. Ele
estava dormindo durante a aula, como de costume. Ele
cabulou clculo hoje  tarde.
        Ele o qu?
Fitch parou de digitar e se reclinou na cadeira, olhando-a
pensativo.
        Ele no apareceu na aula de matemtica nem estava na
lista de dispensados. Voc tem mantido ele acordado at
tarde ou algo assim?
Madison estremeceu, sentindo o sangue subir-lhe s faces.
        No fui eu.
Ento quem? Ela lutou contra uma mar de cimes. Ela
vinha evitando Seph, inventando desculpas. No podia
reclamar se ele sasse com outra pessoa.
Fitch deu de ombros e se debruou sobre o computador de
novo.
        De todo jeito, ele est encrencado. Garrity ficou uma fera.
 a terceira falta esse semestre.
O medo alfinetou-a, em guerra com a culpa. No era do
estilo dele perder aulas.
Talvez estivesse doente.
Ou pior: talvez estivesse doente por causa dela.
Mas como podia ser, se ela no o vira por dias? Ele lhe
enviara um e-mail no dia anterior, pedindo-lhe ajuda em um
projeto de arte. Ele no pediria se no estivesse desesperado.
Ela no pudera dizer no.
 Bem, se ele aparecer, voc pode dizer a ele pra me
telefonar?
Ela tentou o celular dele, mas caiu na secretria eletrnica.
Deixou uma mensagem.
Onde mais ele poderia estar? Ser que havia se esquecido?
Em desespero, ela andou o caminho todo at o parque Perry,
embora este fosse pouco freqentado no inverno. Seph no
estava  vista, mas ela encontrou os guerreiros Jack Swift e
Ellen Stephenson, treinando o exrcito fantasma deles numa
clareira isolada na floresta.
Ela chegou at eles seguindo os rudos do combate. Jack
havia erguido uma daquelas cercas de mago para manter
pessoas curiosas  distncia, na hiptese improvvel de que
pessoas curiosas estivessem caminhando pela floresta em
pleno inverno. Mas Madison era uma extratora. A magia e
suas iluses no tinham efeito sobre ela. Madison
simplesmente a absorvia e depois a magia se dispersava, sem
que ela pudesse control-la.
L na clareira estava Jack Swift, os longos cabelos loiro-
avermelhados amarrados atrs com uma tira de couro,
liderando duas dzias de guerreiros pelo campo nevado num
ruidoso ataque. A serem enfrentados por
Ellen Stephenson e as duas dzias de guerreiros dela, uma
parede eriada de espadas e escudos.
No havia nenhum sinal de Seph.
Era um conjunto variado de soldados, com armaduras e
armamentos provenientes de dois sculos de guerras. As
armas brilhavam sob o frgil sol de inverno, a respirao
deles virando fumaa no ar frio. Os guerreiros colidiram em
um choque de quebrar os ossos, numa disputa de braos e
pernas e armas letais. O sangue se espalhou pela neve, e
palavres de pocas passadas e desafios em meia dzia de
lnguas ressoaram pela floresta  medida que os guerreiros
tentavam abrir espao na multido de corpos para usar suas
armas.
Jack se desvencilhou, abrindo um grande espao ao redor de
si com sua espada, a Sombra Assassina. A lmina tremeluzia
como uma chama na sombra sob as rvores. Ellen se
agachou para se desviar, girando, e sua espada achou uma
abertura na defesa dele. O lado cego da lmina bateu nas
costelas de Jack, erguendo um jato de neve.
        Um toque!  vociferou ela.  Um toque evidente. Voc
se rende?
        Muito pouco evidente  grunhiu Jack, empurrando-a
para trs com fria.
Fascas voaram quando as lminas colidiram, e os corpos
aquecidos exalavam vapor no ar frio. Suas botas revolviam a
clareira num grosso pudim de lama e gelo.
Madison estava fascinada, para a sua prpria surpresa. Jack,
alto e musculoso, era um prazer de se observar em qualquer
circunstncia. Ele e Ellen eram parceiros dessa dana havia
muito tempo. Seus corpos se moviam ao som de uma
melodia selvagem que ningum mais escutava.
Era como um videogame em tamanho real, um embate
agonizante entre vivos e mortos. Eles podiam ser feridos 
at mortalmente  naquelas lutas, mas todos se levantavam
inteiros no fim do dia, ainda que com algumas dores.
Finalmente, Jack rodopiou e atingiu a espada de Ellen com
um grande golpe com as duas mos, fazendo a arma voar das
mos dela. Jack avanou, sorrindo, a espada estendida,
acuando Ellen contra uma rvore.
        Ento, Guerreira, voc se ren... Ei!  gritou ele quando
Ellen disparou a funda e uma pedra do tamanho de uma mo
cerrada atingiu-lhe o ombro.
Ellen detestava perder.
Jack finalmente notou Madison, que assistia a tudo da orla da
floresta.
        Madison! De onde voc veio?  Desviando-se de um
guerreiro alto, com roupas de pele de camura, que se
lanava contra ele com um machado, ele ergueu a mo. 
Parem!
A luta se reduziu a alguns golpes retardatrios e pequenas
escaramuas at se acalmar.
O feitio foi quebrado. Madison puxou o chapu para baixo
para cobrir as orelhas.
        No vo interromper por minha causa!
Jack e Ellen olharam um para o outro, como se cada um
esperasse que o outro falasse. Madison no aprovava as
preparaes frenticas em andamento em Trinity, e eles
sabiam disso. Os dotados eram um clube do qual Madison
no fazia parte.
Jack pigarreou.
        A gente est, sabe como , treinando. Para o caso de as
outras Casas de Magos tentarem invadir o santurio.
Madison curvou os ombros como se pudesse desaparecer
dentro do casaco.
        Eles no vo vir pra c. No se atreveriam.
        Eles esto lutando em outros lugares  retrucou Ellen. 
Seqestrando feiticeiros para ajudar na guerra. Estocando
armas.
Era verdade, mas... Madison inclinou a cabea em direo ao
exrcito formado por guerreiros de todos os tipos.
        Se as Rosas vierem... o que no vai acontecer... o que
vocs vo fazer? Acham mesmo que vo conseguir segurar
eles com esse grupo capenga?
Assim que disse aquilo, ela se arrependeu. Sua me, Carlene,
sempre dizia que as maneiras de Madison vinham dois passos
atrs de sua lngua ferina.
Como se Carlene fosse algum exemplo para qualquer um.
        Bem  disse Jack, trocando olhares com Ellen nova-
mente.  A gente precisa tentar.
        Talvez vocs devessem comprar alguns fuzis de assalto,
ento  sugeriu Madison com sarcasmo.  E alguns
lanadores de granadas.
        Fuzis de assalto no funcionam contra magos, a menos
que eles sejam apanhados de surpresa  disse Ellen. Ela fora
criada por magos, fora dos crculos sociais adolescentes de
costume, por isso o sarcasmo muitas vezes lhe passava
despercebido.  Os escudos deles podem rebater ataques
no mgicos por completo. Mas um guerreiro pode derrotar
um mago numa batalha mgica justa.
        Bom, eu acho que  uma perda...  Sentindo uma
presena, ela se virou. O guerreiro em peles de camura
estava logo atrs dela, escutando rudemente a conversa.
        Deseja alguma coisa?
Ele tirou o chapu e inclinou-se num gesto que at poderia
passar por uma reverncia.
        Meu nome  Jeremiah Brooks, senhorita  disse ele.
        Acho que no fomos apresentados.
Madison estreitou os olhos para observ-lo. Era bem alto e
cheirava a suor, couro e plvora.
        O meu  Maddie Moss.
Jeremiah Brooks sorriu, um sorriso amplo, lento, de
plpebras cadas.
        Muito prazer em conhec-la. Se me permite dizer, a
senhorita deve ser a moa mais bonita na cidade.
        O Jeremiah viveu aqui por volta de 1780  explicou Jack.
 Foi raptado pelas Rosas e morreu na Ravina do Corvo em
1792.
         mesmo, senhor Brooks?  perguntou Madison, na falta
do que dizer.
 claro que era. O senhor Jeremiah Brooks era um fantasma.
Ela estava levando uma cantada de algum que estava morto
havia mais de duzentos anos. Esse tipo de coisa era rotineira
em Trinity, Ohio.
Brooks fez um gesto de mo como para dizer que o fato de
estar morto no tinha importncia.
        Dona Moss, se aceitar danar comigo hoje  noite, vai ver
que ainda tenho vida dentro de mim.
        No saio com pessoas mortas  disse Madison, olhando
feio para o fantasma.  Esse  o meu limite.
Aqueles fantasmas eram um pouco substanciais demais para
o gosto dela. Eles comiam, bebiam, lutavam... e danavam,
pelo jeito. A no ser pela estranha maneira de se vestirem e
pelas armas que portavam, no dava para diferenci-los dos
vivos.
Jack sorriu.
         melhor tomar cuidado, Brooks. A Maddie est
namorando o meu primo. O mago mais poderoso que
conheo.
Brooks empalideceu sob a barba por fazer.
        Me desculpe, senhorita. No quis ofender. A senhorita
no parece com o tipo que... Eu no tinha como saber que...
        A gente no est namorando  disse Madison, fazendo
uma carranca para Jack, que deu de ombros e arqueou as
sobrancelhas para Ellen.
Madison tentou de novo.
        Quero dizer, somos s... amigos. Bons amigos. Pra ser
honesta, eu mal tenho visto ele ultimamente.
"Voc est falando demais. Pare com isso".
Brooks ergueu uma sobrancelha.
        Tome cuidado, dona Moss. No sei se  bom ser amiga de
um mago. Eles so conhecidos por tirarem vantagem das
jovens. Se entende o que quero dizer.
Madison encarou-o com firmeza, depois se voltou para Jack
e Ellen.
        Seja como for, era pra gente ter se encontrado h uma
hora. Vocs no viram o Seph, viram?
Jack balanou a cabea.
        Tambm no tenho visto o Seph. Ele e o Nick esto
sempre ocupados cuidando das fronteiras.
Enquanto os guerreiros jogavam seus jogos de guerra, os
magos de Trinity haviam estabelecido uma barreira invisvel
para suprimir a magia de ataque dentro do Santurio. A
manuteno dessa barreira parecia exigir uma grande
quantidade de energia. E tempo.
        Ainda no entendo por que a gente precisa de uma
fronteira especial agora, se nunca precisamos antes  disse
Madison.
        O banimento da magia de ataque faz parte do Pacto, mas
acho que agora ningum sabe se est valendo ou no, nem
quando D'Orsay vai consagrar o novo Pacto dele  disse
Jack.  As coisas esto meio vagas.
Madison bateu os ps, descobrindo que as botas luxuosas no
eram muita proteo contra o frio.
         que ele me pediu pra ajudar num projeto de arte, mas
no apareceu.
Jack e Ellen esfregaram os ps na neve batida, obviamente
ansiosos para retornarem  luta.
        Se ns virmos o Seph, contaremos que voc est
procurando por ele  sugeriu Ellen.
Madison enfiou as mos nos bolsos, tentando aquec-las.
        Est ficando tarde. Preciso ir trabalhar. At mais.
O barulho da luta recomeou antes mesmo que ela deixasse a
clareira.
Agora faltava apenas uma hora para o turno dela comear.
Tentaria a casa da tia de Seph, Becka, depois passaria pela
praia. Se ele no estivesse em nenhum desses dois lugares,
ela teria de ir trabalhar.
Certamente no acontecera nada com Seph. Ele s ficara
enredado em alguma tarefa. Como de costume. Ele estava
seguro dentro do santurio. Afinal, havia uma barreira. Nada
de magia de ataque.
No podia se esquecer de que, pelo menos dentro do
santurio, a maior ameaa a Seph McCauley era Madison
Moss e a magia que lhe vazava dos dedos.
Uma lembrana lhe ocorreu: a batalha na penso em Second
Sister, uma cena pintada em pavorosos tons de laranja.
Gregory Leicester sorriu, estendendo as mos, lanando uma
chama mortal na direo de Seph. Maddie se colocou entre
eles, recebendo a fora total do ataque. Ela foi enrolando a
linha de magia enquanto o mago lutava na outra ponta,
como um peixe no lago Jackson. Leicester caiu, junto com
todos os magos que mantinha cativos.
Ela havia sido contaminada. O gosto amargo da maldio
permanecia em sua lngua e se infiltrava pelos poros, um
veneno virulento e mortal, feito especialmente para Seph.
Aps voltarem de Second Sister, ele se queixara de dores de
cabea, dores de estmago e fadiga. Tivera erupes e
eczemas; ficara magro e plido e com os olhos fundos, como
se estivesse debilitado por uma doena.
A princpio, Madison achara que era conseqncia do que
ele havia passado na ilha. Imaginara que ele sararia com o
tempo, mas s piorara. Suas mos tremiam e os olhos
cambiantes se tornaram nebulosos e opacos, e por duas
vezes ele desmaiou na escola.
Os pais de Seph o levaram para a Inglaterra no Natal, e ele
pareceu melhorar, mas adoeceu de novo quando voltou para
Trinity. A me, Linda, preocupada, chamou a curandeira
Mercedes Foster, que prescreveu ar fresco, luz do sol, boa
comida, poes e amuletos. Nada disso adiantou. Quando
Mercedes finalmente o mandou ficar acamado, Madison
passou vrias horas sentada junto a ele, lendo e segurando
sua mo. Ela achou que no era muito boa como enfermeira,
pois Seph s parecia ficar mais fraco.
Ento Madison foi passar um fim de semana prolongado em
sua casa em Coal Grove. Quando voltou, Seph estava de p e
se sentindo melhor. Parecia uma pessoa diferente, mais
como costumava ser.
Mas no por muito tempo. E foi a que ela soube.
s vezes ela se perguntava se estava possuda. Podia sentir
algo malvolo dentro de si reagir  presena de Seph, como
uma serpente se desenrolando. O toque dela era venenoso.
Ningum mais parecia ter feito a conexo, muito menos
Seph. E se descobrissem...
Por isso ela comeou a evit-lo, a impedir o toque dele em
especial, inventando desculpas. E morrendo por dentro
todas as vezes que isso acontecia.
Madison virou na esquina da rua Jefferson, tomando cuidado
com os paraleleppedos cobertos de gelo. A Jefferson era
flanqueada por altos carvalhos e graciosas 'damas pintadas' 
assim eram chamadas aquelas casas vitorianas com pequenas
torres e colunas, rodeadas por varandas. Jack morava com a
me numa elegante Rainha Ana de telhas verdes.
A me de Jack, Becka, e a me de Seph, Linda, eram irms
numa famlia cheia de segredos. Linda era uma encantadora,
mestra do carisma  seduo, alguns diziam. Becka era
Anaweir  no tinha dons mgicos e no sabia nada sobre a
magia que acontecia em torno dela.
Madison parou junto  entrada da garagem. O carro de Seph
estava estacionado na entrada lateral.
Ela bateu na porta de tela. Nenhuma resposta. Bateu na porta
interna. Nada. Virou a maaneta e viu que estava
destrancada.
        Algum em casa?  gritou ela, abrindo a porta e enfiando
a cabea no vestbulo.
Ele estava ali em algum lugar. Ela podia sentir-lhe a presena
na acelerao do prprio corao, uma leve vibrao nos
ossos.
"Menino bruxo".
Ela atravessou o vestbulo e o corredor at a sala de estar nos
fundos. E ficou paralisada  entrada.
Seph jazia estendido no tapete em frente  lareira. O rosto
sob os cachos escuros estava plido e esculpido como
porcelana, a no ser por manchas escuras sob os olhos. Tinha
a testa franzida, os lbios entreabertos, como se houvesse
desfalecido entre duas palavras. Por um terrvel momento,
ela achou que ele estivesse morto, at ver um leve subir e
descer do peito.
        Bom dia, Maddie.  O mago Nick Snowbeard ergueu-se
parcialmente da cadeira no canto da lareira e cobriu
Seph com uma colcha. Depois se reclinou no assento junto
ao fogo.   um prazer v-la, como sempre.
Ela caiu de joelhos junto a Seph, o corao martelando no
peito, com receio de que ela fosse de alguma forma
responsvel por aquilo.
        O que aconteceu? Ele est...?
O velho zelador inclinou a cabea, parecendo surpreso.
        Ora, minha querida, est dormindo,  claro, embora ele
no esteja muito feliz com isso.
Madison olhou para Seph, como se ele pudesse fazer algum
comentrio, depois de volta para Snowbeard. A preocupao
se transformou em irritao.
        Ele est tirando uma soneca? Era pra gente ter se
encontrado duas horas atrs.
        O rapaz est exausto. Ele est se esgotando, cuidando da
fronteira 24 horas por dia.
O velho mago pressionou os dedos entre as sobrancelhas
encrespadas, como se tivesse uma dor de cabea. O Velho
Urso, como os dotados o chamavam, ou s vezes o Urso
Prateado. Ele parecia mesmo com um urso um tanto
desgrenhado, depois de ser arrancado de sua caverna no
meio do inverno.
        Foi uma falha de comunicao  continuou Snowbeard.
 Tarefas demais a cumprir, e muito poucas pessoas para
cumprir essas tarefas. O Hastings est fora, e eu tive... um
contratempo que me atrasou. Eu no sabia que ele tinha
ficado sozinho por tanto tempo, e no  da natureza dele
pedir ajuda. Mas agora assumi o lugar dele, e coloquei-o para
dormir, apesar dos protestos.
Madison se inclinou para a frente, segurando a saia com as
mos.
        Ele est sempre caindo de sono na escola. Alm disso, ele
perdeu muitas aulas no semestre passado, quando esteve to
doente. "E de quem  a culpa disso?"  No achei que vocs
pudessem fazer algum trabalhar at a morte desse jeito.
Acho que no existem leis contra o trabalho infantil entre
magos.
Snowbeard ergueu uma xcara de ch da mesinha lateral e
tomou um longo gole. Ele a ps de volta no pires com as
mos trmulas, porcelana batendo contra porcelana.
        Minha querida, eu... sinto muito. Embora seja jovem, ele 
o mago mais poderoso que temos  nossa disposio, fora o
pai dele e eu. A ris est disposta, mas ela no  forte o
bastante para manter a fronteira por muito tempo.  um
trabalho incrivelmente exaustivo. H outros que no so
particularmente confiveis. A maioria dos magos se aliou s
Rosas ou ao D'Orsay. Muitos dos partidrios do Drago no
consideram o santurio uma prioridade, agora que a guerra
estourou.
        Mas voc considera.
        Acho que precisamos de um lugar seguro, sim, ou vamos
ser esmagados entre as pedras da ambio dos magos. J
notou que a cidade est cheia de refugiados com o dom?
 claro que ela notara. Eram pessoas de boa educao,
pessoas com dinheiro, artistas talentosos que se instalaram
em lojas em torno da praa. As Casas dos Magos os
consideravam rebeldes por se recusarem a apoiar a guerra. E
quanto mais Weirs Anamagos apareciam, mais Trinity se
tornava um alvo. O que no combinava com os planos de
Madison de forma alguma.
Ela se sentou junto a Seph de costas para a lareira, lembrando
de manter um pequeno espao entre eles. A neve das botas
dela derretia em poas sobre o piso de madeira.
        Queria que no tivessem deixado todas aquelas pessoas
entrarem.
         difcil culp-las por procurarem um refgio. Os magos
esto raptando os Weirs Anamagos por todo o mundo,
recrutando-os para o esforo de guerra. Eles precisam de
feiticeiros para reunir arsenais, guerreiros para utiliz-los,
adivinhos para ver o futuro e planejar estratgias,
encantadores para a espionagem.  Nick suspirou.  Isso
s pode acabar em desastre. Por sculos, os magos no se
atreveram a guerrear abertamente entre si, por medo de
quebrar o pacto e despertar o drago que dorme na Ravina
do Corvo. Suponho que os magos no acreditem mais em
drages... ou no pacto.  A voz do velho foi perdendo a
fora.
Madison lutou para impedir que o ceticismo se estampasse
em seu rosto. Drages. Certo. Havia monstros suficientes na
vida real para combater.
Madison baixou os olhos para Seph. O rosto dele era como
uma obra de arte que exigia estudo intensivo. Ela estava
contente de poder observ-lo sem que ele a olhasse com
aqueles olhos verdes que no perdiam nada. Resistiu 
tentao de contornar-lhe os ossos das mas do rosto e o
pronunciado nariz com o dedo indicador. Se Seph tivesse
algum tipo de reao na frente de Nick, na certa estaria tudo
acabado.
Ela encontrara Seph pela primeira vez na praia no lago Erie.
Ele estivera por l durante dias, observando-a com aquele
seu jeito de garoto rico, metido e bruxo. Como se s
precisasse fazer um sinal com o dedo para que ela viesse
correndo. Ela vira o bastante daquilo com Brice Roper na
terra dela.
Mas Brice era simples. Por baixo da superfcie bonita, tinha
apenas uns dois centmetros de profundidade. Havia uma
complexidade em Seph que a fascinava. Os olhos eram como
as poas verdes e sombreadas do riacho Booker, que
mudavam com a luz. Embora fosse jovem, o rosto j
carregava traos de histria e perda. Ela o desenhara vrias
vezes, tentando capturar-lhe a intensidade e o poder com
linhas e cores.
Quando Seph viu os desenhos dela, quando compreendeu
que ela via a magia nele, pensou que ela trabalhasse para as
Rosas. Tentou usar de persuaso sobre ela, o poder
queimando em seus dedos. Ela absorveu a magia, forte e
doce, e ele caiu, aturdido, na areia. Por dias depois daquilo,
ela se sentiu embriagada, como se tivesse bebido alguma taa
mgica de alegria.
To diferente de agora. Ela estremeceu.
Nick pigarreou. Ela despertou daquele devaneio e viu o
velho observando-a. Min sempre dissera que o rosto de
Madison era transparente como vidro.
Ela comeou a falar aos borbotes.
 Ele me pediu ajuda num projeto de arte que  pra
entregar amanh. E est bem atrasado em todos os trabalhos,
e no vai ter crdito suficiente para se formar se no passar
nas matrias. Ele...  A voz dela foi perdendo a fora.
Nick tinha os olhos distantes, o rosto envelhecido repuxado
em longas linhas de culpa e tristeza.
        E quando ele for embora pra faculdade?  perguntou ela
baixinho.
"Vai ser melhor quando ele for embora", ela disse a si
mesma. No vai ter de v-lo todos os dias.
        Para ser honesto, minha querida, no tenho certeza de
que ele deva deixar o santurio. Isso pode coloc-lo em
perigo.
        Mas por que eles iriam atrs dele? Ele s tem dezessete
anos!
        Poltica de magos  respondeu Nick.  Ele  um alvo,
por ser quem . Este no  o tipo de conflito em que 
possvel permanecer neutro. A maioria dos magos odeia o
pai dele por apoiar as outras ordens contra as Casas dos
Magos. E agora que sabem que Linda  um dos arquitetos da
rebelio...  Nick deu de ombros.  Eles vm tentando
recrut-lo de todas as formas, sabe? As Rosas. O D'Orsay.
Fazendo todo tipo de oferta das quais eu no deveria saber.
        Eles realmente acham que ele... passaria para o lado negro?
As faces de Madison ardiam  medida que o sangue lhe subia
para o rosto.
        Baseados na prtica habitual dos magos, eles presumem
que  uma questo de preo ou influncia.  Nick esfregou
o lado do nariz com o dedo indicador.  Ele deixou uma
forte impresso. O D'Orsay e o Leicester teriam vencido em
Second Sister, se no fosse pelo Seph e pelo Jason... e por
voc, minha querida  terminou ele, delicadamente.
Em Second Sister, ela vira magos lanando feitios,
conjurando imagens de drages e cometendo assassinato
com magia. Ela vira Seph atirando chamas das pontas dos
dedos, lutando por sua vida. Vira as ambiciosas Casas dos
Magos cercando-o quando compreenderam quo forte ele
era.
Ela finalmente entendeu o que estava em jogo. E agora no
via nada em sua frente a no ser catstrofe. Ela no fazia
nenhum bem a Seph. Ele no fazia nenhum bem a ela.
Madison tinha de se afastar daquele negcio de magia. No
tinha opo. Ela ergueu a mo e tocou com o dedo a opala de
Min que lhe pendia de uma corrente em torno do pescoo.
"No se meta com magia", havia dito Min. "Isso s trouxe
problemas para a nossa famlia."
O velho mago pigarreou.
        Sabe, Madison, dado o seu dom, voc poderia ter um
papel importante.
        No!  Madison sentia-se sufocada, os pulmes se
fechando a cada respirao.  Essa luta no  minha. No
sou membro de nenhuma das suas ordens ou casas ou... ou
coisa alguma.  Ela cruzou os braos diante do peito,
escondendo as mos.  No h magia em mim.
Ela fechou a boca com firmeza aps a mentira.
        Ns no entendemos realmente o que aconteceu quando
o Leicester e os magos conectados a ele fulminaram voc. O
poder simplesmente... se dissipou ou...
        Na verdade no importa, no ? A questo  que eu no
quero ser parte disto.
Ela viera a Trinity para se livrar da contaminao da magia.
E, no entanto, ela parecia concentrar-se sobre Madison onde
quer que ela fosse.
        Minha querida Madison.  Nick se interrompeu,
claramente pouco acostumado quele tipo de persuaso. 
A sua ajuda poderia ser til a ns. No vamos pedir que faa
nada com que no se sinta confortvel. Hastings e eu
poderamos trabalhar com voc para...
A voz dele silenciou quando ele viu a expresso de Madison.
        Quero ser a primeira na minha famlia a ir pra faculdade.
No fim deste semestre, vou completar um ano de crditos.
Mas mal tenho tempo para fazer meus trabalhos de escola e
cumprir as minhas horas de servio na Lendas.
Ela olhou para o relgio e gemeu.
        Tenho que ir. J estou atrasada e preciso desse emprego.
Ajoelhando-se, abriu o portflio e tirou um desenho em
carvo opaco, aquele que fora buscar na Mos Mgicas. Era a
praa de Trinity ao anoitecer, a neve caindo por entre as
grandes rvores, poas de luz das lmpadas e sombras na
grama coberta de neve.
No era o que Seph queria dela, mas era algo. Uma pequena
oferenda que representava um sonho que tivera um dia.
        Quando o Seph acordar, poderia dar isto a ele? Diga que
fui eu quem trouxe.
Ela se levantou, fechou o zper do casaco e botou o portflio
embaixo do brao. Ao passar pela entrada da garagem,
chutou o muro de tijolos que cercava o jardim.


Captulo Trs
Banido da Ilha Coroada

Jason preferia as neves da Cmbria s chuvas de inverno de
Londres. Era s uma breve caminhada por uma rua calada
de pedras desde o txi at o pub, mas ainda assim ele ficou
ensopado at os ossos. Passou por baixo de uma placa de
madeira com a inscrio A FLAUTA IRLANDESA e
avanou para o interior sombrio que cheirava a tabaco, malte
e dcadas de peixe frito. Era um lugar antigo, com piso de
ladrilhos e teto de zinco. Tom, o garom, dizia que o prdio
datava do incio do sculo XVII.
Acenando com a cabea para Tom e erguendo dois dedos,
Jason passou pelo pub e entrou numa sala privativa nos
fundos. Tom nunca pedia para ver seus documentos. A idade
mnima para consumo de lcool entre os magos era meio
flexvel. Como nos tempos medievais.
A lareira na sala dos fundos compartilhava a chamin com a
lareira na frente. Com um gesto, Jason ps fogo na lenha e
sentou-se  mesa mais prxima da lareira.
Colocou a mochila entre os ps, no cho, sentindo-se
nervoso como um terrorista com uma bomba escondida sob
a cadeira. Totalmente consciente da proximidade e do calor
da pedra.
Alguns minutos mais tarde, Tom colocou dois copos de
cerveja escura na frente de Jason.
        Obrigado, Tom.
Fechando os olhos, concentrando-se, Jason forou a gua a
sair das roupas.
        Voc est soltando fumaa.
Jason abriu os olhos e viu que Tom havia partido e Hastings
estava diante dele. Devia ter cado no sono. No dormira
realmente desde a caminhada na ravina, salvo por uns
poucos minutos de descuido em que cochilara no trem.
Hastings sabia se mover em total silncio, como um
demnio. s vezes parecia que o mago podia atravessar
paredes. Esfregando os olhos cheios de areia, Jason olhou em
torno. A porta para o bar l fora estava fechada, e os
contornos da sala tinham a aparncia borrada de barreiras
mgicas. Estavam seguros.
Hastings sentou-se  frente dele e estudou-o por sob as
pesadas sobrancelhas negras. Era assustador o quanto
Hastings e Seph se pareciam, com os cabelos escuros e
cacheados, mas do rosto salientes, narizes proeminentes e
olhos verdes (embora os de Seph tendessem a mudar de cor
de uma hora para a outra e de um dia para o outro, sem
dvida uma herana da me encantadora).
        Os dois so pra mim?  perguntou Hastings, sarcstico,
inclinando a cabea para os copos na mesa.
Jason empurrou um copo na direo de Hastings e pegou o
outro.
        Um  pra voc.
Hastings agarrou o pulso de Jason antes que este pudesse
levar o copo aos lbios.
        No  uma boa idia. Voc precisa ficar atento. S porque
pode fazer algo e se safar no quer dizer que deva.
"Voc curte a sua bebidinha", pensou Jason, mas era esperto
demais para diz-lo em voz alta. Deu de ombros e soltou o
copo.
        Clima dos infernos  disse Jason, usando uma expresso
tipicamente britnica.
Hastings corrigiu-lhe a pronncia e apossou-se da bebida de
Jason, zombando:
        Voc ainda soa como um americano.
"Ele deve ter colecionado os sermes enquanto eu estava
fora."
        Eu sou americano.
        Isso faz com que voc se destaque. Faz com que as pessoas
se lembrem de voc.
Hastings simplesmente no entendia. Jason queria ser
lembrado.
        Por onde esteve? Eu disse pra ficar por aqui.
Hastings nunca perdia tempo com gentilezas. No havia
sentido em resistir a ele. Hastings logo lhe arrancaria a
histria toda, de qualquer forma.
        Decidi dar uma olhada na Ravina do Corvo.
        Voc o qu?  O mago no ergueu a voz, mas esta
pareceu alta mesmo assim.
Jason respirou fundo e se forou a encarar Hastings nos
olhos.
        Voc estava fora. Eu tinha algum tempo.
        Eu mandei voc ficar vigiando e me contar se Jessamine
Longbranch retornasse a Londres. Essa era a sua misso.
        Isso  trabalho intil  protestou Jason.  A casa dela
est trancada h meses. No havia nada pra fazer.
        Ah, ?  Hastings arqueou uma sobrancelha.  Ela est
de volta h pelo menos trs dias. E no fao idia do que
aconteceu desde o retorno dela.
        Wylie esteve l ontem. E um bando de outros. Eles tm se
encontrado todos os dias.  Jason deslizou um papel por
sobre a mesa at Hastings.  Eu... humm... persuadi os
vizinhos a ficarem de olho enquanto eu estava fora.
Hastings tamborilou os longos dedos no tampo gasto da
mesa.
        Eu no dei essa misso para os vizinhos. O que voc
esperava conseguir? Na Ravina do Corvo, quero dizer.
        Bem, todos esto com medo de entrar... As Rosas, o...
ahn... todo mundo.
Jason concentrou o olhar na mesa. Ele vinha argumentando
em favor da idia de ir at a ravina desde que chegara a
Londres, e Hastings recusara.
        Ns discutimos isso. Voc sabia que era provvel que a
ravina estivesse bem vigiada. Se tivesse sido capturado, as
conseqncias teriam sido terrveis. Eu estive no poro do
Castelo da Ravina do Corvo, e no  um lugar que eu gostaria
de rever.
        Imaginei que uma pessoa, sozinha, pudesse entrar
despercebida.
        E conseguiu? Entrar despercebido?
"Aposto que ele j sabe a resposta", pensou Jason. Pigarreou.
        No. Eles... ahn... perceberam.
        Ento o que aconteceu?
        Foi como chutar um formigueiro. Ele tem um exrcito l
em cima, e todos eles apareceram. Fiquei imperceptvel e fui
para o forte.
Hastings franziu o cenho.
        Voc devia ter sado imediatamente quando percebeu que
havia sido descoberto.
"Certo. Aposto que voc teria atacado o castelo com as
prprias mos", pensou Jason.
        Achei que era isso que esperariam que eu fizesse. 
Percebeu que estava sacudindo o p, e parou.  Ento o
D'Orsay... ou algum... encheu a ravina com nvoa lucfera.
Hastings disse um palavro.
        Tem certeza? Achava que ningum mais soubesse como
fazer isso.
        Foi isso ou algo parecido. Eu desisti de chegar ao castelo e
fui para um terreno mais alto. Escalei a Cabea do Corvo at
a pedra Weir. A teve um terremoto.
        E fogo e pestilncia tambm, suponho  disse Hastings,
em tom seco.
        Ahaha. Seja como for, uma grande fenda se abriu na
Cabea do Corvo, logo abaixo da pedra Weir. Eu me escondi
l at a nvoa baixar.
Jason conseguiu acender um cigarro em sua segunda
tentativa, depois soprou uma baforada de fumaa.
Hastings abanou a fumaa para longe, no fazendo nenhum
esforo para ocultar o quanto desaprovava Jason em geral e o
hbito dele de fumar em particular.
        Voc foi visto? Foi reconhecido?
Jason hesitou.
        Fui visto  admitiu ele.  No acho que tenha sido
reconhecido.
        Se foi visto, vai ser identificado. Voc deixou uma forte
impresso em Second Sister.  Hastings bateu a mo na
mesa.  Apesar da sua sede insacivel de confrontao, ir
atrs de D'Orsay no nos ajuda. Pelo menos ele distrai a
ateno das Rosas. Precisamos encontrar o Pacto e destru-lo
antes que algum tente enfi-lo pela nossa goela abaixo.
        E se D'Orsay estiver com o Pacto?  retrucou Jason com
teimosia. Afinal, o ex-Mestre de Jogos havia desaparecido da
malfadada reunio na ilha de Second Sister na mesma ocasio
que o documento que as ordens haviam assinado sob coao.
        Talvez ele esteja  grunhiu Hastings.  Mas acho que
no. Seno ele teria convocado os aliados dele e realizado
uma grande cerimnia na ravina consagrando o documento
e se declarando governante de todos ns.
        Eu no achei o Pacto, est bem? Mas achei isso aqui.
Jason levantou a mochila que estava entre seus ps, abriu o
zper e derramou o contedo sobre a mesa. Tudo menos a
opala e seu suporte, que estavam escondidos no bolso lateral.
Ainda no havia decidido se partilharia aquilo com Hastings.
Hastings baixou o olhar para o tesouro sobre a mesa e depois
olhou para Jason, levantando uma sobrancelha em
indagao.
        Achei essas coisas em uma caverna atrs da pedra Weir.
Hastings passou os dedos pela mistura de gemas, jias e
artefatos mgicos sobre a mesa de madeira envelhecida,
segurou alguns junto  luz para poder ver as inscries.
Olhou para cima mais de uma vez, como para ter certeza de
que a porta permanecia trancada.
Parecia que, pelo menos uma vez, Jason havia impressionado
o jamais impressionvel Leander Hastings.
Finalmente, Hastings falou.
         s o que tinha?
Jason balanou a cabea.
        Foi s o que eu consegui carregar. A montanha ainda
estava instvel. A entrada desmoronou ao meu redor quando
eu estava saindo  acrescentou ele.
Por que ele sempre se sentia como se tivesse de se defender?
        Acha que D'Orsay sabia da existncia dessas coisas? 
perguntou Hastings.
        No.  Jason balanou a cabea.  Parecia que nada
tinha sido tocado havia sculos. Alm do mais, ele j no
teria usado isso, considerando a encrenca em que est?
        Como voc decidiu? O que pegar, quero dizer.
Jason deu de ombros.
        A minha me me ensinou um bocado sobre amuletos e
talisms. Por isso escolhi as peas que pareciam as mais
poderosas, pela inscrio ou, sabe como , pela vibrao. A
maior parte do que eu peguei so peas mgicas. Alm de
uma espada  acrescentou ele.
A cabea do mago se levantou.
        Uma espada?
        Eu deixei no meu quarto. Achei que no devia carregar
uma espada pelas ruas de Londres. J foi difcil de esconder
no trem at aqui.
Ele usara uma sacola de golfe. Pensando bem, uma sacola de
esquis teria sido mais apropriada para a estao.
        Certo  disse Hastings, assumindo o comando com
naturalidade e estendendo a mo para pegar a mochila. 
Vamos empacotar essas coisas.
Jason segurou-a.
        Oh,  verdade. Quase esqueci. Tem esta outra coisa.
Jason remexeu no bolso da frente, tirou uma bolsa com a
opala e passou-a para Hastings.
O mago pesou a bolsa em sua mo e ento desfez o n na
corda e largou a opala sobre o tampo da mesa, cercando-a
com os braos. O leve brilho da pedra iluminou o rosto do
mago, colocando-lhe os traos em relevo.
        O que  isto?  sussurrou Hastings.
         uma sefa, acho  respondeu Jason.  Achei que talvez
voc pudesse me ensinar como usar.
Agora que estava livre da cobertura de veludo, era como se a
pedra estivesse lhe puxando as entranhas para fora. Imagens
de uma paisagem estilhaada roavam-lhe as margens da
conscincia, como asas. Uma voz sedutora murmurava-lhe
ao ouvido, mas ele no conseguia distinguir as palavras.
Hastings ps a pedra rapidamente de volta na bolsa, atando a
corda com firmeza.
        Temos que levar isto... tudo isto... para um lugar seguro. E
no tem nenhum na Gr-Bretanha.
Jason ficou contente com a reao de Hastings, mas confuso
com as palavras dele.
        Como assim? Por qu?
Hastings no respondeu imediatamente. Ficou pensando,
tamborilando os dedos na mesa, os olhos verdes cintilando 
luz do fogo.
        Vamos levar essas coisas para Trinity  anunciou ele,
enfim.   o lugar mais seguro, j que estamos mantendo
uma barreira ao redor do santurio, e ningum vai fazer
perguntas sobre o aumento da segurana.
        Trinity?  Jason estreitou os olhos para Hastings. 
Achei que eu e voc poderamos usar algumas dessas coisas
para ir atrs do D'Orsay. E do Pacto.
        Claude D'Orsay no  a nossa prioridade imediata  disse
Hastings, acentuando cada palavra.  Quero que o Nick
Snowbeard d uma olhada nessas coisas. E o Seph, j que ele
est envolvido na manuteno da segurana de Trinity.
Seph.  claro. Jason lutou contra uma onda de cime.
        Achei que talvez a gente pudesse...  comeou Jason,
mas Hastings ergueu a mo para silenci-lo.
        Eu gostaria de ver a espada, porm acho que no podemos
arriscar sermos vistos juntos. Volte direto para
o seu quarto, apanhe a espada e pegue o primeiro avio para
os Estados Unidos.
A mente cansada de Jason tropeou naquelas palavras.
        Quer que eu leve essas coisas para Trinity?
        Ora, claro que quero  respondeu Hastings, como se
Jason fosse incrivelmente lento.  Tem que ser voc.
Quanto menos pessoas souberem a respeito disso, melhor.
        Mas eu no quero voltar  protestou Jason.  Se me der
outra chance, eu consigo entrar na ravina sozinho. Se no
encontrar o Pacto, vou procurar pelo tesouro. Talvez eu
consiga entrar de novo na caverna.
        Voc nunca vai entrar de novo, ainda mais agora, depois
desse ataque fracassado.
        Quem mais vai fazer isso? Voc? Todos sabem quem voc
. Todos conhecem o seu rosto. No vo deixar que chegue
nem perto da ravina. As Rosas vo assassinar voc, mesmo
que supostamente seja aliado delas contra o D'Orsay.
        No sou aliado das Rosas  disse Hastings, em tom seco.
 Mesmo que nossos interesses coincidam tempora-
riamente, vamos acabar lutando contra elas no fim.
        Ento essa  a minha punio por fracassar  disse Jason
com amargura.  Estou fora.
Hastings esvaziou o copo e bateu-o sobre a mesa.
        Essa  a sua punio por assumir um risco idiota sem
nenhum bom motivo. Acha que o seu rosto no 
conhecido? O D'Orsay no  nenhum bobo. Acha que eu
fico aconselhando voc a assumir uma aparncia comum
porque sou conservador? Voc  confiante demais, Jason,
alm de chamar a ateno e ser descuidado, e essa combi-
nao  o que vai mat-lo. No quero ser responsvel pela
baguna que voc deixar para trs.
Aquilo era irnico, vindo de um homem que tinha um dos
rostos e imagens mais memorveis que Jason j conhecera,
cujas fugas audaciosas eram lendrias.
Jason se debruou sobre a mesa.
        Escute. Eu me livro do brinco.  Ele tocou o lbulo da
orelha.  Eu me livro do cabelo punk.  Passou os dedos
pelo cabelo descolorido.  Eu visto um maldito terno e
gravata, se voc quiser. Mas me deixe ficar e trabalhar com
voc.
Hastings suspirou.
        No pense que isso significa que tudo deu errado.  Ele
pousou a mo na mochila.  Este  um tremendo achado.
s vezes no sou muito... bom com elogios.
        No quero cumprimentos. Quero ficar aqui. Quero fazer
alguma coisa.
        E eu quero que algum em quem eu possa confiar leve
essas coisas para Trinity antes que o D'Orsay consiga nos
achar. Acha que ele no est procurando?  Hastings se
recostou, esticando as longas pernas.  Fazer alguma coisa
no basta.  importante fazer a coisa certa.
        Eu sei que   disse Jason, tentando no soar embirrado.
 Mas nada vai acontecer em Trinity.
        No tenha tanta certeza. Tenho um pressentimento de
que as peas que voc encontrou so importantes. A batalha
pode muito bem depender delas.
        Ento por que levar para Trinity? Vai pr a cidade inteira
em perigo.
         exatamente por isso que ningum deve descobrir onde
esto. E tenha em mente que, se perdermos essa guerra,
Trinity vai ser destruda junto com tudo o mais.
Jason se levantou e comeou a andar de um lado para o
outro, dando meia-volta todas as vezes que chegava aos
limites do aposento.
        Ser que voc no pode pelo menos tentar me entender?
        Entendo melhor do que voc imagina.
        Por qu? As Rosas mataram o seu pai e a sua irm cem
anos atrs, por isso voc entende como me sinto? S porque
o Leicester e o D'Orsay assassinaram o meu pai?
        Porque sei como  querer provar o prprio valor a tal
ponto que isso acaba destruindo todas as outras coisas
importantes  replicou Hastings, fitando o fogo.  s
vezes  apenas uma desculpa para evitar lidar com os
prprios demnios.
Agora Hastings era psiquiatra, alm de mago e Mestre de
Guerreiros. Jason conteve uma resposta exaltada.
        Escute aqui, eu sou rfo. Como voc. Ningum se
importa com o que acontecer comigo.  minha escolha.
Minha.
        Eu assumi a responsabilidade por voc quando o trouxe 
Gr-Bretanha.
Jason notou que Hastings no dissera que se importava com
ele.
        Por favor. Eu quero ajudar.  Estava perigosamente perto
de implorar.  O Jack e a Ellen esto treinando os
guerreiros deles.  nisso que so bons. O Seph est
mantendo a barreira. Nao posso fazer nada disso. Quero estar
onde sou til.
        A coisa mais til que pode fazer por mim agora  levar a
espada e o resto para Trinity  disse Hastings, sem erguer os
olhos.  Diga para o Nick dar uma olhada na lmina. Pode
muito bem ser uma das sete. Se for, passe para a Ellen. Ela
merece uma espada digna de suas habilidades. Ela e o Jack
podem ter um papel crucial, se entrarmos mesmo em guerra.
Nick. Ellen. Seph. Jack. Todos importantes para a causa.
Todos menos ele.
Jason sabia que a discusso estava encerrada. O erro dele fora
pensar que Hastings estivera de fato dialogando com ele. Ele
se deixou cair na cadeira.
        Quando voc volta para Trinity?
O mago deu de ombros.
        Em breve, espero. Vou tentar descobrir o que est
acontecendo na Ravina do Corvo. Se notaram que algumas
coisas sumiram e se esto atrs de ns. Talvez eu possa
bagunar um pouco o coreto. E despist-los.
E foi tudo. A breve carreira de Jason como agente da Casa do
Drago estava encerrada.
Jason caiu no sono no metr no caminho de volta a seu
apartamento, passando da estao Mornington Crescent e
saindo em Camden Town. Andou pelas ruas da cidade para
clarear a mente. No caminho, parou num cibercaf e
reservou uma passagem num vo de Heathrow para Nova
York que partia na manh seguinte.
Assim, o homem que perambulava junto s sadas do metr
em Mornington Crescent com uma fotografia de Jason Haley
no o viu por l.
Jason parou para falar com uma garota que morava no prdio
ao lado do dele. Eles encomendaram uma pizza, e ele ficou
at tarde no apartamento dela. quela altura, estava caindo
chuva com neve. Os dois prdios tinham um poro comum,
por isso ele entrou no prprio prdio pelas lavanderias, sem
sair para a rua.
Assim, a mulher que se abrigava na entrada do apartamento
de Jason no percebeu que a raposa havia ido para a toca.
De volta  seu quarto, Jason reuniu seus poucos pertences.
Havia planejado tomar o trem em Euston, mas agora
Hastings o havia deixado com medo. No fim, ele telefonou
para um servio de txi e reservou um carro para busc-lo s
quatro da manh. Disse que se chamava Bob Roberts e no
deu um destino. Levaria a mochila como bagagem de mo e
convenceria a companhia area a deix-lo embarcar com a
sacola de golfe com a espada dentro. Jogadores de golfe
tinham suas manias a respeito de no se separarem de seus
tacos, no tinham?
Ele s estivera no Reino Unido por um ms. Torcia para que
o seu banimento no durasse muito tempo.



Captulo Quatro
A Arte de Negociao

Leesha Middleton sacudiu a neve de seus cachos e esticou as
mos congeladas em direo ao fogo. Por que Claude
D'Orsay no podia se refugiar em, Belize durante o inverno,
como qualquer pessoa normal?
Ela deu uma olhada ao redor, examinando a saleta com um
olhar crtico. Tudo tinha um ar sufocante, de famlia rica,
como as salas de museu nas propriedades de seus avs.
Cheiravam igual tambm  a charutos, couro e casacos
mofados de l. Leesha correu um dedo sob o suter de gola
alta e tocou a coleira de ouro  o torque  que lhe
circundava o pescoo. Toc-lo estava se tornando um hbito.
 Quem  voc?
Leesha deu um pulo e se virou.
O menino havia se esgueirado por trs dela. Era magro e
com cara de estudioso, com cachos loiros, pele clara e olhos
que eram de um azul to plido  atrs de culos sem
armao  que pareciam quase sem cor. Talvez tivesse uns
14 anos. Jovem demais para ser interessante, embora Leesha
s tivesse 17. Ele era quase bonito, mas sua aparncia era
prejudicada por um olho roxo e um nariz que havia sido
quebrado recentemente.
        Meu nome  Alicia Middleton  disse ela, no vendo
nenhuma razo para mentir.
        Devereaux D'Orsay  replicou o menino, postando-se
perto demais dela e olhando-a fixamente no rosto.  Meu
pai no falou que estava esperando visitas.
        No?
No fora fcil conseguir aquele convite. Um fax da ltima
pgina do Pacto assinado pelas ordens em Second Sister
havia sido o fator decisivo na realizao da proeza. Ela havia
mandado o motorista dos avs, Charles, traz-la de carro at
ali desde a propriedade deles na Esccia. Se ela conseguisse
sobreviver at o fim do dia sem receber um castigo, teria
muita, muita sorte.
        Gostaria de algo para beber?  indagou Devereaux,
indicando com a cabea o balco, onde havia uma srie de
garrafas e latas de refrigerante.
Leesha balanou a cabea.
        No, obrigada.
O menino se apoiou no balco.
        Temos uma seleo maior na adega. Gostaria de ver?
        No, estou muito bem assim, obrigada.  Tentou mudar
de assunto.  Quem bateu em voc?
Aquilo pareceu perturb-lo.
        Ningum me bateu, senhorita Middleton  disse o
menino, endireitando-se, o rosto de cor clara adquirindo um
tom rosa-escuro que contrastava com os machucados.
        Em termos de poder, eu tinha absoluta vantagem. Se no
fosse por...
        Devereaux.
Agora foi a vez de o menino pular e ficar com cara de
culpado.
Claude D'Orsay estava ali em p, emoldurado pelo batente da
porta, vestindo calas de l, suter de casimira e casaco de
tweed. Os cabelos do mago eram escuros e cortados rente. O
rosto era aristocrtico e de traos delicados.
        Senhorita Middleton, que prazer em rev-la. Vejo que j
conheceu o meu filho.
        Sim  respondeu Leesha.  No teria adivinhado pela
aparncia.
        Ele puxou  minha falecida esposa.
D'Orsay entrou na sala e estendeu a mo para Leesha. O
aperto dele era frio e seco, com a ferroada eltrica
caracterstica dos magos.
        No me disse que vinha algum hoje, pai.  Devereaux
ainda parecia chateado.  Como  que eu ia saber quem ela
?
        Eu s fiquei sabendo em cima da hora, Dev  respondeu
D'Orsay.  A senhorita Middleton requisitou um encontro.
 Ele estudou Leesha com um olhar avaliador.
        Creio que a ltima vez que nos encontramos foi aqui, na
Ravina do Corvo, no ltimo torneio.
        Aquilo foi um desastre  disse Leesha com franqueza.
D'Orsay no discordou, mas inclinou a cabea em direo ao
balco.
        Gostaria de beber alguma coisa?
        No, obrigada  respondeu Leesha, perguntando-se
quantas vezes mais ela teria de recusar bebidas antes de sair.
D'Orsay gesticulou em direo a uma das duas poltronas
junto  lareira.
        Por favor, sente-se. Fique  vontade.
Leesha se sentou, embora no se sentisse exatamente 
vontade, e D'Orsay se sentou em frente a ela. Devereaux
ficou em p, apoiado na lareira, claramente com a inteno
de escutar, e talvez de participar.
Leesha fez um gesto de cabea na direo de Devereaux e
arqueou uma sobrancelha.
        O Dev pode ficar. Prezo a opinio dele  disse D'Orsay,
antes de fazer uma pausa.  Ento est aqui representando
Jessamine Longbranch?
        Por que acha isso?
        Creio que estava trabalhando para ela no ano passado
quando... ahn... trouxe aqueles dois jovens para c como
refns durante o ltimo torneio. Amigos daquele bizarro
guerreiro mestio que ela criou, Jack Swift. Aquilo foi um
desastre.
        Deve ter parecido uma boa idia na poca  disse Leesha.
 De qualquer forma, no trabalho mais para ela.
        Ah, sim. Acho que ouvi falar que se aliou a mercadores?
Imagino que Jessamine no tenha aprovado.
Leesha examinou as unhas.
        No se pode acreditar em tudo o que se ouve.
        Mas est trabalhando com algum.
        Ah, sim.
        Quem?
        O meu scio quer se manter annimo at que tenhamos
certeza de que podemos fazer negcios.
D'Orsay se recostou na poltrona e sorriu como um gato com
um pssaro entre as patas.
        Ns podemos ser bastante persuasivos.
O corao de Leesha deu um pulo, mas ela conseguiu manter
a voz firme.
        O meu scio no apreciaria se algo de ruim me
acontecesse.
        Trouxe o documento?
        Eu pareo idiota ou o qu?
D'Orsay deu de ombros.
        Nunca se pode julgar pelas aparncias. Onde ele est
agora?
        O senhor deveria estar pensando em que tipo de acordo
est disposto a fazer.
        Eu poderia oferecer trocar voc pelo Pacto.
Leesha suspirou. Tateou dentro da bolsa  procura do
estojinho de maquiagem e reaplicou o batom, tentando
manter a mo firme. Ganhando tempo.
        Sou apenas a assistente contratada, entende? Posso ser
substituda. Mas o meu scio poderia se aborrecer a ponto de
decidir vender o documento para outra pessoa.
        Ningum mais ia querer.
        Por favor. Sou mercadora. Sei quem quer o qu. As Rosas
querem destru-lo porque ele tira o poder das mos delas e
coloca nas suas. As subordens querem destru-lo porque ele
as mantm subservientes aos magos. O senhor quer
consagr-lo e coloc-lo em vigor. Aposto que a gente
poderia ter um leilo a trs.
D'Orsay levantou a mo.
        Duvido que isso seja necessrio.
Ele sorriu, como se reconhecendo a derrota. Era charmoso,
no havia dvida. E de boa aparncia para algum to velho.
D'Orsay se levantou, ps outro pedao de lenha no fogo e
voltou para a poltrona, sem pressa.
        O seu scio lhe deu permisso para negociar a venda? 
perguntou ele.
        Deu.
        Ento presumo que ele tenha lhe contado que oferta ele
estaria disposto a aceitar?
        Contou.
        E ento?
        Ele quer ser includo.
D'Orsay arregaou as mangas.
        O que voc est dizendo?
        O novo Pacto afirma que todas as ordens mgicas,
inclusive as Casas dos Magos, sero governadas pelo senhor,
por Gregory Leicester e pelos herdeiros dos dois. O Leicester
est morto e no tem herdeiros de sangue. O meu scio quer
ser nomeado herdeiro legal do Gregory Leicester e, dessa
forma, co-governante das ordens.
        O seu scio est louco  disse D'Orsay com um sorriso.
Leesha respirou fundo, amaldioando o dia em que se
envolvera naquilo.
        Esse  o preo.  pegar ou largar.
        Quem ele pensa que ? Acha realmente que eu o aceitaria
como um scio com igualdade de direitos? O Leicester e eu
trabalhamos nesse projeto por anos.
        Veja por este ngulo: o que o senhor pode oferecer que as
Rosas no podem? Tenho certeza de que elas podem
conseguir mais dinheiro do que o senhor, se todos
contriburem. Alm do mais, se elas destrurem o Pacto,
ento o meu scio no tem que se preocupar em viver sob o
seu domnio, o que, tendo lido o documento, parece
arriscado. A nica maneira de acalmar os nimos dele 
deixar que ele seja includo como um igual.
D'Orsay pressionou as pontas dos dedos umas contra as
outras.
        Se eu soubesse com quem estou lidando, se tivesse certeza
de que seramos compatveis...
"Se soubesse se ele seria fcil de matar", pensou Leesha.
"Sem dvida ambos os scios contratariam assassinos antes
que a tinta no acordo secasse. Com alguma sorte, matariam
um ao outro."
        Essa  minha herana tambm  disse Devereaux,
inclinando-se para a frente.  Vamos lev-la para o poro.
Podemos fazer com que ela nos diga o que queremos.
"Fique longe de mim, seu pestinha miservel", pensou
Leesha, o suor escorrendo-lhe entre os ombros. Ela olhou
ostensivamente para o relgio.
        Deixe que eu trate disso, Dev  disse D'Orsay. O mago
massageou a testa, como se doesse; ento se voltou para
Leesha.  Quem sabe possamos negociar uma venda
privada, voc e eu.
Leesha considerou a hiptese. Na verdade, ela a havia
considerado muito antes de entrar na Ravina.
        Eu no tenho o documento original, na verdade.
        Talvez voc possa obt-lo.
        Isso seria... difcil.
Impossvel, na realidade, com as coisas do jeito que estavam,
mas ela no contaria isso a ele.
        O seu scio poderia sofrer um acidente.
Leesha gostou bastante da idia.
        Ele poderia, mas eu no posso estar ligada a isso de
maneira alguma. Alm disso, teria de ser um acidente
absolutamente... humm... permanente. Se entende o que
quero dizer.
        Ah.  D'Orsay sorriu.  Voc seria capaz de armar uma
ocasio favorvel, no?
        Talvez.
        E o que iria querer em troca?
Aquilo seria o bastante. Livrar-se de Warren Barber. Livrar-
se de todo aquele negcio. Mas no seria apropriado para
uma maga dizer aquilo.
        Oh, no sei. Dinheiro  bom. Ou talvez eu queira ser
includa tambm  acrescentou ela. Eles j deviam estar
esperando por isso,  claro.
D'Orsay sorriu de novo.
        Muito bem, ento. Acho que podemos chegar a um
acordo.  O que significava que eles esfaqueariam as costas
um do outro assim que pudessem.  Mas me diga, como o
seu chefe conseguiu o documento? Como um comprador
ocasional de antigidades e arte, sei que a provenincia de
uma pea diz muito sobre a sua autenticidade.
Leesha revirou os olhos.
        Isso seria uma pista muito grande.
O sorriso de D'Orsay desapareceu.
        No pode haver acordo entre ns sem um nome.
        E se ele descobrir que eu contei a voc?
        Minha querida jovem, ele no vai descobrir por mim. Isso
no seria do meu interesse. No posso ir atrs do seu scio se
no sei quem ele , no?
Leesha respirou fundo e resistiu  tentao de tocar na
gargantilha de novo.
         o Warren Barber.
D'Orsay arqueou as sobrancelhas, ctico.
        Quem?
        Warren Barber  repetiu ela.
As sobrancelhas continuaram levantadas.
        E quem, se me permite perguntar,  esse?
"Acho que o velho Warren no pertence ao seu crculo
social", pensou Leesha. "Nem ao meu." Ela estremeceu,
depois transformou o movimento num dar de ombros.
        Ele era um dos alunos do Leicester no Porto Seguro.
Chamado s vezes de Aranha.
        A... Aranha.  D'Orsay bateu no queixo com o elegante
dedo indicador, parecendo divertir-se.  Est me dizendo
que todo esse esquema foi organizado por adolescentes?
        Bem, sem querer ofender, mas os velhos no parecem
estar se saindo muito bem.
        Talvez no.  D'Orsay inclinou a cabea, condescen-
dente.  Mas nunca ouvi falar desse Barber.
        Ele faz muralhas Weir. Dizem que foi ele quem teceu o
muro ao redor da penso em Second Sister para impedir que
as ordens escapassem antes que o Pacto fosse assinado.
Leesha no estivera l, por sorte, mas ouvira tudo a respeito.
        Entendo.  Os olhos de D'Orsay brilharam.  Ento ele
deve ser aquele que fracassou, que deixou o McCauley, o
Haley e a garota entrarem no salo.
Barber no havia mencionado aquilo. Certo...
        De qualquer forma, quando ele viu o que estava
acontecendo, quando o McCauley apareceu e o Leicester foi
morto, o Barber roubou o documento.
        Que... astucioso.  D'Orsay suspirou, como se estivesse
lamentando a falsidade humana.  E ento... Que tipo de
documento satisfaria o jovem senhor Barber?
        Tenho algo comigo.  Leesha tirou uma pasta de seu
portflio.  Este documento atesta que, para os propsitos
do Pacto, o meu scio, nomeado a seguir,  o herdeiro do
Gregory Leicester e assume todos os privilgios e direitos,
bl, bl, bl.  Ela passou a pasta para D'Orsay.  Uma vez
que seja assinado e passe pelo devido processo, o... ahn...
Pacto revisado estar disponvel para a consagrao na ravina
diante da pedra Weir.
Naturalmente, os detalhes daquilo eram bastante vagos.
Uma expresso peculiar passou pelo rosto de D'Orsay.
Seguida por um olhar calculista.
        Ah, sim. A pedra Weir.
        Algum problema?
        Bem, pode ser que haja. Tivemos um intruso na ravina
algumas noites atrs.  D'Orsay deu um sorriso sem graa.
 Ele atacou o meu filho, e creio que possa ter levado algo
importante.
Leesha olhou de relance para o rosto ferido de Devereaux.
        O que o faz pensar isso?
        A pedra Weir perdeu o brilho. Na verdade, parece estar...
apagada.
Leesha estremeceu, reagindo como qualquer mago racional
ante uma ameaa  sua herana de magia.
        O que acha que isso significa?
         difcil dizer o que significa em termos da consagrao do
Pacto. As Rosas e os rebeldes presumem que ns o temos.
Talvez esse tenha sido o objetivo da invaso: tornar
impossvel para ns colocar o Pacto em vigor.
        Mas isso arruinaria tudo!
        Precisamente. Por isso, agora que os nossos interesses
coincidem to de perto, talvez possamos pedir ao senhor
Barber que contribua para o sucesso dessa empreitada de
uma forma concreta.
Ela no entendera nada que ele dissera depois da palavra
precisamente.
        Como  que ?
        Como um ato de boa-f, peo que voc e o seu scio
tragam aqui o criminoso, vivo, junto com o que quer que ele
tenha levado.
Oh, que maravilha. Ela sabia quem ia ficar com aquela
misso.
        Como... como  que o Barber vai encontrar essa pessoa,
quando ns nem sabemos com certeza se ele levou alguma
coisa?  perguntou Leesha, irritada.
D'Orsay sorriu.
        Podemos ajudar nisso. Sabemos agora quem foi e temos
alguma idia do que est faltando.
        Por que a gente deveria sair caando o seu ladro?
D'Orsay balanou os papis sob o nariz de Leesha.
        Assim que eu assinar isto, o Barber ter tanto interesse em
ver o Pacto consagrado quanto eu. Mas estou um tanto
quanto preso aqui. Se eu deixar a Ravina do Corvo, as Rosas
cairo em cima de mim antes que eu consiga sair da
Cmbria. E, na minha ausncia, elas poderiam assumir o
controle da ravina. O que, mais uma vez, seria
inconveniente, se quisermos ter acesso  pedra Weir. O
Barber, por outro lado, pode seguir esse Jason Haley at os
Estados Unidos e...
        Quem  Jason Haley?  interrompeu Leesha.  Nunca
ouvi falar dele.
D'Orsay se levantou e foi at a escrivaninha, selecionando
uma pasta de uma pilha. Retirou uma imagem colorida,
voltou e entregou-a para Leesha.
        Dev no teve nenhum problema para identific-lo a partir
do nosso banco de dados de rebeldes e encrenqueiros.
Para a surpresa de Leesha, Jason Haley parecia ser um rapaz
da idade dela, vestindo jeans e bluso, com brilhantes olhos
azuis e um sorriso sarcstico.
        Ele no deve representar nenhuma dificuldade para
algum como Barber. Pelo que descobrimos,  um agente
secundrio e um reles ladro...
        Que conseguiu entrar aqui e roubar algo debaixo do seu
nariz.
D'Orsay assentiu com a cabea.
        Verdade. E ele tambm  o rapaz que se juntou ao
McCauley no ataque em Second Sister. Ele se alinhou com a
ral em Trinity.
        Ral como o Leander Hastings e o Nicodemus
Snowbeard? Deles eu ouvi falar. Prefiro no cruzar o
caminho deles de novo.
Oh, Deus, essa no. Os ex-scios dela ainda estavam
enterrados sob o estacionamento do Colgio de Trinity.
        Esse  o campo em que estamos jogando, minha querida.
Leesha suspirou.
        Acha que ele foi para Trinity?
        Suspeito que sim.
Pessoas demais a conheciam em Trinity.
        O que foi que o Haley levou?
Devereaux abriu a boca para falar, mas D'Orsay o
interrompeu.
        Acreditamos que seja uma pedra seja de algum tipo,
pequena o bastante para caber nas suas mos, com um
centro flamejante. Intil sozinha, acreditamos, mas, de
alguma forma, aqui na ravina...  disse D'Orsay, dando de
ombros.
"Aquilo no seria fcil de encontrar", mesmo em Trinity,
pensou Leesha, desolada.
        Pois  isso  disse D'Orsay animadamente.  Mande o
Barber atrs do Jason Haley. Talvez eles se matem um ao
outro e voc possa recuperar a pedra. Enquanto isso,
mantenha-me informado sobre o paradeiro do Barber, ns
vamos procurar uma oportunidade para elimin-lo. Estamos
de acordo?
        Isso depende. Vai assinar o documento ou no? 
perguntou Leesha, de mau humor. Estava cansada de ser
escrava de todo mundo.  Tenho que levar alguma coisa de
volta para o Barber.
D'Orsay foi at a escrivaninha, retirou uma caneta da gaveta
e assinou a papelada com um floreio, rabiscando um adendo
nas margens. Entregou o documento a Leesha.
        Vou mandar o seu motorista vir busc-la, ento. Espero
que tenhamos uma relao longa e prspera. Presumindo
que voc ou o Barber tragam Jason Haley e o Pacto, vamos
nos ver mais vezes.
Depois que a garota saiu, Dev foi at a prateleira junto 
lareira e pegou o livro que Haley havia deixado cair na neve.
Era pesado; Dev teve de fazer fora para ergu-lo. Sentou-se
no degrau da lareira e comeou a folhear as pginas. Os dois
o haviam lido duas ou trs vezes, debatendo a respeito de
seu significado.
Dev comeou a ler em voz alta, a cabea loira ainda
inclinada sobre o livro.
        Enterrarei a pedra do Corao do Drago na montanha
com todas as protees que posso fornecer, na esperana de
que o acaso a coloque sob a posse de algum com o corao
e o desejo de libertar todo o seu poder. Essa pessoa obter
controle sobre os dons ofertados. Essa pessoa reinar mais
uma vez sobre as ordens. Ou as destruir, como merecem.
Ele ergueu os olhos para D'Orsay.
        Ento voc acha que Haley levou o Corao do Drago.
        Acho que sim, Dev.
D'Orsay sentia-se definitivamente trado. Se Haley en-
controu aquela coisa chamada Corao do Drago na ravina,
onde a encontrou? E como a encontrou to rpido? Aquelas
eram as terras ancestrais de D'Orsay, afinal. Estavam na
famlia desde... bem... desde que a propriedade era chamada
de Ravina do Drago. Se havia artefatos mgicos no vale, eles
pertenciam a ele e aos herdeiros dele.
Dev ps o pesado livro de lado, levantou-se e andou de um
lado para o outro, agitado.
        Eu devia ter prendido o invasor. Deixei ele escapar.
        Dev, ele  um perigoso bandido. Veja s o que ele fez
com o seu rosto.
Era verdade. Jason Haley era pouco mais que um vagabundo
de pouco poder com o talento da iluso, mas ele, Hastings e
McCauley j haviam derrotado uma conspirao que levara
anos para ser planejada.
A cena em Second Sister passou novamente pela cabea de
D'Orsay, como o trailer em constante repetio de um
filme ruim. Ele bloqueou as cenas, separou e avaliou os
atores na tela.
Ele e Leicester haviam engendrado uma reunio de todas as
ordens mgicas e do Conselho de Magos na ilha de Second
Sister. Os magos escravos de Leicester haviam imobilizado a
todos na sala. Eles haviam forado as ordens e o Conselho a
assinar o Pacto que nomeava Leicester e D'Orsay
governantes das ordens. At a tudo transcorrera conforme o
plano.
Haley e McCauley deviam estar escondidos na sala o tempo
todo. O drago falso de Haley aparecera de repente, um
glamour de nove metros de altura que fascinara e distrara
todos os magos no salo enquanto McCauley abria fogo
contra Leicester. Leicester atrara McCauley para campo
aberto. E ento algo acontecera.
Uma garota aparecera do nada, uma garota com o nome
peculiar de Madison Moss. Como ela fora parar em Second
Sister, D'Orsay no fazia idia. Quando Leicester atacara
McCauley, a garota se colocara na frente dele e recebera o
golpe. Leicester cara, e seus escravos magos haviam cado
com ele. E Haley e McCauley o mataram.
Quem era aquela garota? Ela no era de nenhuma das
grandes famlias, ou ele a teria reconhecido. Ele havia feito
uma busca nas genealogias on-line, os agentes dele
investigaram tudo. At onde sabiam, ela no era ningum.
Parando junto  lareira, D'Orsay apanhou o atiador com os
emblemas das Rosas e enfiou-o entre as chamas. A lenha se
desfez em cinzas, e fascas esvoaaram.
Devereaux falou, arrancando-o de seu devaneio.
 No entendo por que est negociando com eles, pai.
Esse Barber parece um ladro comum. E a gente no quer
que ele pegue o Corao do Drago.
        H um ditado, Dev:  preciso um ladro para capturar
outro. Alm disso, o que eu disse  verdade. Seria difcil para
mim sair da ravina para ir atrs de Haley, e no quero
envolver mais ningum.
        Eu podia ir. Foi por minha culpa que o Haley escapou.
D'Orsay deu um tapinha afetuoso no ombro de Dev.
        Os meus inimigos ficariam igualmente felizes de capturar
voc. Daria a eles poder de barganha.
Dev fechou a cara e cerrou os punhos, uma postura que
adotava com freqncia desde a infncia.
        Eu sei me proteger.
        Voc  um prodgio, Devereaux, mas acho que  um
pouco jovem demais para enfrentar as Rosas.
D'Orsay decidiu no mencionar Jason Haley, que j dera
uma surra em Dev. Dev estava apenas comeando a
recuperar a autoconfiana.
        Essa garota, a tal Alicia Middleton,  bem bonita.
        No v se apaixonar por ela. Alicia Middleton  o tipo de
garota capaz de devorar voc vivo.
        Mas voc est negociando com ela.
        Por enquanto, Dev. Por enquanto. Vamos torcer para que
ela traia o Warren Barber e nos traga o Corao do Drago.
Suspeito que vai ser mais fcil lidar com ela do que com ele.
D'Orsay sorriu e afagou o cabelo de Dev, que recuou, com a
costumeira expresso carrancuda no rosto.
D'Orsay suspirou.
        Voc precisa sair mais, Dev. Fazer amigos. Receio que isso
seja minha culpa. No quero que nada acontea a voc.
        Acha mesmo que o Haley  um ladrozinho insignifi-
cante?
D'Orsay parou para pensar antes de responder.
        No tenho certeza se o Haley  muito esperto ou muito
sortudo. Ele se meteu no meu caminho vezes demais para
ser medocre. Se tivermos sorte, a jovem senhorita
Middleton e o Barber vo dar um jeito nele. Ou ele vai se
livrar deles, o que no seria de todo mau. Exceto que isso
nos deixa sem o Pacto e sem uma pedra Weir que funcione.
        Voc no sabe se tem mesmo algo de errado com ela.
Quer dizer, s porque est escura, isso no...
        Voc no sente?
D'Orsay crescera com a pedra, situada bem ali em suas terras
ancestrais. Durante toda a sua vida, ela fora como um m
que atraa os polos do seu corao. O chamado da pedra
Weir representava o lar para ele e, naquele momento, o
chamado era muito fraco.

Captulo Cinco
Na Igreja

O som  um tamborilar leve e persistente, como se algo
estivesse bicando o seu crnio  perturbou Madison. Em
seguida veio a sensao de asfixia.
Ela abriu os olhos, estreitando-os para se proteger da forte
luz da lmpada. O volumoso livro Artes das civilizaes
orientais estava aberto sobre seu peito, o que explicava por
que no conseguia respirar. Adormecera estudando
novamente.
Empurrou o livro pesado para o lado e se sentou. O relgio
na mesa de cabeceira marcava duas horas e 48 minutos. A
prova seria dali a menos de dez horas.
Escutou as batidas de novo. Afastando a colcha, deslizou
para fora da cama vitoriana, os ps descalos ressoando no
piso de madeira. Ela estremeceu de frio sob a camisola de
algodo. A penso Lendas era muito bonita, mas, como a
maioria das construes vitorianas, no era bem protegida do
frio, especialmente no segundo andar.
Ela foi at a porta, soltou a corrente e a abriu. E se viu numa
emboscada.
Era Seph McCauley, a neve polvilhando-lhe a jaqueta e
cintilando em seus cabelos, cheirando a ar fresco e magia. O
corao dela disparou no peito, como se quisesse escapar.
        Oh.
        Oi, Maddie  disse ele suavemente, entrando e fechando
a porta.  Me desculpe. Estava dormindo?  acrescentou,
sorrindo e olhando-a de cima a baixo.
        Sabe que horas so?  resmungou ela, forando os dedos
pelos cabelos embaraados. Fazia trs dias que no o via (no
que houvesse contado), e agora que ele aparecera, ela estava
mal-humorada e com olheiras.  A Rachel vai esfolar voc
vivo se o encontrar aqui a esta hora.
        Ora, acho que ela no vai notar  disse ele, tocando o
amuleto que lhe pendia do pescoo.  Voc est tremendo.
Ele apanhou o xale dela do p da cama e cobriu os ombros
dela, puxando-a para si como se ela fosse um peixe numa
rede. Quando estavam apenas a alguns centmetros um do
outro, ela se libertou, embrulhando-se no xale para se
proteger.
Ele desviou o olhar e enfiou as mos nos bolsos, um leve
suspiro revelando sua frustrao. No estava acostumado a
ser rejeitado. Ele no entendia  nunca entenderia, se ela
pudesse evitar. A maioria dos garotos desistia aps uma ou
duas tentativas. Mas Seph era persistente, e ela no sabia por
quanto tempo conseguiria mant-lo  distncia.
        O que est fazendo aqui?  indagou Madison, e sua
prpria frustrao aliava sua lngua. No era tanto a hora da
apario dele que a surpreendia, mas o fato de que ele estava
l. Aquelas eram as horas preferidas de Seph. Ele era um
garoto da cidade, que ficava mais animado  noite.  Quem
est tomando conta da barreira?
        O Nick  o encarregado esta noite. V se vestir. Vamos
sair.
        So trs da manh  protestou ela.  Tenho uma prova
aman... hoje.
        Vai ser algo rpido. O Jason voltou.
Madison parou de mexer no cabelo e fitou Seph.
        Por que ele voltou? Pensei que tivesse se mandado de vez.
Quer dizer, ele largou a escola e tudo...
        Ele trouxe algumas coisas da Gr-Bretanha para que sejam
guardadas em segurana. Querem que nos encontremos com
ele para darmos uma olhada. Por favor, venha.
Seph olhou-a nos olhos, como se procurasse sinais que lhe
dessem esperana.
Madison hesitou. Sabia muito bem que ela no tinha
utilidade alguma no que dizia respeito  magia. Mas aquilo
parecia seguro o bastante, e era difcil dizer no a Seph, por
motivos que no tinham nada a ver com magia. Alm do
mais, no podia deixar de se perguntar o que havia trazido
Jason de volta.
        Est bem. Mas no posso ficar muito tempo.
Apanhando as roupas que estavam na cadeira ao lado da
cama, ela as levou para o minsculo banheiro e trancou a
porta. Despindo a camisola, vestiu os jeans e em seguida uma
blusa, meias grossas e as botas vermelhas. Era a armadura
para a batalha pessoal que enfrentaria.
Quando saiu, o telefone tocou, alto e estridente na penso
silenciosa. Madison ignorou-o, vestindo o casaco e
enrolando no pescoo um xale feito  mo.
        No vai atender?  perguntou Seph, apontando para o
telefone.
        Vai cair na secretria.  a mame. Ela  a nica alm de
voc que me telefona no meio da noite.
A secretria foi acionada.
        Voc ligou para Maddie Moss. Deixe a sua mensagem.
Eles ouviram um bip e depois a voz da me, rouca devido
aos cigarros.
        Filhinha, sei que voc est a. Preciso falar com voc. 
sobre a Grace e o John Robert. Atenda o telefone!  Houve
uma longa pausa.  Muito bem. V para o inferno!  gritou
ela, e bateu o telefone.
Madison enfiou o chapu de abas na cabea.
        Vamos.
        Por que no quer falar com ela?  indagou Seph,
enquanto atravessavam o corredor escuro e desciam as
escadas.
Madison ps um dedo sobre os lbios.
        Psiu. Eu falo com ela. S que no toda vez que ela liga.
Saram pela porta da frente, atravessaram a varanda e foram
na direo de Lakeside. Estava bem frio, apesar da
proximidade do lago. A neve se esmigalhava sob os ps deles
como cacos de vidro.
        O que ela quer?  perguntou Seph.  A sua me, quero
dizer.
        Quer que eu volte pra casa e tome conta do meu irmo e
da minha irm. Ela precisa de uma bab e... adivinhe! Ela no
consegue encontrar ningum mais que trabalhe de graa e
nas horas que ela quer, e que esteja disponvel a qualquer
hora.
Seph olhou para ela, incrdulo.
        Mas voc est na escola. Ela sabe disso, certo?
Aquilo era to distante da experincia de Seph que ele no
poderia entender mesmo.
        Ela sabe disso, mas no se importa muito. Ela entenderia
se eu estivesse estudando higiene dental ou computao.
Mas eu poderia fazer isso na faculdade da minha cidade,
onde eles do cursos tcnicos de dois anos. Na opinio dela,
j sei pintar quadros bonitos. Eu sempre ganho o prmio na
feira do condado.  Madison deu de ombros.  Pode ser
tambm que ela queira dinheiro.
        Mas voc no ganha tanto assim  retrucou Seph,
empregando o maior eufemismo do ano.
Segurando-a pelo cotovelo, ele a guiou para o sul, entrando
na rua da igreja. Aos poucos, ela relaxou. Parecia que estava
tudo bem. Ela no conseguia sentir o calor dele atravs das
trs camadas de l.
        Mame sabe que estou morando com a Rachel de graa. O
que ela no entende  que os meus livros custam 150 dlares
cada um.
Madison queria mudar de assunto. Ela no era como Carlene,
que estava sempre pronta a se mudar para Las Vegas ou
Paris, ou entrar para um conjunto country, e que de algum
modo acreditava em todas as histrias que contava. Madison
no fingia ter um tipo diferente de famlia. No podia fingir
que as coisas algum dia dariam certo entre ela e Seph. Mas
isso no significava que quisesse falar a respeito.
        Onde vamos nos encontrar com o Jason?  perguntou
Madison, sabendo que nada estava aberto em Trinity, Ohio,
s trs da manh numa tera-feira.
        Na Saint Catherine.
Madison tropeou, e Seph a segurou habilmente pela 
cintura. Ela se soltou num instante, ao sentir o calor dos 
dedos de Seph atravs do casaco e a reao do poder 
malfico que se instalara dentro dela.
        Vamos nos encontrar com ele numa igreja no meio da 
noite? Quem escolheu esse lugar?
        O Jason.  Seph deu de ombros.  No sei o motivo, 
mas acho que vamos descobrir.
Seph ia  missa na Igreja de St. Catherine regularmente. Ele 
usava uma cruz celta numa corrente ao redor do pescoo, 
junto com a dyrne sefa. A f catlica era a rocha sobre a qual 
ele se firmara ao longo de uma vida solitria.
"Eu gostaria de acreditar em alguma coisa", pensou Madison. 
"Gostaria de me sentir em casa em algum lugar."
A igreja se erguia entre rvores altas num campus que 
inclua as escolas catlicas, primria e secundria, alm de 
um pequeno cemitrio. Seph tinha as chaves da porta lateral 
da igreja.
O interior da igreja estava frio e escuro, iluminado apenas 
por candeeiros junto s paredes. A luz que normalmente 
entrava pelas grandes janelas no surgiria por horas ainda. 
Madison estremeceu quando algo se moveu nas sombras 
junto ao altar. Duas figuras altas se materializaram e vieram 
na direo deles. Jack e Ellen.
        O Jason j chegou?  indagou Seph.
Eles balanaram a cabea.
        Espero que ele chegue logo  disse Ellen.
Ellen bocejou e se sentou em um dos bancos, levantando os 
joelhos e aninhando a cabea nos braos. Diferentemente da 
maioria das garotas na idade dela, Ellen sempre parecia 
totalmente  vontade com o prprio corpo. Madison fitou as 
prprias mos traidoras.
Uma rstia de luz se projetou na nave quando a porta lateral 
se abriu e fechou. Uma onda de poder passou por Madison 
antes que o intruso falasse.
        Amigo ou inimigo?  sussurrou algum.  Weir ou 
Anaweir?
Era Jason.
Ele avanou para a luz, vestindo apenas uma jaqueta de 
couro para se proteger do frio intenso. Carregava uma bolsa 
de viagem, mais uma mochila pendurada num ombro e uma 
sacola de golfe no outro. Ele sorria, aquele sorriso que 
sempre tinha algo de cortante, como se ele no confiasse no 
mundo ou em si mesmo.
O poder jorrava dele como de uma fonte, com uma inten-
sidade que Madison jamais vira em Jason, contrastando com 
a aparncia exausta e desalinhada devido  viagem. Havia 
crculos negros sob os olhos azuis, e o rosto estava coberto 
por um incio irregular de barba.
        Como esto as coisas na Inglaterra?  perguntou Jack.  
Visitou alguns dos nossos amigos da Ravina do Corvo?
A cabea de Jason se ergueu de sbito, mas ele se acalmou e 
abriu um meio sorriso.
        Que nada. Quem sabe da prxima vez.
        Como est o meu pai?  perguntou Seph.
        O seu velho est bem  respondeu Jason, mexendo na 
fivela da mochila.  Encontrei com ele em Londres dois 
dias atrs.
        O que tem na bolsa?  perguntou Jack, olhando com 
curiosidade para a sacola de golfe.
        Voc deixou todos ns intrigados  disse Madison com 
voz arrastada.
        A mim mais do que a todos.  Nick Snowbeard apareceu 
detrs do altar, apoiando-se pesadamente na bengala.  O 
que deveria ser bvio, pelo simples fato de que estou aqui. 
Os velhos no esto acostumados a perambular por a no 
meio da noite.
Madison observou Nick, surpresa. Seph havia dito que era 
Snowbeard que estava mantendo a barreira, entretanto o 
velho mago era ainda capaz de funcionar. Seph ficava 
sempre visivelmente perturbado, quase sem foras, quando 
estava cumprindo aquela funo.
Jason depositou a sacola de golfe no cho e ajoelhou-se junto 
dela.
        Primeiro, um presente para a Ellen.
Ele abriu o zper da sacola e tirou uma espada numa bainha, 
apresentando-a a ela com ambas as mos, reverentemente, 
como um corteso  sua rainha.
Ellen pestanejou, sem fala, como se ningum jamais lhe 
houvesse dado um presente. Ento ela tomou a espada de 
Jason e sacou-a lentamente da bainha. A lmina iluminou 
toda a nave da igreja com uma luz azul. A parte que mais 
resplandecia era a cruz no punho.
        Talvez no d para saber o que ela pode fazer dentro de 
uma igreja, mas...
Jason silenciou ao ver Ellen se mover, assumindo posies 
de luta com uma expresso feroz e concentrada. A lmina 
zumbia ao cortar o ar, e as velas no altar derretiam e ardiam 
mais altas do que antes. Jack ficou olhando, equilibrando-se 
de leve nas pontas dos ps, o corpo inclinado para a frente, 
os olhos seguindo o arco da espada como uma criana no 
playground, ansiosa para se juntar  brincadeira.
Enfim, Ellen completou a seqncia, as faces coradas, os 
olhos brilhantes. Ela sorriu, deixando que a ponta da espada 
se virasse para o cho. Depois olhou para o crculo de rostos 
em torno, fixando-se no de Jason.
        Cara,  srio? A espada  pra mim?  perguntou ela, 
como se no conseguisse acreditar.  Isto  to... legal  
completou ela, sem saber o que dizer.
        Posso ver a espada, minha querida?
Nick estendeu a mo enrugada. Com relutncia, Ellen 
entregou-lhe a espada. Nick virou-a nas mos, estudando a 
guarda, a lmina de metal em camadas, a cruz que enfeitava 
o punho. O velho mago piscou lentamente, como uma 
coruja pega de surpresa.
        Onde conseguiu isto?  indagou ele a Jason, com um tom 
spero na voz que no lhe era habitual.
        Na Ravina do Corvo. Numa caverna na Cabea do Corvo, 
sob o Dente do Drago. Voc sabe, a pedra Weir.
Nick franziu o cenho.
        Numa caverna sob a pedra Weir? Conheo bem o lugar, e 
no existe nenhuma caverna l hoje em dia.
        Ela se abriu durante um terremoto  explicou Jason.  
Acho que o D'Orsay e os outros tambm no sabem que ela 
est l.
         bem provvel.  Nick encarou-o por um momento, 
com um olhar penetrante.  A caverna est aberta, no 
est?
        Bem, talvez no. Ela meio que desmoronou quando eu sa.
Nick tomou flego, como se quisesse fazer mais perguntas, 
mas em vez disso se virou para Ellen.
        A sua arma disse a voc o nome dela?
Ela assentiu com a cabea.
        Abridora de Caminhos  sussurrou ela, olhando feio para 
os outros em volta, como se eles pudessem contestar.
        Ah. Como pensei  o velho assentiu.  Abridora de 
Caminhos, lavrada por feiticeiros na Ravina do Drago sob o 
comando do drago Aidan Ladhra. Uma das sete grandes 
lminas.  Snowbeard fechou os olhos por um longo 
instante, ento suspirou e abriu-os, passando a espada de 
volta para Ellen.  E apropriado que a Abridora de 
Caminhos lute ao lado da Sombra Assassina nas mos dos 
ltimos herdeiros da ordem dos Guerreiros.
        Talvez no sejamos os ltimos.  Jack parecia no gostar 
da idia de ser o ltimo de uma espcie em extino.  
Podem existir outros dos quais no sabemos.
        Se h  disse Ellen, amarrando a bainha e ajustando-a em 
torno da cintura , eles que encontrem as suas prprias 
espadas.
        Esperem at ver o resto  disse Jason, depositando a 
mochila no banco da frente e abrindo o zper. Ele derramou 
o contedo no assento de madeira desgastada e recuou, 
deixando que os outros se aproximassem. Apenas Ellen ficou 
de lado, acariciando o punho da Abridora de Caminhos, com 
uma expresso distante no rosto.
Madison passou as mos pelas jias. Sempre amara coisas 
brilhantes. Havia peas medievais de ouro e prata, com 
pedras preciosas e semipreciosas: broches, colares, braceletes 
e enfeites de cabelo. Estava louca para desenhar os modelos. 
Ajeitou os cabelos dentro de uma rede de ouro, ps uma 
tiara incrustada de jias na cabea, enfiou trs anis em cada 
mo e admirou o resultado.
        Sempre quis ser uma rainha  disse ela, sonhadora.
As rainhas nunca tinham de se preocupar em ter dinheiro 
para as mensalidades da escola e os livros.
Os olhos dela ficavam se desviando para a mochila que Jason 
deixara sobre um dos bancos. Algo cintilava no fundo da 
mente de Madison, uma luz na escurido, como um quadro 
que ela ainda no houvesse pintado.
Seph reunira uma pilha de objetos  sua frente. Alguns eram 
pedras pretas opacas, absolutamente sem graa, outros eram 
trabalhados em metais preciosos, gravados com desenhos 
misteriosos. Alguns estavam presos a correntes ou 
engastados em jias. Ele os separou com os longos dedos, 
virando-os sob a luz para ler as inscries, murmurando 
palavras mgicas.
Jack experimentou um par de luvas de armadura em metal 
prateado muito leve, estendendo os braos para examinar o 
efeito.
        E tudo isso veio da mesma caverna, presumo?  disse 
Snowbeard.
Jason assentiu.
        Isso no  nem metade do que estava l, mas tentei pegar 
o melhor, at onde pude escolher. Hastings me disse pra 
trazer essas coisas todas aqui e esconder, e no deixar 
ningum saber que esto aqui. Foi por isso que voltei  
disse ele, quase num murmrio ao chegar  ltima parte, 
como se no quisesse diz-la em voz alta.
Madison sentou-se no banco junto  mochila. Esta brilhava, 
pulsando com a magia, e Madison percebeu que o poder que 
parecera emanar de Jason na verdade vinha de dentro dela. 
Antes que soubesse o que estava fazendo, ela a colocou no 
colo, aninhando-a nos braos.
        Ei!  Jason arrancou a mochila das mos dela.  
Cuidado.
Madison ficou envergonhada. No era normalmente uma 
pessoa ambiciosa.
        De-desculpa. Mas, sabe o que ? Ainda tem alguma coisa 
ai dentro  disse ela.  Parece... sei l... importante.
De repente, foi como se todos na igreja houvessem parado 
de falar e se voltado para eles.
        Tem mais alguma coisa ou no, Jason?  indagou Nick em 
meio ao silncio.
O rosto de Jason endureceu e os olhos se estreitaram, como 
se fosse se recusar a responder. Ele olhou de Nick para 
Madison, depois suspirou e remexeu no bolso da frente da 
mochila. Tirou uma bolsa de veludo coberta de smbolos em 
fios mais escuros.
         um tipo de sefa  disse ele, dando de ombros.  Eu... 
ah... escolhi esta para mim.
Ele a passou para Nick. O velho segurou a bolsa nas duas 
mos, como se pudesse discernir-lhe a essncia apenas pelo 
toque.
        Isto  muito antigo  disse ele, pensativo.  E, no en-
tanto, de alguma maneira  tambm novo. Familiar, mas 
estranho. Tem um potencial de poder que  impressionante, 
mas que no se manifestou ainda completamente. Algo que 
nunca encontrei antes.
Ele abriu a bolsa e tirou uma grande pedra levemente 
ovide. Todos se agruparam em torno, como planetas ao 
redor de um novo sol.
        Mre de Dieu  murmurou Seph. Ele sempre voltava a 
falar francs quando dominado pela emoo.  O que  
isso?
        Acho que se chama Corao do Drago  respondeu 
Jason, com os olhos na pedra, e ento fechou a boca, como 
se houvesse falado demais.
Nick ergueu a cabea.
        Corao do Drago? Mesmo? Por que acha isso?
        Havia um livro na caverna. Eu li um pouco dele. Falava de 
uma pedra assim. Chamada Corao do Drago.
        Voc est com o livro?  perguntou Nick, os olhos 
negros brilhando de interesse.
Jason balanou a cabea.
        No, eu... ah... perdi quando estava saindo de l.
        O que mais dizia sobre a pedra?  perguntou Nick, em 
tom bem mais enftico.
        No me lembro exatamente  disse Jason, mal-
humorado.  Algo sobre tomar o controle das ordens 
mgicas ou destru-las. Como se fosse uma arma ou algo 
assim. Eu estava meio com pressa.
         uma pena.  Nick esfregou a superfcie da pedra com 
um dedo enrugado.  Mesmo aqui na igreja d para sentir. 
 O brilho da pedra iluminava o rosto do mago, acentuando 
as linhas da idade de forma que ele se parecia com o mais 
velho dos profetas.  A Madison tem razo. Isto  
importante.
        No sei se  importante  disse Jason, evidentemente 
receando que seu achado lhe fosse confiscado.  Mas achei 
que parecia legal.  Mostrou a todos um suporte de metal 
de aparncia perigosa, cheio de arestas afiadas e monstros 
sinuosos.  Isto veio junto.
Madison estava fascinada pela pedra nas mos de Nick. 
Fortes lampejos de azul e verde emergiram quando ele a 
girou, como as escamas de um peixe de cores brilhantes 
vindo  tona num extico mar tropical.
No que ela houvesse algum dia visto um extico mar 
tropical.
Era mais do que a sua costumeira fascinao por objetos 
brilhantes. Ela estava sempre consciente da presena do 
poder  era atrada por ele, na verdade , mas aquela pedra 
assaltava-lhe os sentidos e berrava-lhe nos ouvidos, sendo 
impossvel ignorar.
Tomada por uma onda de desejo, Madison estendeu um 
dedo em direo  pedra. A pedra se acendeu, iluminando a 
igreja inteira, e uma pequena lngua de chamas irrompeu do 
centro para lamber a superfcie, como se procurasse uma 
conexo. Ela recolheu a mo sem fazer contato e recuou um 
passo, agarrando a lateral de um banco para se firmar.
No. Chega. Ela no queria mais nada com aquilo. Tomou 
flego, trmula, ergueu os olhos e viu Jason observando-a.
        Voc est bem?  perguntou ele, pousando uma mo 
possessiva sobre a pedra.
Madison assentiu em silncio.
        Eu gostaria de estudar esses objetos  disse Nick, 
franzindo a testa.  Ajudaria se Mercedes Foster pudesse 
dar uma olhada neles tambm, j que so, em sua maioria, 
trabalhos de feiticeiros. Se bem que, quanto mais pessoas 
souberem disso, mais difcil vai ser guardar o segredo.
Jason concordou com um gesto de cabea.
        Hastings me disse pra esconder essas coisas em algum 
lugar seguro. Por isso eu pensei na igreja, porque, como 
vocs sabem, as igrejas anulam a magia. Talvez essas coisas 
no sejam to bvias para quem esteja procurando por elas. 
O Seph est sempre aqui e tem uma chave, ento ele pode 
entrar e sair fcil, fcil.
        Por qu? Tem algum atrs de voc?  indagou Madison, 
tentando livrar-se da influncia da pedra.  Algum sabe 
sobre isso?
Jason desviou o olhar do dela.
        At onde eu sei, escapei sem deixar pistas.
Alguma coisa dizia a Madison que ele estava mentindo.
        Mas aqui h pessoas o tempo todo  objetou Ellen.  E 
se a gente precisar pegar... pegar essas coisas e estiver no 
meio de uma missa? Alm disso, onde a gente vai esconder 
tudo isso? No d pra simplesmente jogar embaixo de um 
banco.
        Tem a capela funerria  sugeriu Seph.  As pessoas no 
vo l a no ser que haja um funeral, e mesmo assim no vo 
muitos, j que  minscula. Fica l embaixo, junto  cripta. E 
tem uma entrada secreta.
        Tem gente morta nesta igreja?
Madison estremeceu. Preferia que corpos fossem enterrados 
no cemitrio da igreja, para que os espritos pudessem andar 
livres, se quisessem.
Seph assentiu.
        A igreja foi construda pelos presbiterianos, mas foi 
tomada pelos catlicos europeus h mais de 150 anos. Eles 
gostavam de ser enterrados protegidos dos elementos, acho. 
Venham. Tragam as coisas. Eu mostro a capela pra vocs.
Seph guiou-os por uma porta na frente da igreja e desceu um 
lance estreito e mal iluminado de escadas.
A cripta ficava em um dos lados da escada, a capela no outro. 
A capela era grande o bastante apenas para uma famlia se 
reunir com privacidade. Num dos lados, havia uma pedra 
fixada a uma parede, gravada com o nome e as datas de 
nascimento e morte de um certo JAMES MCALISTER 1795 
A 1860.
        Parece um estranho lugar de descanso para um 
presbiteriano, mas McAlister era tambm um dos lderes 
abolicionistas da regio  disse Seph.  Vejam.
Ele empurrou a pedra, e ela girou silenciosamente numa 
dobradia invisvel, revelando uma abertura irregular da 
largura dos ombros de uma pessoa. O ar sibilava por ela, 
trazendo com ele o cheiro de gua e pedra.
        Isto era uma estao na ferrovia subterrnea, a rede de 
rotas clandestinas usadas para a fuga de escravos africanos no 
sculo XIX. H um tnel que corre at o lago. Os escravos 
fugidos se escondiam no poro da igreja, depois 
encontravam barcos na costa e atravessavam at o Canad. 
Nada divertido engatinhar por aqui, agora. Se  que j foi um 
dia.
A cripta abrigava vrias salas com tmulos, a maioria deles 
ocupados havia mais de um sculo. Jack andou pela fileira, 
lendo os nomes nos tmulos metodicamente at encontrar 
aquele que estava procurando.
         este aqui  murmurou ele, apontando para a inscrio. 
 Perfeito.
Madison aproximou-se e leu: Doutor J. THOMAS SWIFT. 
No havia datas.
        Quem  esse?  perguntou ela.
        Esse  o meu pai  respondeu Jack.  Ou melhor, vai 
ser. Esta era a igreja que ele freqentava. No Natal e na 
Pscoa, pelo menos. Ele comprou este lote quando morava 
em Trinity. Antes do divrcio.
Madison olhou para ele, incerta.
        Voc est dizendo que est vazio?
        Sim. Quer dizer, ele ainda est vivo, certo? A menos que 
vocs achem que  bvio demais porque somos parentes, a 
gente pode guardar as coisas aqui.
        E a gente pode pegar de volta quando bem entender, sem 
passar pela igreja principal  acrescentou Seph.  As 
pessoas nunca vm aqui embaixo. A maioria dos que esto 
enterrados aqui morreu uns cem anos atrs.
        Vou guardar o Corao do Drago comigo  sugeriu 
Jason.  A casa do Seph est totalmente protegida, por isso 
deve ser seguro.
"Ele quer a pedra", pensou Madison com cimes, re-
conhecendo a mesma estranha cobia nela mesma. Ser que 
aquilo era como aqueles objetos mgicos das histrias, pelos 
quais as pessoas lutavam e morriam?
        Todos os itens vo ficar mais seguros aqui, na igreja, com 
as protees adequadas  disse Nick, franzindo o cenho 
para Jason.  Mais difcil de achar e mais fcil para todos 
ns examinarmos. Quando soubermos mais, podemos tomar 
uma deciso sobre o seu destino final.
Jason no quis insistir, embora Madison notasse que os olhos 
dele se voltaram para o Corao do Drago quando eles 
abriram o tmulo e esconderam as jias e artefatos l dentro. 
Jason, Seph e Snowbeard combinaram que se encontrariam 
com freqncia para examinar os talisms e amuletos no 
tmulo e fazer experincias com eles. Pareciam quase 
embriagados de otimismo, certos de que o tesouro de Jason 
lhes ofereceria uma vantagem na guerra que todos pareciam 
julgar inevitvel.
Madison estava menos entusiasmada. O Corao do Drago 
ainda cintilava tentadoramente num canto de sua mente  
mais uma coisa que teria de tentar ignorar. A presena 
daquele tesouro em Trinity no fazia com que se sentisse 
mais segura. Na verdade, sentia que Trinity havia se tornado 
um alvo que seria notado, mais cedo ou mais tarde, por 
aqueles que destruiriam tudo o que ela amava.

Captulo Seis
Passagens

Certo", pensou Jason. Jack  o centro das atenes na 
cidade. Estou feliz que no seja eu. 
O pai de Jack, Thomas Swift, havia retornado a Trinity no 
final de janeiro e estava determinado a se exibir para o 
pessoal da cidade dando a festa do ano.
O que diziam nas ruas era que papai havia contratado um 
organizador de festas, que vinha trabalhando no evento 
havia meses. Era como uma festa de debutante para Jack, se 
houvesse esse tipo de festa para rapazes. Thomas havia 
trazido um pequeno grupo de scios de negcios, socialites e 
estudantes de Boston, para que Jack pudesse "estabelecer 
contatos", dissera ele.
A lista de convidados locais no incio tambm era bastante 
exclusiva, mas Jack liberou o acesso para todos ao distribuir 
convites na escola. Na verdade, ele havia implorado a todos 
os amigos para que fossem, para que ele no ficasse sozinho 
em meio a uma multido de adultos e advogados da Costa 
Leste.
O Clube Lakeside era realmente chique  um enorme 
palcio vitoriano com um salo de festas junto ao lago. 
Minsculas luzes enfeitavam a doca e o belvedere, cintilando 
na neve e piscando nas rvores desfolhadas pelo inverno. 
Havia grandes guirlandas sobre as lareiras e folhagens em 
todas as mesas.
Teria sido mais agradvel no vero, quando a festa poderia se 
estender para o terrao junto ao lago e eles poderiam ser um 
pouco menos exigentes em relao aos trajes.
At Hastings havia voltado da Gr-Bretanha para a festa. 
Diversas vezes, no transcorrer da noite, Jason avistou o 
mago passeando pela sala com a deslumbrante Linda 
Downey ao seu lado. Jason tivera esperanas de pux-lo de 
lado para pedir-lhe notcias da Gr-Bretanha, mas o mago e a 
encantadora eram sempre o centro de uma multido.
Jason ficou com pena de Jack. Thomas se movia pelo salo 
como um vendedor de seguro de vida num funeral, 
rebocando consigo o filho relutante. Jack era mais alto do 
que todos os executivos, e seu terno tivera de ser feito sob 
medida, j que nada que viesse de uma loja de confeco 
servia nele. O cabelo estava amarrado atrs, comportado, 
pois ele se recusara a cort-lo para a ocasio.
O lugar estava lotado,  claro  Jack era o garoto mais 
popular da cidade. E a comida era incrvel  camaro e 
tortinhas de caranguejo, torres de frutas e bandejas de 
sobremesas.
Jason enfiou os dedos no colarinho, afrouxando a gravata 
que Linda o havia forado a usar. Ele supunha que o 
espetculo valia o esforo de pr um palet  
temporariamente, pelo menos.
Perambulou at o bar, pensando que talvez este no 
estivesse sendo vigiado, e encontrou Becka Downey e 
Thomas Swift, os pais de Jack, frente a frente, discutindo.
Uma batalha de advogados. Jason se retirou para as sombras, 
mas ainda conseguia ouvir tudo.
        Devo dizer que estou preocupado com o Jack  disse 
Thomas.
         mesmo? Voc mal falou com ele desde o Natal.
        Bom, eu supus que voc estivesse cuidando das coisas. 
Com as notas que tem, ele no deveria ter nenhum 
problema para entrar numa faculdade da Ivy League. Eu me 
ofereci para mexer alguns pauzinhos, se fosse necessrio. E, 
no entanto, ele est seriamente pensando em ir para a 
faculdade de Trinity?
        A Trinity  uma das melhores faculdades de cincias 
humanas no pas. E ele pode freqentar de graa.
Thomas agitou a mo, descartando o de graa.
        Eu disse que financiaria a educao dele. Talvez a 
faculdade em que ele se forme no importe. Mas, franca-
mente, ele parece no ter idia do que quer fazer. Como 
voc sabe, ele precisa pegar firme desde o incio, seno ele 
nunca vai conseguir entrar numa boa escola de direito para 
obter a especializao aps a faculdade.
Becka levantou o queixo.
        Ele disse a voc que quer estudar direito?
Thomas ignorou a pergunta.
        Eu consegui um emprego de vero para ele em uma firma 
em Boston, mas ele diz que prefere ficar por aqui.
Trabalhar nas docas pode ser uma boa quando se est no 
colgio. Agora  hora de ele pensar no futuro. Ele parece at 
um fisiculturista, pelo amor de Deus!
"Pelo menos ningum est brigando pelo meu futuro", 
pensou Jason. Ele voltou para o salo principal, que estava 
cheio de familiares e amigos de Jack, pessoas que Jason no 
conhecia. Ele no nascera e crescera em Trinity. Embora 
estivesse (relutantemente) de volta  escola, preferia a 
companhia de Seph, Jack, Ellen e Madison. Com outros ele 
se sentia um completo estranho.
Conhecera algumas garotas, no entanto. Talvez pudesse fazer 
planos para mais tarde. Ele passou pela mesa do buf e 
encheu um pratinho com doces.
        Esse frio  simplesmente inacreditvel  disse algum 
atrs dele.
Ele se virou. Era uma garota, pequena e bonita, com lbios 
cheios e vermelhos e cascatas de cachos escuros 
derramando-se pelas costas. Ela se comportava como uma 
garota rica. Ou como uma maga. Ou ambas. Ele no se 
lembrava de t-la visto antes.
Ele a estudou com interesse.
        Costuma ser frio aqui no inverno.  o que ouvi dizer.
        Ora,  bvio. Como eu poderia esquecer?
Ela tremia, apesar do suter de gola alta que vestia. Jason no 
era especialista em moda, mas parecia uma estranha escolha 
para uma festa to luxuosa.
        Eu fui aluna do Colgio de Trinity por uns tempos  disse 
a garota.  Mas no me lembro de voc.
Jason se recostou contra a parede.
        Faz menos de um ano que estou aqui.
        Meu nome  Alicia Middleton - disse ela, estendendo a 
mo.  Leesha.
        Jason Haley.
Jason tomou-lhe a mo, sentindo o poder no aperto. Uma 
maga, e bastante poderosa, em comparao com ele. Como 
todos os outros.
Houve uma pausa embaraosa enquanto Leesha sem dvida 
fazia suas prprias comparaes, e ento Jason disse:
        Quer dizer que conhece o Jack da escola?
        Na verdade, fui namorada dele.
         mesmo?  "Hum", pensou Jason. "Jack namorou uma 
maga? Deve ter sido antes da Ellen. Ningum com um 
mnimo de bom-senso tentaria se meter entre aqueles dois." 
 A voc se mudou ou o qu?
        A gente terminou  replicou ela, respondendo  pergunta 
no feita.  A eu me mudei.
        Certo  disse Jason.  Que legal que ainda sejam amigos. 
Quero dizer, que o Jack tenha convidado voc e tudo.
        Oh, ele no me convidou, na verdade  disse Leesha.  
Eu acabei de voltar para a cidade, e vi que a festa era aberta, 
por isso eu vim. Imaginei que ia encontrar um monte de 
gente que conheo.  Ela fez uma pausa, depois foi em 
frente.  Mas acho que as pessoas com quem eu costumava 
andar no esto aqui.
        Isso sempre acontece  disse Jason.
Ela abriu a boca para dizer mais, mas naquele momento seus 
olhos se fixaram em algo atrs dele. Ela ficou plida como 
cera, os olhos arregalados, e deu um passo para trs, uma 
mo na garganta.
        Leesha! Que diabos voc est fazendo aqui?
Jason se virou. Jack Swift aproximava-se deles como uma 
tempestade sobre o lago. Ellen, Will e Fitch vinham logo 
atrs.
        O-oi, Jack.  Leesha continuou a recuar at trombar com 
a parede.  Como vai? Quer dizer, tenha calma, est bem? 
Eu s queria dizer feliz aniversrio. A voz dela se elevou 
at um tipo de guincho assustado quando Jack chegou perto 
demais.
        Ora, por que ser que eu no acredito em voc?  disse 
Jack.  Voc tem muita coragem.
        A garota deve estar a fim de um outro banho de calda 
quente de chocolate  disse Ellen, tambm avanando 
sobre Leesha.
        Ei  disse Jason, colocando-se na frente de Leesha.
        Calma a.
Jack olhou feio para Jason, como se este houvesse perdido a 
cabea.
        Acho que vocs dois no foram devidamente apresen-
tados  rosnou ele.
        Esta  Alicia Middleton, mercadora e maga traidora
        interveio Ellen.  Ela costumava freqentar a escola aqui, 
at que ela e alguns mercadores seqestraram o Jack, para 
vend-lo pelo melhor preo. Para que os magos pudessem 
jogar com ele num torneio.
        A ela raptou a mim e ao Fitch numa estao de trem em 
Carlisle para que a doutora Longbranch pudesse nos usar 
como refns para obrigar o Jack a lutar  acrescentou Will, 
a testa franzida sombreando-lhe o rosto normalmente 
amistoso.
        A nica coisa legal que ela j fez foi terminar com o Jack 
 disse Fitch.  Aquilo foi genial mesmo.
Leesha olhou para as carrancas em torno, repuxando a gola 
do suter como se estivesse sufocando.
        Todos ns j fizemos coisas que gostaramos de esquecer. 
Por exemplo, a Ellen veio pra Trinity para matar o Jack.
        S que eu no tinha nenhuma escolha  resmungou 
Ellen.
Leesha estava realmente encarando um pblico hostil.
        Olha, sei que tomei umas decises ruins.
Ellen revirou os olhos e imitou Leesha, afofando o cabelo e 
murmurando:  Eu sei que tomei umas decises ruins.
        Ento por que est aqui?
Leesha hesitou, mordendo o lbio.
        Bem, as duas Casas de Magos esto furiosas comigo agora. 
Vir para o santurio me pareceu uma boa idia.
        Bem, talvez voc devesse ter pensado nisso antes de fazer 
tantos inimigos  disse Jack, no demonstrando nenhuma 
simpatia.
        Achei que a gente podia, sabe como , ajudar um ao outro 
 insistiu Leesha.  Eu sei algumas coisas sobre as Rosas e 
o D'Orsay...
        Como se a gente pudesse confiar em voc  resmungou 
Ellen.  Como  que a gente vai saber que no est aqui pra 
espionar? Que nem da outra vez?
"Cus", pensou Jason. "D uma folga pra garota."
        Venha  disse ele a Leesha.  Vamos buscar o seu 
casaco e eu acompanho voc at l fora.
Segurando-lhe o cotovelo, ele a guiou at a porta, sentindo o 
olhar irritado de Jack s suas costas.
Leesha entregou o bilhete de estacionamento para o 
manobrista e eles se abrigaram na entrada contra o brutal 
vento noroeste. Junto  costa, o lago estava coberto de gelo. 
Mais adiante, o vento criara uma grande onda. Jason usou 
uma boa parcela de poder para reduzir um pouco o frio.
        Eles no pareceram felizes em me ver  disse Leesha.
Jason deu uma risada sarcstica.
        O que voc esperava?
         s cometer alguns errinhos...  disse Leesha, fazendo 
beio.  Esse  o problema de cidades pequenas: eles nunca 
esquecem nada.
Jason riu. A garota tinha atitude, ele precisava admitir.
        Voc est morando com a sua famlia, ou o qu?  
perguntou ele.
        Com a minha tia-av  disse ela.  Ela  meio surda e 
trs quartos cega. Foi assim que acabei aqui da outra vez. Os 
meus pais so magos, mas so do tipo que esto sempre se 
mudando, sabe? E muito ocupados.  A voz dela foi ficando 
cada vez mais fraca.  Ento, sempre que eles esto 
ocupados, ou que me meto em encrenca, tenho de vir morar 
com a minha tia Millisandra.  tipo o pior castigo que 
conseguem imaginar: me mandar vir morar no Meio-Oeste.
        E  mesmo?
Ela estremeceu.
        Tem coisas piores. Eu no fui expulsa da escola desta vez. 
A Jessamine Longbranch... voc conhece? A mestra de 
guerreiros da Rosa Branca? Foi ela quem planejou inscrever 
o Jack no jogo. Aquele lance com o Jack no colgio... a 
Longbranch tinha me recrutado pra espionar o Jack, mas eu 
meio que agi sozinha. Por isso ela guarda muito rancor pelo 
que fiz. Ela levou algum tempo, porque precisou tratar de 
outros assuntos, mas um dia, quando voltei para casa, 
encontrei dois assassinos me esperando no saguo.
Leesha fitou tristemente o lago congelado.
        E o que aconteceu?  perguntou Jason, tentando in-
centiv-la quando finalmente percebeu que ela no havia 
terminado a histria.
        Bem, eles esto... voc sabe... mortos,  claro  disse ela, 
dando de ombros.
"Ceeeerto", pensou Jason, estudando-a com novo respeito e 
considervel apreenso.
        Mas pode acontecer de novo, e eu no queria ter de ficar 
olhando para todos os lados o tempo todo. Por isso vim pra 
c.
        Quanto tempo vai ficar?
        Enquanto eu agentar, acho. A cidade mudou mesmo. E 
como uma fortaleza. Como  que o santurio funciona, 
afinal? Tem mesmo algum tipo de regra contra a magia de 
ataque?
        Mais do que uma regra  disse Jason, imaginando que 
Leesha no era do tipo que seguia regras.  E aplicada por 
meio de magia. Maldies, magia de ataque,
pragas, sejas de magia negra... qualquer coisa mais forte do 
que persuaso no funciona aqui.
Leesha fitou-o com descrena.
        Srio?
        Srio.
Ela sorriu, pressionando os dedos dentro do colarinho.
        Legal.  Ela se aproximou e fitou-o com olhos arrega-
lados.  Quem controla tudo isso, afinal? Digo, deve ser 
algum com bastante talento.
Ele recuou um passo, lembrando-se de com quem estava 
falando.
        Deve ser. Olha, acho que esse  o seu carro.
Era s um palpite. O manobrista chegara com um Audi TT. 
Jason fez meno de se virar.
Ela segurou-lhe o brao, enviando uma corrente de 
persuaso para cima at o ombro.
        Preciso mesmo ficar aqui.  Ela olhou bem dentro dos 
olhos dele, estudando-o.  Sei que fiz algumas coisas ruins 
no passado, mas as pessoas mudam.
        No  a mim que voc precisa convencer  disse Jason. 
 Talvez voc deva comear com o Jack.
Ela franziu o nariz.
        O Jack est zangado comigo desde que rompi com ele. E 
depois de todo aquele lance com os mercadores, no acho 
que isso v mudar.
        Ento fale com Hastings.
Ela estremeceu.
        Ele  assustador demais, entende?
Ele entendia. Hastings dava a impresso de que conseguia 
enxergar atravs das pessoas. O que poderia ser bom, no que 
se referia a Leesha.
Jason supunha que ela no ficaria no santurio por muito 
tempo se Hastings no a quisesse ali. Mas ser que ele faria 
mesmo com que ela sasse? Especialmente agora que ela no 
podia usar magia de ataque?
Mesmo assim, a persuaso nas mos dela poderia ser uma 
arma forte o bastante, pensou ele.
A mo de Leesha ainda estava no brao dele.
        Talvez voc pudesse falar com ele em meu nome?
Ela ergueu os olhos para fit-lo. Os olhos dela eram de
um tom cinza e violeta, como fumaa no horizonte.
Jason tinha seus prprios pedidos a fazer. Desvencilhou- -se 
do brao dela.
        Sinto muito. No posso ajudar. Na verdade, no tenho 
muita influncia sobre ele.
Jason recuou como um corteso diante de uma rainha, 
depois se virou e foi para dentro.
Ele se voltou para trs e viu Leesha ainda junto ao carro, os 
cabelos como uma nuvem ao redor da cabea, parecendo 
pequena, vulnervel e bastante solitria.

Captulo Sete
Mudana de Planos

L pelas dez da noite, o grupo de Boston havia partido ou se 
retirado para um bar. Um DJ havia se instalado no salo de 
festa, e a msica pulsava sobre o lago. Jack e seus amigos se 
reuniram numa sala de estar com janelas, adjacente ao salo. 
Um fogo crepitava na grande lareira, e eles se serviam do 
chocolate quente de grandes poncheiras de prata. Os palets 
e gravatas foram descartados assim que os adultos foram 
embora.
Os Weirs estavam bem representados: Jack Swift, Ellen 
Stephenson, Seph McCauley e Jason Haley. Mais Will 
Childers e Harmon Fitch, que eram como membros 
honorrios das ordens. E Madison, que era algo 
completamente diferente.
Ela se lembrou do aviso de Min, tantos anos atrs. Cuidado 
com as ordens mgicas. Prometa que vai ficar longe delas. 
Jure.
Maddie havia jurado e, ainda assim, l estava ela. "No posso 
evitar, vov", pensou ela. "Voc entenderia se estivesse 
aqui." Ela estava comprimida contra Seph num elegante sof 
para dois, o quadril dele pressionando o seu, o leve 
murmrio do poder fluindo atravs do contato. Ela tentou 
ignor-lo.
Ele parecia totalmente  vontade naquelas festas sociais  
no formal demais, mas alinhado. Ele ainda parecia bem 
vestido, mesmo sem o palet e com as mangas arregaadas, 
as longas pernas estendidas e cruzadas nos tornozelos. A 
camisa era to branca que fazia os olhos de Madison doerem, 
o colarinho engomado, o vinco nas calas ainda perfeito.
Madison encontrara na loja de consignao um vestido 
antigo de seda esmeralda, cortado em vis, com costuras na 
cintura e pregas que se projetavam a partir do joelho, e um 
xale preto de croch com uma longa franja e minsculas 
contas e lantejoulas. Custara, no total, 15 dlares, o que era 
demais para ela. O decote era um tanto baixo, o que a levava 
a ficar ajustando as alas e amarrar o xale apertado ao redor 
dos ombros. As sandlias de tiras eram uma idiotice na neve, 
mas ela no era conhecida por ser prtica.
Alguns dos rapazes da Costa Leste a haviam convidado para 
danar, e ela recusara. No diria sim a eles quando tinha de 
dizer no a Seph. Seph era um timo danarino, mas uma 
dana lenta com Madison poderia faz-lo adoecer por dias.
Ela no conseguia, no entanto, deixar de bater o p ao som 
da msica e desejar que estivessem no piso de dana. Alm 
disso, se estivesse danando, no teria de ficar ouvindo 
falarem a respeito da maga traidora Leesha Middleton a noite 
inteira. J estava cansada do assunto.
        A Leesha est tramando alguma coisa  disse Jack.
        Seno ela nunca teria voltado pra Trinity. Ela costumava 
reclamar de que no havia nenhum lugar em Ohio onde 
pudesse comprar sapatos bonitos.
        Eu tenho esse mesmo problema  resmungou Fitch, para 
a gargalhada de todos.  No, srio,  difcil fazer um traje 
combinar...
A despeito das piadas, Madison no podia deixar de pensar 
que Fitch parecia um pouco nervoso. Com bom motivo: 
Leesha havia raptado ele e Will.
         melhor ela no chegar perto de nenhum de ns
        disse Ellen. Ela se referia a Jack, sem dvida. Ellen andava 
de um lado para o outro da elegante sala, agitada, pegando 
objetos e colocando-os de volta no lugar.
        Fiquei torcendo para que Hastings viesse e dissesse alguma 
coisa, mas ele e a Linda no ficaram muito tempo.
Seph sentou-se com as costas retas, como sempre rpido na 
defesa do pai.
        Olha, a Leesha simplesmente no  uma prioridade pra 
ele. No h nada que ela possa fazer. No com a barreira de 
p. Ela no pode usar feitios de ataque aqui.
        Voc no conhece essa garota como a gente  disse 
Ellen, fechando a cara.
        Conheo bem o bastante  disse Seph, passando a mo 
pelo cabelo.  A gente se encontrou numa boate em 
Toronto. Ela batizou a minha bebida com Chama de Mago.
        O qu?  Madison fitou Seph, subitamente mais 
interessada no assunto Leesha.  Eu no sabia disso.
        Ela parece bem assustada  disse Jason.
Todos se voltaram para ele.
        O qu? No v me dizer que voc acredita nela.  Jack 
pareceu irritado.  Est maluco?
        Ela diz que as duas Casas de Magos esto atrs dela - disse 
Jason, apoiando-se nos tijolos ao redor da lareira.
        E que ela vai ser morta se sair do santurio.
        Quando voc teve essa conversinha com ela?  Jack 
revirou os olhos.  Ela acabou de chegar aqui e vocs j so 
amigos ntimos?
        Eu no disse isso  replicou Jason com um ar teimoso.  
Eu trombei com ela perto da mesa de doces.
        Ningum simplesmente tromba com a Leesha Middleton 
 disse Fitch.  Eu descobri isso.
        Pra mim, tanto fez como tanto faz.  Jason fez um gesto 
de mo, como que descartando o assunto, e se voltou para 
Seph.  Estou torcendo para que o seu pai me leve de volta 
pra Gr-Bretanha com ele. Voc pode falar com ele?
Seph deu de ombros.
        Talvez. Mal tive chance de falar com ele. E provvel que a 
gente se veja amanh.
Jason se afastou da parede.
        Bom, gente, estou caindo fora. Vou me encontrar com 
umas pessoas.
        Espero que no seja a Leesha  disse Seph, sorrindo.
Jason replicou com um gesto rude e retirou-se.
        Acho que tambm vou indo  disse Madison.
Sentia-se  vontade com Will e Fitch, mas naqueles dias ela 
sempre ficava nervosa entre os amigos dotados de Seph. 
Receava que a maldio pudesse subitamente vir  tona e 
delat-la.
"Vai ser melhor no outono", pensou ela. Ele vai estar a salvo, 
longe, na faculdade. Vai estar longe de todo esse clima de 
batalha e cerco mgico.
"Ele vai estar bem longe de mim", pensou ela, e sentiu como 
se algo estivesse preso na garganta e no conseguisse engolir.
        Eu acompanho voc at em casa  disse Seph, erguendo-
se e ajudando-a a se levantar, sem lhe dar a chance de 
recusar.
Quando chegaram  penso, o estacionamento estava quase 
lotado. No fora fcil conseguir a noite de folga para a festa 
de Jack, e Madison detestara ter de abrir mo das gorjetas.
Eles deram a volta at a entrada lateral, que costumava ficar 
menos lotada. Seph seguiu-a at a varanda.
        Voc se importa se eu entrar um pouco?  indagou ele, 
baixando o olhar para ela.
Os olhos dele escureceram at um profundo verde azulado. 
Seph tinha um jeito de fit-la com aqueles olhos bruxos que 
a fazia tropear nas palavras e bater contra as paredes. Ele era 
capaz de sugar todo o seu ar e fazer seu corao martelar sem 
nem mesmo toc-la. Era perigoso ficar sozinha com Seph 
McCauley  no por causa do que ele pudesse fazer, mas de 
como ela poderia reagir.
        Bem...  Ela hesitou.  S um pouquinho  sussurrou, a 
resistncia se evaporando. Madison era fraca, essa  que era a 
questo.  A gente pode se sentar na sala de visitas do hotel 
 acrescentou, em tom formal. A sala de visitas era um 
lugar pblico, a salvo.
        A sala de visitas do hotel?  Seph levantou uma 
sobrancelha.  Achei que talvez a gente...
        Venha  disse ela.  Temos que fazer silncio ou a 
Rachel nos chuta daqui.
Balanando a cabea, Seph seguiu Madison pela cozinha, que 
era enorme e inclua uma despensa bem abastecida. 
Atravessaram o salo central e entraram na sala de visitas. O 
aposento era mobiliado com mesas vitorianas, daquelas que 
tinham tampos de mrmore e cadeiras de encosto curvo, e 
revestido de estantes de livros. Um fogo alegre queimava na 
lareira, e garrafas de vinho, um jogo de ch e pratos de 
biscoitos estavam dispostos no aparador para os convidados 
da penso. A presena de Rachel se fazia sentir.
Eles se ajeitaram em cadeiras, lado a lado, como dois 
namorados do sculo XIX na presena de um acompanhante. 
Seph cobriu-lhe a mo com a dele sobre o delicado brao da 
cadeira, roando o polegar na pele dela, transmitindo-lhe 
uma sensao deliciosa. A maldio que se ocultava dentro 
dela se libertou, alerta para a presena dele, e se espalhou 
para suas extremidades. A pulsao de Madison disparou, e 
ela lanou-lhe um olhar furtivo. Como ele conseguia no 
notar?
        Caramba  disse ele, massageando as tmporas com a 
outra mo.  Eu estava bem antes, mas agora fiquei com a 
pior dor de cabea que j tive.
        Talvez voc fique menos ocupado neste vero  sugeriu 
ela, retirando a mo assim que pde e ajeitando o xale.  
Com... com a barreira e tudo, digo.
Ele fitou as chamas com um ar deprimido.
        No sei. No vejo as coisas mudando, a menos que seja 
para pior.
        Voc devia tentar relaxar um pouco. Se divertir antes de ir 
embora pra faculdade.
Seph pigarreou.
        Eu queria falar com voc sobre isso.
        Sobre o qu?
Ele respirou fundo, como que prevendo uma batalha.
        Eu decidi adiar a minha ida para a Northwestern por uns 
tempos.
        O qu?  Ela se remexeu no assento.  Por qu?
Como se ela tivesse de perguntar.
        Por tudo isso que est acontecendo. S acho que seria 
melhor se eu ficasse aqui.
        Quem convenceu voc disso? O Nick? O seu pai?
Ele deu de ombros, parecendo infeliz.
        Eu decidi sozinho.
        Aposto que sim  disse ela, as palavras jorrando com 
dureza e fria.
        A gente vai poder se ver mais. Achei que voc ia ficar 
feliz.  Ele olhou para ela, depois para longe.  Parece que 
no ficou.
Madison no tivera a inteno de transformar aquilo numa 
briga. Por que no conseguia conversar com as pessoas sobre 
esses assuntos sem ficar terrivelmente zangada?
        Eu no vejo voc agora, e voc est bem aqui na cidade.
        Voc pelo menos quer me ver?
Ele fez uma pausa. Como ela no respondeu, ele continuou:
        Desde que a gente voltou de Second Sister, voc tem 
estado... diferente.  A voz dele falhou, em desaponta-
mento.   como se... voc estivesse com medo de mim. 
Voc treme quando toco em voc.  muito difcil, sabe?
Tpico. Seph McCauley escolheu enfrentar o elefante na sala 
de visitas enquanto ela teria preferido contorn-lo.
Seph foi em frente.
        Sei que no consegue esquecer o que aconteceu em 
Second Sister. Mas j faz seis meses. Se pelo menos voc 
conversasse a respeito, acho que iria ajudar.
Ele oferecera aquela minscula abertura, uma desculpa para 
o comportamento maluco dela, e ela a aproveitou.
        Estou tentando esquecer. Mas no consigo. Aquelas 
pessoas se queimando e se destruindo. E eu sei que o 
Leicester era... mau, mas quando voc e o Jason...
        Eu no sou assim, Maddie. O Leicester me torturou por 
meses.  Ele ergueu a mo mutilada.  Ele fez isso comigo. 
Ele matou o pai do Jason, e eu achava que ele tinha matado o 
meu.
        No estou dizendo que voc estava errado. Por matar o 
Leicester, digo.  Maddie baixou os olhos para o colo.   
problema meu, no seu.
Aquela parte pelo menos era verdade.
        Mas  problema meu. s vezes, quando vejo o jeito como 
voc olha pra mim, acho que vai ficar tudo bem.
E a... nunca sei, de um dia pra o outro, como  que voc se 
sente em relao a mim. Se andei distante de voc,  porque 
 difcil demais.  Ele estendeu o brao e tocou-lhe a mo. 
 Eu sinto a sua falta.
        E que...  difcil para mim tambm.  Ela manteve o 
olhar voltado para baixo, com medo de enfrentar os olhos 
dele.  Preciso de um pouco de espao, tudo bem? Ser que 
voc pode... me dar um tempo?
        No sei quanto tempo a gente tem. No sei o que vai 
acontecer.
Como ela no disse nada, Seph prosseguiu:
        Seria mais fcil para mim se eu fosse embora. A eu no 
teria de ver voc o tempo todo. Mas tenho que ficar. Se 
perdermos essa guerra, perderemos tudo.
        No vejo por que a vitria na guerra depende de voc.
        No depende s de mim. Mas eu preciso ajudar.  Ele 
recostou a cabea, fechou os olhos, os clios escuros contra o 
rosto plido.  Sinto muito, Maddie  sussurrou ele.  
No sei o que h de errado comigo ultimamente. No me 
sinto muito bem.
Ela soltou a mo. Estava acontecendo de novo. A plena 
presena dele estava tendo o efeito de costume. Ela sentia o 
poder crescendo dentro dela, concentrando-se no peito. 
Estava vazando magia, apesar de todos os esforos em cont-
la. Como se ela tivesse alguma idia de que forma faz-lo.
Ela tentou listar cores em ordem alfabtica, um truque de 
quando era pequena. Azul. Bege. Cinza. Dourado. 
Esmeralda. Fcsia. Mas no funcionou. A pele ardia e
as mos e braos formigavam e queimavam. Ela sabia o que 
aquilo significava.
        Seph, escute,  melhor eu...
O telefone tocou em algum lugar prximo. Ela ouviu passos 
apressados e a voz formal de Rachel.
        Lendas. Rachel Booker.
Momentos mais tarde, Rachel apareceu  porta da sala de 
visitas, estendendo o telefone para Madison.
         para voc.  a sua me.
Madison no podia se recusar a falar com a me. No com 
Rachel ali do lado. Pegou o telefone com relutncia.
        Mame?
A voz de Carlene reverberou em seu ouvido em meio a uma 
nuvem de esttica.
        Madison? Qual  o problema com esse telefone?
Madison lutou para controlar o poder que ameaava
extravasar. A esttica sumiu.
        Oh, Madison, querida, graas a Deus. Faz dias que estou 
tentando falar com voc. No sei o que fazer.
A voz da me estava embargada de lgrimas e vrias cervejas, 
se Madison era capaz de julgar. E ela era.
Madison suspirou.
        Estou meio ocupada, mame. O que est havendo?
        Eles levaram as crianas.
        Como assim? Quem?
        Grace e John Robert. O pessoal do condado.
        O pessoal do condado... levou Grace e J. R.? Por qu?
        Voc se lembra da Sheila Ann White? Ela se casou com 
Tom Harper, mas esto separados agora. Ela trabalha no 
banco e s vezes d uma ajuda no Charley's.
Madison lutou para manter a voz sob controle, conseguindo 
pacincia de alguma fonte desconhecida.
        O que a Sheila Ann White Harper tem a ver com a Grace 
e o John Robert?
        Eu fiz turno duplo na sexta-feira. Ela prometeu cuidar das 
crianas quando sasse do banco. Mas pediram que ela fosse 
trabalhar no Charley's e ela esqueceu completamente.
        Por que no avisou que no ia trabalhar quando a Sheila 
Ann no apareceu?
        Bem, acontece que eu j estava no trabalho. Ela ia tomar 
conta deles durante o segundo turno.
        Voc deixou os dois sozinhos o dia inteiro enquanto fazia 
um turno duplo?  perguntou Madison, erguendo a voz.
        A Gracie tem dez anos  disse Carlene, na defensiva.  
Ela pode cuidar do John Robert durante o dia.
"Aposto que o condado no concorda", pensou Madison.
        A Grace no ligou paira voc quando a Sheila Ann no 
veio?
        Bem, a gente est sem telefone no momento. Atrasei o 
pagamento de novo.
Madison suspirou.
        Como  que o condado ficou sabendo?
Longa pausa.
        O galpo pegou fogo.
No. Estava acontecendo de novo, e ela nem estava l para 
levar a culpa.
        Como foi que o galpo pegou fogo? As coisas esto se 
incendiando de novo? Algum... algum ateou fogo?
        No sei. O Brice Roper avistou a fumaa e foi de carro at 
l.
        Brice Roper?  Ela sentiu as entranhas se revirarem e se 
embrulharem. De repente, ela estava de volta  escola, 
encarando Brice e os amigos zombeteiros dele com seus 
olhares maldosos.  Certo. Aposto que ele estava passando 
ali por acaso e calhou de ver a fumaa. Provavelmente estava 
espionando por l.
Outra pausa.
        Bem, ele e o pai dele levaram as crianas para Coal Grove 
e entregaram ao condado. Eu quase enlouqueci quando 
cheguei em casa e elas no estavam l.
Madison ergueu os olhos e viu Seph observando-a. Ela 
fechou os olhos, desejando que ele no estivesse ali. Ele no 
precisava ouvir aquilo.
Ela baixou a voz ainda mais.
        Quando tudo isso aconteceu?
        Na semana passada.
        Na semana passada!  A esttica explodiu em seu ouvido 
novamente, e ela segurou o telefone  distncia. Inspirou 
fundo, expirou e aproximou-o de novo da orelha.  Mame, 
onde eles esto?
Madison imaginou Grace e John Robert trancados em algum 
tipo de lar para garotos delinqentes. Grace devia estar 
furiosa. J. R. estaria chorando.
        Esto num abrigo para crianas abandonadas. Tem uma 
audincia marcada. O Ray McCartney est me repre-
sentando. Mas o problema  que ele acha que no vo me 
devolver as crianas.
        Por que no?
        No  a primeira vez que o condado intervm.  Carlene 
falou rpido, de forma que Madison no pudesse 
interromper.  Voc sabe que eles vm brigando com a 
gente desde que a Min morreu. O Ray quer que voc venha 
para a audincia. Ele diz que talvez devolvam as crianas se o 
condado souber que voc vai estar aqui para tomar conta 
delas.
        Quando  a audincia?
        Na prxima quinta.
        Mame! Eu estou na escola! As aulas deste semestre 
acabaram de comear.
Carlene ignorou aquilo.
        Eu tenho tentado ligar para voc, mas voc nunca atende 
ao telefone. E eu tenho que ir de carro at a cidade para 
telefonar. Ou usar o telefone dos Ropers.
Madison sentiu uma onda de culpa, lembrando de quantas 
vezes havia ignorado o telefone. Ela nem escutara as 
mensagens gravadas.
- Escute. Eu vou at a para a audincia, mas s consigo 
chegar na quarta.
        Obrigada, querida. Eu sei que as coisas vo ficar bem uma 
vez que voc esteja aqui.  No espao de poucos minutos, a 
voz de Carlene passara do pnico  confiana.
Madison desligou e continuou ali, segurando o telefone. 
Durante a conversa, um peso havia cado sobre ela. Um 
fardo de responsabilidade a que se habituara desde pequena. 
O fardo de garantir que tudo daria certo.
Seph ainda estava l. Ele se levantou, um pouco trmulo, 
usando as costas da cadeira como apoio.
        O que aconteceu?  indagou ele.
        Tenho que ir para casa. Crise de famlia.
        Posso ajudar?
        No.
Ela realmente no queria conversar com ele sobre a sua 
famlia horrvel.
Seph estendeu os braos para Madison. Ela recuou um passo, 
e ele deixou as mos carem.
        Olha, vou falar com o meu pai. Acho que ele est 
planejando ficar mais algumas semanas, de qualquer forma. 
Se ele puder ajudar com a barreira, vou com voc.
O corao de Madison pulou de gratido. No seria nada mau 
ter um amigo. Fazia tanto tempo que no tinha ningum ao 
lado dela! Ento pensou em Seph em Coal Grove, 
encontrando-se com Carlene e os outros. Seph, que nascera 
rico, fora criado em Toronto, estudara na Sua e falava 
francs como se tivesse nascido na Frana.
No. Seph era amigo dela  mais do que um amigo. Talvez 
eles no pudessem ficar juntos, mas ela no queria olhar nos 
olhos dele e encontrar embarao ou pena.
Alm disso, ele parecia estar encarregado de salvar todo o 
resto do mundo.
        Obrigada.  melhor eu lidar com isso sozinha.
Seph pigarreou.
        Pode no ser uma boa idia voc deixar o santurio 
sozinha.
A mente de Madison j ia  toda, catalogando tudo o que 
precisava fazer, quando tropeou.
        O qu? Por que no?
        E um mau momento, s isso. Todos esto tentando ganhar 
uma vantagem... o D'Orsay, as Rosas. Algum pode se 
lembrar do que aconteceu em Second Sister e estar 
procurando por voc.
Quer dizer que a preocupao com ela era por causa dos 
magos. Sempre os magos. Madison virou-se para encar-lo.
        Escute, eu tenho que ir. No tenho escolha, entendeu?
Ele ergueu as mos, capitulando.
        Quando voc volta?
        No neste semestre, pelo menos. Se for pra arriscar um 
palpite, eu diria que vou ter sorte se estiver de volta no 
outono.
Seph franziu a testa.
        No est falando srio. Voc se esforou tanto para entrar 
na faculdade de arte. E agora quer largar o colgio?
Ela se virou, dando os ombros como para se defender das 
perguntas dele.
        No se preocupe. Vou pensar em alguma coisa. Vou saber 
mais quando chegar l.
        Queria que me deixasse ajudar.
Ela tremeu, sentindo fascas voando em arco sobre o abismo 
entre eles. Sentia-se completamente sozinha. Talvez Seph 
no pudesse partir. Mas ela podia. Aquilo lhe daria tempo 
para resolver o problema. Ele no era o nico a ter 
problemas.
        Maddie? Voc est bem?  As sobrancelhas escuras se 
franziram at se juntar.  Voc est tremendo.
        Olha,  tarde  disse ela, recuando, pondo as mos atrs 
das costas e inclinando a cabea na direo da porta.  E 
melhor voc ir. Preciso fazer as malas.
Ele hesitou, como se fosse dizer algo mais. Ento balanou a 
cabea, virou-se e foi embora. Ela nem ouviu a porta da 
frente abrir e fechar.
Assim que Seph saiu de seu campo de viso, Madison subiu 
correndo trs lances de escada at o segundo andar, dois 
degraus de cada vez. Abriu a porta do quarto com o ombro e 
apertou o interruptor de luz. A lmpada no lustre do teto 
sibilou, depois explodiu numa chuva de vidro.
Indo at a janela no escuro, ela afastou as cortinas, os dedos 
deixando buracos fumegantes no tecido. Ela abriu o armrio 
e arrancou o lenol que cobria a pintura que estava l dentro.
Jogando a cabea para trs e fechando os olhos, estendeu as 
mos e soltou o poder atravs dos dedos como uma 
respirao contida por muito tempo e depois liberada. Ele 
atravessou os ares e se enterrou na tela, exalando um cheiro 
de borra de caf queimada. A tinta se cobriu de bolhas e 
correu em redemoinhos lamacentos.
Madison recuou at bater a parte de trs dos joelhos na 
cama. Deixou-se cair no colcho, descansando os ps na 
estrutura da cama, os cotovelos nos joelhos.
A pintura se reorganizou, glida, mas reconhecvel e 
horrivelmente animada. Era Second Sister mais uma vez, 
Seph empurrando-a para trs de si enquanto Leicester e os 
ex-alunos lanavam espirais de chamas de um lado a outro 
do salo de conferncias. S que dessa vez elas atingiram 
Seph em cheio, jogando-o contra a parede como uma 
marionete quebrada.
O quadro mudou de novo  Seph cado na Igreja de Saint 
Catherine, plido e imvel, velas junto s mos e aos ps, 
pessoas de luto passando em fila, apontando e sussurrando 
quando Madison entrou na igreja.
Enterrada na pintura estava a evidncia de uma dzia de 
ataques semelhantes, uma srie impiedosa de cenas em que 
Seph morria de todas as maneiras imaginveis.
Seph mexia com a magia malfica que se instalara sob a pele 
dela, despertava-a como algum monstro das profundezas. 
Quando ela deixava a magia escoar, Seph ficava plido e 
cansado, com terrveis dores de cabea, e perdia o apetite. 
Quando ela a refreava, Seph melhorava visivelmente. Mas a 
magia se acumulava mais e mais dentro dela at que 
precisava liber-la ou explodir. Em vrios momentos ela 
quase perdera o controle, at que descobriu que podia 
dissip-la como arte  arte medonha, mas melhor do que 
qualquer das outras alternativas. Ela tentara pintar por cima, 
destruir a seqncia de imagens pavorosas, mas elas 
continuavam a afluir  superfcie, como leo em gua 
poluda.
Era um segredo que precisava esconder de Seph e de todos. 
De forma alguma Hastings, Linda ou Nick Snowbeard a 
deixariam ficar se soubessem. Eles no saberiam como 
resolver o problema, e Seph era importante demais para ser 
posto em risco. Ela devia ter partido havia muito tempo.
Mas no partira. No conseguia desistir dos sonhos de 
faculdade e de Seph McCauley. Ficava torcendo para que a 
magia de Second Sister se exaurisse aps algum tempo.
Agora ela no tinha escolha. Com raiva, comeou a separar 
seus pertences. No havia muito o que pr na mala. Trouxera 
pouco da vida dela em Coal Grove. E no tivera dinheiro 
para comprar muito desde que chegara a Trinity.
Aps pensar um pouco, empurrou a pintura gerada pela 
maldio de volta para dentro do armrio e a cobriu com um 
pano. Dois panos. Fechou o armrio e trancou-o. No iria 
levar aquela coisa para Coal Grove. No precisaria dela 
quando estivesse em casa. Seph no estaria l para despertar 
o monstro.
Enquanto arrumava suas coisas, procurava organizar os 
pensamentos tambm.
No tinha nenhuma vontade de voltar ao Colgio de Coal 
Grove para os ltimos cinco meses do ano letivo. Aquilo 
estava acabado para ela. Havia cumprido os requisitos 
curriculares e fizera todas as matrias de artes oferecidas l. 
Tivera a esperana de conseguir cursar um ano de faculdade 
antes de ter de comear a pag-la por conta prpria. Agora 
provavelmente perderia o semestre inteiro.
Sabia como seria quando chegasse em casa. A velha vida se 
enredaria em torno dela como uma colcha usada.
Os cochichos recomeariam, desencadeados por sua 
presena. Pouco a pouco, eles destruiriam seus sonhos.
Madison olhou pela janela para as montanhas e vales ao 
redor do lago.
Verdade seja dita, ela sentia saudades das montanhas e vales 
de sua cidade, a textura das desgastadas terras de sua infncia. 
Sentia falta das pessoas tambm  de algumas delas. Mas 
no dos limites que lhe impunham e das suposies que 
faziam com base em quem eram seus pais. Nem dos bilhetes 
deixados em seu armrio na escola. Nem do modo como as 
pessoas lhe esfregavam crucifixos na cara como se ela fosse 
um tipo de vampiro  como se soubessem exatamente 
quem ela era e no que se transformaria.
Talvez ela s estivesse fugindo de uma encrenca para acabar 
em outra: da encrenca estranha e mgica em Trinity para um 
tipo mais familiar. Em casa, esperava-se muito pouco dela. E 
ali, esperavam demais.
Apaixonar-se por Seph McCauley era o tipo de erro que 
Carlene cometera a vida toda. A me passava de uma crise 
para outra, alimentando-se da prpria desgraa. Ela agia 
como se o amor fosse algo que se contrasse, como clera. 
Ou como um feitio que pegava as pessoas de surpresa. 
Assim, ela jamais poderia ser culpada por estragar tudo.
Madison planejara ser diferente. Planejara tomar o controle 
da prpria vida, conseguir o que queria e deixar o Condado 
de Coalton para trs definitivamente.
"Vai acontecer", prometeu ela a si mesma. S que no ainda.
A cama de dossel com colcha de cetim cor-de-rosa e os 
unicrnios saltitantes nas colunas eram familiares e 
reconfortantes. A tia Millisandra havia mobiliado o quarto e 
batizado-o como "O Quarto da Leesha" quando a menina 
tinha apenas trs anos. At recentemente, Leesha havia 
ficado l pelo menos uma ou duas vezes por ano. Havia sido 
sempre uma espcie de toca feita sob medida para ela se 
refugiar.
S que agora ela no se sentia segura.
Ela se apoiou nos travesseiros amassados e puxou a coberta 
at a cintura. Soltando um suspiro explosivo, digitou 
nmeros no celular.
Barber atendeu ao terceiro toque.
        Al?
        Ento. Estou aqui.
Barber riu.
         mesmo? Eu sempre sei onde voc est, lembra?
Leesha passou um dedo na gargantilha de ouro que
Barber havia fundido em torno do seu pescoo. Jason havia 
dito que a magia de ataque no funcionaria no santurio. Mas 
talvez Barber pudesse rastre-la mesmo assim.
        Olha, no est dando certo.  como eu falei. Todos me 
odeiam.
Barber estalou a lngua.
        O Haley no odeia voc. Vocs nem se conhecem, no ?
        Bem...  Leesha hesitou.  Eu me encontrei com ele 
esta noite. Numa festa.
        Pois ento. J  um comeo.  Barber parecia estar se 
divertindo bastante.  Tenho certeza de que voc causou 
uma boa impresso.
        O lance  que... eu simplesmente no... no posso mais 
fazer isso. Voc tem que pensar em outra coisa.
A voz de Barber era como veludo sobre pedra.
         a que voc se engana. Isso  problema seu. Voc fez o 
acordo com o D'Orsay. Prometeu que a gente entregaria o 
Haley e o Corao do Drago. Esses documentos que me deu 
no significam nada se a gente no consagrar o
Pacto. Voc precisa atrair o Haley pra fora do santurio, at 
algum lugar onde ele possa ser apanhado. Como vai fazer 
isso  problema seu.
        Eu tenho dinheiro. Posso pagar voc. S tire esta coisa, 
est bem?  disse Leesha, lutando para controlar a voz. 
Implorar no lhe era nada fcil.
        Acha que preciso do seu dinheiro?  O veludo desa-
parecera.  Estou cansado de vocs de sangue azul me 
tratando como um ningum. Eu sei onde voc est e sei 
onde a sua tia Milli mora.  melhor me mostrar resultados ou 
estrangulo as duas.
Ele desligou.
O telefone caiu dos dedos sem fora de Leesha e tombou 
sobre a colcha de cetim. Envolvendo o travesseiro com os 
braos, Leesha enterrou o rosto nele e chorou.




Captulo Oito
Transies

Na manh seguinte, Seph saiu da cama tarde, o estmago 
revirado, a cabea latejando. Os acontecimentos da noite 
anterior lhe voltaram. Parecia que sempre que ele e Madison 
passavam algum tempo juntos, acabavam brigando, o que 
fazia com que se sentisse derrotado.
Nunca conhecera uma garota como Maddie Moss. Ela era 
como uma daquelas plantas intocveis que fechavam as 
folhas quando se roava nelas. Foram seis meses totalmente 
frustrantes. Outras garotas deixavam claro que gostavam 
dele, mas Seph nunca retribua. Madison era como uma flor 
inebriante que espetava at tirar sangue, mas da qual valia a 
pena se aproximar. Ela estava em guerra consigo mesma, em 
guerra com ele, e ainda assim havia momentos...
E agora ela estava indo embora.
Ele vestiu os jeans e uma camiseta e desceu a escada em 
espiral, vendo de relance, pelas janelas em seu caminho, o 
lago congelado.
O cu estava ficando azulado  medida que o sol se erguia, 
iluminando o gelo que pendia das calhas do Chal de Pedra. 
Seria um lindo dia de inverno.
Os pais dele estavam na cozinha.
        Oi.  Seph se serviu de suco de laranja e ps uma fatia de 
po na torradeira.  Quem est tomando conta da barreira?
        Eu  respondeu Hastings.  Enquanto eu estiver aqui.
"Como  que ele faz isso? Ele nem est suando", pensou 
Seph.
        Voc e eu precisamos conversar a respeito de algumas 
idias que tive sobre como monitorar o trfego de magia 
dentro do santurio  disse Hastings.
        Vamos conversar com a comisso do santurio hoje  
tarde  acrescentou Linda.  Vamos discutir planos de 
emergncia no caso de um ataque. A gente queria que voc 
fosse tambm.  Ela se concentrou nele e franziu a testa.  
Voc est bem, querido? Parece plido e est com olheiras 
de novo.
        A gente ficou fora at bem tarde ontem  disse Seph.
        Mais tarde, vou me encontrar com a Mercedes e o 
Snowbeard na igreja para examinar os itens que Jason trouxe 
da ravina  disse Hastings.  A sua opinio seria valiosa.
Seph no pde deixar de se sentir lisonjeado. O pai sempre o 
tratava como se ele fosse capaz de grandes feitos.
O que o fazia querer realizar grandes feitos. Mesmo que a 
presso fosse difcil de agentar de vez em quando.
Aquele era um tempo breve, mas valioso para passar com 
seu pai.
Tirando a fatia de po da torradeira, Seph passou manteiga 
sobre ela. Levou o prato at a mesa, e Linda ps um daqueles 
enormes milkshakes na frente dele.
Ele revirou os olhos.
        Milkshake no caf da manh? De novo?
        Beba. Voc est que  pele e osso. Tem andado mais 
doente nos ltimos seis meses do que em toda a sua vida.
Quando Seph hesitou, Hastings acrescentou:
        Obedea sua me. Vai precisar de todas as suas foras 
hoje, garanto a voc.
Seph detestava quando eles se uniam contra ele. Ele ergueu 
o copo simulando um brinde e tomou um longo gole. Pasta 
de amendoim e chocolate. Era quase como tomar um copo 
de pasta de amendoim.
Linda subiu as escadas para tomar um banho, deixando Seph 
a ss com o pai.
        Como vo as coisas no Reino Unido?  perguntou Seph.
Hastings deu de ombros.
        As Rosas sitiaram a Ravina do Corvo, na esperana de 
arrancar D'Orsay da toca. H alguma discusso sobre o 
paradeiro do Pacto. Se o D'Orsay estivesse com ele, 
certamente j teria agido e imposto seu domnio sobre as 
ordens. Mas, se no est com ele, com quem est?
Ele fez uma pausa. No recebendo nenhuma resposta de 
Seph, mudou de assunto.
        Ainda est saindo com a Madison Moss.
No era bem uma pergunta.
        Estou. Bem, mais ou menos. A gente est meio num vai 
no vai.
Na verdade ele no queria falar com o pai sobre os seus 
problemas com garotas.
        O Snowbeard me disse que ela tem se mostrado 
ambivalente sobre a nossa misso aqui.
As defesas de Seph se ergueram de imediato.
        E verdade. Ela no  dotada. Essa luta no  dela.
        Ela no  dotada no sentido tradicional,  verdade. Mas 
tem um talento que poderia ser de grande utilidade para ns 
se...
        Ela no est a fim, est bem? Est estudando e trabalhando 
vrias horas por dia pra pagar a escola no ano que vem.
        Ento quer dizer que ela poderia ser receptiva a uma 
oferta bem formulada.
Seph empurrou a cadeira para trs, deixando longas marcas 
no piso de madeira polida.
        O que estou dizendo  que ela tem os problemas dela. Ela 
tem talento, mas o talento no qual ela quer trabalhar  a 
pintura.
        Pinturas no vo nos ajudar.  Hastings se recostou na 
cadeira.  No sabemos muita coisa sobre os extratores, j 
que no fazem parte do sistema de ordens. A lenda diz que 
so descendentes da Guardi do Drago Aidan Ladhra.  
Hastings deu um sorriso de desprezo.  Isso  improvvel. 
Mas voc sabe o que aconteceu em Second Sister.
Seph levou o prato e o copo para a pia e largou-os, fazendo 
barulho.
        No estou ouvindo nada disso.
        Quero que trabalhe com ela, Seph. Ele girou para encarar 
o pai.
        Quer que eu trabalhe com ela ou que a convena a 
trabalhar para ns?
O mago fez um gesto com a mo.
        Eu vi como ela olha para voc. Mesmo que ela no seja 
vulnervel  magia, voc pode exercer alguma... influncia. 
Quero que descubra tudo o que puder sobre a habilidade 
dela.
        E a o qu?
        Convena-a a nos ajudar.
        Certo. S mais outro sacrifcio pela droga da causa. 
Seph despejou caf numa caneca, lembrando-se de Maia, 
que morrera em Toronto por causa dele.
        Voc faz idia do quo tnue  a nossa posio? A 
existncia de Trinity  uma afronta para as Rosas. Quando 
acabarem com o Claude, eles viro atrs de ns. Ou, o que  
pior, podero unir foras com o D'Orsay.
        No.
Hastings bateu a caneca de caf na mesa e se levantou.
        Dados os poderes congregados contra ns, no podemos 
permitir que um conjunto de princpios sem fundamento, 
incompreensvel e extravagante nos impea de aproveitar 
todas as oportunidades que tivermos.
Seph se levantou tambm, e subitamente estavam de p 
frente a frente, a energia crepitando no ar entre eles. Seph 
ficou surpreso ao descobrir que era to alto quanto o pai. 
Quando isso acontecera?
        Sinto muito  disse Seph , mas tem algumas coisas que 
eu simplesmente no estou disposto a fazer.
Hastings fitou-o como se ele houvesse se transformado em 
algo irreconhecvel. Ento seus lbios se retorceram num 
sorriso.
        Muito bem.  Hastings sentou-se de novo  mesa e 
indicou a outra cadeira.  Sente-se.
Seph no se sentou, mas se inclinou para a frente, apoiando 
as palmas das mos na mesa.
        A Madison est de partida, de qualquer forma.
        Como assim?
        Emergncia familiar. Ela est voltando para a cidade natal 
dela.
        Por quanto tempo?
Seph deu de ombros.
        Ela no sabe. Talvez at pelo vero inteiro.
        Isso  ruim para ns e perigoso para ela.
        Tentei convenc-la a no ir. Mas ela vai mesmo assim, a 
menos que a gente a tranque na cripta da Igreja de St. 
Catherine e passe comida por baixo da porta. At que ponto 
estamos dispostos a ir?
No to longe assim, aparentemente, pois Hastings mudou 
de assunto.
        As Rosas estiveram em contato com voc, no ?  
Hastings olhou-o nos olhos.
Seph hesitou, ento assentiu com a cabea.
        E o D'Orsay  disse, sentindo-se culpado, mesmo no 
tendo respondido s tentativas de contato.
        Se no conseguirem atrair voc de um jeito, eles podem 
tentar de outro. Podem us-la para peg-lo  Hastings 
estudou Seph, tamborilando as pontas dos dedos.  Bem, 
suponho que no haja como evitar isso agora. Mantenha a 
partida dela em segredo, se puder. No conte a ningum 
para onde ela est indo.
        Por quanto tempo vai ficar aqui?  indagou Seph.
        No muito mais tempo, infelizmente.  As mos do 
mago se moveram inquietas sobre a mesa, a pedra no anel 
cintilando sob a luz da manh.  Receio que voc v ter de 
assumir uma responsabilidade ainda maior no futuro 
prximo.
Hastings no prosseguiu, ento Seph encorajou-o.
        Por qu? O que est havendo?
        A sua me e eu estamos organizando um assalto  Ravina 
do Corvo.
Seph pestanejou.
        O qu? Pensei que voc...
        No acho que o Pacto esteja l. Mas, como a guerra  cada 
vez mais uma certeza, o tesouro pode ter um papel 
essencial. Na verdade, j tem.
Seph havia ouvido falar do depsito lendrio de armas na 
Ravina do Corvo.
        Algum j viu isso realmente? Pensei que o tesouro fosse 
s um desses boatos que acabam no tendo nenhuma base 
real.
         possvel, mas improvvel. Os D'Orsays tm tirado 
vantagem de seu papel como Mestres do Jogo para 
colecionarem armas mgicas por sculos. At onde sei, elas 
esto em algum lugar da ravina.  Ele riu.  As Rosas esto 
convencidas disso, de qualquer forma. O tesouro  o que as 
impede de entrar na ravina. Se consegussemos o tesouro, o 
mesmo aconteceria com Trinity. Ou, pelo menos, se o 
tornarmos inacessvel, as Rosas podero fazer para ns o 
trabalho de eliminar D'Orsay. E a ltima coisa que a gente 
quer  que o tesouro caia nas mos das Rosas.
Seph sentiu um arrepio gelado de apreenso.
        Como vo fazer isso? Digo, como vo invadir a ravina?  
Ele tinha de perguntar, embora no tivesse certeza de que 
realmente queria saber.  Como vo passar pelas Rosas?
Hastings abriu um sorriso ferino.
        H vrias maneiras de entrar. O desafio vai ser sair.
Aquilo no era tranqilizador.
        O Jason quer ir com voc.
        Eu sei que o Jason quer. Mas ele no sabe seguir ordens. 
Quero que ele fique aqui, sob a superviso do Nick, para que 
possa ajud-lo. Precisamos de reforos, principalmente de 
magos.
        Voc bem que podia pegar mais leve com ele  disse 
Seph.  Ele salvou a minha vida no Porto Seguro, voc 
sabe.
        Sei disso.  Hastings esfregou a testa com a mo como se 
estivesse com dor de cabea tambm.  O Jason vai se 
provar mais til para ns se descobrirmos um jeito de 
canalizar essa paixo dele, em vez de explodir em chamas e 
levar todos ns junto.
Madison encontrou Sara Mignon em seu estdio, no 
segundo andar do Saddlewood Hall. A professora de arte 
trajava um jeans e uma camisa de brim manchada de tinta e 
lanava respingos exuberantes de acrlico num quadro tosco 
do tamanho de um celeiro. Dois estudantes de ps-
graduao ocupavam-se dos cantos inferiores, traando 
linhas que Sara ignorava com alegria.
Quando viu Madison, Sara desceu da escadinha e largou as 
tintas no degrau mais baixo. Usando a manga, ela limpou o 
amarelo-vivo da ponta do nariz. Os cabelos cacheados 
serpenteavam para todos os lados, tingidos de um preto-
azulado. Ela no se parecia com nenhuma professora que 
Madison j vira antes.
- Oi, Maddie. O que acha?
        Ah, ...  legal. Eu gosto.
Madison ainda ficava surpresa quando os professores lhe 
pediam a opinio. No que no tivesse opinies, s no 
estava acostumada com pessoas interessadas em ouvi-las. Ela 
freqentara escolas em que os professores eram chamados 
de 'senhor' e 'senhora'. E todos os alunos diziam 'Sim, 
senhor' e 'Sim, senhora'.
Madison gostava de tudo o que Sara fazia, embora o trabalho 
da professora fosse bastante diferente do seu. A arte de Sara 
era tropical, cheia de calor. A pintura de Madison era fresca, 
esfumaada e suave como o anoitecer nos vales.
Sara, como ela insistia em ser chamada, estudou a pintura 
com um olhar crtico, as mos na cintura.
        Aquele amarelo chama a ateno, no ? Talvez seja um 
pouco assertivo demais.  Ela se voltou para Madison.  
Veio para falar sobre o seu projeto?
        Bem, ah...
        Que tal se fssemos dar uma olhada nele?
Os projetos estavam expostos em um estdio iluminado pelo 
sol no segundo andar do prdio do Instituto de Arte. leos 
sombrios, aquarelas lnguidas, acrlicos ousados. A pintura 
de Madison estava isolada num canto, coberta por um pano.
Sara afastou o tecido, e elas ficaram lado a lado. Sara estudou 
a obra enquanto Madison fitava os dedos dos ps.
"Por que eu tive de inscrever justo esta?"
        Gosto das camadas que voc usou, as chamas sobre a 
pedra, o sangue respingado no cho, o arranjo dos corpos e 
o modo como a arquitetura da pea dirige o olhar. Tem um 
forte elemento de fantasia aqui. At de horror.
Madison assentiu em silncio.
         bem diferente dos seus outros trabalhos  disse Sara.  
Mais abstrato, emoes mais cruas, sombras mais intensas. 
H uma violncia aqui que eu no tinha visto vindo de voc 
antes. Pode me falar a respeito?
Na verdade, no. Havia uma falta de censura em Sara que 
incentivava as confidncias, mas Madison era prudente 
demais para compartilhar aquele segredo em particular.
        ... ahn... de um sonho que tive.
Mais como um pesadelo.
        Bem,  interessante ver voc se afastando das paisagens e 
explorando novos temas e estilos. Na sua idade, acho que 
isso  importante.  Sara cobriu novamente a pintura.  E 
ento, vai poder me ajudar na prxima sexta-feira?
Madison enfiou as mos nos bolsos. Pr em palavras fazia 
com que tudo passasse a ser real.
        Eu... ahn... queria dizer que no posso estar aqui para a sua 
abertura na semana que vem. Eu... eu tenho que sair da 
escola. Tenho que voltar para a minha cidade. Emergncia 
familiar. Sinto muito.
As lgrimas se acumularam nos olhos, e ela se virou, 
envergonhada.
Sara ps a mo no ombro dela.
        Nada srio, espero.
        No  disse Madison automaticamente.  Bem, talvez. 
Acho que d pra resolver. Mas provavelmente vou ter de 
ficar em casa por todo o vero.
        Vai voltar para aquelas montanhas encantadoras, hein?  
Sara sorriu.  Eu chamaria isso de um presente para uma 
artista.
Sara tinha o dom de fazer as pessoas se sentirem bem 
consigo mesmas. Era to radiante quanto as pinturas dela.
        Acho que , sim  disse Madison, sentindo-se um pouco 
melhor.  Mas eu tinha esperana de conseguir mais oito 
crditos este semestre, com os dois cursos que estou fazendo 
com voc e o projeto. No outono, eu mesma vou ter de 
pagar as mensalidades. E no outono voc vai voltar pra 
Chicago.
Sara franziu a testa e inclinou a cabea para o lado.
        No sei por que no podemos trabalhar juntas apesar 
disso. Nossas aulas no so expositivas. Eu no teria de ficar 
vigiando voc o tempo todo mesmo que voc ficasse aqui. 
Voc pode pintar to bem em... onde  mesmo... 
Coalville?... quanto aqui. Talvez a gente possa se encontrar 
uma vez por ms e eu possa dar uma olhada no seu trabalho 
e dar uma nota no fim do semestre. Ser que voc poderia 
fazer isso?
        Puxa, parece timo. Mas... a gente ainda estaria 
trabalhando por intermdio do Colgio de Trinity, ou...
        No se preocupe  disse Sara, lendo a mente dela.  Eu 
me viro com o Penworthy.
        No sei o que dizer.
O calor em seu rosto lhe dizia que estava corada.
Sara estudou-a com um olhar avaliador.
        Sabe, a Trinity  uma boa escola, mas belas-artes no  a 
especialidade deles. J pensou em ir pra Chicago?
        Pro Instituto de Arte de Chicago? Oh, no. Eu... ahn... 
no tenho como pagar.
Madison sufocou as esperanas. No era bom se deixar 
dominar por elas.
Sara segurou-lhe os ombros e olhou-a nos olhos.
        Madison, as suas paisagens so inigualveis, totalmente 
originais, e voc nem est na faculdade ainda. Voc 
demonstra mais habilidade do que outros na sua idade. A sua 
obra remonta aos Apalaches, mas no tem nada de arte 
popular. Voc v o sobrenatural em coisas comuns. Eu a 
chamaria de etrea.
        Olha, eu agradeo muito... por tudo. Mas no tenho 
dinheiro pra viver em Chicago, muito menos pra pagar as 
mensalidades do Instituto. O tempo em que eu podia estudar 
de graa acaba no fim deste ano. No quero me formar com 
um milho de dlares em dvidas quando nem sei como vou 
ganhar a vida.
Sara deixou as mos carem dos ombros dela.
        Deixe que eu me preocupe com isso. Apenas continue 
pintando. Quero ver mais desenhos figurativos e retratos 
tambm. No apenas paisagens. A vamos montar um 
portflio pra voc e ver o que acontece. Combinado?
Madison no conseguiu fazer mais do que um gesto de 
cabea, assentindo.
Sara sorriu.
        Agora vamos verificar se voc tem tudo o que vai 
precisar. Podemos dizer que est includo no preo do 
curso.
Madison deixou o estdio de Sara com uma mochila cheia 
de livros, tintas e outros materiais. Ela perambulou pela 
praa de Trinity, parando em lojas e galerias e usando o 
dinheiro das gorjetas para comprar presentinhos para J. R., 
Grace e Carlene.
Quase sem se dar conta, viu-se entrando pelo porto da 
Igreja de St. Catherine. Atravessou o ptio coberto de neve 
at a porta lateral. "S vou dar mais uma olhada", disse ela a 
si mesma. "No sei quando vou poder voltar".
Era uma manh de tera-feira. Seus passos ecoavam na 
igreja, vazia exceto por uma senhora idosa ajoelhada no 
banco da frente, a cabea curvada sobre as mos dobradas. 
Madison se esgueirou silenciosamente at as escadas na 
frente do altar, que levavam  capela funerria, passando 
reto pelos feitios de proteo e confuso que Seph havia 
colocado para distrair qualquer um que se intrometesse por 
l.
Ao p das escadas, ela virou  esquerda, entrando na cripta 
em si. Eles haviam deixado o tmulo de Swift aberto, 
confiando nas barreiras de Seph para manter os curiosos  
distncia.
Era evidente que a feiticeira Mercedes Foster e um pequeno 
comit tinham estado trabalhando ali. Artefatos mgicos 
estavam dispostos em fileiras, classificados por funo 
provvel. Aqueles que haviam sido identificados estavam 
rotulados com a letra elegante de Mercedes. Smbolos e 
diagramas haviam sido rabiscados nas paredes, em um tipo 
de sistema de registro.
A pedra que Jason chamava de Corao do Drago estava 
isolada sobre o suporte de drago, uma jia em uma base 
requintada. As chamas ardendo em seu centro projetavam 
sombras como assombraes rondando as paredes.
"O que voc est fazendo aqui?", perguntou Madison a si 
mesma, sem obter nenhuma resposta.
Ela sentia a atrao da pedra do outro lado do aposento, 
puxando-a para si. Como antes, o Corao do Drago parecia 
reagir  presena dela, iluminando-se, as cores sobrepondo-
se umas s outras como tintas brilhantes agitando-se num 
cntaro.
Postou-se diante da pedra. Ao estender a mo, a luz da pedra 
tingiu-lhe a pele. A respirao dela desacelerou, as plpebras 
caram. Um jorro de imagens brilhantes fluiu por sua mente: 
um castelo feito de pedra, um vale como uma jia cercado 
por montanhas rochosas, uma procisso de cortesos 
trazendo presentes. Ela ouviu o murmrio de uma cano 
semi-esquecida, versos de uma poesia que lhe partia o 
corao. Ouviu algum chamando um nome ao qual ela 
queria responder.
Dentro dela, sentiu a maldio se desenrolar e avanar como 
uma serpente.
De repente, chamas irromperam entre ela e o Corao do 
Drago, subindo-lhe pelos braos at a clavcula. As magias 
colidiram dentro dela. Madison tombou para trs, quebrando 
a conexo, caindo de costas no cho, batendo a cabea com 
fora no degrau de pedra. Ficou ali por um instante, 
atordoada, as cores explodindo dentro de sua cabea como 
fogos de artifcio no cu noturno.
Vozes sussurravam em sua cabea, misturando-se e 
competindo entre si  belas promessas, palavras de afeto, 
sedues, pragas e avisos  como espritos em batalha 
dentro de uma campnula, at finalmente desaparecerem.
Apoiando-se na beirada da cripta de Thomas Swift, Madison 
se ergueu, lembrando-se das palavras Min.
No se meta com magia. Isso s nos trouxe problemas.
Mas parecia que a magia nunca se cansava de se meter com 
ela.
O Corao do Drago se acendeu, enviando longas lnguas 
de chamas e sombras na direo dela como dedos tentando 
agarr-la. Madison teve de lutar contra o mpeto de se lanar 
naquele abrao.
Ela se afastou da pedra, passou cuidadosamente pela entrada, 
virou-se e correu escada acima.

Captulo Nove
Terror na Cripta

Na manh seguinte, Mercedes Foster estava sentada de 
pernas cruzadas estudando os pentagramas que rabiscara em 
giz no cho de pedra da cripta. Esfregando o nariz com as 
costas da mo, ela ergueu os olhos para Snowbeard.
        O que voc acha, Nicodemus?
O velho concordou com a cabea.
        Parece perfeito para mim, Mercedes.
A feiticeira plantou os punhos nos quadris ossudos e sorriu 
para Jason.
        Venha, ento. Vamos tentar de novo.
        Espero que saiba o que est fazendo.
Jason entrou com relutncia dentro do pentgono interno 
de um dos pentagramas. Os outros dois se refugiaram dentro 
de seus prprios diagramas. A surrada caixa de madeira da 
Ravina do Corvo jazia no cho sobre o quarto pentagrama.
Mercedes comeou a falar, um cntico estridente e 
montono. Nick acendeu uma chama quente e brilhante no 
ponto em que os quatro pentagramas se encontravam. Com 
cuidado para no se inclinar e sair fora do pentagrama, Jason 
segurou o estojo com um par de tenazes de ferro e lanou-o 
nas chamas.
Eles esperaram. E esperaram. As chamas lamberam a 
superfcie da caixa sem nenhum efeito aparente. A madeira 
estava to impregnada de feitios que era invulnervel at  
chama mgica.
Eles continuaram at que o brao de Jason comeou a 
tremer com o peso da caixa, e ele teve de apoiar o cotovelo 
com a outra mo. As tenazes foram ficando cada vez mais 
quentes, de forma que ele precisava se concentrar para no 
ter os dedos queimados.
Finalmente, Mercedes parou de cantar.
 Certo  disse ela, o rosto comprido assumindo uma 
expresso de desapontamento.  No est funcionando. 
Receio que nunca consigamos abrir isso.  Ela removeu um 
leno de seda da cabea, os cabelos crespos se soltaram, 
livres, e por fim enxugou o suor do rosto com o leno.  J 
basta por hoje.
Cuidadosamente, Jason ps a caixa de volta no cho, largou 
as tenazes e limpou as mos chamuscadas nos jeans.
Fileiras de artefatos estavam dispostas sobre uma das criptas, 
classificados por funo e rotulados com seus nomes 
mgicos. Havia pedras do corao de todos os tipos: 
pingentes, pedras de clarividncia, amuletos que fortaleciam 
quem os carregava, talisms de proteo, pedras do amor 
que turvavam a mente. Espelhos encantados que mostravam 
imagens enfeitiadas e confusas do passado, presente e 
futuro. Adagas incrustadas de jias que abriam ferimentos 
que no se curavam. Cintos e colares para manter magos 
aprisionados. Relembrando sua fuga da ravina, Jason estava 
impressionado que tudo aquilo coubera na mochila.
        J fizemos bastante  disse ele, apontando para os itens 
catalogados.
Mercedes assentiu com relutncia.
        Talvez, mas no consigo deixar de pensar que as sefas 
mais poderosas esto resistindo a ns.
As peas remanescentes estavam agrupadas num canto, 
abandonadas: o pequeno estojo de madeira que no podia 
ser aberto; um manto gasto cuidadosamente remendado 
com fios cintilantes; um martelo de prata com inscries em 
runas; frascos lapidados cheios de poes desconhecidas, as 
rolhas cobertas com uma cera escurecida pelo tempo. E,  
claro, o Corao do Drago, em seu suporte de metal 
ornamentado.
Com a exceo da opala, Jason no conseguia se lembrar por 
que escolhera qualquer um deles.
        Vai ver  s porcaria  sugeriu ele.  Vai ver eu trombei 
com o lixo mgico da Ravina do Corvo.
Mercedes apertou os lbios, mas ele insistiu:
        Havia toneladas de pedras preciosas soltas na caverna. Eu 
peguei algumas, mas me concentrei mesmo nas peas 
mgicas. Talvez a opala seja s mais outra pedra preciosa na 
pilha.
Como que para contradiz-lo, o Corao do Drago lanou 
uma luz em espiral por toda a cripta. Parecia diferente de 
antes, quase agitada. O poder passou por ele, aquecendo a 
pedra Weir no peito de Jason como um fogo abafado.
Os trs ficaram paralisados, olhando para a opala.
Snowbeard pigarreou.
        Acho que a pedra  importante  disse ele.  Caso 
contrrio, eu no gastaria tanto tempo com ela.
Jason deu de ombros, lutando para ocultar sua irritao.
        Que seja. De qualquer jeito,  perda de tempo ficarmos 
nos desgastando nisto. Acho que eu deveria juntar algumas 
das peas mais poderosas e levar de volta para Hastings na 
Gr-Bretanha. Ouvi dizer que ele est planejando um grande 
ataque  ravina. Elas poderiam ajudar.
        O Hastings pediu a voc para levar qualquer um dos itens 
de volta para a Ravina do Corvo?  perguntou Nick.
        No, mas...
        Ele no disse para mant-los dentro da igreja?
        Eles no servem pra nada aqui!  Jason andou de um lado 
para o outro, fazendo curvas apertadas dentro dos limites da 
cripta.  Eu podia muito bem ter deixado tudo na caverna.
        Acho que o fato de que eles no esto nas mos dos 
nossos inimigos  uma boa coisa  disse Nick, os olhos 
negros trespassando a espinha dorsal de Jason.
        Se pensar bem, essas coisas pertencem a mim  disse 
Jason.  Eu  que encontrei. Eu  que carreguei tudo desde 
a ravina. Eu deveria poder fazer o que quisesse com elas.
        Jason Haley!  A voz do mago reverberou nas paredes de 
pedra da cripta, embora ele no houvesse falado muito alto. 
Snowbeard pareceu crescer at sua cabea quase tocar o 
teto. Chamas tremeluziam ao redor de sua figura angulosa. 
 Voc  mais esperto do que est demonstrando. No  
uma criana que exige os brinquedos de volta. O futuro das 
ordens mgicas talvez dependa de como usarmos o que cair 
em nossas mos. No vou permitir que voc ponha todos 
ns em perigo com o uso imprudente desses objetos.
Jason sabia que deveria calar a boca, mas no conseguiu se 
conter.
        Ento acha que a gente deve simplesmente se enfurnar 
aqui e esperar at sermos atacados?
        Acho que no sabemos o bastante ainda para discernir 
quais sero os nossos adversrios mais perigosos. Se o 
D'Orsay tem o Pacto, o tesouro e a ravina, ento por que 
ainda no agiu? Por que no consagrou o documento e nos 
colocou sob o seu jugo?
        Como  que vou saber?  Jason enfiou as mos nos 
bolsos dos jeans.  Hastings parece pensar que vale a pena 
ir atrs dele, agora que estou preso aqui.
A voz de Nick se suavizou.
        Jason, o trabalho que estamos fazendo  importante, 
mesmo que voc no ache. Creio que nos foi dado um 
presente raro, se conseguirmos descobrir como us-lo.
Jason no engoliu aquilo.
        Voc fala que nem o Hastings.
         mesmo?  Nick ergueu uma sobrancelha.  Quem 
sabe haja um motivo para isso.
        S vou levar a opala, ento  disse Jason.  Pode ficar 
com o resto.
Impulsivamente, ele estendeu a mo para o Corao do 
Drago.
E foi jogado para trs contra a parede com uma fora 
estonteante. Ele pareceu ficar grudado por um momento, 
depois deslizou at que o traseiro atingiu o cho.
        Jason!
Mercedes e Nick se debruaram sobre ele, ambos falando ao 
mesmo tempo, examinando-o em busca de partes perdidas. 
Aps perceberem que ele estava bem, o interrogatrio 
comeou.
Nick agarrou-lhe o brao com fora.
        Jason! O que voc fez?
        Eu no fiz nada. Caramba. S tentei pegar a pedra.
        Voc lanou um feitio de algum tipo?  Mercedes 
segurou-lhe as mos, virando as palmas para cima, como se 
as revistasse em busca de contrabando.  Aplicou alguma 
coisa na pedra? Usou uma sefa?
Jason balanou a cabea, libertando as mos.
        Eu s tentei pegar a pedra.
Ele se sentia humilhado e frustrado. Rejeitado por uma 
pedra.
Sendo uma feiticeira curandeira, Mercedes era tambm 
empata. Por isso comeou a tentar acalm-lo, o que apenas o 
irritou mais.
        No se preocupe. Provavelmente a desestabilizamos de 
tanto mexermos nela  sugeriu ela.
        Nunca tive nenhum problema com ela antes  disse 
Jason, lembrando-se de como segurara a pedra na ravina, 
acariciando a superfcie cristalina, as chamas passando 
suavemente por entre os seus dedos.
Ele se levantou, esfregando os cotovelos no ponto em que 
haviam se chocado contra a parede.
        Ns estamos mexendo nessa pedra h semanas  disse 
Mercedes.  Talvez seja hora de dar um descanso pra ela. 
Sefas so temperamentais, voc sabe.  Ela apanhou a bolsa 
de veludo.  Vou s coloc-la de volta na cripta.
Snowbeard principiou a dizer algo que soava como um 
aviso:
        Mercedes...
Mas a feiticeira estendeu a mo para o Corao do Drago, e 
a pedra respondeu com uma exploso de chamas que a 
lanou para trs, fazendo-a tropear em suas prprias longas 
pernas. Ela teria cado se Snowbeard no lhe tivesse 
segurado o brao.
        Ora!  arquejou Mercedes.  Ora, ora.
        Voc quer tentar?  disse Jason a Snowbeard, sentindo-
se redimido.
Snowbeard olhou para a pedra. No sendo tolo, apanhou a 
bengala que estava apoiada contra a parede e estendeu a 
ponta com a cabea do urso na direo do Corao do 
Drago at que os dois quase se tocaram.
A pedra pareceu explodir, arrancando a bengala das mos de 
Snowbeard, partindo-a em trs pedaos que caram no cho 
de pedra com um grande estrondo.
Todos eles olharam da bengala quebrada para o Corao do 
Drago e de volta para a bengala.
        A sua bengala!  Jason estava chocado. Snowbeard havia 
carregado aquela bengala por centenas de anos, 
provavelmente. Era uma seja extraordinariamente poderosa. 
Ou havia sido. Jason juntou os pedaos e depositou-os em 
cima da cripta.  Cara, eu sinto muito. D pra consertar?
        A cabea est intacta  disse Mercedes, passando um 
dedo pelo cabo partido.  Talvez d para remontar.
        Humm? Talvez, talvez.  Snowbeard parecia distrado. 
Ele cutucou a bengala quebrada, depois se virou e estudou o 
Corao do Drago. Alisou a barba, revirando as pontas 
entre o polegar e o indicador.  Ela ergueu uma poderosa 
defesa contra ns. O que vocs imaginam que explicaria 
isso? O que mudou?  perguntou ele, parecendo mais 
intrigado com o Corao do Drago do que preocupado com 
a sua bengala.
        Quem sabe?  disse Jason.  Mas agora a gente no pode 
nem tocar nela.
L se iam os planos de lev-la de volta para a Ravina do 
Corvo. Ele olhou para a pedra, perguntando-se se 
conseguiria apanh-la de surpresa de algum jeito.
        Queria que tivssemos o livro que voc encontrou  
disse Snowbeard.  Ele poderia nos dizer alguma coisa.
        Eu posso voltar e buscar  sugeriu Jason.
Em vista do silncio diante da proposta, ele acrescentou:
        Preciso dizer uma coisa: no vou ficar aqui escondido pra 
sempre, respirando poeira no poro de uma igreja.  Ele se 
voltou para Mercedes.  Vejo voc por a, Mercedes. Por 
hoje chega.
Encurvando os ombros como que para se proteger da 
desaprovao que emanava s suas costas, Jason subiu a 
escada em passos pesados at a porta lateral da igreja. Sabia 
que deveria sair pelo tnel frio e deprimente, mas, naquele 
momento, no se importava.
Quando saiu da igreja, a luz brilhante do sol atingiu-o como 
uma clava. Era um lindo dia de inverno, e ele o desperdiara 
enfurnado num poro com gente velha.
        Ol.
A nuca de Jason se arrepiou. Ele se voltou para ver Leesha 
Middleton sentada num banco de pedra no ptio contguo  
igreja. A neve se derretera num arco em torno dela.
Jason estava incrivelmente feliz em v-la.
        Voc esteve a dentro metade do dia  observou Leesha, 
cruzando as pernas e balanando os ps protegidos por 
botas.  Ensaio do coral ou o qu?
Jason se sentou junto dela, beneficiando-se da zona de 
micro-clima quente que ela criara em volta do banco. No 
conseguiu pensar em nenhuma explicao a oferecer  
respeito de por que passara a manh inteira na igreja.
        Por qu? Estava esperando por mim?
- Talvez.  Ela ps a mo no brao dele.   sbado. 
Estou entediada. Quer fazer alguma coisa?
        Tipo o qu?
Ela pareceu surpresa pela pergunta.
        A gente poderia ir tomar um caf. Tem alguns lugares 
junto do campus.
        No gosto de caf.
        A gente pode ir comer alguma coisa.
        No estou com muita fome.
Jason gostou de dizer no a algum. Estava ainda ressentido 
pela surra verbal que levara na cripta.
        Est bem.  Ela fez uma pausa.  A gente poderia ir pra 
minha casa  sugeriu ela, olhando para a praa.  A casa  
da minha tia Milli, mas ela provavelmente nem vai notar 
que a gente est l.
Jason reclinou a cabea e olhou para o cu azul-claro de 
inverno.
        O que voc quer de mim? No posso ajudar voc com o 
Jack, voc sabe.
Leesha se levantou e encarou-o, as faces rosadas de 
indignao, as mos fechadas como se fossem soc-lo.
        Nunca encontrei um cara to cheio de perguntas! Se no 
quer sair comigo,  s dizer no.
Jason ergueu uma mo para conter as acusaes.
        Eu no disse que no queria ir.
        No era o que parecia.
Para ser honesto, ele estava interessado. Fazia tanto tempo 
que no fazia nada por diverso! E a frustrao que sentia lhe 
dava vontade de cuspir na cara de Hastings, Snowbeard e os 
outros. Sair com Leesha era uma forma de fazer isso.
Ele se levantou, segurando as mos dela e pondo-a de p.
        Vamos para o parque.
        O parque?
Se ele houvesse dito "o aterro sanitrio", teria obtido a 
mesma reao.
        Est congelando aqui fora  protestou ela.
Ele sorriu e puxou-a pelo cotovelo, de forma que ela teve de 
se apressar para acompanh-lo.
        O parque Perry  o lugar mais incrvel de Trinity, e aposto 
que voc nunca esteve l.
O parque Perry era tambm um casamento perfeito entre o 
pblico e o privado. Ficava bem no meio do santurio. 
Ainda assim, era improvvel que fossem vistos. Alm disso, 
havia diversas rotas de fuga, caso isso se revelasse necessrio.






Captulo Dez
Coal Grove, Ato I

A audincia foi como uma pea: todos fantasiados, lendo 
suas falas, alguns com mais habilidade do que outros.
Ray McCartney fazia o papel do advogado do interior, todo 
em suter de l e calas cqui, camisa de colarinho e gravata. 
Representava Carlene de graa,  claro. Estivera apaixonado 
por ela desde que Madison podia se lembrar.
Carlene trajava um vestido cinza e casaco, prolas e sapatos 
de salto baixo. Havia comprado o traje na Sears a crdito, j 
que ela no tinha nada assim no guarda-roupa. Madison 
havia arrumado os cachos loiros da me numa trana. 
Somado ao batom cor-de-rosa, esse penteado lhe dava um ar 
mais jovem.
Madison tinha a sua prpria fantasia: uma saia longa e um 
suter folgado, meias pretas e sapatos discretos, sem salto, os 
cabelos rebeldes presos com um grampo na nuca.
"Pareo com a bab de algum", pensou ela, mal-humorada.
Estavam reunidos numa pequena sala de audincias no 
primeiro andar do tribunal de tijolos vermelhos. A neve 
rodopiava do outro lado das janelas. Madison no estava 
nem um pouco ansiosa por escorregar no caminho de volta 
montanha acima.
Alm de Madison e Carlene, havia Ed Ragland, o primeiro 
juiz afro-americano do condado, que sempre parecia estar 
com sono, mas era conhecido por no perder nenhum 
detalhe. Bryson Roper, dono da empresa Carvo Roper e de 
todas as terras em torno da montanha Booker. E o filho dele, 
Brice,  claro.
O senhor Roper era um homem rude que se transformara 
em proprietrio de uma empresa de carvo. O terno caro 
caa-lhe desconfortvel dos ombros largos, e o pescoo 
estava espremido pelo colarinho. Os olhos eram da cor de 
folhas de carvalho aps um longo inverno no cho. Nos 
arredores de Coal Grove, as pessoas diziam que ele era capaz 
de quase tudo, inclusive assassinato.
Brice se reclinava no assento dele, as pernas estendidas, o 
colarinho virado para cima. Ele possua uma beleza artificial, 
como um modelo de anncio de loja de departamentos. 
Como se isso no fosse o bastante, emitia o tnue brilho dos 
magos.
Ele era o tipo de rapaz em quem os pais confiavam. Mas no 
deveriam. Ele sorriu para Maddie, erguendo a mo esquerda 
para acenar para ela, e o estmago dela se revirou, como 
sempre. Ela estivera fora por quase um ano, mas nada 
mudara.
O juiz Ragland firmou as regras bsicas.
 Esta  uma audincia informal, o que gosto de chamar de 
"uma conversa com todas as partes envolvidas", para que o 
tribunal possa descobrir os fatos do caso e decidir o que 
fazer quanto a Grace e John Robert.  Ele se virou para 
Brice.  Jovem senhor Roper?
Brice sabia como contar uma histria, Madison tinha de 
admitir. Ele explicou que estava a caminho de casa, vindo da 
escola, quando viu uma nuvem de fumaa subindo da velha 
casa dos Booker. Ele achou que a casa estivesse pegando 
fogo, por isso foi de carro at l e encontrou o galpo em 
chamas.
- Onde estavam as crianas nesse momento?  indagou o 
juiz Ragland.
        Estavam trazendo gua da bomba. Tentei apagar o fogo, 
mas o galpo j estava praticamente destrudo. Eu no sabia 
onde a Carlene... a senhora Moss... estava. Por isso levei as 
crianas para a nossa casa.
Ray McCartney se inclinou para a frente.
        Quer dizer que, at onde o senhor sabia, a senhora Moss 
estava em algum lugar na propriedade.
        Bem, no  disse Brice, parecendo embaraado por ter 
de delatar Carlene.  As crianas disseram que ela estava no 
trabalho.
        Ento voc levou essas crianas assustadas para a me 
delas?  perguntou Ray com suavidade.
O velho senhor Roper assumiu.
        No, ns as entregamos para o Juizado da Infncia e da 
Juventude. Essas crianas so largadas sozinhas l em cima o 
tempo todo  acrescentou ele.  E hora de fazer alguma 
coisa a respeito. As pessoas daqui prestam mais ateno aos 
seus ces do que ela aos seus filhos.
O juiz Ragland olhou por cima dos culos, estudando alguns 
papis sobre sua mesa.
        Carlene, o relatrio do Juizado da Infncia e da Juventude 
diz que essas crianas j foram removidas de sua casa duas 
vezes anteriormente, por boas razes. Uma vez elas foram 
encontradas perambulando no centro de Coal Grove s duas 
horas da manh.
        Isso foi culpa da bab  disse Carlene.  No pude 
evitar. Eu estava em Las Vegas.
Ray lanou um olhar severo a Carlene. Ele lhe havia dito 
para ficar quieta durante a audincia, a menos que lhe 
fizessem uma pergunta direta.
        Devo dizer que estou preocupado, Carlene  disse o juiz 
Ragland.  Voc esteve no tribunal vrias vezes por causa 
da Grace e do John Robert, mas nada parece mudar. Por que 
eu deveria esperar que as coisas sejam diferentes de agora 
em diante?
Ray respondeu rapidamente.
        Excelncia, este episdio foi apenas um problema de 
comunicao. A bab contratada pela senhora Moss no 
apareceu. Ela no sabia...
        Eu perguntei  Carlene  interveio o juiz Ragland.
        O senhor sabe que eu tenho de trabalhar pra viver  
respondeu Carlene.   difcil encontrar uma bab que suba 
at l em cima na montanha pelo que posso pagar.
         por isso que voc precisa desistir daquele lugar e se 
mudar para a cidade  resmungou o senhor Roper, olhando 
para o teto.  Essas crianas podiam ter morrido queimadas.
O juiz Ragland lanou um olhar de desaprovao a Bryson 
Roper e voltou-se para Carlene.
        Ento o que vai fazer a respeito? No posso devolver essas 
crianas a uma situao que no seja segura.
Carlene segurou a bolsinha cor-de-rosa e se inclinou para a 
frente.
        Elas ficam na escola nos dias de semana. E a Maddie vai 
tomar conta delas depois da escola e nos fins de semana. Isso 
vai me dar tempo para acertar as coisas.
         isso mesmo, Madison?
Todos os olhos estavam sobre Madison Moss. Ela previra 
isso. Sabia que no tinha escolha.
        Isso mesmo, senhor.
        Tem certeza disso?
Madison assentiu com a cabea.
        E quanto s suas aulas? Voc est em que ano, terceiro?
        Est tudo acertado. Ainda posso me formar.
O juiz Ragland suspirou e empilhou os papis sobre a mesa  
frente dele.
        Esta  a minha deciso, ento. O Juizado da Infncia e da 
Juventude vai continuar supervisionando as crianas, mas 
elas sero deixadas sob a sua custdia, Carlene, com a 
condio de que Madison esteja disponvel para cuidar delas 
enquanto voc estiver no trabalho.
Madison sentiu a presso do olhar do juiz, mas olhou para o 
prprio colo.
        Madison, se chegar um ponto em que voc perceba que 
no ser capaz de faz-lo, voc deve notificar o tribunal. Ou 
seja, notificar a mim. De uma forma ou de outra, eu os verei 
a todos aqui no fim de agosto.  Ele se voltou para o 
meirinho.  Pode trazer as crianas?
Grace entrou na sala andando com as costas retas e o queixo 
erguido, como uma rainha de dez anos de idade, segurando 
firme a mo de John Robert. Mas quando o menino de sete 
anos viu Maddie, ele se desgarrou e correu para os braos 
dela.
        Maddie!
Ele enfiou os dedos no cabelo dela, arrancando-o do clipe.
Madison abraou-o com fora, erguendo o corpinho slido 
no colo. Algum havia grudado os cachos loiros dele com 
gel, penteando-os para o lado. Ele vestia uma camisa de 
colarinho de listras vermelhas e brancas e calas vermelhas. 
Parecia um angelical vendedor de carros usados.
Grace devia ter recusado a arrumao, j que trajava as 
prprias roupas e o delicado cabelo castanho estava preso no 
rabo de cavalo de costume. Ela encarou Brice Roper com 
aquele olhar que era sua marca registrada, capaz de azedar o 
leite, e virou-se para o juiz Ragland.
        Eu quero acusar este homem de rapto  declarou, 
inclinando a cabea para indicar Brice, que parecia que ia 
dizer algo, mas pensou melhor e calou a boca.
        Essa  uma acusao sria, minha jovem  replicou o juiz 
Ragland.
        Um galpo velho pegou fogo na nossa propriedade, e o 
meu irmo e eu estvamos apagando, quando ele apareceu. 
A gente podia ter salvado o galpo se no fosse por ele. E 
ento ele nos arrastou montanha abaixo e nos colocou na 
cadeia.
         verdade?  perguntou o juiz Ragland olhando para 
Brice, que revirou os olhos e deu de ombros.
        De qualquer forma, o senhor deveria fazer com que ele 
pagasse pelo galpo  concluiu Grace, olhando feio para 
Brice.
        Vou levar isso em considerao, Grace  disse o juiz 
Ragland.  O que significa que vou pensar a respeito. 
Enquanto isso, volte para casa com a sua me e tome conta 
dela, entendido?
Ele olhou para Carlene, balanando a cabea.
        Carlene, voc est criando advogados. Que Deus a ajude.
Com isso, a audincia estava encerrada.
Ray McCartney deu um tapinha no ombro de Madison.
        Bom trabalho, Maddie. Fico feliz que esteja em casa.
Mas quando Madison tentou abraar Grace, sentiu rigidez e 
relutncia no seu corpo esguio.
"Ela est zangada comigo por eu ter ido embora", pensou 
Madison. "Acha que  por minha culpa que acabou na cadeia 
infantil."
Madison se virou e quase trombou com Brice Roper.
        Oi, Madison, como vo as coisas?  Correndo a mo 
pelos cabelos castanhos cuidadosamente desarrumados, ele 
abriu aquele sorriso que encantava qualquer garota no vale 
de Roaring Fork, mas que dava em Madison a sensao de 
lombrigas rastejando por suas costas.  A gente sentiu a sua 
falta.  o que todo mundo diz  acrescentou ele, 
aparentemente falando por todo o terceiro ano do Colgio 
do Condado de Coalton, do qual ele era presidente.
Madison cruzou os braos e bateu o p no piso de madeira 
gasta.
        Aposto que sim.
Eles tiveram de encontrar outra pessoa de quem falar e a 
quem culpar pelas coisas.
Brice sorriu. Mesmo sem querer, ela recuou um passo. Ele 
sempre parecia estar assediando-a, tomando mais espao do 
que o que lhe era reservado.
        Ento  disse ele, perfeitamente consciente do efeito que 
causava.  Quando vai voltar pra escola?
Ela balanou a cabea.
        No vou voltar. Estou... hum... estudando em casa.  um 
curso  distncia.
Para que eu possa me manter  distncia de todos vocs.
Ele a fitou por um momento, a testa levemente franzida, 
como se no soubesse se acreditava nela ou no.
        Que pena. Bem, eu ligo pra voc, ento. Podemos sair. 
Vou apresentar voc pras pessoas  acrescentou ele.
I-na-cre-di-t-vel. Depois de tudo o que havia acontecido, 
Brice Roper estava lhe passando uma cantada. De novo. Por 
um minuto ela ficou sem fala, as palavras parecendo travar 
em sua boca.
        Ora, muito obrigada, mas eu sou daqui, no preciso que 
me apresente.
Na verdade, havia pessoas s quais ela gostaria de ser 
desapresentada. Adivinhe quem estava no topo da lista?
        Alm do mais, vou estar muito ocupada e, de qualquer 
jeito, a gente no tem telefone no momento.
         verdade. A Carlene tem usado bastante o nosso 
telefone. Passe por l pra telefonar sempre que quiser. 
Geralmente estou em casa  tarde, a no ser que haja alguma 
coisa na escola.
Ele ergueu a mo e alisou de leve os cabelos dela.
Ela estapeou-lhe a mo, e ele agarrou o pulso de Madison. O 
rosto dele ficou vermelho como tijolos.
Bryson, seu pai, falou da porta.
        Brice, que diabos voc est fazendo? Venha. J estamos 
atrasados  acrescentou, apontando para o relgio, virando-
se e saindo do recinto.
Madison olhou de novo para Brice a tempo de ver o dio 
cruzar-lhe o rosto antes que ele varresse a emoo de suas 
feies. Ele soltou-lhe o pulso.
        Vejo voc por a  disse ele, e foi embora.
"No se eu vir voc primeiro", pensou Madison.
        O que o jovem Brice queria?  perguntou Carlene, 
enquanto desciam os degraus largos e baixos do tribunal, 
com Ray seguindo-as, esperanoso.
        Queria que eu soubesse que todos sentem a minha falta.
        Creio que ele tem uma queda por voc, Madison  disse 
Carlene, reaplicando o batom sem perder o passo.  Aquele 
rapaz tem uma expresso... faminta.
        Mame, no me venha com essa.
        Dizem que os Ropers tm pilhas de dinheiro.
        Dizem um bocado de coisas.  Coisas demais e com 
demasiada freqncia.  A vov Min me disse pra ficar 
longe dele.
Carlene deu de ombros.
        Ela tambm jamais gostou de nenhum dos meus 
namorados.
Ray as seguiu at o carro, zumbindo em torno delas como 
uma cigarra no vero. Carlene passou a Ray a escova e ele 
limpou a neve de cima do carro enquanto ela dava partida 
no motor.
        Vou obter os termos da sentena de custdia por escrito e 
a eu dou um retorno a voc  dizia Ray.  Quando  o 
seu aniversrio, Maddie?
        S em agosto.
        Enquanto estiver aqui, podemos arranjar a papelada para 
que estejamos prontos para transferir a escritura da casa e 
tudo assim que voc completar dezoito anos.
Ray era o executor dos bens de Min.
        Ainda no entendo por que a Min deixou a montanha pra 
voc  resmungou Carlene.  Sou a filha dela.
        Porque, se ela tivesse deixado pra voc, a gente j teria 
perdido a montanha  disse Madison.
Carlene se calou, remexendo na bolsa  procura de um 
cigarro, o lbio inferior tremendo.
"L vai a sua lngua ferina de novo", pensou Madison. Min 
sempre dizia que Maddie era incapaz de tolerar os imbecis.
Carlene trabalhou naquela noite, por isso, aps o jantar, 
Madison ajudou John Robert no banho, lavando o gel que 
lhe haviam aplicado no cabelo e deixando que esse secasse e 
voltasse  sua aparncia cacheada natural.
Vestindo o casaco, ela saiu para a varanda. Pousou as mos 
no corrimo rachado e respirou o ar frio como se fosse um 
tnico. As luzes cintilavam no vale l embaixo.  esquerda, 
o riacho Booker corria sobre as pedras e murmurava 
segredos em seu caminho montanha abaixo.
Ela explorou o vcuo deixado pela ausncia de Seph, como o 
faria com o espao outrora ocupado por um dente quebrado. 
Ele era uma presena constante na viso perifrica de 
Madison, alto, calado e acusador, o rosto plido emoldurado 
por um emaranhado de cachos. Mas ele desaparecia toda vez 
que ela virava a cabea.
S que agora havia algo mais. Desde o encontro no poro da 
igreja, o Corao do Drago parecia ocupar a todo instante os 
espaos vazios de sua mente, como imagens de fogos de 
artifcio gravadas nas retinas.
Descendo com cuidado os degraus de pedra que se 
esfarelavam, Madison atravessou o ptio lateral at o local 
onde os restos carbonizados do galpo se amontoavam junto 
 estufa. Carlene havia deixado o esqueleto de madeira 
apodrecer.
O trisav de Madison havia cortado as tbuas com uma 
machadinha. Havia disposto as pedras da fundao mais altas 
num dos lados para compensar a inclinao do relevo.
Madison se ajoelhou e cutucou as cinzas com um galho, 
torcendo para no encontrar nenhum sinal de bruxaria.
Um leve som por trs de Madison alertou-a para o fato de 
que no estava sozinha. Ela se levantou e se virou. Era 
Grace, que ainda no decidira se estava de bem com 
Madison ou no.
"No seja como eu", pensou Madison. "Rancorosa a vida 
toda."
Ficaram de p lado a lado, fitando as runas, batendo os ps 
para se manter aquecidas. A respirao delas formava 
baforadas no ar cristalino.
        Afinal, o que foi que aconteceu com o galpo?  
perguntou Madison aps um instante.
        Umas pessoas atearam fogo nele  respondeu Grace.
Madison se voltou e a encarou.
        Quem?
Grace sacudiu os ombros estreitos.
        Eram quatro ou cinco. Estava escuro. Eles pareciam estar 
carregando tochas ou algo assim.
Ningum era melhor do que Grace em guardar segredos. O 
que fazia Madison pensar que ela tivera de praticar muito.
        E voc e o J. R. estavam sozinhos?
Grace deu de ombros de novo. Pegou um galho e enfiou a 
ponta sob uma viga carbonizada, pescando um trapo de pano 
que se dissolveu em cinzas.
        Alguma idia de quem foi?  indagou Madison.
        No. Estavam usando capuzes.  Ela hesitou.  A gente 
tentou apagar o fogo, eu e o J. R. Jogamos gua. Mas no 
apagava.
Madison estremeceu.
        Vocs... vocs encontraram alguma marca, um sinal ou 
algo assim?
Grace balanou a cabea.
        Contou a algum?
Ela franziu o nariz.
        Pra quem eu ia contar? Voc no estava aqui, e a mame, 
bem...
        Podia ter dito  polcia.
        Provavelmente iam dizer que a gente inventou. Ou nos 
culpar.
Madison concordou com a cabea.
         possvel.
Apesar da idade, Grace j era calejada. Ela provavelmente se 
lembrava de quo pouco a polcia ajudara no ano anterior, 
quando Madison fora a acusada.
        Devem ter sido crianas  sugeriu Madison.
Era possvel. Algumas pessoas simplesmente gostavam de 
ver as coisas pegarem fogo. E os garotos do colgio gostavam 
de subir a estrada da montanha Booker quando queriam 
fugir de todos os olhares curiosos da cidadezinha.
Aquilo no queria dizer, necessariamente, que os incndios 
recomeariam.
Num impulso, Madison passou um brao ao redor dos 
ombros de Grace e puxou-a para perto. Grace resistiu a 
princpio, depois cedeu, pousando a cabea no ombro de 
Madison. Grace tomara uma ducha assim que chegara em 
casa, e seus cabelos cheiravam ao tipo de xampu que se 
podia comprar por 99 centavos o litro.
O cheiro do lar.
        Vai ficar conosco por todo o vero?  perguntou Grace, 
as palavras saindo num s flego, como se estivesse 
morrendo de vontade de fazer aquela pergunta a noite toda.
        No sei se o vero todo. At terminarem as aulas, pelo 
menos.
        A picape tambm vai ficar aqui? Voc vai poder levar a 
gente pra passear?
        Bem, vou ficar estudando em casa. Pintando para a escola.
        timo.
Grace raspou os destroos congelados com a ponta do tnis.
Madison pensou em Grace, confinada  montanha, sem 
telefone, sem computador e apenas com John Robert para 
lhe fazer companhia. At a recepo dos canais de TV era 
ruim.
        No se preocupe. Vamos passear. Vamos descer at a 
cidade pelo menos umas duas vezes por semana.
Grace revirou os olhos.
        Como se isso fosse uma aventura.
Mas Madison percebeu que ela estava contente.


Captulo Onze
Pintura Venenosa

Seph se deitou entre as almofadas no balano de vime. O 
solrio no Chal de Pedra era um de seus recantos favoritos, 
em qualquer estao. O livro escolar estava apoiado sobre os 
joelhos dele  Problemas da democracia: uma viso 
mundial , mas fazia um bom tempo que ele no virava 
uma pgina. O texto podia muito bem ter sido escrito em 
ingls antigo.
Com outra parte da mente, ele monitorava o santurio. A 
energia deste vibrava ao redor de Seph, como um mapa com 
pontos esparsos de cor indicando os movimentos dos magos 
e dos outros dotados. No era mais to exaustivo como 
antes. Era como transitar por uma rede de um videogame 
complexo, exercendo controle sutil sobre os eventos. O pai 
lhe ensinara a tcnica.
Aqui e ali uma erupo indicava que havia magia em ao  
os verdes e marrons da magia da terra no jardim de 
Mercedes, os prateados e dourados dos feitios dos magos, 
os vermelhos e roxos que significavam encantadores. Em 
nenhum lugar o laranja furioso que significava magia de 
ataque. Ele se tornara a cidade de Trinity  sua maquete 
mgica, pelo menos. O dia e seus prazeres se tornaram 
distantes.
Algo cutucou-lhe as margens da conscincia. Uma voz.
        Seph.
De repente, o diagrama mgico desapareceu de seu campo 
de viso, e o poder fluiu de volta para seu corpo, aquecendo-
o at as pontas dos dedos das mos e dos ps. Ele abriu os 
olhos e viu Nick Snowbeard fitando-o com uma expresso 
severa.
        Seph. Voc se estende demais. J o avisei sobre isso. 
Desse jeito voc fica vulnervel.
Nick assumira plenamente seu disfarce de velho desleixado, 
vestindo calas de lona, uma camisa de flanela e botas de 
trabalho.
Seph lambeu os lbios e virou um pouco a cabea para olhar 
na direo do lago congelado. Este havia desaparecido na 
escurido. Era tarde  mais tarde do que pensara. Aonde o 
tempo havia ido?
Ele conseguiu se sentar na segunda tentativa. Os msculos 
estavam rgidos devido  longa imobilidade.
        Qual  o problema?
        O seu telefone estava tocando quando entrei.  Nick 
deixou um celular cair no colo de Seph.  Era a Rachel 
Booker. Quer que voc se encontre com ela na penso.
Seph apanhou o telefone e estreitou os olhos para Nick.
        A Rachel?
Rachel Booker era a dona da Penso Lendas, prima mais 
velha de Madison. Ele no a via desde que Madison partira 
para o Condado de Coalton. Como defensora auto-
proclamada da virtude de Madison, sempre tratara Seph com 
uma fria e ctica desconfiana.
No que ele representasse qualquer ameaa ultimamente.
O corao dele acelerou.
        Por qu? Ela teve notcias da Madison?
        Sugiro que a gente v at a Lendas e descubra.
Seph se ergueu, agarrando o balano como apoio, ainda 
trmulo devido aos efeitos da sondagem mental.
        Voc est bem?  perguntou Nick em tom rspido.
        Estou timo.
De fato, ele parecia estar lidando melhor com as tarefas 
mgicas ultimamente. As violentas dores de cabea haviam 
passado. Sentia-se menos cansado, mais concentrado, e 
ganhara algum peso. "Os milkshakes da Linda devem estar 
funcionando", pensou.
Ele e o velho mago saram do Chal de Pedra e seguiram 
para oeste pela estrada do Lago, uma avenida flanqueada por 
uma mistura ecltica de velhos chals de vero e manses 
modernas. Postes de luz raiavam sob os esqueletos das 
rvores e o vento vindo do lago estava terrivelmente frio.
Nick andava sobre as pedras irregulares do calamento sem 
o auxlio da bengala, j que Mercedes a declarara irreparvel. 
Ele parecia incompleto sem ela. Seph segurou o brao do 
velho mago algumas vezes para ampar-lo na rua gelada.
        Voc quase no tem sado para falar com outras pessoas 
 disse Nick.  A ausncia de Madison no est fazendo 
bem a voc.
Seph esfregou a testa com irritao.
        Sinto como se estivesse entre as pessoas o dia inteiro.
        No falo no sentido virtual.  Nick fez uma pausa.  
Acho que voc deveria conversar com o Jason.
Seph revirou os olhos.
        Por qu? Ele se sente solitrio ou algo assim?
        Estou preocupado com ele. Hastings tinha esperanas de 
que eu conseguisse envolv-lo nos testes das sefas que ele 
trouxe da ravina. Jason tem um bom conhecimento sobre 
objetos mgicos, mas receio que o trabalho de arquivo no 
combine muito com ele. Ele anda tenso como um arco 
esticado.
        Jason est bem  disse Seph, sentindo-se culpado. No 
era culpa dele se as coisas haviam acabado daquele jeito. Na 
verdade, abriria mo da barreira de bom grado, se pudesse. 
Mesmo quando ele se sentia bem, era difcil control-la. A 
presso era intensa. Todos estavam contando com ele, e era 
exatamente isso o que Jason desejava.   s que... eu 
queria que ele pudesse ajudar com... algo mais importante.
Nick emitiu um som de desprezo.
        Ele est fazendo algo importante, s que no v as coisas 
desse modo. Tenho medo de que ele cometa algo 
imprudente.
        Como o qu?
        Como voltar para a Gr-Bretanha sozinho. Ele sabe que 
Hastings est planejando algo e est determinado a fazer 
parte disso. E ele quer levar alguns dos objetos da igreja de 
volta com ele.
        No vejo como a gente possa impedir.
        Eu posso det-lo, se quiser  disse Snowbeard, com 
franqueza.  Porm preferiria no fazer isso. Tinha 
esperanas de que, como amigo dele, voc fosse capaz de... 
reorient-lo.
        Posso tentar  disse Seph, de novo se sentindo culpado 
por falar pelas costas de Jason.  No me sinto  vontade 
pra dizer a ele o que fazer.
        Ele pode no ser forte o bastante para lidar com a barreira, 
mas h muito mais trabalho a ser feito. Voc precisa delegar 
mais  disse Snowbeard.
"Certo", pensou Seph. "Delegar mais. timo." Ele tinha 
planos que exigiriam mais magia do que nunca.
        Que notcias voc tem da Madison?  perguntou Nick, 
mudando de assunto abruptamente outra vez. O velho mago 
estava numa misso tambm, e Seph era, de certa forma, o 
veculo.
        No muitas. O telefone deles est desligado, e a recepo 
do celular no  boa por l. Ela me manda e-mails da 
biblioteca de vez em quando. No vai voltar to cedo. Os 
irmos dela foram liberados do Juizado da Infncia, j que 
ela est l pra tomar conta deles.
Aqueles e-mails eram extremamente insatisfatrios: Tenho 
pintado. Estou bem. As crianas do trabalho. Tem estado 
frio e chuvoso. Quente e ensolarado. Ontem vi um peru 
selvagem e uma guia careca. Ela mandava fotos da 
montanha Booker e das pinturas que fazia, paisagens vistas 
atravs de um filtro azul esfumaado.
Seph curvou os ombros frustrado. Ele no queria que ela se 
desse bem no Condado de Coalton; queria que ela voltasse 
para Trinity. " melhor assim", disse ele a si mesmo. "Se 
voltarmos a nos ver algum dia, a gente vai acabar brigando."
Mas seria bom se pelo menos ele pudesse v-la de novo.
Eles viraram a esquina, passando pelos jardins ressecados 
pelo inverno que cercavam a penso e subiram os degraus 
at a varanda. A recepcionista no balco do saguo foi 
chamar Rachel. Seph passou a mo pelo pilar de apoio da 
requintada escadaria de carvalho. Ali ele e Madison haviam 
planejado o primeiro encontro deles  o malfadado 
piquenique no rio.
Rachel surgiu no corredor que vinha da cozinha, limpando 
as mos no avental. O cabelo era completamente liso e 
preto, diferente dos cachos dourados de Madison, mas ela 
possua a mesma compleio plida, a mesma pele clara, as 
mesmas sardas e o mesmo nariz levemente curvo de 
Madison.
        Obrigada por virem  disse ela, inclinando a cabea 
polidamente para Seph e Nick.  Quero mostrar uma coisa 
a vocs.
Ela se virou e subiu a escadaria em curva, obviamente com a 
inteno de que eles a seguissem. Eles subiram um lance e 
depois outro, cruzando o pavimento no primeiro andar e 
continuando por uma escada mais estreita at o segundo, 
onde ficava o quarto de Madison.
        A gente estava falando sobre a Madison  disse Seph, 
acompanhando com facilidade o ritmo dela pelos ngremes 
degraus enquanto Nick ficava para trs.  Teve notcias 
dela?
        No  respondeu Rachel, olhando-o com uma expresso 
peculiar.  No tive nenhuma notcia.
Ao entrarem no familiar corredor que levava ao minsculo 
quarto de Madison enfiado sob a escada dos fundos, Seph 
sentiu cheiro de madeira queimada. Rachel postou-se ao 
lado da entrada dos aposentos de Madison.
A porta havia sumido, pelo menos a maior parte dela, 
deixando um buraco irregular. A madeira do batente da 
porta estava chamuscada, e os tacos do piso cobertos com 
cinzas finas, agora manchadas com pegadas.
Seph encarou Rachel, que o fuzilava com os olhos como se, 
de alguma forma, ele fosse culpado. E provavelmente era.
        O qu... Quando isso aconteceu?
        Ontem. Foi quando eu notei, pelo menos. Entre  disse 
ela.
Seph hesitou, sem saber se deveria abrir a porta arruinada ou 
passar pelo buraco. No fim, escolheu a segunda opo, 
passando com cuidado por entre a madeira rachada.
O quarto estava totalmente destrudo, o contedo das 
gavetas jogado no cho, armrios com as portas abertas, o 
colcho arrancado da cama e cortado em pedaos, bas 
revirados, cestos de lixo de cabea para baixo. As portas do 
armrio haviam sido arrombadas e pendiam tortas nas 
dobradias. At o pequeno refrigerador havia sido esvaziado 
no piso.
Embora fizesse tempo que ele no era convidado a entrar no 
quarto de Madison, era um contraste gritante com o que 
Seph se lembrava. Madison era uma pessoa naturalmente 
ordeira.
Ele se voltou para Rachel, que entrara atrs dele.
        Quem fez isso? O que estavam procurando?
Ela cruzou os braos, batendo o p de um jeito familiar.
        Eu esperava que voc pudesse me dizer.
        Como  que eu vou saber?  disse Seph, sabendo que a 
porta destruda era obra de um mago.
Nick estava postado  entrada, emoldurado pelos destroos 
da porta.
        Minha nossa  disse ele.  Que tipo de ato diablico  
este?
        No consigo entender  disse Rachel.  Quer dizer, o 
quarto dela  aqui em cima no segundo andar, ento no 
parece ser um arrombamento comum.  mais provvel que 
um hspede tenha bens valiosos do que uma garonete.
        Depende do que se considera valioso  resmungou Seph. 
 Alguma coisa foi levada?
        No que eu tenha notado. Mas pode ser. Ela no tinha 
muito, para incio de conversa. Ela levou os apetrechos de 
arte e o computador pra casa com ela. Mas deixou as roupas 
de inverno, a moblia e outras coisas de escola.
Dando de ombros, Seph examinou o quarto  as estampas 
impressionistas que cobriam as paredes, a coleo de 
chapus sobre a cama, a cabeceira manchada de tinta. A 
escrivaninha fora esvaziada, mas no havia como saber se 
algo estava faltando.
Ele no havia notado nenhuma atividade mgica atpica nos 
ltimos dois dias. Mas no seria preciso muito para explodir 
uma porta.
O que um mago estaria procurando? Objetos mgicos? Um 
endereo? Registros telefnicos?
A apreenso fez o corao de Seph se contrair, mas ele 
conseguiu manter a voz firme.
        Ela sabe?
Rachel balanou a cabea.
        Eu mandei um e-mail pra ela, mas ela no respondeu.
        Voc chamou a polcia?  indagou Seph.
        Talvez eu tenha agido errado, mas no chamei. No 
parece um assalto normal. Como eu falei, por que ir atrs de 
uma garota que no tem nada?  Ela fitou Seph com 
desconfiana.  Tem certeza de que no sabe nada sobre 
isso?
Ele retribuiu-lhe o olhar.
        Por que eu saberia de algo a esse respeito?
        Tudo o que sei  que h alguma coisa errada entre voc e 
ela. Vocs eram que nem pombinhos apaixonados at uns 
seis meses atrs, e desde ento, bem, voc  quem deveria 
me dizer.
Tomado de surpresa, Seph gaguejou:
        A gente est bem. Digo, estamos timos.
        Mesmo? Ora, ocorreu-me que talvez voc tivesse vindo e 
revirado o lugar todo, sabe como , por vingana. Por ela ter 
ido embora.
Seph ficou ofendido com a acusao.
        Eu no faria isso.
Eles ficaram se encarando. Ento Seph perguntou:
        Ela deixou alguma das pinturas dela aqui? Se algum queria 
destruir algo que significasse muito pra ela, comearia por a.
        Bom, tem s essa.  Rachel ps a mo atrs do sof e 
tirou uma tela.  Parece que algum tirou isso do armrio.
Ela a virou para Seph para que ele pudesse ver.
A tinta parecia nadar na tela, em redemoinhos nauseantes de 
marrom e verde. No. Eram as figuras na pintura em si. 
Estavam se movendo. Ele reconheceu a cena com um 
sobressalto: era a sala de conferncias em Second Sister. O 
pai dele, Hastings, jazia junto ao altar de Gregoiy Leicester, 
nos braos da me que chorava. Leicester olhava 
diretamente para Seph, os olhos brilhando, o brao 
estendido. Atrs dele estavam os ex-alunos, unindo seus 
poderes aos dele. Chamas irromperam das mos de 
Leicester, chocando-se contra o corpo de Seph. Ele gritou e 
recuou aos tropeos, erguendo as mos para se defender.
Ele acordou e se viu deitado na cama de Madison com Nick 
sentado a seu lado, suas mos pressionando o peito de Seph, 
murmurando um feitio de cura. Quando Seph abriu os 
olhos, Snowbeard soltou um suspiro de alvio e sussurrou, 
numa voz estranha e contida:
        Deixe as explicaes comigo.
Seph tentou se sentar e vomitou algo negro e nojento numa 
bacia que Nick estava segurando ali, de prontido. Nick 
limpou-lhe o rosto com um pano.
        Nick  sussurrou Seph.  O que a Rachel...
        Fique deitado  ordenou Nick, e foi esvaziar a bacia.
Rachel apareceu  porta com um copo de gua.
        Como ele est?
A costumeira desconfiana em relao a Seph havia sido 
substituda por preocupao solcita.
        Sinto muito pelo transtorno  falou Nick do banheiro.  
Ele tem estado gripado nestes ltimos dias. Quando dei a sua 
mensagem para ele, ele insistiu em sair da cama para vir 
aqui.
        Eu no sabia que ele estava doente  disse Rachel, 
retorcendo o cabelo entre os dedos.  O senhor devia ter 
dito.
Snowbeard retornou com a bacia vazia. Seph lavou a boca e 
cuspiu a gua na bacia. Sentia-se pssimo, como da vez em 
que contrara mononucleose na escola secundria na Esccia 
e acabara no hospital. Todo o seu corpo coava e ardia como 
se estivesse com urticria. Alucinaes flutuavam em sua 
mente.
        O que voc fez com a pintura, Rachel?  indagou o velho 
com calma.
        Guardei no poro  disse ela, dando de ombros.  Mas 
ainda no vejo por que...
        Melhor prevenir do que remediar  disse Snowbeard.  
Provavelmente  s a gripe, mas talvez algo na pintura tenha 
desencadeado um choque sinptico no crebro, do mesmo 
jeito que luzes estroboscpicas causam convulses em 
pessoas suscetveis.
Mesmo tonto como estava, Seph no pde deixar de pensar 
que Snowbeard era um excelente mentiroso para algum 
que era um dos mocinhos da histria.
        Quer alguma coisa para comer, meu bem?  perguntou 
Rachel.  Eu posso preparar uma omelete ou uma sopa  
ofereceu ela.  Tem bolo de chocolate e pudim com calda 
de acar queimado.
Seph estremeceu ante o pensamento de se ver diante de 
comida. A cadeira de Snowbeard rangeu quando ele se 
ergueu para segurar o cotovelo de Rachel.
        No se preocupe, minha querida. Sei como est ocupada. 
Vou ficar aqui com o Seph e vamos deix-lo descansar por 
uns minutos, depois vou lev-lo para casa. Tem certeza de 
que no tem mais nenhuma pintura da Maddie na penso?
        Aquela foi a nica que encontrei. Ou ela levou todas, ou o 
ladro roubou.
        Vamos torcer para que nada tenha sido roubado.
Sem esforo, Snowbeard conduziu Rachel para fora do
quarto. Momentos mais tarde, Seph ouviu-a descer as
escadas. Snowbeard fechou o que restou da porta e puxou
uma cadeira para se sentar ao lado de Seph.
Linhas duras e zangadas marcavam o rosto do velho.
        Como est se sentindo?  perguntou ele.
        Pssimo.  E confuso e embaraado.  No sei o que
eu...
        O que voc viu na pintura?  indagou Snowbeard,
segurando-lhe o brao.
Ele est usando a persuaso, percebeu Seph, sentindo o fluxo 
quente de poder. Ele resistiu instintivamente, revertendo 
aos hbitos adquiridos ao longo de toda a sua vida.
        A pintura? No consegui ver muita coisa. Eu estava meio 
tonto no caminho at aqui, por causa da sondagem mental, 
acho, e eu s... por que pergunta?
Snowbeard estudou-o, desconfiado.
        Voc bateu o olho na pintura da Madison e desmaiou. 
Quero saber o porqu.
        Nem me lembro.  Seph fechou os olhos como se 
vasculhasse o crebro, mas principalmente a fim de evitar o 
olhar penetrante de Snowbeard. Qual era a do velho, afinal? 
 Com o que parecia?
        Era uma pintura do Porto de Trinity.
"No  a pintura que eu vi", pensou Seph. Ele abriu os olhos.
        Ah, certo. Agora me lembro.
Snowbeard apertou com mais fora. Mais persuaso.
        No minta para mim. Isto  importante para a sua prpria 
segurana.
        Seja como for, como  que uma pintura poderia me fazer 
desmaiar?
        H vrias possibilidades, meu rapaz. Feiticeiros podem 
implantar feitios em objetos. Certamente uma praga 
poderia ser embutida numa pintura.
        Ento voc acha que quem quer que tenha invadido este 
quarto ps uma praga na pintura da Madison?  indagou 
Seph, com cautela.
        Pragas geralmente so embutidas no momento em que o 
objeto  confeccionado. Nesse caso, no momento em que a 
tela foi pintada.
        Bem, foi a Madison quem pintou. Ento isso  impossvel.
Seph olhou Snowbeard nos olhos, desafiando o Velho Urso 
a contradiz-lo.
        E no  s isso  continuou Snowbeard, como se no 
tivesse escutado.  A praga, se  isso o que era, foi 
direcionada especificamente contra voc. No afetou a 
Rachel nem a mim, embora eu tenha retirado a pintura do 
quarto e ela a tenha carregado at o poro. O que quer que 
fosse, tinha a inteno de matar. Se voc estivesse sozinho, 
poderia ter tido sucesso.
        Pragas e magia de ataque no funcionam no Santurio. A 
gente sabe disso.
        Existem muitas coisas que esto alm do nosso 
conhecimento  disse Snowbeard com gravidade.  Era 
voc quem estava mantendo a barreira. Voc pode ser 
vulnervel  uma praga poderosa dirigida contra voc ou 
embalada de uma forma diferente.
Seph sabia onde aquilo ia chegar. Ele comprimiu os lbios e 
esperou pelo fim do discurso.
        Quem sabe do que um extrator  capaz? Ningum. A 
Madison se recusou a se juntar  guerra do nosso lado.  
possvel que ela tenha se juntado ao outro lado?
        No  respondeu Seph, mais alto do que pretendera.
"Mas por que ela iria pintar aquela cena em particular?
Ela pareceu completamente traumatizada na poca, e com 
certeza no era algo de que ele quisesse se lembrar".
        Ela deixa a cidade repentinamente no meio do ano 
letivo...
        Ela precisou.
        Parece que vocs no tm se dado to bem quanto antes...
        Ei, espere a.  Seph se apoiou nos cotovelos, lutando 
contra outra onda de nusea.  Como eu fico dizendo a 
voc, e ao meu pai,  minha me e a todo mundo, a Madison 
no quer ter nada a ver com essa guerra. Nada. Ela no est 
metida nisso. Talvez ela no nos ajude, mas ela no nos 
prejudicaria.
        A ris mencionou que a Madison parece estar... em 
dificuldades financeiras.
Seph pestanejou.
        Sei que ela nunca teve muito dinheiro, mas... eu podia ter 
ajudado. Tudo o que ela precisava fazer era pedir.
        Talvez tenha preferido no fazer isso. Ela  orgulhosa. As 
Rosas tm bolsos generosos. Qualquer um dos nossos 
inimigos poderia deix-la rica.
        No. No acredito nisso.  Seph esfregou a testa com as 
costas da mo. Madison no lhe faria mal. Ele sabia disso.  
Eu desmaiei. S isso. Vai ver estou mesmo gripado. Tente a 
explicao mais simples pra variar. Estou cheio dessas teorias 
conspiratrias.
Nick balanou a cabea, sem querer prolongar a discusso.
        Independentemente da origem do ataque, temo que voc 
esteja ferido mais gravemente do que percebe. Voc perdeu 
o controle da barreira quando caiu. Tente ergu-la de novo.
        Certo.  Seph respirou fundo e tentou se estender pelo 
santurio. Pontos pretos nadavam diante de seus olhos, 
agrupando-se em uma escurido sufocante que ameaava 
engoli-lo. Comeou a suar frio e desistiu. Ficou
completamente imvel at que a tontura passasse. J era 
difcil antes. Agora era impossvel.  Sinto muito  disse 
ele, quase em pnico. "E se eu no melhorar?"  S preciso 
descansar um pouco.
 Talvez  disse Snowbeard, no soando muito con-
vencido.  Vou assumir por enquanto. Mas precisamos 
determinar exatamente onde est a Madison e o que ela est 
tramando. Talvez isso seja algo que o Jason possa fazer.

Captulo Doze
Uma Donzela Indefesa

A neve caa, infiltrando-se pelas copas das rvores e 
cintilando na fria luz de inverno, quando Leesha tropeou 
na trilha congelada. Ela segurou com firmeza a mo de um 
imperceptvel Jason, tanto para no cair quanto porque era 
ele quem estava com a sefa.
        Aonde vamos?  sussurrou ela.  E quem a gente est 
espionando?
Diversas possibilidades passavam na mente dela. Assassinos. 
Espies. Algum tipo de arma mgica sendo construda no 
Santurio.
        Voc vai ver  sussurrou ele, misterioso.
         bom que valha a pena  resmungou ela. No que dizia 
respeito a Leesha, o inverno era o modo de a natureza dizer 
para as pessoas ficarem em casa. Em todos os lados, a neve 
estava rabiscada com pegadas de animais. Quem poderia 
saber que tipo de animal andava por ali?  Tem ursos por 
aqui?
        S pequenos.
Ser que os ursos perceberiam uma pessoa imperceptvel?
Eles desceram at o leito de um regato parcialmente 
congelado, subiram do outro lado, circularam uma ravina e 
foraram caminho por uma grossa barreira de pinheiros 
cobertos de neve. quela altura, ela estava sem flego.
        Quer ir mais devagar, por favor? As minhas pernas no 
so to longas quanto as suas.
        Chegamos. Espere s at voc ver.  muito legal.
Eles pararam sob um pinheiro cujos galhos curvavam-se at 
junto ao cho. O ar estava impregnado de um aroma lmpido 
e penetrante, como purificador de ar. Postando-se atrs dela, 
Jason segurou Leesha pela cintura e ergueu-a.
Bem diante do rosto dela estava a menor coruja que ela j 
vira, menor que um pintarroxo. Tinha uma cor 
amarronzada, com listras brancas partindo dos olhos e 
manchas brancas. Os pezinhos curvavam-se com firmeza 
em torno de um galho. Parecia estar em sono profundo, mas 
enquanto Leesha observava, a coruja abriu os olhos amarelos 
e piscou preguiosamente para ela, depois os fechou de 
novo.
Com cautela, Leesha estendeu o dedo e roou o tufo de 
penas ao redor dos ps da coruja, prendendo o flego. O 
pssaro abriu os olhos, girou a cabea, agitou as penas e se 
aquietou de novo.
Jason baixou Leesha cuidadosamente at o cho, depois se 
inclinou para olhar tambm. Eles se revezaram observando a 
coruja por cerca de dez minutos. Ento Jason segurou a mo 
de Leesha e guiou-a para fora do bosque de pinheiros.
Quando estavam a uma distncia segura, Jason desativou o 
feitio de imperceptibilidade e reapareceu, sorrindo para ela.
        O que... o que era aquilo?  perguntou Leesha.  Nunca 
tinha visto uma coruja to pequena!
         chamada de "coruja afia-serra"  disse Jason, parecendo 
feliz com a reao dela.  Acho que elas passam o inverno 
por aqui. Vi aquela ali um dia desses e fiz uma busca on-line. 
Parece que o canto dela soa como algum afiando uma serra.
        A gente no pode levar pra casa?  to fofinha. Quero 
ficar com ela!  disse Leesha.
        Bem, se quiser... Mas elas dormem durante o dia e comem 
ratos, e a voc teria de caar.
Leesha estremeceu.
        Oh. Quer dizer que agora voc  o grande caador?
        Com certeza.  Ele se ajoelhou, formando uma bola de 
neve.  Acho que a temporada de caa com arco acabou. 
Mas a temporada de bolas de neve est s comeando.
Ele se levantou e se aproximou dela, jogando a bola para o ar 
e apanhando-a, lanando a Leesha um olhar sugestivo.
        Oh, no. Fique longe de mim!
Jason lanou a bola. Leesha se abaixou atrs de uma rvore e 
o mssil explodiu contra o tronco. Ela se ajoelhou e formou 
uma bola tambm, mas quando se levantou, Jason havia 
desaparecido.
        No  justo! Voc no pode ficar imperceptvel.
        Nada de regras  disse Jason de trs dela, enfiando um 
punhado de neve pelas costas dela.
Ela se virou e ele roubou-lhe um beijo, ento deu um pulo 
para trs, saindo de seu alcance.
        Nada de regras, voc diz? Vai se arrepender.
Ento a luta comeou de verdade. Embora Leesha tivesse 
pssima pontaria, ela descobriu que era capaz de explodir os 
msseis de Jason com magia antes que eles atingissem o alvo, 
o que equilibrou um pouco a disputa.
Quando decretaram uma trgua, haviam corrido pela floresta 
por uma hora. Leesha estava at suando, e estava 
escurecendo. Eles caminharam de volta ao pavilho do 
parque de mos dadas. Leesha acendeu a lareira para secar as 
roupas molhadas, e Jason aqueceu um pouco de sidra. 
Sentaram-se lado a lado junto ao fogo, as costas torrando, a 
frente congelando.
Leesha estava espantada por ter gostado tanto de brincar na 
neve. Imagens de quando era pequena lhe voltaram. Ela e a 
tia Milli fazendo bonecos de neve no ptio. Cardeais e 
chapins circulando o alimentador de pssaros, pousando para 
comer da mo dela. Consultas ao guia de campo da tia Milli 
para identificar pssaros raros.
        Quando chegar o vero, a gente pode se mudar para c  
sugeriu Jason, interrompendo-lhe o devaneio.  Voc sabe, 
dormir em redes nas rvores, viver da terra.
        Voc  totalmente louco, sabia disso?  disse ela, 
pensando que ela mesma devia ser um pouco louca.
        Podemos ser guerrilheiros urbanos. Seqestrar pessoas em 
troca de resgate. Fazer armadilhas para esquilos e pombos e 
roubar cestas de piquenique.
        Escute, precisa bem mais do que isso pra me manter 
confortvel  disse Leesha.  Tipo, chuveiros de gua 
quente e manicures.
As conversas entre os dois costumavam ser assim. Eles 
flertavam, desviando-se das questes difceis que surgiam 
entre ambos. Mas naquele momento Jason ficou srio. Ele 
segurou-lhe a mo e examinou-a, como se pudesse ler a 
sorte nela.
        Seria bom... se a gente pudesse apenas... ficar juntos  
disse ele.  Voc sabe, sem termos de nos preocupar com 
toda essa... besteira poltica.
        A gente pode  disse Leesha, forando uma leveza que 
no sentia.  Quem se importa com poltica? Vamos fugir. 
Pra onde voc quer ir?
Mas a magia do momento se dissipara. Jason largou o copo 
de sidra e se levantou.
         melhor eu ir. Est ficando tarde.
Ela segurou-lhe a mo.
        Fique mais um pouco...
Ele balanou a cabea.
        Os caadores precisam dormir bem.  Ele se inclinou e 
beijou-a.  A gente se v.
Leesha seguiu Jason at a varanda e ficou olhando-o at que 
a forma esguia se dissolveu entre as rvores do parque Perry. 
Indecisa, confusa, ela voltou para dentro do pavilho, 
sentou-se junto ao fogo na lareira de pedra e se enrolou em 
uma manta que cheirava a fumaa.
Esperaria mais dez minutos antes de comear ela mesma a 
caminhada de volta  cidade.
Quem diria que havia tantos lugares onde se esconder numa 
cidade pequena  como o barzinho no ringue de boliche, 
as salas de estudo na biblioteca pblica e a praia no meio do 
inverno. Quem diria que ela estaria disposta a passar o tempo 
em qualquer um deles? A princpio, concentrara-se em 
ganhar a confiana de Jason. Naquele tempo, quando era s 
entre eles, podiam ser eles mesmos. Agora...
Parecia que todos que ela conhecia eram ou heris como 
Jack Swift (no muitos) ou cobras como Warren Barber 
(muitos). Jack era to virtuoso que fazia com que ela se 
sentisse... contaminada. Jason estava num ponto 
intermedirio: travesso o suficiente para ser interessante, e 
ainda assim... ele tinha suas crenas. Vivia por um cdigo 
pessoal de honra. No que ela fosse algum dia entender esse 
cdigo. Alm disso, Jason tinha um jeito tortuoso, auto-
depreciativo e sarcstico de ver o mundo que a fazia rir.
Ela bem que precisava de algumas risadas naqueles dias.
Cutucando o fogo com um graveto, ela pensou: "Voc no 
est se apaixonando por esse cara, est?".
Leesha ergueu o rosto, assustada, quando ouviu um barulho 
l fora. Torceu para que no fosse algum animal. Eles haviam 
posto alguns feitios de proteo para manter os 
bisbilhoteiros  distncia, mas ela no sabia se funcionariam 
em animais.
A porta se escancarou e algum disse:
 Ora, ora. No acredito. Uma donzela indefesa na floresta.
Era Warren Barber.
Ela se moveu antes mesmo de ele ter acabado de falar, e ele 
tambm. Ela tentou golpe-lo com um feitio de 
imobilizao, que,  claro, no funcionou, e ele lanou 
alguns feitios de ataque. Estes no foram a lugar algum. 
Enquanto ele registrava esse fato, ela tentou contorn-lo e 
sair pela porta, mas ele bloqueou-lhe o caminho e derrubou-
a ao cho. Ele a prensou contra os ladrilhos com o 
antebrao, o rosto a centmetros do dela. Ela foi obrigada a 
fitar aqueles glidos olhos azuis, emoldurados por bizarras 
pestanas brancas.
        Ento, o que  que h, Leesha?  perguntou ele.  Voc 
nunca liga, nunca atende ao telefone... Estou me sentindo 
um pouquinho... abandonado, sabe o que quero dizer?
        Saia de cima de mim, seu pervertido... perverso!
Ela tentou em vo empurrar as mos dele.
Ele afastou-lhe os cabelos do rosto e tocou na faixa em torno 
do pescoo.
        E quando eu tentei aplicar um pouco de disciplina, nada 
aconteceu.
        Eu desativei o torque  mentiu Leesha, sem flego.  
Voc pode muito bem tirar.
         mesmo? E voc tambm desativou a minha pedra Weir? 
Porque notei que alguns dos meus feitios favoritos no 
funcionam.
        No posso fazer nada se voc est tendo problemas em 
sua performance  replicou ela.  No pode arranjar algo 
contra isso na internet?
Opa. Aquilo havia sido um erro.
Os olhos plidos se estreitaram. Ele se sentou e bateu no 
rosto dela com o punho fechado, com fora. Lgrimas 
vieram aos olhos dela, e sangue jorrou-lhe do nariz. Ela 
sentiu como se todos os ossos do rosto tivessem sido 
quebrados.
"Vai pagar por isso", pensou ela. "S que ainda no sei 
como."
Barber examinou o punho dele.
        Veja s, isso ainda funciona.  Ele baixou o olhar para 
ela, o rosto emoldurado pelos cabelos translcidos que lhe 
iam at os ombros.  Ouvi dizer que feitios de ataque no 
eram permitidos aqui em Trinity, mas nunca acreditei de 
verdade que pudessem fazer essa regra valer. Agora acho 
que talvez a coleira tambm no funcione muito bem no 
santurio, sabe como ? E tenho a sensao de que voc est 
perdendo um pouco o interesse no nosso acordo.  verdade?
Acordo? Certo. Leesha estava se afogando em sangue. Ela 
assoou o nariz, espalhando respingos por toda a camisa de 
Barber.
        Eu falei pra voc. No  fcil. Todos esto sempre me 
observando e, depois do que aconteceu da outra vez, eles 
no confiam mais em mim.
        A minha pacincia est se esgotando. Tenho a sensao de 
que voc no se esfora o suficiente. Voc precisa fazer com 
que o Jason Haley deixe o santurio e v para algum lugar 
em que possa ser interrogado. Precisa conseguir o Corao 
do Drago para mim. Quo difcil isso pode ser?
Leesha se conteve para no responder. J havia danos 
suficientes a reparar do jeito que as coisas estavam.
        Se no fizer a sua parte, vou contar aos seus amigos da 
Casa do Drago pra quem voc tem trabalhado esse tempo 
todo. Vo chutar voc pra fora e ento...
Barber rodeou-lhe o pescoo com as mos e aplicou presso 
at que ela estivesse sufocando, lutando contra as mos dele, 
debatendo-se indefesa.
Finalmente ele a soltou, e ela aspirou o ar em desespero, o 
corao martelando.
Barber sorriu.
        Vou estar por a, mesmo que eles no chutem voc.  
Ele tocou na coleira.  Sei onde voc est, a cada minuto. 
No vai ser difcil apanh-la num beco escuro.  O sorriso 
dele se ampliou.  Vou enfi-la no porta-malas do meu 
carro e, de repente, voc vai estar bem longe da cidade.
        O-onde vai estar hospedado, no caso de eu precisar 
encontrar voc?  perguntou ela, pensando em como ele 
conseguia andar pela cidade sem ser notado.
        No importa onde estou hospedado.  Ele se levantou, 
limpando as mos ensangentadas nos jeans.  Algum 
colocou uma armadilha mgica nojenta na minha outra casa. 
Me pergunto como descobriram onde eu morava.  melhor 
que isso no acontea de novo.
"Droga", pensou ela. "D'Orsay errou o alvo. Ele parecera to 
competente quando o conhecera na Ravina do Corvo."
Barber se sentou no banco da mesa de piquenique, 
observando-a como se ela fosse a cobaia de algum tipo de 
experimento violento.
        A propsito, aonde foi a Madison Moss?
A pergunta pegou-a completamente de surpresa.
        M-Madison Moss? Como  que eu vou saber?
        Voc devia ser a espi, certo?
        Voc disse pra ficar de olhos nos dotados. Ela no  um 
deles.  Leesha fez uma pausa.  Por que est preocupado 
com ela?
        Voc no estava em Second Sister. Quando o Leicester 
atacou o McCauley, Madison Moss levou o golpe por ele. O 
Leicester caiu, e todos os ex-alunos caram com ele. Esse  o 
tipo de namorada conveniente para se ter.  Ele olhou para 
Leesha e ergueu uma plida sobrancelha como se ela devesse 
estar tomando notas.  De qualquer forma, eu fiz uma visita 
a ela, e o quarto dela estava vazio.
        Voc fez uma visita?  Leesha estremeceu ao pensar em 
Barber espreitando a cidade.  Bem, ouvi dizer que ela foi 
embora, que saiu da cidade.
        Alguma idia de onde ela foi?
        Nenhuma. Vai ver ela e o McCauley romperam. Tudo o 
que posso dizer a voc  que as meninas aqui de 
Pequenpolis esto felizes da vida. Acham que agora vo ter 
uma chance.
Warren se levantou de novo.
        Como espi, Leesha, voc tem sido totalmente intil. O 
seu trabalho  me fazer feliz. Voc tem o meu nmero. Tem 
trs dias pra me entregar o Haley e o Corao do Drago. 
Quero ter notcias suas.
E ento ele se foi, e Leesha no ouviu nada alm de sua 
prpria respirao pesada e do bater desenfreado do corao.



Captulo Treze
Na Montanha

Era aquela hora do dia em que o mundo contm a 
respirao, esperando o retorno da luz. Ao leste, alm das 
montanhas, j era de manh. A silhueta gelada das escarpas 
brilhava  medida que o sol se preparava para irromper sobre 
o topo. A nvoa pairava no vale, como l de carneiro presa 
entre os picos. Cada moita de grama, as samambaias e os 
arbustos, tudo estava coberto de gelo, e Madison ficou 
molhada at os joelhos antes de conseguir atravessar o ptio.
As mos tremiam com o frio de antes da alvorada quando ela 
espremeu a tinta sobre a forma de alumnio que usava como 
paleta. Tinha sorte de no ter quebrado o pescoo no 
caminho montanha acima no escuro gelado. Qualquer 
pessoa s tiraria uma fotografia e pintaria na sala de visitas, 
onde era quente e seco.
"Por outro lado, todos sabem que sou maluca."
O momento chegou. O sol elevou-se sobre a montanha 
Booker e derramou-se sobre as encostas, incendiando cada 
galho e graveto cintilantes de gelo. Madison mergulhou o 
pincel na tinta e lanou-a sobre a tela que comeara no dia 
anterior. Apenas mais dois dias, acreditava ela, e a posio 
do sol mudaria a ponto de arruinar o efeito. Por isso ela 
pintava como se estivesse possuda.
Por volta das dez horas, ela tomou o caminho de volta 
montanha abaixo, seguindo o corte da ravina junto ao riacho 
Booker, o regato mais limpo do Condado de Coalton. Meia 
hora mais tarde, a casa estava  vista.
Tinha dois andares, com cinco grandes pilares na frente e 
largas varandas que cercavam quase toda a casa nos dois 
andares. Havia chamins de tijolos vermelhos em cada 
ponta, pois fora construda num tempo em que o 
aquecimento era obtido com a lenha queimada nas lareiras. 
Fora sempre pintada de branco, se bem que, aps cinco anos 
sob os cuidados de Carlene, estava pedindo uma nova 
pintura. Apesar de a casa ter boa estrutura, tinha o tipo de 
beleza que precisava de cuidado constante, ou comeava a 
parecer arruinada.
No havia dvida de que parecia arruinada agora.
A casa fora construda pelo trisav de Madison, Dredmont 
Booker, quando ele cortejava a trisav dela, Felicity Taylor. 
Ele era um prspero fazendeiro. Ela era indomvel, uma 
lendria beleza loira que no tinha nenhuma inteno de 
ficar no Condado de Coalton e se casar com um fazendeiro, 
prspero ou no.
Ele jurou que morreria se no pudesse t-la. Construiu para 
ela a casa, um jardim de rosas com um muro de tijolos, um 
belvedere e uma trilha para lugar nenhum. Comprou-lhe 
uma gua negra com patas brancas e uma estrela na testa. 
Deu-lhe um pingente de opala que havia pertencido  av 
dele  azul, turquesa e verde, com fortes lampejos de fogo. 
Foi o assunto do condado, pois no era um presente 
apropriado para um homem dar a uma mulher que no fosse 
a esposa dele. Felicity Taylor ignorou os rumores e usou-o 
sempre que quis.
Sabendo o que sabia agora sobre poderes herdados, Madison 
perguntava-se se Felicity havia sido uma encantadora.
A lenda era que a vista finalmente conquistara o corao de 
Felicity. Dava para se sentar na varanda do primeiro andar e, 
olhando alm da propriedade dos Ropers, ver tudo at o rio.
O pingente e a montanha Booker foram legados a Min, que 
por sua vez deixou-os a Madison, saltando por cima de 
Carlene. Para Carlene, Min deixara algum dinheiro, que se 
fora havia muito tempo; para Grace e John Robert, fundos 
fiducirios destinados a pagar a faculdade.
A casa e as terras iriam para Madison naquele mesmo ano, 
dali a alguns meses. Ray McCartney havia acertado tudo. Ele 
podia estar apaixonado por Carlene, mas tambm era leal a 
Min.
Uma vez que assumisse o controle sobre a montanha 
Booker, Madison seria rica em terras e pobre em dinheiro. A 
menos que a vendesse, o que todos pareciam pensar que ela 
deveria fazer assim que possvel. Caso vendesse, poderia 
freqentar o Instituto de Arte de Chicago e remover a terra 
rochosa do Condado de Coalton de seus sapatos.
Ela enfiou a mo sob a blusa e tocou a opala, reconfortada 
por sua slida presena. Talvez fosse bonita demais para ficar 
usando em casa, mas Madison a usava mesmo assim. Era um 
lao com o passado e representava um futuro possvel. 
Sentia tambm que era uma ligao com a pedra que deixara 
em Trinity.
O Corao do Drago. Ela tentara tir-la da cabea, mas 
sempre que tentava no pensar em algo, parecia que pensava 
mais naquilo. A nica coisa que era capaz de distra-la de 
Seph McCauley era o Corao do Drago. Havia dias em que 
seus pensamentos passavam de um para o outro, deixando-a 
tonta. Pensara que estar longe de ambos ajudaria, mas no 
ajudara muito.
Uma ou duas vezes por semana, ela ia  cidade. Passava na 
biblioteca e encontrava um monte de e-mails do Seph. Eram 
um tanto formais, polidos, contidos, como cartas antiquadas 
de amor em forma eletrnica, obrigando-a a ler nas 
entrelinhas. Era como se ele tivesse medo de assust-la se 
extravasasse seus sentimentos.
s vezes, ela respondia aos e-mails, mas naqueles dias ela 
preferia escrever cartas. Sabia que era estranho e arcaico, 
mas no queria apenas dizer qualquer coisa que lhe viesse  
mente. Sentava-se na cama e prestava ateno em cada 
palavra, como se pudesse instilar nelas o poder de desfazer 
os ns que estorvavam o relacionamento entre eles.
Quanto a conversar por telefone, estava totalmente fora de 
questo. Ela no confiava em si mesma, achando que 
acabaria dizendo algo que o faria pegar a estrada e vir 
voando at ela.
Tudo estava quieto no ptio, a no ser Hamlet e Oflia, os 
perdigueiros, que se levantaram e sacudiram os rabos ao ver 
Madison.
Erguendo a tela para que no pudesse ser danificada, 
Madison passou por entre os ces e foi para o celeiro. Era 
uma construo slida, em madeira e pedra, outrora o lar dos 
cavalos de Dredmont Booker. Em tempos prsperos no 
passado, algum havia instalado tubulao de gua e 
aposentos para os criados. Agora o celeiro era usado como 
uma garagem ocasional para o carro de Carlene. Madison 
havia reivindicado o primeiro andar como um estdio e 
povoara-o de sonhos.
Ela nunca deveria ter voltado para casa. A montanha Booker 
tinha um jeito de se apossar das pessoas, per- turbar-lhes as 
mentes e faz-las esquecer de suas intenes. Assim como 
acontecera com Felicity Taylor, mais de cem anos antes.
Desde que se afastara de Seph, a obra de Madison havia 
perdido aquele clima sombrio e perigoso e recuperado aquilo 
que Sara chamava de "exuberncia etrea". Talvez isso 
significasse que a maldio havia se dissipado. Ela escrevera 
a Seph, perguntando-lhe se estava se sentindo melhor, mas 
ele nunca respondera.
Um conjunto de trs telas brilhava num canto  cada uma 
com uma viso da mutvel pedra do Corao do Drago 
contra um fundo preto. A Srie do Corao do Drago.
Ela limpou os pincis na pia e tomou o caminho de volta 
para casa, desviando-se de poas congeladas e trechos de 
lama, seguida pelos ces, que abanavam as caudas 
esperanosamente.
Parou ao p dos degraus da varanda para observar os 
canteiros de flores. Novos ramos despontavam dos caules 
espinhosos das rosas hbridas, e a trepadeira na trelia junto 
 varanda exibia novas folhas com bravura.
Era sbado. Carlene havia trabalhado at tarde da noite 
anterior, e a porta de seu quarto estava fechada. Devia estar 
na cama ainda. Havia restos de caf da manh na mesa, o 
que indicava que Grace e John Robert estavam  solta na 
montanha. Reuni-los era como arrebanhar gatos ou 
borboletas. Mas eles apareceriam famintos a qualquer 
momento.
Ela os levaria  cidade para almoar, decidiu. Eles poderiam 
perambular pela rua Principal e ela compraria um pouco de 
fertilizante para o jardim.
Madison levou a picape at o estacionamento em frente ao 
tribunal. As crianas pularam para fora do carro quase que 
antes de este parar.
Ela ps duas notas de 20 dlares na mo de Grace, tiradas do 
monte cada vez menor do dinheiro que ganhara como 
garonete.
 Tem uma liquidao na Robertson  disse ela.  Por 
que no vo procurar roupas l? Depois leve o J. R. na loja 
de 1,99. Encontro vocs no Pssaro Azul em uma hora, para 
a gente almoar.
Grace ficou observando o dinheiro como se pudesse ser 
algum tipo de truque, depois dobrou as notas e colocou-as 
na bolsinha.
        Fiquem juntos e no saiam da rua Principal, para que eu 
possa encontrar vocs quando eu tiver acabado  disse 
Madison, e virou-se para seguir seu caminho.
        Onde voc vai estar?  perguntou Grace, segurando a 
mo de John Robert com firmeza, enquanto ele puxava 
como um cachorrinho numa coleira.
        Na Hazelton. Vou comprar fertilizante para os canteiros 
de flores.
Madison entrou na Loja de Ferragens e Acessrios Hazelton. 
Josh Hazelton estava ao balco, como ela sabia que estaria. 
Ele fora seu colega de classe na escola. Haviam sido amigos e 
trocado confidncias outrora. Ele at a beijara sob a 
arquibancada em um jogo de futebol americano. Seus lbios 
haviam se chocado, sem jeito, como dois peixinhos 
dourados se encontrando.
Aquilo fora antes de ele se envolver com Brice e os outros. 
Engraado. Normalmente, Brice no daria a mnima ateno 
a Josh. Por isso Josh ficara lisonjeado ao ser convidado para 
fazer parte da turma de Brice.
Madison no tinha uma turma. S Josh. E depois nem 
mesmo ele.
Quando Josh ergueu os olhos e a viu, um rubor culpado se 
espalhou pelo seu pescoo at as orelhas.
        Oi, Maddie!  disse ele, dando as costas para trs outros 
fregueses, todos conhecidos de Madison.  Ouvi dizer que 
estava de volta  cidade.
        Por uns tempos  disse Madison, correndo a mo por um 
mostrurio de caixas de correio pintadas com flores em 
cores inexistentes na natureza.  Preciso de fertilizante.
        Aqui, eu mostro a voc  disse ele, empurrando 
ansiosamente o porto em uma das extremidades do balco.
Ela ergueu a mo para det-lo.
        Voc est com fregueses.  s me dizer onde est, tudo 
bem?
Josh apontou para o canto direito nos fundos da loja.
        L atrs. Comum e orgnico. Sacos de dois e de quatro 
quilos.
Ela escolheu um saco de fertilizante orgnico e um par de 
luvas de jardinagem, e levou-os at o balco. quela altura 
os outros clientes j haviam partido. Josh registrou a compra 
no caixa para ela.
        E a, est gostando l do norte?  perguntou ele.
        Estou.
        Tanto quanto daqui?
        Mais  respondeu ela, virando-se para ir embora.
        Ahn, Maddie...  Josh hesitou, e ento as palavras saram 
todas de uma s vez, como gatos pulando para fora de um 
saco.  Eu pensei que, sabe como , talvez voc tivesse 
partido porque... por causa de toda aquela besteira do ano 
passado.
Ele aguardou, e como ela no dissesse nada, acrescentou:
        Olha, me desculpe se... Alguns de ns... A gente estava s 
se divertindo, entende?
        No percebi que estvamos nos divertindo.
Ela olhou-o nos olhos at que ele desviasse o olhar, as 
orelhas flamejando.
        Eu nunca acreditei. No que eles diziam de voc  
murmurou ele.
-  mesmo? Nunca ouvi voc dizer nada contra.
        Bem. Enfim. Estou feliz que esteja de volta.
        No por muito tempo  disse ela, fingindo olhar para as 
casas de passarinhos.
Josh ainda a observava.
        Voc viu o Brice desde que voltou?  perguntou ele.
        Vi.  Ela tentou no fazer uma careta.  Voc ainda 
anda com ele?
Ele meneou a cabea, corando de novo.
        Que nada. Acho que ele anda muito ocupado.
        Claro  disse ela.
        Ouvi dizer que ele tem uns amigos novos que no so da 
nossa escola.  Fez uma pausa.  Voc nunca gostou dele 
 acrescentou, sem jeito.
        .  Ela no via nenhum sentido em mentir.  
Continuo no gostando.
        Ele nunca conseguiu entender isso. Por que voc no 
queria sair com ele.
Madison pestanejou.
        Ele disse isso pra voc?
        No exatamente. Mas eu sabia. Ele achou que voc... 
achou que voc diria sim.
Madison emitiu um som de desprezo.
        Ah, qual . Duvido que me ter como... como amiga... 
fosse um dos primeiros itens na lista dele.
Josh umedeceu os lbios com a lngua.
        Est enganada. Acho que ele se incomodava mesmo com 
isso. A gente sempre quer o que no pode ter. E as pessoas... 
as pessoas escutam o que ele diz, entende?
Primeiro ela pensou: "Por que estamos conversando sobre o 
Brice Roper?". Mas a ela teve uma revelao.
        O que voc est tentando me dizer? Que ele estava por 
trs das... das pessoas que me chamavam de bruxa?
        Bem... no precisou muito para convencer as pessoas. 
Quer dizer, voc  diferente. Voc se veste como uma 
cigana e sempre anda por a com a testa franzida como se 
estivesse zangada com o mundo.  Ele levantou a mo.  
Desculpe, mas  verdade. E voc estava sempre pintando 
aqueles quadros, e morava na montanha naquela casa velha 
assustadora.
        No  assustadora  retrucou ela, depois se calou. Quem 
ligava para o que todos pensavam?
Josh deu de ombros.
        A sua av lia a sorte e amaldioava pessoas, e a sua me... 
faz o que lhe d na telha.
        Cale a boca, Josh  disse Madison, sentindo o sangue 
subir-lhe s faces.
Ela se virou, olhando pela janela para a fachada coberta por 
tbuas de madeira do outro lado da rua.
Mas Josh no queria se calar.
        Uma noite um bando de ns estava conversando, e alguns 
de ns tnhamos convidado voc pra sair e voc tinha 
recusado. A o Brice falou, e se a gente...? E a gente achou 
muito engraado, no dava pra evitar, ele tem um jeito de 
dizer as coisas. Ento acho que a gente... Acho que todos 
ns meio que comeamos a coisa. Espalhamos avisos e 
comeamos a mandar mensagens eletrnicas pras pessoas. 
Depois aquilo meio que ganhou vida prpria, sabe?
Madison se virou e deu um passo em frente. Josh se 
encolheu, como se pensasse que ela poderia bater nele, 
enfeiti-lo ou algo assim.
        Por que voc acha que recusei os convites de todos eles 
para sair? Porque alguns caras gostam de se gabar de coisas 
que nunca aconteceram. Todos menos voc. Eu sabia que 
voc nunca... Pensei que voc...
Ela parou, no confiando em si mesma para ir em frente. Era 
realmente irnico que Brice Roper, com suas mos cheias de 
persuaso e seus srdidos feitios de mago, a acusasse de ser 
uma bruxa, quando no havia nenhum trao de magia nela.
No de magia prpria, pelo menos.
Josh pigarreou, parecendo algum que est com a mo presa 
num torno e que mal consegue esperar para ser solto.
        Enfim. Sinto muito mesmo. Nunca acreditei que voc 
tivesse posto fogo em nada. Eu queria dizer-lhe isso.
Ela pigarreou.
        Tudo bem. Obrigada. Acho.
        Quer que eu carregue isso para voc?  perguntou ele, 
passando-lhe a nota fiscal.
        Eu me viro.
Ela apoiou o saco de fertilizante contra o corpo e se voltou 
para a porta.
        Hum. Maddie? Sabe, o baile do colgio est logo a.
Ela ficou tensa.
        Josh, eu...
Ele foi em frente.
        Desde que soube que voc tinha voltado, venho pensando 
em ligar pra voc, mas, sabe como , voc no tem telefone. 
Eu estava pensando se voc gostaria de ir comigo. Como 
amigos, quero dizer. Voc poderia ver todo mundo.
Ele achava que estava lhe oferecendo um presente, uma 
oportunidade de manter a cabea erguida e mostrar a todos 
que no haviam se livrado dela. Mas ela se deu conta de que 
no se importava com o que pensavam. No mais.
Madison balanou a cabea.
        No acho que seja uma boa idia.
Ela o deixou em p atrs do balco, as mos pendendo ao 
lado do corpo.
Grace e John Robert estavam dez minutos atrasados para o 
encontro no Pssaro Azul. Quando apareceram, Brice Roper 
estava com eles.
 Ol, Madison  disse ele, sentando-se  mesa dela. Ele 
vestia jeans, um suter de algodo e uma jaqueta de couro 
com forro de l que definitivamente no vinha da 
Robertson.  Topei com a Grace e o John Robert na loja de 
1,99.
Madison segurou os braos da cadeira, o corao batendo 
forte. As revelaes de Josh Hazelton estavam frescas em 
sua mente. No entanto Josh no lhe dissera nada sobre Brice 
que ela j no soubesse.
        Estou surpresa que no tenha arrastado os dois para o 
Juizado da Infncia e da Juventude  disse ela.  
Considerando que deixei as crianas sozinhas pela cidade.
Brice fez um gesto para o garom.
        Olha, eu pedi desculpas.
        Na verdade, acho que no pediu, no.
Ele deu de ombros.
        Bem, essa era a minha inteno, de qualquer forma. 
Ento, para compensar por isso, eu convidei Grace e John 
Robert a me visitar na semana que vem e andar a cavalo.
        Deixe a gente ir, Maddie, por favor?  implorou John 
Robert, praticamente pulando na cadeira, segurando a mo 
dela. O menino no aprendera a guardar rancor.
Grace era diferente. No perdoaria Brice Roper por t-la 
colocado num abrigo para crianas abandonadas. Mas ela 
adorava cavalos com a paixo que s uma menina de dez 
anos era capaz de sentir. Limpara os estbulos no vero 
anterior em troca de lies de montaria. E os Ropers tinham 
os cavalos mais lindos do condado. Se havia uma forma de 
conquistar Grace, era essa. A indeciso reverberava dentro 
dela, fazendo-a vibrar como a corda de um violino.
Madison no queria dever nada aos Ropers. E tinha motivos 
prprios para no querer que Grace se envolvesse com o 
mago Brice Roper.
        De jeito nenhum  disse Madison, olhando feio para 
Brice.  No acredito que voc possa ter feito essa sugesto. 
Os seus cavalos so para cavaleiros experientes. No esto 
acostumados com crianas.
        Mas voc sabe que eu sei montar, Maddie  protestou 
Grace. Como de hbito, se Maddie dizia no, Grace dizia 
sim.  Tive lies durante todo o ltimo vero com o 
senhor Ragland. Ele disse que eu sou uma amazona nata.
        No tem professor melhor por aqui do que o George 
Ragland  disse Brice.  E o J. R. vai ficar bem. L a gente 
sempre tem cavalos para crianas, para os primos.
        Por favoooooor  suplicou John Robert, segurando o 
brao de Madison.
        Eu disse no e falei srio  disse Madison, soltando-se de 
John Robert. Ela ergueu os olhos para Brice.  Voc 
entrega as crianas para o condado porque a mame no 
conseguiu encontrar uma bab e depois quer que eu deixe 
que eles arrisquem a vida...
        No tem problema  interrompeu Brice, justo quando ela 
estava engrenando.  Eu peo  Carlene.
Aquilo fez com que Madison se calasse, como ele sabia que 
faria. Carlene no guardaria rancor por causa das audincias 
no tribunal e do Juizado da Infncia e da Juventude. Carlene 
no tivera de largar a escola e voltar para casa para que as 
crianas fossem liberadas. Se Brice pedisse a Carlene, ela os 
deixaria ir para Nova York em um minuto. Ela gostava de se 
engraar com os Ropers e o dinheiro deles.
Madison ficou paralisada, as faces ardendo. At Grace e J. R. 
sabiam que ela havia sido manipulada. Grace olhou de Brice 
para Madison, o cenho franzido.
        No se preocupe, Maddie  disse ela baixinho.  Vamos 
ter bastante cuidado.
        Sei que vo, querida  disse Madison, com os lbios 
rgidos.
        timo  disse Brice. O garom estava por ali, e Brice 
examinou o cardpio.  Vamos comear com uma bandeja 
de asas de frango e anis de cebola. Refrigerantes para todos. 
E o que mais eles quiserem.  Ele olhou para Madison 
quando ela abriu a boca para objetar.  Por minha conta.
"No", pensou ela. "Isto era para ser por minha conta."
O garom se afastou apressado.
        Temos cavalos que voc poderia cavalgar, Maddie  disse 
Brice, pondo a mo quente sobre a dela na mesa.  Por que 
no vem?
Ela soltou a mo.
        Estou ocupada a semana toda.
        E na semana que vem?
        Estou ocupada todas as semanas.  Ela se levantou.  Na 
verdade, esqueci algo na loja de ferragens.  Ela inclinou a 
cabea para as crianas.  Vo em frente e almocem, se 
quiserem. Encontro vocs l.
Mas Brice limitou-se a sorrir para Grace e John Robert como 
se fossem seus cmplices.
        Ainda vamos conquistar a sua irm mais velha.
Para Brice, era um jogo que ele estava destinado a vencer. 
Mas ele no fazia idia do perigo que corria. Se Maddie 
tivesse uma arma, teria atirado nele.

Captulo Quatorze
Indo para o Sul

- Alicia! O seu rapaz... como  o nome dele mesmo?  
perguntou a tia Millisandra, apontando com a mo cheia de 
jias para Jason, que fez um esforo para no se abaixar.
        Jason  disse Leesha, empoleirada na borda da cadeira 
como se estivesse prestes a pular.  O nome dele  Jason, 
tia Milli.
Estavam sentados na abafada sala de visitas decorada com 
guirlandas de pinheiro altamente inflamveis e uma rvore 
seca de Natal. A nica luz vinha dos restos de velas 
aninhadas perigosamente entre os verdes.
        Tem certeza de que no  Jasper? Eu conheci um Jasper 
certa vez. Jasper DeVilliers. Era francs, no muito 
poderoso, se entende o que quero dizer, mas do tipo 
galanteador.
A tia Milli fitou Jason com seus olhos de sombras roxas, 
como se esperasse extrair-lhe uma confisso.
Jason balanou a cabea.
        Jason  disse ele.
        Um nome peculiar, Jason. Quer mais um biscoito, meu 
jovem?
Millisandra estendeu-lhe uma bandeja de biscoitos 
amanteigados queimados e encharcados. Havia comeado 
bem, mas depois ela ateou fogo neles ao tentar aquecer o 
ch, e tivera de apag-los com limonada.
        Humm, no, obrigado. J comi bastante.
A tia de Leesha, Millisandra, lembrava a Jason uma daquelas 
carcaas secas de inseto que se encontra de vez em quando 
 frgil, como se fosse rachar com apenas um toque. Tinha 
cerca de um milho de anos de idade, era a mulher mais rica 
da cidade  e uma maga que perdera algumas cartas 
fundamentais do baralho mental. Passar tempo com ela era 
quase to arriscado quanto se sentar no meio de uma
fogueira com uma caixa de rojes no colo.
        Mais ch, ento?
        No, obrigado.  Ele olhou para o relgio. Nove da noite.
 Nossa, olha s a hora! Eu no fazia idia. - Ele se
levantou.  Obrigado pelo ch e por tudo.
        Eu acompanho voc at a porta  disse Leesha, 
erguendo-se num instante.
Na varanda, ela segurou a mo de Jason.
        Desculpe. Achei que ela estaria dormindo a esta hora  
sussurrou ela.
        Parece que no.
        Acho que ela gosta de voc.
        Se pelo menos o meu nome fosse Jasper!
        Olha, sei que ela  meio... perigosa... agora, mas  minha 
tia favorita. Ela costumava me levar a todos os tipos de 
lugares. Sempre que os meus pais no me queriam por perto, 
ela me abrigava.
        Eu bem que queria ter um parente assim  disse Jason, 
esquecendo a costumeira autocensura.
Leesha se ps na ponta dos ps e roou os lbios no rosto 
dele, quase errando o alvo.
        Tchau, Jason.
        Voc no pode sair? Deve ter algum lugar onde a gente 
possa ir.
Leesha virou-se para olhar para trs.
        Melhor no.
Leesha parecera estranhamente nervosa a noite toda, como 
se houvesse tomado cafena demais ou algo parecido. Era 
quase como se estivesse feliz de ter a velha tia Milli servindo 
de vela. Quando ela se virou, ele percebeu que o rosto dela 
parecia estranhamente desfigurado.
Jason segurou o queixo de Leesha e virou-lhe o rosto em 
direo  luz da varanda. Ela recuou e se libertou.
        O que aconteceu com o seu rosto?
Um lado estava inchado, e ele podia ver arranhes sob a 
maquiagem. Ele no havia notado na sala de visitas 
iluminada por velas.
Leesha voltou-se para longe da luz.
- Foi a tia Milli. Ela derrubou uma parede na estufa. 
Receio que ela precise ser colocada num asilo.
Existiam asilos para magos dementes?
        Acho que voc deveria pr um pouco de Antiweir no ch 
dela. Seria mais fcil lidar com ela se ela no estivesse pondo 
fogo nas coisas o tempo todo.
        Eu tentei. Ela sempre percebe.  Ela fez uma pausa.  
Quem sabe amanh a gente possa ir at Cleveland ou algo 
assim. Algum lugar longe daqui.
Jason deu de ombros.
        Talvez.
No havia nada mais a fazer alm de ir embora, e foi o que 
ele fez. Foi para casa pelas ruas escuras. J haviam estado no 
parque duas vezes naquela semana. Em dias muito frios, iam 
a matins, onde era improvvel que os notassem, ou 
voltavam para a casa, ou melhor, a manso de Leesha. 
Normalmente a tia Millisandra ia para a cama cedo, mas 
ultimamente vinha tendo insnia ou algo semelhante.
Ele no agia furtivamente daquela forma desde o tempo em 
que morara com o pai e a madrasta. Aquilo parecia ter sido 
sculos atrs. Era difcil guardar um segredo numa cidade 
pequena. Ele no tinha que prestar contas a Nick nem a 
Linda nem a ningum mais, exceto talvez a Hastings. Ele 
apenas preferia evitar o sermo, se pudesse. Jack, Will, 
Fitch, Seph, Ellen... todos eles odiavam Leesha Middleton e 
desconfiavam dela.
Ento por que ele no sentia o mesmo? No que ele 
confiasse nela totalmente, mas havia uma intensidade 
impulsiva no relacionamento entre eles que o atraa. Ela era 
a nica luz em sua sombria existncia. Fora isso, ele 
simplesmente fazia o que tinha de fazer, marcando passo, 
no contribuindo com nada.
Leesha havia tido uma vida dura, de certa forma  ela havia 
sido um incmodo para os pais, um aristocrtico casal de 
magos, at que as aventuras dela no Mercado a 
transformaram num embarao. Ela era uma sobrevivente, 
mas ainda vulnervel de alguma forma, e nunca fazia nada 
pela metade.
Ele riu. "Ela  muita areia para o seu caminhozinho", 
pensou ele. Era a histria da vida dele.
Quando chegou em casa, Linda Downey estava na cozinha, 
pondo sorvete no liquidificador.
        Jason! Chegou bem na hora. Estou fazendo milk-shake.
Linda segurou-lhe ambas as mos, aquecendo-o at os dedos 
dos ps.
        Milk-shake  repetiu ele, como um bobo.  Que bom 
que eu voltei.
        Seu rosto est sujo de batom  disse ela, erguendo a mo 
e esfregando a mancha com o indicador.
Ele gostava disso em Linda. Ela no fazia perguntas 
espinhosas. Ento ele notou a mala junto  porta.
        Vai a algum lugar?
Ela hesitou.
- Vou me encontrar com o Leander no Reino Unido.
        Certo. timo.  O rosto dele corou, e as palavras 
pareceram ficar presas na garganta.  Boa viagem, ento.
Ele comeou a se virar, e ela segurou-lhe o brao.
        O Seph est no solrio  disse ela, fitando-o com uma 
expresso ansiosa.  Est esperando por voc. Ele precisa da 
sua ajuda numa coisa  acrescentou, apontando com a 
cabea para os fundos da casa.
"Certo. Provavelmente quer que eu engraxe os sapatos dele." 
Sentindo-se irritado e pouco cooperativo, Jason foi  procura 
de Seph.
Seph estava sentado junto s janelas lendo num crculo de 
luz projetado por um nico abajur de mesa. Alm do ptio, 
havia uma faixa de gramado coberto de neve, e depois um 
muro que marcava a descida para o lago. Ao fundo, as ondas 
se chocavam sob o vento noroeste, avanando sobre a praia 
e depois retrocedendo.
Seph ergueu a cabea e marcou a pgina com um dedo.
        Jase! Por onde andou?
Jason deu de ombros.
        Por a. O que  que h?
Nenhuma resposta. Seph ficou imvel, fitando o espao, 
como se houvesse apagado completamente. Era como 
conversar com algum com fones de ouvido, ou lendo e-
mails ao mesmo tempo. Jason sabia que Seph estava 
monitorando a barreira.
        O que est lendo?  perguntou Jason, tentando 
estabelecer contato.
Seph fitou-o, um pouco surpreso.
        Fsica. Vamos ter outra prova na semana que vem.
Jason deixou-se cair numa cadeira de ferro.
        Pode mesmo fazer as duas coisas ao mesmo tempo?
"Eu no conseguiria fazer nenhuma delas", pensou
Jason consigo mesmo.
Na verdade, Seph parecia mal, meio nervoso, com as faces 
um pouco afundadas, os olhos brilhantes e flamejantes.
        Voc fala que nem a Lin... a minha me.
Como se aproveitasse a deixa, Linda apareceu, trazendo dois 
milkshakes gigantes numa bandeja. E uma grande tigela de 
castanhas, cereais e diversas frutas secas.
Ela ps um Milk-shake na frente de Seph.
        Aqui. Veja se bebe at o fim. E pode largar a barreira 
daqui a alguns minutos. A ris disse que assumiria s dez.
        Eu estou bem.  Seph se sentou um pouco mais reto.  
Posso manter a barreira por mais algum tempo. At eu ir pra 
cama, pelo menos.
        A gente j conversou sobre voc se esforar demais, Seph. 
No discuta.
Era uma das poucas vezes em que Jason via a me de Seph 
exercer a autoridade materna.
Quando ela voltou para dentro de casa, Jason disse:
        Ela age como se voc fosse um invlido ou coisa assim.
Seph deu de ombros e desviou o olhar.
        .
Seph obviamente no ia contar a ele o que estava 
acontecendo. Jason tentou de novo.
        Ela parece meio tensa.
Seph tomou um pouco do Milk-shake e ps o copo na mesa.
         esse lance todo de me deixar como responsvel 
enquanto o meu pai est fora. Ela gostaria de ter mais alguns 
magos que pudessem vigiar a fronteira, para nos dar uma 
folga, mas o Snowbeard tem receio de confiar em qualquer 
pessoa nova.
"Vocs podiam me pedir", pensou Jason. Ele no se deu ao 
trabalho de dizer isso em voz alta.
        O Nick est mesmo obcecado com as coisas que voc 
trouxe do Reino Unido  continuou Seph.  A Linda  
boa em lidar com as outras ordens, mas os magos sempre 
acham que eles deveriam estar no comando de tudo. Alguns 
deles no esto acostumados a receber incumbncias de uma 
encantadora.
Seph parecia estar evitando mencionar os planos de viagem 
de Linda, por isso Jason disse:
        E agora ela vai para o Reino Unido.
Seph assentiu com a cabea ao mesmo tempo que observava 
Jason, como se receasse a reao dele.
 Ela est de partida e est preocupada em me deixar 
sozinho.
Seph recostou a cabea. A mente dele pareceu divagar por 
um momento, ento ele perguntou:
        Voc ainda usa a dyrne sefa?
Em resposta, Jason sacou o pingente de dentro da camisa.
Seph sorriu.
        Lembra de quando a gente saa para a floresta e praticava 
magia no Porto Seguro?
Jason no tinha muita vontade de se lembrar dos tempos do 
Porto Seguro  especialmente do que havia acontecido 
com o pai dele. Alm do mais, aquilo s enfatizava a 
crescente diferena nas habilidades mgicas entre ele e 
Seph. Jason achava aquele contraste cada vez mais opressor.
        Ensinei a voc tudo o que eu sabia. O que no era muito. 
E agora voc foi muito alm de mim. Mas a Linda disse que 
voc queria me pedir algo.
        Preciso pedir um favor.
        O que ?
        Algum invadiu o quarto da Maddie uma noite dessas.
Jason aguardou, e como Seph no continuou, perguntou:
        Levaram algo?
        A gente no sabe. Dei uma olhada, mas no soube dizer se 
estava faltando alguma coisa.
        O que ela falou?
        No consegui falar com ela. O telefone da famlia est 
desligado e o celular dela no funciona l. Mandei um e-
mail, mas no sei quando ela vai receber.
"Onde  que aquilo ia chegar?"
        Talvez tenha sido algum que sabia que ela estava fora e 
resolveu tirar proveito.
        Usaram magia pra abrir um buraco na porta.  Seph fez 
uma pausa longa o suficiente para que o que dissera fosse 
absorvido.  O quarto dela foi o nico a ser remexido. E ela 
no tem nada de valor para ser roubado.  Ele voltou os 
olhos para o lago.  Eu no queria que ela fosse embora, 
para incio de conversa. J  ruim se forem atrs dela por 
minha causa. Mas se souberem do que ela  capaz de fazer...
        O que voc quer que eu faa?
        V at l e a traga de volta. Eu iria pessoalmente, se 
pudesse, mas o Snowbeard me quer aqui. Alm disso, eles 
devem estar esperando que eu v. A probabilidade de que 
sigam voc at ela  menor.  Seph fez uma pausa e 
pigarreou.  Tem mais uma coisa. Tem algo que eles
deixaram l no quarto, uma pintura com uma maldio, e eu 
era o alvo. Me atingiu em cheio.
        Nossa!  Jason fitou-o. Aquilo explicava o ar abatido de 
Seph. Mas se ele estava mantendo a barreira, no podia estar 
to mal.  Voc est bem? Por acaso...
        Eu estou timo  retrucou Seph com rispidez.  Mas era 
uma pintura da Madison. Por isso o Snowbeard acha que a 
Madison pode ter... pode ter passado para o lado deles.  
Ele sussurrou a ltima parte, como se no quisesse dar 
importncia quelas palavras ao diz-las em voz alta.
Jason pensou a respeito daquilo. Sabia que havia algo de 
errado entre Seph e Madison, mas ainda achava que eles 
eram loucos um pelo outro.
Por outro lado, era preciso considerar contra o que Seph 
estava competindo. Um Claude D'Orsay ou uma Jessamine 
Longbranch poderiam tornar Madison rica alm dos sonhos 
mais delirantes. Rica o bastante para freqentar qualquer 
escola de arte no pas.
Por isso ele escolheu a resposta mais segura.
        O que voc acha?
        Como assim, o que eu acho?  Seph se inclinou para a 
frente, praticamente soltando fascas.   impossvel. Ela 
no faria isso.
        Est bem, est bem.  Jason ergueu as mos para se 
proteger.  No estou discordando. Mas, mesmo assim, 
talvez no seja boa idia traz-la de volta pra c, se existe a 
possibilidade de ela...
        Por que ela teria voltado para casa se estivesse tramando 
algo? Isso no faz nenhum sentido.
        Bom... Se ela deixou uma bomba-feitio pra voc, no
acha que ia querer estar o mais longe possvel quando
explodisse?
Seph se levantou, olhando Jason de cima. O poder
irrompeu-lhe da pele e correu at o cho, onde queimou um
crculo nos ladrilhos. Ele parecia exausto, mas trans-
bordando de energia ao mesmo tempo.
        Ei, cara, fica frio, est bem?  disse Jason.  No estou
discordando de voc, s estou fazendo perguntas. Ou isso
no  permitido?

Seph olhou feio para ele por um instante, depois afundou de 
novo na cadeira, tremendo.
"Tenho que ir devagar", pensou Jason. Tentou pensar em 
algo inofensivo para dizer.
        Enfim. Ahn... o Snowbeard sabe que voc est me 
pedindo pra fazer isso?
Seph massageou a testa, como que para extrair uma verdade 
relutante.
        Foi meio que idia do Nick. Ele quer que voc v para o 
Condado de Coalton, espione a Madison e descubra qual  a 
histria. Ela est em perigo, ou est trabalhando para as 
Rosas, ou o qu? Tem mais algum por l que pode estar por 
trs do ataque contra mim?  Ele olhou para Jason.  
Assim voc pode fazer as duas coisas. Ver o que est 
acontecendo e trazer a Madison de volta.  Ele desviou o 
olhar.  Seja como for, se ela estiver trabalhando contra 
ns, no podemos... no podemos correr o risco de que isso 
continue. Se no estiver, no podemos correr o risco de que 
ela fique l sozinha.
"E o que voc vai fazer se acontecer de ela ter passado para o 
lado negro?", perguntou-se Jason.
        No sou exatamente a pessoa mais indicada em questes 
de magia.  Jason balanou a cabea quando Seph fez 
meno de discordar.  No... diga nada. Por que eu?
Seph deu de ombros, rendendo-se.
        Eu no posso partir, e o Nick tambm no. Com a 
Madison, no faz diferena o quo poderoso se .  Ele 
sorriu com tristeza.   quase uma desvantagem ter muitos 
poderes.
        Por que mandar um mago, ento?
        Bem, no... no caso de ela... no caso de haver magos l. De 
ela estar trabalhando com eles.
Aquilo estava matando o Seph, Jason sabia disso. E se Jason 
trouxesse notcias de que Madison havia passado para o 
outro lado, ele poderia muito bem matar o mensageiro. 
Jason tentou uma piada.
        E se ela no vier? O meu charme fatal no vai funcionar 
com ela, voc sabe.
Seph no pareceu achar aquilo engraado.
        Convena-a.  Ele passou a mo pelo cabelo.  Sei que 
voc voltou para a escola, mas no deve levar mais do que 
uns dois dias para ir e voltar com ela. Acho que em trs ou 
quatro dias voc consegue explorar o lugar e fazer perguntas.
Ele ps a mo ardente no brao de Jason e fitou-o nos olhos.
        O que quer que acontea, Jase, precisamos de voc aqui 
quando tiver acabado. Temos planos em andamento que 
necessitam de magos, e eles esto em falta.
Jason refletiu sobre aquilo, sem pressa. Seph no mandaria 
Jason at Madison se no achasse preciso. Caso contrrio, o 
risco superaria o benefcio. Alm disso, era bvio que Jason 
era mais descartvel do que Seph ou Nick.
Deveria ir? Aquilo o tiraria de Trinity, embora achasse que 
Coal Grove no seria uma melhora. Mas aquilo poderia ser a 
abertura de que precisava para escapar, sair da superviso de 
Nick e da obrigao que sentia em relao a Seph. Ele 
poderia fazer-lhe aquele ltimo favor, e ento...
        Como  que se chega l?
        Pedi a Madison para deixar orientaes sobre como se 
chega l por escrito antes de ela partir. A minha me 
ofereceu o carro dela. Como voc sabe, ela est de partida. 
 Seph sorriu, parecendo mais com ele mesmo.  Mas veja 
se devolve inteiro.
Beleza. Linda dirigia um BMW Z4 conversvel. Se bem que 
provavelmente Madison teria de voltar em sua picape, se 
quisesse trazer mais do que uma escova de dentes.
O n de tenso dentro de Jason afrouxou um pouco. Era um 
plano. Ele tinha algum dinheiro guardado, que ganhara 
trabalhando nas docas no ano anterior. Recuperaria alguns 
dos objetos mgicos da Igreja de St. Catherine que poderiam 
ajud-lo no Reino Unido. Acompanharia Madison de volta 
at Columbus, ento a mandaria continuar o resto do 
caminho. Quando percebessem que ele havia partido, j 
estaria de volta na Ravina do Corvo. Ele faria com que 
Hastings o aceitasse.
Caso contrrio, havia outros lugares no mundo para ir, 
outras batalhas para lutar.
Certo.
 claro que aquilo s daria certo se Madison estivesse do 
lado deles.
 Est bem. Eu vou. Desenhe o mapa enquanto fao as 
malas.

 

Estava comeando a amanhecer quando Jason chegou com o 
BMW no estacionamento da igreja.
O pequeno porta-malas j estava carregado com as suas 
roupas e seus CDs de msica. Uma vez a caminho, ele no 
tinha planos de parar. Tinha esperanas de deixar a cidade 
sem ter que lidar com Nick ou Mercedes. Com alguma sorte, 
eles acordariam tarde.
Ele se sentia mal por causa de Leesha, mas quando estivesse 
na estrada mandaria uma mensagem eletrnica avisando que 
havia partido. Sentia que no poderia arriscar uma despedida 
cara a cara. Quando tudo estivesse mais calmo, entraria em 
contato com ela de novo.
Usando a cpia que mandara fazer da chave de Seph, ele 
desceu at a escurido gelada da cripta e desativou os feitios 
que haviam sido colocados sobre o tmulo vazio de Thomas 
Swift. As peas mgicas estavam classificadas, rotuladas e, 
em sua maioria, guardadas.
O Corao do Drago, sobre seu suporte decorado, no canto, 
zombava dele, despertando um desejo sem esperanas 
quando a sua pedra Weir respondeu. Ele, Nick e Mercedes 
haviam tentado tudo o que sabiam, porm ningum fora 
capaz de tocar na pedra desde aquele dia em que ele sara 
pela primeira vez com Leesha, logo aps Madison ter 
partido. Ele tentou relacionar aqueles dois eventos 
diferentes, mas no conseguiu.
Se o dirio da caverna estivesse correto, eles tinham em 
mos uma arma de poder incomparvel, s que no 
conseguiam nem se aproximar dela.
Talvez fosse mais fcil aceitar se ele estivesse bem longe. 
Talvez no se sentisse to intil e vazio.
Levaria apenas algumas coisas que Nick e Mercedes talvez 
no notassem. Pensou nas possibilidades. No tinha 
nenhuma necessidade de pedras de amor; aquilo nunca 
havia sido um problema para ele. Nem coleiras para cativos; 
no estava planejando fazer prisioneiros. No iria carregar 
por a espelhos mgicos que nem eram muito confiveis. 
Mas pedras de adivinhao eram pequenas e poderiam lev-
lo ao que estava procurando. Amuletos e talisms eram 
sempre teis.
Pegou uma das adagas mgicas e sentiu-lhe o peso na mo. 
Aquilo lhe daria uma vantagem contra um adversrio mais 
poderoso  D'Orsay ou qualquer outro.
No final, escolheu uma adaga, uma pedra de adivinhao, 
um talism de proteo e um amuleto que supostamente 
fortalecia quem o carregava. Ele j tinha a dyrne sefa que sua 
me lhe dera  um talism de utilidades mltiplas. Enfiou 
os itens escolhidos na mochila e deixou o resto onde estava.
Quando saiu da igreja, estancou. Leesha estava recostada no 
carro dele. Ele devia ter sado pelo porto que dava para o 
lago, menos acessvel e mais discreto.
Normalmente, ele ficaria feliz em v-la, mas naquela manh 
ele simplesmente no tinha condies de responder a 
perguntas.
Ela arqueou uma sobrancelha e tentou um sorriso que no 
deu muito certo.
        De volta  igreja?
Ele deu de ombros, o tempo todo pensando nas peas 
mgicas que levava em sua mochila. Como ela o havia 
encontrado to rpido? Era cedo para ela estar na rua. Ser 
que o havia seguido?
        Carro legal  disse ela, apoiando a mo no BMW, com 
uma outra pergunta evidente em seu rosto. Enquanto na 
noite anterior ela parecera nervosa e distrada, hoje parecia 
sarcstica e determinada. Como se soubesse que ele tinha a 
inteno de ir embora.
"Droga. Devia ter deixado o carro em casa at estar pronto 
para partir."
Ele a fitou, sem fala por um momento, ento disse:
        Um amigo me emprestou.
        Me leva pra dar uma volta?
        Tenho que devolver, e j estou atrasado. Vou mandar uma 
mensagem para voc mais tarde, est bem?
Jason jogou a mochila no banco do passageiro e deu a volta 
para entrar pelo lado do motorista.
Leesha estendeu a mo e apanhou a mochila pelas tiras.
        O que tem aqui dentro?
        Ei, solta isso!
Jason deu a volta no carro e arrancou a mochila das mos 
dela.
        O que tem a dentro, Jason? Um presente pra mim?
Ela tentou apanhar a mochila, e ele a segurou pelos pulsos 
para impedi-la de tentar de novo. Por um momento, eles 
ficaram ali, cara a cara, olhando feio um para o outro. Para 
toda a cidade ver, se estivessem interessados.
Jason soltou as mos dela e recuou um passo.
        Por favor, Leesha.  s que... como eu disse, estou meio 
com pressa. Sinto muito. Falo com voc mais tarde, est 
bem? Prometo.
Entrou no carro, pondo a mochila no cho a seus ps.
        Certo.
Ela ficou ali, mordendo o lbio, vendo-o ir embora.
Ele se perguntou o que fora aquilo tudo enquanto passava 
pelas ruas flanqueadas por rvores ao redor da praa. Ela 
parecera quase zangada com ele.
Quando alcanou a interestadual, ele j se entregara ao 
prazer de dirigir o BMW. A Interestadual 71 cortava o 
sudoeste, passando entre campos cultivados de terreno 
plano. Ele aumentou o volume do rdio. No havia muito 
trfego, por isso aumentou a velocidade tambm, racio-
cinando que sempre poderia se safar de uma multa na 
conversa.
Sabia que estava assumindo riscos idiotas, com a invaso da 
Ravina do Corvo e com Leesha, e dirigindo rpido demais, 
mas por algum motivo no conseguia se conter.
Ao chegar a Columbus, contornou a rtula, saiu pela Rota 
23, depois pegou outra estrada estadual, rumo ao sudeste at 
as montanhas. Olhava de vez em quando para os espelhos, 
mas no viu nenhum sinal de que estivesse sendo seguido. 
Passou por cidades minsculas: Glen Furnace, Floradale, Salt 
Creek. Planejava ir direto at a casa de Maddie. Seria mais 
fcil transitar por aquelas estradas rurais  luz do dia.
O celular tocou vrias vezes. Era Leesha chamando. 
Nenhuma mensagem. Ele desligou o aparelho.
Quando chegou a Coal Grove, estava nublado e comeou a 
chover e nevar, uma chuva inclemente e fina como agulhas, 
que esfriava os ossos e se congelava ao cair. O teto de 
nuvens desceu at quase se encontrar com o cho.
Ele ia para leste, afastando-se da cidade, as instrues de 
Seph a seu lado no banco, a mochila no cho do lado do 
passageiro. A paisagem parecia ter levado uma surra e nunca 
ter se recuperado por completo.
Ele no fazia idia de como as coisas se passariam na casa de 
Maddie. Sabia por experincia prpria que no havia como 
intimidar Madison Moss. Mas talvez ela ficasse feliz em v-
lo, querendo notcias de Seph. E ele examinaria as reaes 
dela quando ela tivesse alguma.
A estrada se deteriorou rapidamente, passando de cimento 
para cascalho. Dava voltas e curvas, mas sobretudo subia. 
Uma densa floresta replantada cobria ambos os lados, 
verdejando com a aproximao da primavera, pontuada aqui 
e ali por uma caixa de correio em frente a um trailer 
residencial ou uma fazenda em runas. Ele passou por uma 
placa que dizia CARVO ROPER e apontava para uma 
estrada secundria em melhores condies. E, mais  frente, 
uma fazenda de cavalos, de aparncia prspera, com um 
porto com pilares de tijolos e uma placa em letras imitando 
cordas: RABES DE BRYSON.
Em algum lugar por ali havia um desvio para a montanha 
Booker.
"No muito bem sinalizado", diziam as instrues de Seph. 
quela altura, estava chovendo mais forte.
Depois de avanar por mais um quilmetro e meio, ele 
comeou a se dar conta de que devia ter passado reto pelo 
desvio. Fez um rpido retorno e seguiu na direo contrria 
 que viera. Jason se inclinou para a frente, tentando 
enxergar pelo pra-brisa manchado pela chuva.
Contornou uma curva e encontrou o caminho bloqueado 
por uma enorme rvore que cara atravessada sobre a 
estrada. Ele pisou nos freios, derrapando de lado no cascalho 
molhado. O BMW parou com a porta do passageiro a poucos 
centmetros da rvore.
Jason descansou a cabea no volante, o corao martelando 
no peito. Uma rvore da encosta devia ter se soltado da terra 
encharcada. Devia ter acontecido havia pouco, j que o 
caminho estivera livre momentos antes.
Abrindo a porta do motorista, ele saiu para a chuva com as 
pernas trmulas. Se quisesse avanar, precisaria tirar a rvore 
da estrada. Magia era bom para obrigar as pessoas a fazerem 
o que voc quisesse ou para mover substncias mais fluidas, 
como gua, ar e chamas. Ele no estava certo de conhecer 
um feitio para mover rvores gigantes.
Jason puxou a mochila de debaixo do assento. Talvez 
houvesse algo l que pudesse ajudar. Ajoelhando-se no cho 
encharcado, ele remexeu nas peas mgicas que retirara da 
igreja. Havia uma adaga capaz de infligir um ferimento 
mortal (num homem, no numa rvore), talisms de 
proteo que ele no sabia bem como usar, um amuleto que 
dava fora a quem o carregava (talvez ele conseguisse erguer 
a rvore e tir-la da estrada) e uma pedra de adivinhao que 
se iluminou de forma estranha nas mos dele. Como um 
aviso.
Havia algo mais, algo que no era familiar, um objeto 
pequeno e chato de metal. Ele o segurou sob a luz. Havia 
uma leve inscrio nele, como um desenho estilizado de 
uma aranha. Como  que aquilo fora parar ali?
Ele levantou a cabea bem na hora em que o carro explodiu 
em chamas.
Jason rolou para trs para no ser engolfado pelas chamas. 
Apoiando-se nos cotovelos, ele fitou o carro sem conseguir 
acreditar. O BMW se tornara um inferno de chamas, 
silvando e cuspindo na chuva que caa.
"Meu Deus, a Linda vai me matar." Pensou ele, "tenho que 
sair daqui".
Enquanto lutava para se levantar, algo o atingiu em cheio no 
peito, logo abaixo da clavcula, com fora suficiente para 
faz-lo dar meia-volta. Ele agarrou a frente da camisa, mas 
no encontrou nenhum ferimento ou projtil, apenas um 
frio e um entorpecimento terrveis que se espalhavam.
 Droga!  disse algum atrs dele.  Espero que no 
tenha chegado perto demais do corao. A idia  imobilizar 
voc, no matar.
Jason virou-se para encarar a pessoa que lhe falava. No 
podia ser. Os cabelos loiros, quase translcidos, os olhos 
azuis plidos e os lbios descoloridos. O meio sorriso 
arrogante que Jason no via desde a fatdica conferncia em 
Second Sister.
        Barber!
O sorriso alargou-se.
        Por um minuto, achei que voc no se lembrava de mim. 
Mas, ei, as amizades que a gente faz na escola so as que 
duram.
        O que est fazendo aqui?
        Segui voc.  claro que eu no sabia que voc ia me trazer 
pra latrina do universo  disse Barber, fazendo um gesto de 
mo para indicar os arredores.
        Com o que voc me acertou?
        Com um graffe. Uma adaga virtual com efeito muito 
parecido ao veneno de aranha. Deixa a vtima imvel, mas 
com a mente lcida e capaz de sentir dor. timo para 
interrogatrios.
        O que voc quer?
        Fazer algumas perguntas. Mas primeiro vamos para algum 
lugar calmo, onde no sejamos interrompidos.
A paralisia estava se espalhando. Os membros de Jason 
ficavam cada vez mais pesados. Tornava-se difcil puxar o ar 
para dentro dos pulmes.
        Perguntas sobre o qu?  murmurou ele. Nem os lbios e 
a lngua obedeciam ao seu comando.
        Perguntas sobre o que voc est fazendo aqui. Sobre o que 
voc roubou da Ravina do Corvo e escondeu na igreja. Sobre 
o Corao do Drago. Podemos comear com o que voc 
tem na mochila.  Barber estendeu a mo.  Passe pra c.
A mochila. O corpo de Jason podia estar dormente, mas a 
mente estava lcida. Barber sabia que Jason sara da cidade. 
Sabia sobre a igreja. Sabia que havia algo na mochila.
Leesha.
Uma raiva glida tomou conta de Jason.
        Voc quer isso?  gritou ele, em voz rouca.
Levantando a mochila, ele enfiou a mo l dentro, cerrando 
os dedos em torno do amuleto. D fora a quem o carrega. 
Ele murmurou um feitio invocando o poder do amuleto e 
sentiu uma fora bem-vinda fluir para dentro do corpo. 
Pendurando a mochila sobre o ombro, ergueu a outra mo e 
agarrou a dyrne sefa que lhe pendia do pescoo. 
Pronunciando o familiar feitio de imperceptibilidade que 
aprendera com a me, ele se jogou para o lado.
Aterrissou rolando nas folhas molhadas. Levantou-se de 
imediato e correu, escorregando e deslizando montanha 
abaixo, a mochila batendo-lhe no ombro. Barber era um 
mago poderoso, superior a Jason at nos melhores 
momentos de Jason. Imperceptvel ou no, no seria 
prudente ficar por ali.
Barber estava espumando de raiva. Lanou chamas 
montanha abaixo atrs de Jason, depois desceu atrs dele, 
berrando e praguejando.
        Idiota! Aonde diabos voc pensa que vai?  melhor se 
render, ou vai ficar deitado na lama at ser feito em pedaos 
e devorado vivo por animais.
(Era difcil de entender, com todos os palavres interca-
lados, mas era mais ou menos isso o que ele dizia.)
Jason avanou cambaleando. No tinha nenhuma inteno 
de se submeter a um interrogatrio elaborado por Warren 
Barber. Ser dilacerado por animais parecia uma perspectiva 
atraente em comparao. Alm disso, haviam-no feito de 
tolo, e ele no deixaria, no podia deix-los vencer.
Entretanto, cerca de 32 quilmetros o separavam da cidade, 
e ele no fazia idia de por quanto tempo os efeitos do 
amuleto durariam. Sabia que a casa de Madison devia ser em 
algum lugar por ali, mas no queria levar Barber at ela.
Realisticamente, estava morto.
Ao p da montanha, Jason virou  esquerda e acompanhou 
um largo riacho por uma ravina. Depois comeou a subir de 
novo. Subiu por um longo tempo, seguindo o curso das 
guas, tropeando nas pedras, entrando e saindo das guas. 
Finalmente se afastou do riacho e passou para o outro lado 
da montanha. quela altura, estava cambaleando, perdendo 
fora apesar de apertar o amuleto com firmeza. Tentou 
pronunciar o feitio de novo, mas dessa vez no houve 
nenhum efeito aparente.
Estava completamente desorientado. No fazia idia de para 
que lado ficava a cidade, ou para que lado poderia estar a 
casa de Madison. O seu nico objetivo era se manter longe 
de Barber.
Era mais fcil falar do que fazer. Barber parecia ser 
incrivelmente hbil em segui-lo. Quando Jason alcanou um 
terreno mais alto e olhou para trs, Barber ainda estava em 
sua cola. No exatamente seguindo a trilha de Jason, mas se 
movendo na direo correta, s vezes cortando caminho por 
ravinas e cursos de gua. Era quase como se Jason estivesse 
enviando algum tipo de sinal localizador.
Imbecil.
Ele tirou a mochila dos ombros e meio se sentou, meio caiu 
no cho. Enfiando a mo no bolso, retirou a misteriosa pedra 
de aranha.
Devia ser um m, colocado ali de propsito, provavelmente 
por Leesha diante da igreja. Tudo o que Barber tivera de 
fazer fora seguir a pedra para rastrear Jason at o Condado de 
Coalton e pela floresta na chuva.
Tremendo, os dentes batendo, resistindo ao impulso de se 
deitar ali mesmo onde estava e deixar que sua mente se 
apagasse, Jason agarrou os galhos baixos de uma rvore, 
lutou para se levantar e olhou em volta.
Estivera seguindo uma alta cadeia montanhosa. De um lado 
da cadeia, havia um declive at uma floresta profunda que 
cobria uma srie de montanhas menores. Do outro lado, ele 
enxergou o traado de uma estrada que acompanhava o leito 
do riacho. Atrs dele, Jason podia ouvir Barber derrubando 
violentamente os arbustos por onde passava.
Recuando o brao, Jason atirou a pedra o mais longe que 
pde no vale da floresta. Depois desceu a cadeia montanhosa 
no lado oposto, dirigindo-se para a estrada. Com alguma 
sorte, Barber seguiria a pedra.
Restava o problema do graffe. Jason no conseguiria ir muito 
mais longe.
Ele podia tentar atrair a ateno de algum num carro que 
passasse. Provavelmente passava um carro a cada um ou dois 
dias por ali.
Como se aquilo fosse resolver alguma coisa. Eles no teriam 
a menor idia de qual era o problema com ele. S o que 
poderiam fazer era v-lo morrer.
Ele abriu caminho montanha abaixo aos tropees. As 
pernas j no funcionavam direito. A chuva havia diminudo 
e se transformara num chuvisco, mas rios de gua lamacenta 
ainda fluam encosta abaixo, tornando o caminho traioeiro.
A respirao dele estava ficando pesada de novo. Sentia um 
frio que se alastrava, uma incapacidade de controlar os 
prprios movimentos. Piscou para afastar uma imagem dupla 
da encosta. Finalmente, deu um passo em falso ao encontrar 
uma protuberncia, tropeou por seis metros e acabou com 
os ps no canal e a cabea e os ombros na margem da 
estrada.
Sentia dor. Barber tinha razo  a capacidade de sentir dor 
funcionava perfeitamente. Batera o cotovelo ao cair e se 
perguntava se havia quebrado o brao. Mas no tinha foras 
para virar a cabea para verificar.
Ficou cado ali sem saber por quanto tempo at que ouviu 
um ronco e sentiu uma leve vibrao no solo. "Trovo", 
pensou ele. Depois se deu conta de que devia ser um carro 
se aproximando.
Imbecil. Ele estava imperceptvel. Ningum o veria cado ao 
lado da estrada, nem mesmo quando os seus ossos 
imperceptveis, alvejados pelo sol, se misturassem com os 
restos espalhados de esqueletos de animais atropelados. Ele 
segurou a sefa e desativou o feitio de imperceptibilidade 
com a sua ltima gota de fora. Ento ficou deitado de 
costas, fitando o cu, incapaz at de piscar para conseguir 
enxergar atravs do chuvisco inclemente. Precisava se 
concentrar muito para se lembrar de respirar.
Ele ouviu o barulho de pneus molhados  medida que o 
carro se aproximava. Ser que ele estava longe o bastante da 
estrada? Ser que o carro o atropelaria? Ser que estava 
prximo o suficiente para ser visto?
Sentiu o ar se mover quando o carro se aproximou, sentiu o 
jato gelado de gua quando ele passou. Amarga decepo. 
Ouviu o guincho agudo dos freios e sentiu o cheiro de 
borracha quente. Enorme euforia. Uma porta de carro bateu, 
passos esmagaram o cascalho, e uma voz se fez ouvir.
        Ei, voc est bem? O que aconteceu? Algum atropelou 
voc e se mandou?
Alguns instantes depois:
        Jason?
Era Madison Moss.
Segundos mais tarde, o rosto preocupado dela apareceu em 
seu campo de viso. Ela estava levemente bronzeada  
estivera ao sol  e o cabelo volumoso estava puxado para 
trs num rabo de cavalo. Vestia jeans e uma camiseta branca 
lisa  diferente do estilo bomio dela em Trinity.
"No", pensou ele, perplexo. "Essa menina no est do lado 
dos bandidos. No acredito."
         voc mesmo! O que est fazendo aqui? O que 
aconteceu? O Seph est com voc?
Era uma cascata de perguntas, jorrando rpido demais para 
que a mente enfraquecida dele pudesse acompanhar.
        Madison  ele tentou dizer, mas os lbios no formavam 
as slabas.
Estava lutando para respirar, sufocando. Pontos nadavam-lhe 
diante dos olhos. Barber no tencionara mat-lo, ou pelo 
menos no antes de t-lo torturado para que contasse a 
verdade. Ele devia ter feito alguma bobagem.
Ajoelhando-se junto dele, Madison tocou-lhe de leve o 
peito, no local onde o graffe entrara.
        O qu...? Parece... parece que o seu peito est em chamas. 
 Ela tapou a boca, os olhos arregalados, parecendo 
compreender que ele poderia no achar aquilo 
tranqilizador. Madison tinha a habilidade de ver a magia 
nos outros. At mesmo o graffe mortal de Barber, pelo jeito. 
 No se preocupe. Vou s dar uma olhada.
Ela afastou a jaqueta dele para o lado e levantou a blusa para 
examinar o ferimento.
        Giqui  ele conseguiu dizer.  Giqui!  repetiu, mais 
alto, querendo dizer "A gente tem que cair fora daqui!".
Ela correu as mos frias pelo peito dele at encontrar o 
ferimento e enfiar os dedos l dentro. Ele quase gritou de 
dor, mas ento sentiu um tipo de suco, uma presso ao 
contrrio, e imediatamente a ardncia sobre o corao dele 
diminuiu. Novamente ela pressionou as mos sobre a pele 
dele, franzindo o rosto como se fosse to doloroso para ela 
quanto era para ele. O corpo de Jason perdeu um pouco da 
rigidez fria, e ele conseguiu engolir saliva de novo. Ela 
estava sugando o veneno mgico.
Madison afastou as mos, esfregando-as vigorosamente na 
grama ao lado da estrada, estremecendo.
        Argh. Isso  nojento, seja l o que for. Vai levar um bom 
tempo para eu me livrar disso. Pelo menos no ... Quem 
fez isso? De onde voc veio?
Ela no parecia mesmo esperar uma resposta.
Madison se levantou, as mos na cintura, e olhou para o alto 
da encosta. Ela parecia muito alta e esguia de onde Jason 
estava, no cho.
        Pensei que talvez voc tivesse cado do cu, mas parece 
que rolou l de cima.
Ele conseguiu grunhir:
        Madison. O Warren Barber est aqui. Temos que ir antes 
que ele nos veja.
quela altura, Barber poderia ter descoberto o estratagema 
dele e estar chegando ao topo da cadeia de montanhas a 
tempo de ver o que estava acontecendo ao lado da estrada.
        Warren Barber!
Madison havia se encontrado com Warren Barber antes, em 
Second Sister, quando ela o pusera a nocaute no jardim da 
penso.
Pelo menos ela no fez um milho de perguntas.
        Agente a, vou pr voc na picape. Voc no quebrou 
nada, no ?
Tonto, ele balanou a cabea. O brao o estava matando, 
mas ossos quebrados eram caf pequeno perto do que Barber 
faria se chegasse ao topo da montanha.
Madison desapareceu de seu campo de viso. A porta da 
picape bateu, e ela voltou com uma lona manchada de tinta. 
Enfiando as mos sob os braos dele, ela o deitou sobre a 
lona. Segurando a borda desta, o arrastou pelo
acostamento at a velha picape vermelha. A tampa traseira 
estava abaixada, mas o assoalho da caamba parecia estar a 
um quilmetro de altura. Jason no conseguia imaginar 
como ela conseguiria ergu-lo at l em cima. Ela o apoiou 
contra a picape. Ento subiu na caamba, inclinou-se, passou 
os braos em torno do peito dele e puxou-o para cima. Ele 
aterrissou sobre ela, mas ela conseguiu sair de debaixo do 
corpo dele.
 Desculpe  murmurou ela. Ela se apressou a arrumar os 
braos e pernas de Jason da forma que achou melhor, depois 
puxou a lona da cobertura por sobre ele.  Desculpe  
disse ela outra vez.
A picape chacoalhou sobre as molas desgastadas quando ela 
saltou da caamba para entrar na cabine. A porta bateu, e o 
motor deu sinal de vida. A chuva batia na lona sobre a 
cabea de Jason. Ele no sabia onde estava indo, no sabia 
onde estava Warren Barber, nem se sobreviveria quele dia.

Captulo Quinze
E a Aranha Veio Junto

Jason no se lembrava muito dos dias que se seguiram. 
Sentia-se seco e quente num minuto, frio e suado no outro. 
Lutava contra sonhos que no tivera mais desde aqueles que 
Gregory Leicester lhe infligira no Porto Seguro.
Sonhava que estava de volta  floresta e Warren Barber tecia 
fios a partir dos pulsos, como o Homem-Aranha, 
embrulhando-o num casulo gigante. Ele lhe injetava veneno 
com presas gigantes e deixava-o pendurado na teia dele, 
indefeso, dizendo:  Eu vou voltar, e a vamos conversar. 
Sonhava com Leesha e Barber, rindo juntos da estupidez 
dele e da astcia com que o haviam enganado. Jason nunca 
fora um mago poderoso, mas sempre se considerara, pelo 
menos, esperto. Triste engano. Todos o haviam avisado 
sobre Leesha, e ele os havia ignorado. A nica esperana 
dele era que ningum descobrisse o quo idiota havia sido.
Ele ardia em febre, embarao e fria.
Acordara assustado com o som da prpria voz reverberando 
nos ouvidos, e se perguntara o que havia dito, o quanto 
havia revelado.
Madison estava l durante boa parte do tempo. Ela no 
extraiu mais nada do veneno. Em vez disso, forava-lhe 
lquidos e xcaras de sopa goela abaixo.
Ele lhe segurou as mos, num raro momento de lucidez.
        Maddie, no conte a ningum sobre isso. Nem ao Seph. A 
ningum. Por favor.
        Voc  doido, sabia?  Ela pressionou as costas da mo 
sobre a testa dele, verificando se estava com febre.  Ele 
precisa saber o que aconteceu. Vou at a cidade ligar para ele 
assim que eu puder deixar voc sozinho.
Ele tentou se sentar, debatendo-se embaixo da colcha.
        Se ligar pra ele, eu caio fora. Agora mesmo.
Ela arqueou uma sobrancelha.
        Vai pegar carona ou o qu? Agora deite antes que eu d 
uma surra em voc por ser um idiota. Voc precisa de 
algum que entenda de magia pra tratar de voc.
        Estou bem melhor. De verdade.
Madison bufou, incrdula.
Jason tentou encontrar um argumento.
        Olha, Maddie, se ligar para ele, ele vai me culpar por ter 
estragado tudo e ter colocado voc em perigo. Ele me pediu 
pra fazer algo muito simples, e eu fracassei. Ele nunca mais 
vai confiar em mim para nada. Prefiro que voc me d um 
tiro na cabea de uma vez.  Ele disps os dedos em forma 
de pistola e apontou para a testa com o indicador, para 
enfatizar o que dizia.
Ela franziu a testa. Ele percebeu que ela hesitava.
        Alm disso, se ligar para ele, ele vai querer vir pra c e 
ningum vai conseguir impedir. Enquanto isso, tudo vai 
pelos ares por l.
        Bem  resmungou ela, parecendo hesitar , veremos. Se 
voc piorar...
Ele a convencera. Jason sorriu, fechou os olhos e rendeu-se 
ao sono.
Na vez seguinte que acordou, encontrou dois enormes ces 
amarelos aninhados na cama com ele, um de cada lado.
        Ei  disse ele com voz fraca, empurrando o que estava 
com a cabea no travesseiro, lanando bafo canino em seu 
rosto.
O co abriu os olhos e lambeu o rosto de Jason com uma 
lngua preta e rosada, incrivelmente longa. Depois voltou a 
dormir.
Algum tempo mais tarde, uma menina de rosto solene com 
cabelos castanhos lisos colocou uma bandeja no cho junto a 
ele e se sentou abruptamente.
        Cad a Madison?  indagou ele, puxando o lenol para 
cobrir o peito nu e enfaixado, apertando os olhos contra a 
luz que penetrava por entre as vigas desgastadas do teto.
        Teve de ir se encontrar com a professora de arte dela  
respondeu a menina.
Aquilo no fazia muito sentido. Que professora de arte?
        Quem  voc?
        Eu me chamo Grace Minerva Moss. Sou irm da Maddie. 
Fiz o almoo pra voc. Queijo quente e sopa de tomate  
acrescentou ela, bastante orgulhosa.
Na bandeja, havia um prato de papel com um sanduche de 
queijo quente levemente queimado cortado em dois 
tringulos, algumas bolachas salgadas, uma caneca de sopa, 
uma folha de papel-toalha e uma lata de refrigerante.
Ele estava deitado num colcho sobre o piso, cercado por 
pinturas em trips, algumas inacabadas. Reconheceu o estilo 
de Madison. Empurrando uma pilha de colchas para o lado, 
tentou se apoiar nos cotovelos, mas descobriu que o brao 
esquerdo estava numa tipia. Por isso rolou para o lado bom 
e se sentou, passando a mo livre pelo cabelo.
        Onde estou?  perguntou ele, quando a cabea parou de 
girar.
        No celeiro. No sto. O estdio da Maddie. Eu tive de 
ajudar a Maddie a carregar voc at aqui em cima. Voc  
bem pesado, sabia?  disse ela em tom acusatrio.
Ele passou a mo em torno do pescoo, fechando-a em 
torno da dyrne sefa, ainda em sua corrente.
        Onde esto as minhas coisas? As minhas roupas, quero 
dizer, e... eu estava com uma mochila...
Grace Minerva Moss apontou algo com o dedo. Ele se virou. 
A mochila estava pendurada em um prego na parede. As 
roupas estavam dobradas em uma pequena pilha embaixo 
dela. "Era um lugar limpo e arrumado para um celeiro", 
pensou ele. Os olhos dele percorreram fileiras de pinturas.
        A Madison pinta aqui?
        s vezes. E em outros lugares, tambm.
Grace pegou o papel-toalha e colocou-o no colo dele, como 
se sugerisse que ele deveria comer. Ele pegou o sanduche 
de queijo quente e o mordeu. Um pedao da crosta estava 
queimado, mas tinha aquele sabor delicioso de queijo 
derretido. De repente, Jason se sentiu faminto.
        Isto est timo  murmurou ele, a boca cheia de po e 
queijo derretido.  Tem mais algum em casa?
        S o meu irmo, J. R. e a minha me. Ela ainda est 
dormindo.  Grace inclinou-se mais para perto.  Ela no 
sabe que voc est aqui  sussurrou ela de forma 
conspiratria.
Jason tomou um pouco de sopa, o caldo alaranjado enlatado 
e reconfortante que lhe era familiar dos tempos de criana. 
Grace olhou para ele com ateno, depois estendeu a mo na 
direo dele, parando a alguns centmetros de distncia.
        Voc  todo brilhante  disse ela, parecendo perplexa.  
Que nem o Brice Roper.
Antes que ele pudesse responder, escutou um rudo vindo 
de baixo, depois o som de madeira estalando. Jason ficou 
tenso e, mais uma vez, tateou em busca da dyrne sefa. Uma 
cabea loira despontou, como que brotando do piso.
Grace tentou se colocar entre Jason e o intruso.
        John Robert Moss! Eu falei pra voc ficar na caixa de 
areia.
Era um menininho  Jason no era bom em adivinhar a 
idade de crianas. Provavelmente o irmo, J. R. O menino 
subiu at o assoalho, virou-se e sentou-se com as pernas 
balanando dentro do buraco. O rosto dele estava manchado 
e sujo, e ele vestia jeans com as bainhas enroladas para que 
lhe servissem.
        O que voc est fazendo aqui em cima? Quem  esse 
homem?  perguntou ele, apontando para Jason.
        Ningum  disse ela, zangada.  Voc no devia estar 
no celeiro. Sabe muito bem que voc tem alergia ao feno. 
V embora!
Por um instante, Jason achou que ela iria empurr-lo de 
volta buraco abaixo como um esquilo num desenho 
animado.
        Quero um sanduche de queijo quente  choramingou J. 
R., vendo o ltimo pedao do de Jason desaparecer.
O rosto de J. R. parecia mesmo estar se cobrindo de 
manchas vermelhas, Jason no saberia dizer se devido ao 
feno ou  raiva.
        Voc j almoou, e eu...  comeou Grace, mas parou, 
franzindo a testa, a cabea inclinada.
Ento Jason ouviu tambm o barulho de cascalho esmagado 
de um carro entrando no ptio.
        Talvez a Maddie tenha voltado  disse ela, em tom de 
dvida.  Mas ela disse que no chegaria at muito tarde.  
Ela se levantou e deu a volta cuidadosamente no alapo at 
a janela no lado oposto. Olhou para fora, depois se voltou 
para Jason.   um homem loiro, todo brilhante, que nem 
voc.
Jason no precisava olhar para saber que era Warren Barber. 
E no precisava pensar a respeito para saber
que no seria preo para Barber num duelo mgico, 
considerando o estado em que Jason estava. Desejou ter o 
Corao do Drago. Ou uma metralhadora. Qualquer coisa.
Bam! Bam! Bam!
Grace ainda estava olhando pela janela.
        Ele est na varanda, batendo na porta. Parece furioso.
Jason se levantou com dificuldade. Quase caiu. Buscou apoio 
na parede e perguntou-se como faria para descer as escadas.
        Tem uma porta dos fundos? Podemos sair daqui sem 
sermos vistos da casa?
Grace balanou a cabea.
        Tem uma ravina. Ela desce at o riacho Booker aqui atrs. 
A porta do celeiro fica de frente pra varanda.  Ela espiou 
pelo vidro.  A mame saiu na varanda. Ela no vai ficar 
feliz de ter sido acordada.
Grace ficou olhando por mais um minuto, depois disse:
        Eles entraram na casa, ele e a mame.
"Faa com que ele s d uma olhada em volta e v embora", 
rezou Jason. "Faa com que a me fique de boca fechada e 
no mencione a Madison. Ser que eu no posso ter sorte, 
pra variar?"
        Vocs dois, saiam daqui  disse Jason s crianas.
        Corram o mais que puderem pra dentro da floresta e 
fiquem l at que algum v buscar vocs.
        Aquele homem est atrs de voc?  indagou Grace.
        Foi ele quem machucou voc?
        Foi. Agora vo.  Jason deixou-se cair de novo no 
colcho e ps a cabea entre os joelhos, lutando para no 
vomitar o queijo quente e a sopa. No conseguiria ir a lugar 
algum.  Vou me esconder aqui em cima. Vai ser mais fcil 
se for s eu.
Grace cruzou os braos e bateu o p de um jeito familiar e 
teimoso. Igualzinha a Maddie.
        Ele vai procurar aqui na certa.
        Vo de uma vez. Se ficarem aqui, ele vai saber que estou 
aqui  disse Jason.
        Eu prometi a Madison que tomaria conta de voc  disse 
Grace. Ela olhou pela janela de novo.  Ele est vindo.
Jason praguejou baixinho. Mesmo que se fizesse im-
perceptvel, havia sinais de uma pessoa convalescente 
espalhados por todo o lugar. Era bvio que aquele era o 
quarto de um doente, exatamente o que Warren Barber 
estava procurando. Barber estaria esperando um feitio de 
imperceptibilidade depois do que aconteceu na floresta. 
Talvez at tivesse trazido p cintilante para desmascarar 
Jason.
Jason recuou at um canto, agarrando a sefa.
        Venham aqui  disse ele a Grace e J. R.  Fiquem bem 
perto de mim. Posso esconder todos ns com magia.
Ele tentou parecer confiante, mas como saber se aquilo iria 
funcionar, doente como estava?
        Magia?  Grace revirou os olhos.  Isso no existe. No 
sou idiota.  Ela olhou de Jason para J. R., a testa franzida 
em reflexo.  J sei!  Ela abriu um sorriso, o primeiro 
que Jason vira nela. Voltou-se para o irmo.  J. R.! Deite 
na cama. Finja que est dormindo.
Com duas irms mais velhas, parecia que J. R. estava 
acostumado a receber ordens. Ele deslizou obedientemente 
para debaixo das cobertas. quela altura os olhos dele 
estavam inchados, e ele se coava vigorosamente.
        Se esconda  disse Grace a Jason.
"Oh, Deus. Ela acha que estamos brincando de esconde- 
esconde."
        Me passe a mochila  sussurrou ele.  Depois fique 
parada e talvez ele no suba.
Ela passou-lhe a mochila e sentou-se no colcho junto a J. 
R., esperando. Jason abriu o zper da mochila e remexeu l 
dentro at encontrar a adaga que trouxera de Trinity. Aquilo 
parecia ter acontecido um sculo atrs. Sacando a lmina da 
bainha, Jason segurou a adaga com a mo boa, agachou-se no 
canto e murmurou o feitio de imperceptibilidade. Talvez 
ele tivesse sorte, nem que fosse s daquela vez.
        Ei  disse J. R., num sussurro muito alto, l de baixo do 
cobertor.  Aonde ele foi?
Grace tapou-lhe a boca.
        Quieto!
As dobradias rangeram quando a porta do celeiro se abriu 
embaixo deles. Jason ouviu Barber andando de um lado para 
o outro no andar de baixo, praguejando violentamente, 
chutando para o lado tudo o que estivesse em seu caminho. 
Jason conteve a respirao. Ento ouviu as escadas rangerem 
com o peso de Barber.
No. Ele no ia ter sorte, nem mesmo uma vez. Ele dobrou 
as pernas sob o corpo. Talvez as crianas distrassem Barber 
por tempo suficiente para lhe dar uma chance. Era uma 
adaga mgica, afinal. Talvez um arranho fosse o bastante.
Grace gesticulou freneticamente para Jason.
        Voc tem que se esconder melhor! Ele vai ver voc.
O crebro sobrecarregado de Jason tentou entender o que 
estava acontecendo. Ele estava imperceptvel, tinha certeza 
disso. A menos que, no estado debilitado em que se 
achava...
A cabea e os ombros de Barber apareceram na abertura no 
cho. Estava tentando olhar para todos os lados ao mesmo 
tempo, obviamente prevendo um ataque.
        Oi  disse Grace de imediato.  Voc  o Howie? Achei
que voc no vinha.
Surpreso, Barber ergueu as mos para lanar um feitio,
quase perdendo o equilbrio e caindo para trs nas escadas.
O que teria sido timo. Mas ele se equilibrou a tempo e
disse:
        O que... quem diabos  Howie?
        O moo que toma conta de ns. Ele devia vir hoje. Eu
falei para a mame que eu posso cuidar sozinha do meu
irmo.  Ela apontou para J. R.  Ele est doente. A gente
est brincando de hospital. Quer brincar?
        No, eu no quero brincar  grunhiu Barber. As roupas 
dele estavam sujas e rasgadas, e ele estava arranhado e 
esfolado, como se houvesse vasculhado a floresta por vrios 
dias.  Vou dar uma olhada por a.  Ele se ps de p.  
Viu algum estranho por aqui?
        Quer dizer, alm de voc?
"Caramba", pensou Jason, "no provoque o cara."
Barber olhou feio para ela por um minuto, depois meio que 
relaxou, como se raciocinasse que ela era jovem demais para 
estar bancando a espertinha.
        , alm de mim. Estou procurando por um cara mais ou 
menos da minha idade, mais ou menos da minha altura 
tambm, s que mais magro. Cabelo escuro com listras 
loiras. Ele usa um brinco  disse Barber, tocando o lbulo 
da orelha para o caso de ela no entender.
        Por que est procurando por ele?  perguntou Grace.
        Acho que ele pode estar machucado.  por isso que estou 
procurando por ele. Para ajudar.
Barber arreganhou os dentes naquele seu tpico sorriso 
horripilante, os olhos plidos brilhando de malcia. 
Aparentemente tomava Grace Minerva por uma idiota. No 
pareceu notar Jason no canto.
        No vi ningum. No temos permisso para ir a lugar 
nenhum desde que o meu irmo ficou doente, porque  
contagioso.
Grace fingiu dar uma colherada de sopa a John Robert, que 
fingia dormir. A mo dela tremia um pouco.
Barber andou pesadamente pelo aposento, espiando por 
entre as vigas, empurrando as ferramentas para o lado e 
inspecionando espaos que eram pequenos demais para que 
Jason coubesse neles. Ele enfiou a mo no bolso, tirou um 
saquinho e derramou algo na palma da mo. P cintilante.
De repente, Barber lanou o p no canto errado, e este 
flutuou, descendo at o cho, brilhando sob os raios do sol. 
Revelando ningum.
        Ei  disse Grace, hesitante, olhando de relance para o 
canto onde Jason estava escondido.  O que  esse 
negcio?
Barber ignorou-a, continuando a examinar o aposento, 
lanando p. "S um pouco mais perto", pensou Jason, "e eu 
pego voc antes que voc me pegue. Quem sabe."
Barber parou diante de uma das pinturas, estudando-a, 
esfregando o queixo, pensativo. "Essa no", pensou Jason. 
Era a penso em Second Sister, destacando-se contra o sol 
poente, empoleirada nas rochas que davam para o lago Erie. 
Local da fatdica conferncia. Barber franziu o cenho, como 
se tentasse se lembrar onde vira aquilo antes.
        Quem  o pintor?  perguntou ele.
        Eu. Tome cuidado para que essa coisa brilhante no caia 
na tinta molhada  disse Grace.  Agora sente, Johnny, 
pra eu poder dar o remdio a voc.
John Robert se sentou obedientemente, e Barber deu uma 
boa olhada nos olhos inchados e nas manchas vermelhas na 
pele do menino.
        Qual  o problema com ele?  indagou Barber, recuando 
trs passos.
         bem contagioso  disse Grace, fingindo secar o suor de 
John Robert com um trapo.
Barber pareceu horrorizado.
        Por qu? O que  que ele tem?
        Catapora.  Grace deu de ombros.  Ele foi vacinado e 
tudo. Acho que coa pra danar. A mame disse que eu 
provavelmente vou pegar tambm.
Como que aproveitando a deixa, J. R. espirrou.
Barber recuou rapidamente para a escada, depois deu uma 
ltima olhada no estdio com os olhos apertados.
        Tem certeza de que no viu ningum?
        A mame no deixa ningum entrar, j que  contagioso 
 disse Grace, em tom solene.  Estou surpresa de ela ter 
deixado voc entrar.
"Ah", pensou Jason. "Ele ficaria feliz de lanar uma catapora 
ou qualquer outra praga sobre Barber depois do que este 
fizera com ele. Talvez Leesha pegasse dele."
A visita no ficou nem mais um segundo. Jason ouviu-o 
descer as escadas, bater a porta do celeiro e dar a partida no 
carro. Jason esperou at que o som do motor no fosse mais 
audvel para se deixar cair contra a parede, tentando juntar 
foras suficientes para voltar para a cama improvisada.
        Foi sorte ele no ter visto voc  disse Grace, olhando 
feio para Jason.  Por que no se escondeu?
        Bom, eu...
        Com quem voc est falando, Grace?  John Robert 
emergiu das cobertas.  Aonde foi aquele homem?
Jason olhou de Grace para John Robert, e de volta para 
Grace. Ele desativou o feitio de imperceptibilidade. John 
Robert recuou, mas Grace no reagiu.
"Ah", pensou Jason. "Extratores podem ser raros, mas vm 
em srie."

Captulo Dezesseis
Chegadas e Partidas

Aps o susto da hora do almoo, Jason dormiu durante 
quase toda a tarde. Acordou duas vezes com o som de 
motores de carro  a me de Madison saindo para o 
trabalho e Madison chegando em casa. E acordou uma 
terceira vez quando ela acendeu a luz.
        Oi  disse ela baixinho, sentando-se na beirada do 
colcho.  Como  que voc est?
        J estive melhor.  Ele conseguiu se sentar. Um dos ces 
amarelos estava estirado aos ps dele. O ferimento no peito 
de Jason escorrera, e a camiseta grudara nele. Jason puxou a 
camiseta para longe da pele, cerrando os dentes diante da 
dor.  E voc?
        Estou bem.  Madison se ps a ajeitar e alisar as roupas 
de cama. Estava vestindo jeans desbotados e uma camisa 
bordada de algodo branco, alm de vrios colares que lhe 
davam voltas no pescoo. O cabelo estava puxado para trs 
numa trana solta, expondo longos brincos pendentes.  
Quer dizer que o Barber esteve aqui?  disse ela, com 
aquele seu jeito de ir direto ao ponto.
Ele fez que sim com a cabea.
        A Grace salvou o dia. Ela  incrvel. No tem medo de 
nada.
Madison concordou.
        Ela  corajosa mesmo.  assustador, s vezes.
        Voc no tinha me contado que ela  uma extratora 
tambm.
Madison parou imediatamente de ajeitar as cobertas, os 
olhos fixos na colcha.
        O que  que voc disse? Ela no .
        Madison. Qual ? Sou eu.
        Ela no   repetiu ela, mais alto.
        Voc falou para ela?  Quando Madison no disse nada, 
ele deu de ombros.  Imagino que no. Ela no parece 
saber nada sobre magia.
Ela finalmente ergueu a cabea, os olhos escurecendo at 
um azul de guas profundas.
        Ela no est envolvida nisso.
        Ainda.
        Nunca.  Madison era como uma pessoa que pressiona o 
dedo no buraco da represa enquanto a gua jorra por todos 
os lados em torno dela.  Voc no pode contar a ningum.
        Maddie, foi por pura sorte que o Barber no percebeu 
quando esteve aqui.
         por isso que tenho de ficar longe disso tudo. Para a 
proteo dela.
De repente, ela estava chorando. Lgrimas caam-lhe pelo 
rosto, e Jason tentou pensar em alguma coisa, qualquer uma, 
para dizer.
        Ei, escute, Madison, eu...
        Tem sido um inferno aqui, sabia?  A voz dela ficou mais 
alta, e o co se mexeu e abriu os olhos.  No ano passado, 
algum estava ateando fogo por todo o condado, e todos 
culpavam a gente, dizendo que somos bruxas. As crianas 
atormentavam a Grace na escola. A me da melhor amiga 
dela proibiu a amizade delas. A coisa ficou feia. Quando fui 
embora, aquilo finalmente parou.
Ela fungou um pouco e secou os olhos.
        Eu estava feliz em Trinity. A Second Sister aconteceu. 
No posso me envolver nisso. Se descobrirem sobre a 
Grace... A minha famlia, eles so tudo o que eu tenho.
        E agora eu trouxe o Barber at aqui  disse Jason, 
pensando em Leesha.  Sinto muito.
        Voc acha que ele vai voltar?
Jason deu de ombros.
        Ele provavelmente s est examinando todos os lugares 
prximos. Duvido que volte, a menos que descubra que 
voc mora aqui. Isso seria uma pista grande demais.
        Ainda est escrito "Booker" na caixa do correio  disse 
Madison.  Mas todos sabem quem mora aqui.  Ela fez 
uma pausa.  E a? O que o Barber quer? O que voc est 
fazendo aqui?
"Vim descobrir se voc est trabalhando para as Rosas", 
Jason pensou em dizer. Ou: "Vim espionar voc". Ou ainda: 
"Vim arrastar voc de volta para Trinity, queira ou no". No 
que ele tivesse qualquer condio de faz-lo.
Por isso  claro que ele no disse nenhuma dessas coisas.
        O Barber est procurando pelo Corao do Drago. Acho 
que ele pensa que eu estou com ele.
        Mas no est.  Ela olhou-o de esguelha, tentando soar 
natural.  Ainda... ainda est na igreja?
        Est.
"Ela ainda o quer", pensou ele.
        Vocs conseguiram quebrar a proteo? Descobriram 
como funciona?
Ele balanou a cabea. Pensou em dizer: "No, a coisa me 
morde toda vez que tento pr a mo nela". Mas no disse 
isso tambm. Ainda tinha esperana.
        Conseguimos classificar quase todos os outros objetos.
Ambos ficaram em silncio, estudando um ao outro, como 
candidatos ao mesmo emprego.
        E a?  disse ele afinal.  Falou com a sua professora de 
arte?
Ela assentiu, distrada.
        A minha professora da Faculdade de Trinity. Encontrei 
com ela em Columbus para que ela desse uma olhada no que 
fiz at agora. Ela foi l para uma inaugurao.
        E o que foi que ela disse?
Ela o fitou por um momento, depois estendeu a mo, 
agarrou a frente da camiseta dele e puxou-lhe o rosto 
perigosamente para perto do dela.
        Jason Haley!  Ela lhe deu uma sacudidela.  Voc no 
veio at aqui para me perguntar sobre a minha lio de casa!
        Calma! Sou um invlido, lembra?  disse ele, e ela o 
soltou.  Eu vim porque algum arrombou o seu quarto na 
Lendas e revirou tudo.
Ele observou a reao dela com ateno, e viu simples
espanto.
        Por que algum faria isso? No tem nada l pra roubar.
c        Foi um mago  continuou Jason.  O Seph acha que 
pode ter sido algum das Rosas.
        As Rosas! Por que eles arrombariam o meu quarto?
        Talvez estejam tentando encontrar voc  sugeriu Jason. 
 Tem certeza de que no havia nada l que valesse a pena 
roubar? Voc deixou alguma das suas pinturas l?  
perguntou, num impulso.
Madison adquiriu uma cor de leite desnatado, revelando 
sardas que Jason nunca vira antes.
        Pinturas? Bem, eu no... Quero dizer, eu...
Jason fitou-a.
        No  uma pergunta difcil.
        No, mas...  Ela engoliu em seco.  No acho que eu 
tenha deixado... nada. Por que pergunta?
        Bem, o Seph deu uma olhada por l, mas no soube dizer 
se estava faltando alguma coisa.
Agora Madison pareceu verdadeiramente em pnico.
        O Seph esteve no meu quarto?
        , esteve. Ele e o Nick...
        O Seph e o Nick? O que eles estavam fazendo?  
Madison se inclinou para a frente.  Como entraram l?


        Ahn... Acho que a Rachel pediu ao Seph que fosse l. Na 
verdade, ela achou que vocs dois haviam brigado e que ele 
tinha revirado o seu quarto por vingana.
Madison entrelaou os longos dedos.
        Eles... eles mencionaram terem visto alguma pintura?
"Droga", pensou Jason. "No acredito. Ela  realmente 
culpada. Ela sabe que aquela pintura era um problema."
Mas se ela tivera a inteno de que Seph a descobrisse, por 
que parecia to assustada? Ser que ela ia dar o quadro para 
algum... algum cmplice? Ser que havia planejado fazer 
algo com o quadro e agora o plano estava arruinado? Se 
estava arruinado, ser que eu quero que ela saiba que foi 
arruinado?
        Jason?
Madison o fitava, mordendo o lbio, esperando por algum 
tipo de resposta.
Agindo por instinto, ele balanou a cabea.
        No, ele no disse nada sobre uma pintura. Por qu? Est 
faltando alguma?
        Ahn, no  disse Madison.  S estava me perguntando.
Ela realmente no sabia mentir. Havia algo de errado naquela 
teoria de que Madison era uma agente secreta ou uma 
assassina. Como se ele houvesse montado o quebra-cabea 
forando peas que no se encaixavam a se encaixarem.
Eles evitaram se encarar.
Finalmente, Madison falou:
        E a? Voc veio at aqui s pra me falar sobre... sobre um 
arrombamento?
        Bem, ah... basicamente.  Jason pigarreou.  O Seph 
quer que voc volte para Trinity. Ele... gostaria de ficar de 
olho em voc.
Aquilo era verdade, at certo ponto.
        O qu?  Ela se sentou no cho junto ao colcho, 
passando os braos em torno dos joelhos.  Algum pensou 
em perguntar a minha opinio a respeito?
        Ele no acha que  seguro pra voc ficar aqui sozinha.
        Sinto muito, Jason, mas no acho, sinceramente, que haja 
algum atrs de mim.
"Bem, no, no se eles forem cmplices. Outra pea forada 
no lugar."
        Estou mais segura aqui do que l, de qualquer forma  
prosseguiu Madison.  Se algum pode arrombar o meu 
quarto com a Rachel de guarda, pode fazer qualquer outra 
coisa que queira tambm. Se um estranho aparecer em Coal 
Grove, vai ser notado num segundo. Os nicos magos que 
conheo em todo o condado so voc, o Warren Barber e o 
Brice Roper. E o Barber seguiu voc at aqui.
Jason pestanejou. Grace havia mencionado aquele nome.
- Quem  Brice Roper?
        Um canalha e um mentiroso. Mora no p da montanha. 
Ele tem cavalos.
Ela parecia pensar que aquilo era informao suficiente a 
respeito de Brice Roper, pois no disse mais nada. Jason 
sentiu pena de Brice Roper, quem quer que fosse.
Jason se virou e enfiou a mo na mochila. Tirou um mao de 
cigarros e um isqueiro. Ergueu os olhos e viu Madison 
olhando para ele com cara de poucos amigos.
        O que foi?
        Voc acha que vou deixar voc acender isso num celeiro?
        Oh, desculpe.
Ela arrancou os cigarros dele.
        Na verdade,  proibido fumar nesta montanha inteira, no 
seu caso.
        Ahn?  Jason viu aquela expresso de teimosia no rosto 
de Madison outra vez.  Escute, eu vou fumar no ptio. 
Vou fumar na floresta. Vou fumar na droga da casinha. Onde 
voc quiser.
Ele estendeu a mo.
Ela enfiou os cigarros no bolso do jeans.
        Se acha que vou deixar voc se envenenar depois de toda 
a gosma que tive de encarar pra salvar a sua vida, est louco.
Ela fez uma careta e limpou a mo na camisa.
        Est bem. Vou fumar duas vezes mais quando for embora 
daqui.  Ele fez uma pausa.  E a? Voc vem comigo?
Madison se levantou e comeou a andar de um lado para o 
outro, gesticulando enquanto falava.
        No posso simplesmente fazer as malas e partir. O juiz 
Ragland liberou a Grace e o J. R. sob a condio de que eu 
ficasse aqui pra cuidar deles. Se eu for embora, o condado vai 
retomar a custdia.
Jason suspirou. Sabia que no ia ser fcil. E se Madison estava 
conspirando com algum, era difcil decidir se seria melhor 
lev-la de volta ao santurio, onde poderiam vigi-la, ou 
mant-la  distncia. O banimento da magia de ataque no 
parecia funcionar no caso dela. Mas ele ainda no entendia 
como ela conseguira implantar uma maldio numa pintura, 
se no era dotada.
Se ela estava trabalhando para as Rosas, porm, no devia 
estar ansiosa para voltar para Trinity de forma a poder pr as 
mos no Corao do Drago?
Percebendo que ela aguardava uma resposta, ele perguntou:
        Ento, o que  que voc vai fazer?
Era intil tentar forar Madison a fazer qualquer coisa. A 
magia no funcionava com ela e, em suas atuais condies, 
Jason no conseguiria carregar uma Madison esperneando e 
berrando at o carro. Se ele tivesse um carro.
        Olhe, se eu no terminar esse portflio, vou perder todo o 
semestre  disse ela.  E as crianas dependem de mim. 
No posso voar para Trinity por causa de um arrombamento. 
Parece que eu estaria indo ao encontro da encrenca em vez 
de fugir dela.
Madison esperou, retorcendo uma mecha de cabelo entre o 
polegar e indicador. Como Jason no respondesse, ela 
perguntou:
        Como vai o Seph?
        Mal-humorado como o diabo. Com saudades de voc.
        Achei que ele se sentiria melhor... longe de mim.
Jason encarou-a. Ele descobrira havia muito tempo que
as garotas tinham uma viso de mundo completamente 
deturpada. Aquilo s confirmava sua impresso.
        Ele  louco por voc, Madison. Por que ele se sentiria 
melhor?
        Eu disse para ele sair de Trinity. Avisei. Falei que as coisas 
iam acabar mal.
quela altura a parania de Jason estava em marcha 
acelerada. Ser que ela sabia que as coisas iam acabar mal 
porque tinha informaes sigilosas?
        Ele no vai partir, Maddie. Eles no tm ningum mais.
Ela fitou as prprias mos.
        Eu vou voltar. Quando eu acertar as coisas aqui. Enquanto 
isso, vou tentar no chamar a ateno.
"Certo. Como se ela pudesse se perder nas multides 
apinhadas de Coal Grove", pensou Jason.
        O Seph no vai gostar disso.
A discusso o estava cansando. A dor fria no peito havia 
retornado. Ser que algum dia ele voltaria ao normal?
        Quando voc voltar, diga ao Seph para parar de se 
preocupar comigo e tomar mais cuidado com ele mesmo  
disse Madison.
        Eu no vou voltar para Trinity  disse Jason sem pensar.
Droga! Ele era um idiota, tentando jogar aquele jogo 
complicado com a cabea ainda nas nuvens, devido aos 
efeitos do veneno.
        Para onde voc vai?
        Voltar para a Inglaterra.  Ele fez uma pausa, depois 
brandiu a nica arma que tinha. Aquela que nunca utilizaria. 
 Enfim. Ningum precisa saber sobre a Grace. E ningum 
precisa saber que estou aqui.
Ele olhou diretamente nos olhos azuis de Madison. Precisava 
de tempo para se recuperar e no queria que mandassem 
algum para interrog-lo antes disso.
Os olhos dela se estreitaram e os lbios se contraram numa 
expresso zangada.
        Muito bem! O funeral  seu.
        Exatamente  disse ele, sorrindo um pouco, tentando 
diminuir a tenso.
        O que devo dizer ao Seph? Ele est esperando notcias 
suas.
        Se ele perguntar, diga que eu nunca vim aqui.
Os olhos de Madison se arregalaram de espanto.


        Se ele perguntar? Jason! Ele vai pensar que voc fugiu ou
que algo aconteceu com voc.
Jason conteve uma onda de culpa, sabendo que Seph
merecia ao menos saber a respeito de Barber. Mas Jason 
ficaria por ali algum tempo, para o caso de Barber voltar.
"Certo. Da ltima vez, uma menina de dez anos salvou a sua 
pele."
        Trinity seria o lugar mais seguro pra voc, voc sabe  
disse Madison, como se lesse a mente dele.
        Mais seguro pra mim, mas no para voc?
Ele fez uma pausa. Como ela no respondesse, acrescentou:
        De qualquer forma, no estou procurando um esconderijo.
Ela se levantou.
        Mesmo assim.  melhor voc ficar escondido. No caso de 
o Barber estar procurando por voc.
         melhor que ele se preocupe por eu estar  procura dele! 
 disse ele, enquanto ela se afastava.
Quando a porta se fechou atrs dela, ele se recostou 
confortavelmente nos travesseiros. No tinha medo de 
Warren Barber. S precisava descansar um pouco e re-
cuperar a forma.
Se Madison estivesse envolvida em algum tipo de cons-
pirao, ele no podia simplesmente deixar Seph  merc 
dela. Mas Seph nunca acreditaria em nada ruim a respeito de 
Madison sem provas. J que ele tinha de ficar em Coal Grove 
por uns tempos, talvez conseguisse descobrir com certeza de 
que lado Madison Moss estava, com quem ela andava e 
quem era o tal Brice Roper.
Quem sabe se ele apenas fechasse os olhos...
Madison passou com a picape por entre os pilares gmeos de 
tijolos que assinalavam a entrada para a Fazenda Bryson. Um 
cercado branqussimo se prolongava em ambas as direes, 
demarcando os limites da propriedade dos Ropers. Ela 
percorreu o longo caminho, passando pela manso de estilo 
neoclssico, e deu a volta nas estrebarias.
Ningum jamais diria que aquilo tudo fora construdo  custa 
de mineradores de carvo.
O prdio fora pintado de vermelho recentemente. Quatro 
cavalos rabes cinzentos malhados, com focinhos negros 
aveludados, enfiaram as cabeas sobre o porto do cercado. 
No pasto adiante, aafres, fura-neves e campnulas brancas 
despontavam entre os retalhos de neve.
"Esta  uma fazenda tirada de um romance", pensou ela. 
"Aposto que os cavalos nem defecam nos estbulos."
Ao se virar na direo da casa, viu trs cavaleiros emergirem 
da floresta no lado oposto do pasto. Grace cavalgava uma 
delicada gua baia de passadas altas. Brice vinha atrs, num 
cavalo castrado, corpulento e de pelos negros, e John Robert 
montava um pequeno cavalo cinzento malhado. Quando 
Grace viu Madison, bateu os calcanhares nas laterais do 
cavalo e veio voando pelo pasto, o cabelo tremulando como 
uma bandeira, puxando as rdeas para executar uma parada 
brusca bem na frente de Madison.
        Grace!  disse Madison, abanando a poeira erguida pelos 
ps do cavalo.  No seja exibida.
As faces de Grace estavam coradas de excitao.
        Maddie! Esta  a Abby. Quer dizer,  assim que ela  
chamada na estrebaria. O nome de registro  Abby Ann. Ela 
 de raa brbere. Ela  um doce. Brice disse que nunca viu 
ela se afeioar a algum do jeito que...
        Onde vocs estiveram?
Grace pestanejou.
        Bom, a gente cavalgou at a velha fornalha.
        Aquilo fica na nossa propriedade. Voc no tinha nada 
que lev-lo at l em cima na montanha  disse ela, 
indicando Brice com a cabea.
Brice parou junto a Grace. Ele estivera acertando o passo 
com o de John Robert.
        A culpa  minha. Eu pedi a ela para me mostrar a queda-
d'gua.
        Como se voc no tivesse andado por l sozinho antes.
        Por que voc sempre tem que ser to malvada?  
sussurrou Grace audivelmente para Madison.
Brice apenas revirou os olhos e apeou com elegncia.
Grace desmontou tambm, depois ficou parada, hesitante, 
segurando as rdeas.
        Vamos subir l para a casa  disse Brice.  O Mike vai 
cuidar dos cavalos.
Grace no se moveu.
        O senhor Ragland sempre diz que cada um deve cuidar do 
seu prprio cavalo.
        No vou contar a ningum  disse Brice, erguendo John 
Robert da sela e colocando-o no cho.
        Eu podia ter descido sozinho!  protestou John Robert.
Brice deu-lhe um tapinha no ombro.
        V com a Grace pedir um pouco de bolo e limonada a 
Sylvia. Madison e eu vamos pra l num instante.
        No  disse Madison rapidamente.  No podemos ficar. 
Tenho muita coisa pra fazer e j desperdicei a maior parte do 
dia.
        Ah, qual ?  disse Brice com impacincia, segurando-lhe 
o brao.  No v sair correndo. A Sylvia fez um bolo de 
chocolate de sete camadas. Ela vai ficar de corao partido se 
s eu for comer. Alm disso, quero mostrar uma coisa a 
voc.
        Me solta!  Madison soltou o brao.  Quando vai 
aprender a manter as mos longe de mim?
Brice balanou a cabea, incrdulo.
        O que  que voc tem, afinal?  indagou ele, como se ela 
estivesse sendo completamente irracional.
Enquanto isso, Grace e J. R. ficavam ali em p, sem jeito.
        Bolo de chocolate, Maddie?  disse J. R., esperanoso.
        No vai demorar  disse Brice.  Prometo, est bem?
        Est bem  disse Madison.  Vamos acabar logo com 
isso.
Por que ela no podia deixar Brice doente, em vez de Seph? 
Seria bem justo. Afinal, Brice deixava Madison doente.
Brice conduziu-a, acompanhando a cerca do outro lado do 
pasto. Algum havia construdo uma trilha de pedras e 
plantado tomilho entre elas. A trilha fazia uma curva 
perpendicular para dentro da floresta, para o frio das 
sombras. Eles seguiram um pequeno crrego, um afluente 
menor do riacho Booker.
Finalmente saram da floresta e entraram numa clareira que 
dava para o rio l embaixo. No centro havia um pequeno 
chal de pedra e cedro. Embora ele parecesse recm-
construdo, tinha aspecto de abandonado. A campina ao 
redor estava coberta de cardos queimados pelo inverno, 
amoreiras e mudas de plantas que chegavam  altura das 
coxas.
A vista era de tirar o flego. Bem abaixo, o rio corria entre 
margens ngremes. As montanhas se estendiam ao sul e a 
leste  azul esfumaado, verde e cinza onde a neve havia 
derretido.
        Que lugar  esse?  sussurrou Madison, sabendo que 
deveria haver uma histria por trs.
        Esse era o estdio da minha me.
Brice guiou-a at a construo. A frente era toda de vidro, 
abraando a terra enrugada que se estendia adiante.
Brice abriu a porta da frente com uma chave. A sala da 
frente era imensa, com grossas vigas sustentando o alto 
telhado e claraboias entre elas. Havia uma cozinha e uma 
sala de jantar nos fundos da casa, e uma escada em espiral 
para o que deveriam ser os quartos de dormir no andar de 
cima.
Como a campina, a casa tinha um ar abandonado. A moblia 
estava coberta com panos de lona e o p cintilava sob a luz 
do sol que penetrava pelas clarabias.
        Voc sabe que a minha me tambm  artista  disse 
Brice.  Depois que os meus pais se divorciaram, ela se 
mudou para Nova York.
Naturalmente, ele supunha que Madison conhecia a histria 
do desagradvel divrcio e da jovem segunda esposa. 
Naturalmente, ela conhecia mesmo. Afinal, os Ropers eram 
como a realeza do Condado de Coalton.
        A minha madrasta no vem aqui.
Ele parecia calmo, pragmtico, sem nenhum trao de 
julgamento na voz ou na expresso.
Ao contrrio de Madison. Ela passara a vida toda julgando as 
pessoas em relao ao seu sistema pessoal de
valores. Ela era tima em guardar rancor. Devia ganhar um 
prmio por isso.
Ela se postou junto  janela, olhando para o vale.
        Muito bonito  admitiu ela.  Mas por que voc me 
trouxe aqui?
        Achei que talvez voc quisesse usar o lugar.
Ela se virou.
        Para qu?
        Para pintar. A Grace disse que voc tem pintado como 
louca.
        Por que eu iria querer vir at aqui? Posso pintar em casa.
Por que Grace contava coisas a Brice Roper?
Ele deu de ombros.
         um bom espao e est sendo desperdiado.
        S porque voc tem alguma coisa, no significa que eu 
queira.
Ele veio mais para perto e olhou para ela. Ela tentou recuar, 
mas acabou prensada contra a janela.
        A gente podia transferir a propriedade pra voc.
        Eu tenho uma casa. Para que eu ia precisar de duas?
        Voc no precisa de uma runa caindo aos pedaos no 
topo da montanha Booker  disse Brice.  O senhor 
McCartney disse que voc vai ser dona da montanha em 
alguns meses. Voc sabe que o meu pai quer comprar. Ele 
vai pagar um bom preo. Um timo preo, na verdade. Voc 
vai ficar rica.
        Uau. Parece um sonho que se transforma em realidade - 
disse ela.
Encorajado, Brice foi em frente.
        Voc pode ficar. Ou voc pode sair deste lixo de cidade 
para sempre. Pode ir pra uma escola de artes. O que quiser. 
E, depois que se formar, a gente podia ajudar a promover a 
sua carreira. A minha me conhece pessoas. Tem contatos 
em galerias em Nova York e Chicago.
        E a? Como vocs tirariam o carvo da montanha Booker?
Ele pestanejou, surpreso com a mudana de assunto.
        A Carlene deixou o meu pai fazer algumas perfuraes de 
prospeco. As jazidas esto perto da superfcie, por isso ele 
provavelmente removeria o topo da montanha.
        E lanariam tudo no riacho Booker?
Ele fez que sim com a cabea.

         o mais provvel. Depois continuariam fazendo uma
escavao a trado para chegar at as jazidas mais profundas.
S vo saber de verdade quando chegarem l.
        Voc at parece um especialista.
        , sei  disse ele, com uma surpreendente amargura.
        E o seu pai e a Carlene combinaram tudo isso?
        Bem, acho que eles conversaram a respeito.  Ele 
pareceu um tanto inseguro.  S as preliminares, sabe como
.
        E depois deram a voc o trabalho de me convencer?
Brice pigarreou.
        Bem, parece uma situao em que todos saem ganhando.
        Todos saem ganhando.  Madison enfiou as mos
nos bolsos dos jeans e balanou-se para trs nos calcanhares. 
 Me diga uma coisa. A Carlene sabia que vocs iam atear 
fogo no galpo?
Ela o surpreendera. Ele a subestimara. E assim, por um 
instante, a verdade transpareceu no rosto dele.
        No acredito  sussurrou ela, balanando a cabea como 
se pudesse de alguma forma negar a traio.
Brice recuperou-se e sorriu de novo.
        No sei do que est falando.
        O seu pai quer comprar a montanha Booker, e a Carlene 
quer vender. O nico problema  que ela no  a dona. Por 
isso eles acharam que, se parecesse que as crianas estavam 
em perigo, o condado assumiria a custdia. E se o condado 
assumisse a custdia, eu teria de voltar para casa. E se eu 
voltasse para casa, voc poderia me manipular e me 
persuadir a vender. Aposto que voc sabe ser bastante 
persuasivo. Aposto que ningum nunca diz no.
        Maddie.
        O seu pai ofereceu a Carlene uma parte do negcio. E 
voc ateou fogo no galpo. Ficou por l at que a Grace e o 
John Robert tentassem apagar, e ento levou os dois pra 
cidade. Agora me diga. O que voc teria feito se alguma das 
crianas tivesse se machucado?
        Maddie, escute...
        No me chame de Maddie. Os meus amigos me chamam 
de Maddie. O seu problema  que voc pensa que todas as 
outras pessoas so idiotas. Acha que eu no tinha planos para 
este vero? Voc fica aqui com a sua fazenda de mentirinha 
e a sua "Sylvia vai ficar de corao partido" quando a Sylvia 
provavelmente no daria a mnima se voc pegasse o bolo de 
sete camadas e o pregasse na porta da estrebaria.
Brice parecia ter levado uma violenta pancada na cabea.
        O qu? O que a Sylvia tem a ver...
        Porque a Sylvia tem vida prpria, alm de ser a sua 
governanta. E eu tenho uma vida que no envolve bajular 
voc. Por isso, se pensa que vai pr as mos na montanha 
Booker, est muito enganado.
Aquilo fez com que ele prestasse ateno ao que ela dizia.
        Voc no  ningum.  Ele a olhou como se ela fosse 
uma sujeira que ele raspara do sapato.  Quinta gerao da 
mais pura ral. Mas quando eu a convidei para sair, voc teve 
a audcia de dizer no.  Ele bufou.  Como se fosse boa 
demais para mim, quando esteve com todos os outros caras 
no colgio.
Correo: ela havia sido convidada para sair por pratica-
mente todos os outros caras no colgio. E havia recusado. 
Mas isso no os impedia de falar.
        O nico motivo pelo qual voc ainda tem a montanha  
porque ningum se interessou por ela antes  prosseguiu 
ele.  A Carlene  pattica, mas pelo menos entende como 
as coisas funcionam.
        Deixe a minha me fora disso  disse Madison, embora 
aquilo fosse, na verdade, bastante estpido.  Prefiro ser 
quem sou a ser quem voc , arrancando os topos das 
montanhas, envenenando rios, emporcalhando toda a terra e 
nunca limpando a prpria sujeira, se curvando e se 
ajoelhando diante do seu pai, que atropelaria um gatinho em 
seu trajeto at o banco.
        Acho bom voc lavar a boca. Estou avisando.
Brice inflou com o poder, como um tipo de sapo mgico 
disfarado de homem.
Madison havia mesmo soltado a lngua de novo. No que 
Brice no merecesse, mas a ltima coisa que ela precisava era 
que ele tentasse usar magia nela e provocasse mais 
perguntas. Ela olhou pela janela, tentando manter o 
controle.
        J acabamos aqui?  Ela se virou em direo  porta.   
melhor voltarmos e irmos para a sua casa.
Em trs rpidas passadas, Brice caiu sobre ela. Ele agarrou-
lhe os ombros com seus dedos de ferro, machucando-a.
        Ns no acabamos aqui. Vamos resolver isso.
Ele lanou poder sobre ela desajeitadamente. Era para causar 
dor  para ser um golpe rpido e convincente, mas longe 
do estilo elegante com o qual ela estava acostumada. Ento o 
sorriso dele sumiu, os olhos se arregalaram, e ele recuou, 
lutando para se libertar. Por fim, completamente drenado, 
ele tombou ao cho e ficou cado com o rosto para cima, os 
braos estirados  frente como se tentasse agarrar algo que 
no conseguia alcanar.
Madison inclinou-se sobre ele.
        Tem outra coisa que voc no sabe a meu respeito. No 
tenho medo de magos.
Ela se virou e saiu do estdio, deixando-o cado ao cho.
"L se vai a idia de me esconder", pensou ela ao voltar pela 
trilha. "L se vai a idia de no chamar a ateno. Seria bom 
se, ao menos uma vez, voc conseguisse pensar algo e no 
dizer em voz alta. A quem mais o Brice conhecia e com 
quem mais ele poderia conversar?"
Quando ela chegou na casa, Grace e John Robert estavam 
sentados  mesa da sala de jantar, devorando grandes fatias 
de bolo de chocolate em camadas e sorvendo copos altos de 
limonada enfeitados com raminhos de menta e fatias de 
limo, e com acar e limo nas bordas. Como gente pobre 
convidada  casa-grande.
O rosto de John Robert estava coberto de creme e 
entusiasmo.
        Prove esse bolo, Maddie. Est fantstico!
        Tenho certeza de que est.  Madison evitou olhar para 
Sylvia, que estava rondando por ali.  Mas, sabe, no 
consigo comer bolo de chocolate e limonada juntos. Deixa a 
limonada com gosto azedo e o bolo doce demais. Termine 
de comer, J. R. Temos que ir.
        Cad o senhor Roper?  perguntou Grace.
        L no velho estdio da me dele  disse Madison.  Ele 
decidiu ficar l por um tempo.
        O senhor Roper disse que eu posso voltar e cavalgar a 
Abby sempre que eu quiser  anunciou Grace, limpando 
elegantemente os lbios com um guardanapo.
        Acho que o senhor Roper mudou de idia  disse 
Madison.
Grace deixou o garfo cair no prato ruidosamente, nuvens de 
tempestade acumulando-se no rosto.
        Por qu? O que voc falou pra ele?
Madison hesitou; ento decidiu ficar com a verdade.
        O pai do senhor Roper quer a montanha Booker. Eu disse 
no. Ele est meio zangado por causa disso.
        Onde a gente ia morar, se ele ficasse com a montanha?  
perguntou J. R., no finalzinho do seu bolo.
        Esse  um dos problemas  disse Madison.   por isso 
que eu disse no.
        A gente podia se mudar pra outro lugar  sugeriu Grace.
        Acho que isso no vai acontecer  disse Madison. No 
caminho montanha acima, Grace comentou que
Brice Roper era um idiota, mas tinha cavalos bonitos. 
Madison lhe disse que coisas como andar em belos cavalos 
sempre custavam um alto preo.

Captulo Dezessete
Intimidao

Leesha se sentia como um policial encarregado da vigilncia 
externa numa cena de crime. Ficara sentada no carro no 
canto mais afastado do estacionamento da Igreja de St. 
Catherine durante toda a manh, observando os zeladores 
taparem um buraco no asfalto. O asfalto novo soltava fumaa 
e mau cheiro sob o sol do meio-dia. Havia poucas pessoas 
entrando e saindo da igreja quela hora numa segunda-feira.
Ela mesma j estivera na igreja uma meia dzia de vezes. 
Havia falado com a mulher de roupas antiquadas no 
escritrio da igreja, com o padre e com o coroinha pedante 
depois da missa. Ela os tinha induzido a ir at o jardim, onde 
ela podia utilizar a persuaso. Eles haviam compartilhado 
todos os seus segredos patticos, mas havia ficado claro que 
no sabiam nada sobre os artefatos mgicos. Se o Corao do 
Drago estava l, estava escondido sob feitios de proteo.
Igrejas eram como saunas. Faziam-na suar e inundavam 
todos os poros mgicos. Era um alvio estar do lado de fora.
Leesha sabia que seu novo plano ainda era muito vago. 
Esperaria at que um dos Weirs aparecesse, ento o seguiria 
at dentro da igreja e veria onde isso a levava. Se a vigilncia 
sobre a igreja no desse em nada, teria de pensar numa ao 
mais direta para descobrir a localizao do Corao do 
Drago.
Talvez estivesse perdendo tempo. Talvez Jason tivesse 
levado o Corao do Drago consigo ao partir. Talvez Jason 
estivesse morto e Barber j tivesse o que queria.
Jason.
"Eu no tive escolha", dizia a si mesma. Barber no estava 
brincando. A surra que ele lhe dera havia sido apenas um 
aperitivo. D'Orsay havia tentado matar Barber e falhado. Ela 
no podia fugir, porque Barber usaria o torque para mat-la 
se ela deixasse o santurio. Enquanto ela usasse o torque, 
Barber saberia exatamente onde encontr-la. E somente ele 
poderia remov-lo.
Nenhuma escolha. Ela estaria morta quela altura, se no 
houvesse delatado Jason. Ela fitava com tristeza um mundo 
que parecia cinzento e descolorido sem ele. Queria que 
Barber a contatasse, para que ela ao menos soubesse o que 
acontecera.
Um velho jipe usado parou no estacionamento e uma figura 
familiar saltou para fora, sem se importar com a porta. Era 
aquela horrorosa Ellen Stephenson, que ficara com Jack 
depois que Leesha rompera com ele. Que a sujara com calda 
quente de chocolate no Corcoran's certa vez. Que se 
revelara a guerreira da Rosa Vermelha e conspirara com Jack 
para destruir o Pacto na Ravina do Corvo.
Definitivamente uma pessoa que valia a pena observar. Mas 
Ellen no entrou na igreja. Em vez disso, atravessou o 
estacionamento e rumou para as rvores entre o ptio da 
igreja e o lago. Estranho.
Leesha saiu do carro e atravessou o estacionamento, 
seguindo Ellen.
Ellen tomou uma trilha de aparas de madeira que ser-
penteava rumo ao norte, em direo ao lago. A guerreira de 
pernas longas se movia rpido, forando Leesha a dar passos 
apressados a fim de acompanh-la. A trilha era estreita, e 
espinhos se prendiam s suas roupas e puxavam-lhe o cabelo 
enquanto Ellen se distanciava cada vez mais. Leesha lanou-
se atrs dela, desistindo de tentar se mover silenciosamente 
pela floresta. Se tivesse planejado uma caminhada na floresta, 
teria calado sapatos sem salto. Daquele jeito, provavelmente 
acabaria enredada numa hera venenosa.
Aps algum tempo, a trilha se abriu em uma pequena 
clareira, salpicada de plantas espinhosas e pequenos arbustos. 
Nenhum sinal de Ellen. Leesha girou para examinar a
campina, mas se deteve quando algo frio tocou-lhe a nuca.
        Procurando por mim?
Leesha virou-se e viu Ellen atrs de uma espada muito longa 
que pressionava a base da clavcula de Leesha.
        Oi!  disse ela, recuando um passo.  Cuidado. Sabe 
como  difcil tirar manchas de sangue da seda?
        No vai ser um problema, se estiver morta  respondeu 
Ellen.
Ellen ergueu os olhos, mirando-os acima da cabea de 
Leesha, e sorriu. Nada tranqilizador. Leesha se virou com 
cuidado, e l estava Jack, segurando a prpria espada imensa 
e com uma expresso horrvel.
        Oh!  disse Leesha.  Pois . Desculpem, eu no 
pretendia interromper o seu encontro na floresta.
        Voc no est interrompendo  disse Jack.  Na 
verdade,  a convidada de honra.
Leesha sentiu os primeiros arrepios de pnico, mas tentou 
manter o rosto impassvel.
        Eu estava pensando em caar magos traidores.  Ellen 
deu de ombros.  Est a fim, Jack?
        Estou nessa.
Leesha no pde deixar de notar que o sorriso dele era 
surpreendentemente malvolo. E ele costumava ser to 
bonzinho!
        A gente quer saber o que aconteceu com o Jason  disse 
Ellen.  E qual foi o seu papel nessa histria.
        No fao idia do que vocs esto falando. No vejo o 
Jason h dias.
        O Jason sumiu  disse Jack.
        Puxa, que pena. Mas por que perguntam para mim?
Jack fuzilou-a com os olhos.
        Vocs dois estavam saindo juntos.
        No  verdade.
Ellen pressionou-lhe a espada contra a garganta de novo.
        Est bem! Eu saio com um monte de pessoas.  Ela se 
esforou para exibir uma expresso mais condescendente 
possvel.  Quero dizer,  muito amvel da parte de vocs, 
guerreiros, se preocuparem com o Jason e tudo mais, mas 
acho que ele pode tomar conta de si mesmo.
        O Jason  nosso amigo  disse Ellen.  E a gente quer 
saber para quem voc trabalha.
        O que faz voc pensar que eu trabalho pra algum?
        Voc  mercadora. Mercadores s se interessam por 
dinheiro.  Ellen fitou Leesha de cima a baixo.  Mesmo 
assim,  difcil acreditar que algum da nossa idade possa ser 
to mercenria.
Era isso o que ela era. Uma mercenria. Havia vendido 
Jason. No importava quantas vezes dissesse a si mesma que 
no tivera escolha. Apesar disso, no serviria de nada a Jason 
se ela fosse expulsa do santurio e Barber desse um fim  sua 
pattica existncia.
Leesha empertigou-se, esticando-se toda  s que, na 
verdade, a altura dela no era nada impressionante. Os 
guerreiros ainda eram bem mais altos.
        No devo explicaes a vocs. Agora, por que no vo 
embora e afiam as armas ou batem espadas ou fazem o que 
quer que os guerreiros costumam fazer em seu tempo livre?
        Nossa! Que bom que estamos aqui no santurio, onde a 
magia de ataque no funciona. Seno eu estaria me borrando 
de medo  disse Ellen, em tom de zombaria.
Deslizando a espada gigantesca para dentro da bainha, Ellen 
estendeu as mos na direo de Leesha. Por fora do hbito, 
Leesha disse um feitio de imobilizao, mesmo sabendo 
que seria intil. E foi. Droga.
Ellen agarrou-lhe os pulsos, torcendo-lhe os braos 
dolorosamente s costas. Jack ergueu a ponta da espada e 
pousou-a na base da garganta de Leesha.
Jack sorriu.
        Uma coisa se pode dizer de espadas mgicas. Mesmo na 
ausncia de magia, elas preservam certa funcionalidade.
No havia como negar, realmente.
        Ento o que  que h, Leesha?  disse Jack.  Por que 
ainda est aqui?
        Voc no iria me machucar  disse Leesha.
Normalmente, o que Leesha dissera seria verdade. Jack
fazia o tipo herico. A no ser quando estava zangado. 
Guerreiros zangados podiam perder o controle. Como  que 
ela ia saber que Jack e Jason eram to prximos?
E havia Ellen, que lhe torcia os braos, quase arrancando-os 
dos ombros. Ellen no hesitaria em machuc-la. Ela ainda 
guardava rancor por causa do envolvimento entre Leesha e 
Jack.
Sem magia de ataque. No era justo.
Ela no podia ajudar Jason. Onde quer que ele estivesse, 
estava alm do alcance dela. E se Jack e Ellen soubessem que 
ela tivera parte na traio dele... Mas ela podia entregar 
Warren Barber. Ela odiava Barber; no podia nem ver a cara 
dele. A cara e todas as outras partes.
Alm disso, os mercadores no eram conhecidos por darem 
a vida por seus patres.
        Tudo bem  disse ela.  Vamos com calma a. O que 
querem saber?
Em resposta, Ellen forou Leesha a ficar de joelhos na grama 
alta, ainda segurando-lhe os pulsos.
        Fale pra gente sobre o Jason.
        No sei bem o que aconteceu com ele, mas posso dizer 
que o Warren Barber est envolvido.
Aquilo era pura verdade.
        Warren Barber?  Jack pareceu ter sido pego com-
pletamente de surpresa.  Pensei que ele estivesse morto ou 
algo assim.
Leesha balanou a cabea.
        No. Infelizmente.
- Por que ele iria atrs do Jason?  perguntou Ellen atrs 
dela.
Leesha sabia que devia escolher as palavras com cuidado, 
mas era difcil pensar.
        O Barber sabe que o Jason roubou algumas coisas da 
Ravina do Corvo. Ele quer se apoderar dessas coisas.
        Como ele... O que deu essa idia a ele?  indagou Ellen, 
soltando Leesha e postando-se diante dela.
Porque Leesha contara para ele,  claro.
        O D'Orsay deve ter contado pra ele  disse Leesha, 
esfregando os braos e girando os ombros.
Jack agachou-se na frente de Leesha.
        Por que o D'Orsay acha que o Jason entrou na ravina?
        Acho que o Jason topou com o filho do D'Orsay na sada 
 disse Leesha.
Jack e Ellen se entreolharam, depois se voltaram para 
Leesha.
        O que foi que o Jason supostamente roubou?  perguntou 
Ellen.
        Coisas mgicas.
        Ento o Barber est trabalhando para o D'Orsay?
        Ele trabalha sozinho.  Ela tomou flego.  Ele est com 
o Pacto, sabe. Aquele que torna o D'Orsay rei vitalcio.
        O qu?  Jack praguejou baixinho.  O Barber est com 
ele?
Ellen se sentou com as pernas cruzadas.
        Como ele conseguiu o Pacto?
        Ele pegou o documento no meio daquela confuso em 
Second Sister.
Jack estreitou os olhos, com um ar desconfiado.
        Que vantagem isso d para ele? Ele quer mesmo ser 
comandado pelo Claude D'Orsay?
        Acho que ele se v mais como um scio.
        E por que eles no consagraram o acordo, ento?  
perguntou Ellen.
Leesha deu de ombros.
        No sei. Mas o Barber queria encontrar o Jason.
        Como voc sabe de tudo isso?  indagou Jack.
        Ele queria que eu ajudasse, mas eu recusei,  claro.
        Sei...  disse Ellen, afastando os cabelos da testa.
        Ele pode ter descoberto que o Jason ia sair do santurio e 
ido atrs dele. Ento, se o Jason estava carregando as coisas, 
o Barber est com elas. Se no, provavelmente sabe onde 
esto a esta altura.  Leesha resistiu  tentao de tocar na 
coleira.  Ele pode ser bastante persuasivo.
        Alguma idia de onde o Barber est?  perguntou Ellen.
        Nenhuma.  Leesha se levantou, alisando as roupas.  
No precisam agradecer, tudo bem.
Jack agarrou-a por um brao e Ellen pelo outro.
        Onde est hospedada, Leesha?  indagou Jack.
        Voc sabe onde. Com a minha tia Milli, em Shrewsbury. 
Por qu?
        Vamos buscar as suas coisas.
        Por qu? Como assim?  Jack e Ellen no disseram nada, 
mas comearam a empurr-la na direo do estacionamento. 
 Oh, no. Eu no vou sair do santurio. No posso, no 
depois do que eu j contei pra vocs. O Barber vai me matar.
        S tenha certeza de estar bem longe daqui quando ele 
fizer isso  sugeriu Jack.
        Olhe, voc no pode me expulsar do santurio. Est aberto 
pra todo mundo.
        A gente est mudando as regras  disse Ellen.   ral 
demais que vem pra c e estraga o ambiente de cidade 
pequena.
Leesha tentou fincar os calcanhares no cho, mas os dois 
guerreiros simplesmente a levantaram e carregaram. Era 
humilhante. Leesha esperneou, contorceu-se e xingou.
        No vou me esquecer disto. Vo se arrepender.
Ela tentou lanar persuaso sobre eles, mas eles a largaram 
no cho, depois a levantaram de novo.
Em pouco tempo estavam de volta ao estacionamento, 
empurrando-a para o jipe.
        Muito bem, est certo! Vocs venceram!  disse Leesha, 
numa voz que fez muitas cabeas se voltarem na rua.
Leesha se desvencilhou deles e caiu sobre a lateral do jipe, 
sem flego e com muito medo. Se ela trasse Barber, estaria 
morta numa frao de segundo. Mas ela no tinha escolha. 
Outra vez.
        Est bem  disse ela.  Vocs me deixam ficar no 
santurio e eu prometo entregar o Barber pra vocs.

Captulo Dezoito
Queima-Mente

Dystrophe virou o colarinho para cima para se proteger do 
sopro mido do lago, sabendo que devia estar chegando 
perto. No precisava consultar o pedao de papel que trazia 
no bolso  havia memorizado o endereo e a descrio da 
casa.
O Chal de Pedra, como era chamado. Haviam dito a ele que 
era provvel que o rapaz estivesse sozinho. A cautela natural 
de Dystrophe fora aguada pelo fato de que Longbranch 
estava oferecendo um pagamento espantosamente generoso 
por um alvo supostamente fcil.
O servio tinha seus desafios,  claro. Diziam que a magia de 
ataque era proibida dentro do santurio. Mas, at a, 
assassinatos provavelmente tambm eram.
Ele passou o dedo pelas lminas que trazia nas mangas e 
sorriu. Um arranho de qualquer uma delas seria o suficiente 
para cortar o fio da vida que geralmente era to forte nos 
jovens.
Ele entrou na estrada do Lago. Era uma avenida pavimentada 
com tijolos; as lmpadas a gs em ferro trabalhado 
projetavam poas de luz na escurido. Como assassino, 
gostava de bairros histricos e sombrios.
As casas  direita davam de frente para o lago, e algumas 
delas tinham pequenas placas com inscries como Ponta do 
Sol, Recanto do Poente, Descanso do Marinheiro, Quebra-
Mar e Porto do Sossego. Aquilo era muito sentimental. 
Dystrophe no gostava.
Devia ser aquela, logo em frente. Um verdadeiro chal de 
pedra em meio a um jardim quase selvagem, de frente para o 
lago. A luz da varanda estava acesa.
Dystrophe deu a volta na casa, protegendo o permetro com 
barreiras mgicas para impedir uma fuga. Depois subiu o 
caminho de entrada, tomando cuidado com o pavimento 
irregular. Talvez o rapaz at o deixasse entrar.
Mas no houve resposta quando ele bateu na porta. Ah, 
bem. No havia necessidade de postergar o encontro. Era 
uma porta grossa de carvalho, mas um feitio mirado com 
preciso a arrancou das dobradias.
Ser que o rapaz estava dormindo? Achava que no. Garotos 
daquela idade gostavam de ficar acordados at tarde, no? 
Jogando videogames e coisas assim? Ele devolveu a porta ao 
seu lugar e a trancou atrs de si, depois comeou a busca nos 
aposentos do trreo. O rapaz no estava na cozinha, nem na 
sala de visitas, na sala de jantar, na despensa ou no escritrio.
Naquele momento, ele ouviu movimento nos fundos da 
casa, e um som de batida, como algum tentando forar uma 
janela a se abrir.
"Ah", pensou Dystrophe, e seguiu o som.
Nos fundos da casa havia um solrio, provavelmente um 
lugar adorvel  luz do dia. A parede que dava para o lago era 
inteiramente de vidro. L embaixo, as ondas se chocavam 
contra as rochas. E ali, no escuro, uma silhueta contra a lua 
nascente, estava o rapaz.
Ele se virou quando Dystrophe entrou no aposento e o ficou 
encarando, em p. Dystrophe concentrou luz em suas mos 
e lanou-a no cho entre eles, iluminando as feies 
angulosas do rapaz, os olhos sombrios e o cabelo negro 
despenteado. Ele vestia jeans e camiseta, e ainda tinha a 
aparncia vigorosa e desajeitada da adolescncia.
Era ele, Dystrophe tinha certeza.
        Joseph McCauley?  indagou.
        Quem  voc?
        Calma, Joseph  disse Dystrophe, num tom tranqi-
lizador.  No estou aqui para machucar voc.
"Estou aqui para mat-lo". Era uma distino importante, mas 
a maioria das pessoas no parecia ach-la reconfortante. s 
vezes, quela altura, elas tentavam fugir, mas McCauley no 
o fez, pelo que Dystrophe ficou grato. Perseguir a presa no 
era do estilo dele.
        Quem mandou voc? As Rosas?  A voz de McCauley se 
elevou um pouco. Era um garoto, afinal.
        Isso importa?
        Pra mim, sim.
        Pois foi isso mesmo. A Rosa Branca. A doutora 
Longbranch.
O rapaz assentiu com a cabea, arquivando a informao 
como se ele tivesse um futuro. Era pouco comum para 
algum to jovem ter tantos inimigos. Mas aqueles eram 
tempos turbulentos.
Empunhando uma das facas, Dystrophe adiantou-se, 
considerando os alvos possveis: a plida coluna do pescoo 
do garoto, os braos que despontavam da camiseta de 
mangas curtas.
        Garanto a voc, no vai sentir nada. Sou muito bom no 
que fao.
        No faa isso  disse McCauley, as mos ainda cadas ao 
lado do corpo.  Estou avisando.
No implorava. Avisava. Ah, a arrogncia dos jovens.
        Ora, vamos. No me impressiono com ameaas e dramas. 
So apenas negcios, voc sabe. Nada pessoal.
O rapaz ajustou a postura, preparando-se. Os olhos verdes 
escureceram at ficar da cor de guas profundas. Chamas 
juntaram-se em torno de sua figura magra e respingaram no 
piso de ladrilhos.
Dystrophe afastou uma sombra de dvida, ento avanou. 
Quando apenas poucos centmetros os separavam, o 
assassino atacou como uma cobra, agarrando o pulso 
esquerdo do rapaz, com a inteno de passar a lmina 
envenenada pelo antebrao exposto de McCauley.
Dystrophe arfou e quase o soltou quando o calor da pele do 
rapaz queimou-lhe os dedos.
O garoto agarrou-lhe o outro pulso, a mo da faca. 
Dystrophe era mais forte, mas McCauley no fez nenhuma 
tentativa de faz-lo soltar a faca ou de volt-la contra o 
agressor. Em vez disso, derramou persuaso sobre ele, um 
rio quente de magia que preencheu os afluentes da mente de 
Dystrophe, empurrando-lhe a memria e a vontade.
"Que estranho", pensou Dystrophe, e ento no havia mais 
nada alm da voz do rapaz, e ele no pensou em mais nada.

Jack e Ellen encontraram Seph no jardim, num banco de 
frente para o lago. Sentava-se ereto, as mos nos joelhos, 
fitando as guas. Parecia abatido e perigoso, como um fio 
eltrico corrodo, lanando fascas. Ultimamente, 
encontravam-no com freqncia no jardim, apesar do frio, 
como se ele utilizasse aquele cenrio para clarear a mente 
para as atividades mgicas. Alm disso, Seph provavelmente 
estava quente o bastante para aquecer toda a margem do 
lago.
Ele virou a cabea e observou-os descer o caminho at ele. 
O rosto estava anormalmente plido, e parecia que dormira 
naquelas roupas.
        Oi, primo - disse Jack, levantando a mo num tipo de 
saudao. Tinha a sensao de que Seph no estava nada 
surpreso em v-los. Era um pouco perturbador.
Algo se esmigalhou sob o p de Jack.
        Ei  disse ele, examinando o cho.  Tem vidro 
quebrado por todo lado.
          disse Seph.  Acho que tenho que limpar isso.
Jack olhou em torno.
        De onde tudo... Nossa, o que aconteceu?
Jack apontou para a janela do solrio no topo do desfi- 
ladeiro. O vidro havia sido estilhaado como se um punho 
gigantesco o tivesse atravessado, deixando o aposento 
exposto aos elementos.
Seph olhou de relance para o buraco irregular no alto e de 
novo para Jack.
        Algum pulou  disse ele, tremendo um pouco, os olhos 
arregalados e com um ar assombrado.
        Quem pulou? Do que voc est falando?  Ellen sentou-
se junto a Seph e ps a mo no ombro dele, depois a sacudiu 
e chupou os dedos.  Ai! Voc est pegando fogo, sabia?
        As Rosas mandaram outro assassino ontem  noite.  
Seph esfregou os olhos com o polegar e o indicador.  Ele 
tinha facas. Eu disse pra ele ir embora e ele... pulou pela 
janela. Caiu no lago.
Jack deixou-se cair no banco de pedra, sem saber o que 
dizer.
        Quantos foram at agora?
Seph deu de ombros.
        Trs. No. Quatro.
        Isso precisa parar  resmungou Ellen.  Um dia desses 
eles vo dar sorte.
        Talvez voc precise de um guarda-costas  disse Jack.
Seph ergueu a cabea.
        E quem  que vai desempenhar essa funo? J estamos 
desfalcados do jeito que as coisas esto.
O vento do lago agitou as copas das rvores e a luz brincou 
sobre o rosto dele. Havia algo naqueles olhos...
        Teve notcias da sua me?  perguntou Jack.  Ela e 
Hastings precisam saber sobre isso.
        No. No tive notcias dela ou do Hastings. No sei como 
entrar em contato com eles.  Seph fez uma pausa.
        O Nick sabe o que aconteceu. Ele veio aqui ontem  noite, 
depois que... A voz dele sumiu.
"Isso  loucura", pensou Jack. Que santurio, que nada. Se 
algum quiser realmente matar uma pessoa, vai acabar 
conseguindo.
        Como foi com a Leesha?  indagou Seph de sbito, 
obviamente querendo mudar de assunto.
        Foi timo  disse Ellen tirando as luvas com um sorriso 
malicioso no rosto.  A gente brincou de policial malvado 
e... policial malvado.
        A gente pressionou bastante, e ela cedeu.  o que a gente 
acha  acrescentou Jack. Nunca dava para ter certeza com 
Leesha.
        Ela sabe onde o Jason est?
        Ela disse que no. Mas parece que todo mundo que est 
envolvido na coisa sabe que o Jason esteve na Ravina do 
Corvo. O D'Orsay. O Warren Barber. Sabe Deus quem mais. 
Ela disse que se o Jason est desaparecido, o Warren Barber 
est por trs disso. O Barber disse que ia pegar as coisas do 
Jason.
        Warren Barber?  Seph estreitou os olhos para Jack.
        O que ele tem a ver com tudo isso? No vejo o Barber 
desde Second Sister. E como  que ele sabe que o Jason 
esteve na Ravina do Corvo?
        O Jason foi visto. E o Barber e o D'Orsay so scios agora 
 disse Jack.
        Scios?  Seph perdeu o ar distrado.  Que maluquice  
essa?
        Espere  resmungou Ellen.  Tem mais.
        O Barber est com o Pacto  disse Jack.  A Leesha acha 
que ele pegou em Second Sister.
Seph olhou de Jack para Ellen.
        Se ele est trabalhando com o D'Orsay e est com o Pacto, 
por que o Pacto ainda no foi consagrado?
Ellen deu de ombros.
        A Leesha no sabe. Mas todos esto tentando recuperar o 
que o Jason levou da ravina.
Eles se entreolharam sem dizer nada.
        Por que acham que isso est acontecendo?  disse Jack 
afinal.
        Bem, o Jason disse que o Corao do Drago  uma arma 
que pode controlar ou destruir as ordens  lembrou Ellen. 
 Essa seria uma boa razo.
        Como eles sabem disso?  insistiu Jack.  O Jason disse 
que ele deixou o livro cair na ravina, mas...
        Ento  interrompeu Seph.  A Leesha est trabalhando 
para o Barber?
Ellen deu de ombros.
        Estava. Mas agora diz que o Barber vai acabar com ela se 
ela sair do santurio.
        A Leesha tem rondado a igreja  disse Seph.  Acham 
que ela suspeita que as coisas estejam l?
        Se suspeita, voc sabe que ela j andou por l  disse 
Ellen.  Espero que os seus feitios de proteo tenham 
funcionado.
Seph fitou-a por um momento, depois se levantou e 
atravessou o terrao, apanhando um clice de metal de uma 
bandeja sobre o muro do jardim. Levando-o aos lbios, 
bebeu at o fim e soltou-o. Fechou os olhos e se concentrou, 
o corpo rgido, os lbios se movendo silenciosamente.
Aps uma longa pausa, Seph abriu os olhos.
        Tem quinze magos dentro dos limites da fronteira, 
incluindo a Leesha. O Barber no est aqui. A cripta de Saint 
Catherine est segura.  Os olhos cintilaram em verde e 
dourado, as pupilas brilhando como pontinhos de luz.  A 
no ser por algumas coisas que Jason levou uma semana 
atrs, antes de ele partir para o Condado de Coalton. Isso me 
faz pensar que ele estava planejando algo.
Jack pestanejou.
         voc que est monitorando a barreira agora? Consegue 
saber isso tudo daqui?
Antes, sempre que Seph era o encarregado de monitorar a 
barreira mgica, ele mal conseguia se manter acordado.
        No estou s mantendo a barreira. Estou vigiando todo o 
santurio. Hastings me ensinou como fazer isso.
E ento, como se Jack houvesse feito a pergunta no 
formulada, Seph acrescentou:
        Descobri um jeito de lidar com isso.
Ellen pegou o clice e levou-o at o nariz, cheirando-o. 
Depois fuzilou Seph com os olhos.
        Isto  disse ela, balanando o copo   uma m idia.
        O que  isso?
Jack tomou o copo de Ellen e aproximou-o do nariz. Um 
calor formigante subiu-lhe pelo pescoo e explodiu no topo 
da cabea. Era como enfiar o dedo numa tomada eltrica. Ou 
beber conhaque.
        O que  isso?  repetiu ele, meio sem flego.
Seph manteve-se em silncio, por isso Ellen respondeu por 
ele.
        Aelf-aeling. Traduzido porcamente do anglo-saxnico, 
significa queimar a cabea. O nome usual  Chama de Mago, 
tambm conhecido como Queima-Mente. Onde voc 
conseguiu?
        A Mercedes tinha um pouco  disse Seph, arregaando as 
mangas como se estivesse com calor.
        Ela deu isso pra voc?  indagou Ellen, erguendo uma 
sobrancelha.
        No exatamente. Eu costumava ajudar com os extratos. Eu 
sei onde ela guarda as coisas.
        Voc no vai continuar tomando isso.
Seph remexeu-se, irritado, as mos abrindo e fechando ao 
lado do corpo.
        No uso o tempo todo. S quando estou encarregado do 
controle. Isso permite que eu observe uma centena de coisas 
ao mesmo tempo. Posso ver uma folha cair no parque, ficar 
de olho na Leesha Middleton e rastrear um assassino me 
seguindo. Eu estaria morto agora, se no fosse por isso. Alm 
disso, vou saber se algum mexer nas coisas na igreja.
        Qual  o problema de ele tomar isso?  perguntou Jack a 
Ellen.
        O nome  bem literal  replicou Ellen.  Queima-
Mente. Os magos ficam viciados nele a ponto de no 
conseguirem mais funcionar sem ele. Se usar por tempo 
demais, enlouquece.
        Como sabe tanto a respeito disso?  perguntou Jack.
        O Paige e o Wylie gostavam de drogas para melhorar
o desempenho. Eles costumavam me drogar um bocado 
enquanto eu estava em treinamento.
Simon Paige era o Mestre de Guerreiros da Rosa Vermelha e 
ex-treinador de Ellen.
         s at a guerra acabar  disse Seph, apoiando-se no 
muro.
        Quando vai ser isso, exatamente?  indagou Ellen.  Ela 
j dura sculos.
        Hastings sabe sobre isso? Ou a Linda?  perguntou Jack.
        No. E  melhor que no saibam de nada disso por vocs. 
Eles esto contando comigo para cuidar disso, e  o que eu 
vou fazer. Custe o que custar.
Seph no ergueu a voz, mas era claro, pela posio dos 
ombros dele, que aquilo no estava em negociao.
Em geral o poder de um mago, quando perceptvel, era uma 
coisa sutil. Seph, no entanto, estava extremamente quente. 
O ar em torno dele tremeluzia, e os braos deixavam rastros 
de chamas, como asas iridescentes.
Ellen balanou a cabea.
        A droga vai arruinar o seu corpo, sabia disso? Esse  um 
dos motivos pelos quais os Weirlinds morreram.
        Olha, eu no sou bobo. No vou usar a no ser que seja 
absolutamente necessrio  disse Seph.   s que... eu 
no tenho sido inteiramente... eu mesmo... desde aquele 
lance da pintura.
        Pintura? Do que voc est falando?  perguntou Jack.
Seph pareceu desejar nunca ter aberto a boca.
        Eu trombei com uma maldio. Numa pintura. S isso.
Como se ele achasse que aquilo fosse conter as perguntas.
        Que pintura? Onde?  perguntou Jack.
        Que tipo de maldio?  Ellen quis saber.
Seph suspirou.
        Achei que o Nick ia contar para vocs. Foi uma das 
pinturas da Madison. Ela quase me derrubou. Me deixou 
bem doente. Mas estou melhorando. S preciso... de um 
pouco de ajuda no momento.
        Como  que uma maldio foi parar numa das pinturas da 
Madison?  Ellen se sentou no balano, impulsionando-se 
com os ps.  Nunca ouvi falar disso.
        Como  que eu vou saber?  disse Seph.
        Como  que uma maldio pode funcionar aqui no 
santurio?  perguntou Jack.
Seph deu de ombros.
        Nick acha que pode ser um lance de extrator.
Ellen plantou ambos os ps no cho, parando o balano de 
sbito.
        Espere um pouco. Ele acha que a Madison fez isso?
        Ele s est levantando possibilidades. A gente no sabe.
        A Madison no machucaria voc  disse Ellen com 
convico.
"Espero que ela tenha razo", pensou Jack. Em poltica de 
magos,  sempre preciso ficar atento.
Seph se levantou e comeou a andar de um lado para o 
outro.
        Eu ainda no entendo. A Madison disse que o Jason nunca 
apareceu por l. Algo deve ter acontecido com ele no 
caminho. Mas ns somos os nicos que sabiam para onde ele 
ia.
        Bem  disse Jack com relutncia.  Ele estava no carro 
da Linda.  possvel que ele tenha simplesmente... ido 
embora?
Seph se virou.
        O qu?
        No  segredo nenhum que ele queria voltar pra 
Inglaterra, voc sabe, e...
        O Jason no faria isso  disse Seph, afastando aquela 
possibilidade.
"Ceeerto", pensou Jack. "Se Madison tivesse amaldioado 
Seph, era possvel que ela tivesse algo a ver com o 
desaparecimento de Jason?"
Jack era esperto demais para sugerir aquela teoria em voz 
alta.
        E quanto  Maddie?  indagou Ellen.  Ela vai voltar?
Seph balanou a cabea.
        Ela disse que no pode. No agora, pelo menos.
Jack achou que era melhor mudar de assunto.
        Ento o que voc acha que a gente deve fazer? Quanto aos 
assassinos?
        Todo mundo parece saber sobre o Corao do Drago  
disse Seph.  Posso vigiar as atividades mgicas e fazer 
alguma coisa a respeito, mas qualquer um pode entrar na 
minha casa e tentar me matar. Ou entrar na Igreja de Saint 
Catherine e sair com o Corao do Drago. Sempre existe a 
chance de eles se safarem.
        Seria uma faanha e tanto  disse Jack.  Nenhum de 
ns consegue chegar perto da pedra sem ser jogado
para longe. Alm disso, a cripta no est totalmente 
protegida?
        Muitas coisas que eu pensei que no podiam acontecer 
esto acontecendo  disse Seph.  Como a maldio.
        No que ele tenha nos feito algum bem at agora  
comentou Jack.  O Corao do Drago, quero dizer.
        E o santurio est aberto pra qualquer um, tecnicamente 
falando  disse Ellen.
        Isso vai ter de mudar.
Ambos se voltaram para Seph.
        Temos que mudar o jeito como lidamos com a segurana 
do santurio.
        Como assim?  perguntou Jack.
Seph soltou um longo suspiro.
        Os magos esto se juntando como abutres. A Rosa Branca, 
a Rosa Vermelha, os no afiliados. O Corao do Drago 
deve estar atraindo todos para c.  como se ele tivesse sido 
despertado por algo... e agora ele est mandando um sinal. 
Os magos entram e saem constantemente da cidade, como 
se estivessem procurando por algo. Estou usando magia 
mental para que eles fiquem longe da igreja. Como quando a 
Leesha estava xeretando l hoje. Mas  delicado. Se eu 
exagerar na dose, vou atrair a ateno deles. Se eu perder a 
concentrao, vo chegar  igreja num instante. Enquanto 
isso, preciso cuidar de mim mesmo. Ningum quer fechar a 
fronteira, mas no acho que a gente tenha escolha.  Ele 
passou a lngua pelos lbios rachados.  Eu... eu no vou 
conseguir fazer tudo isso por muito mais tempo, e tem 
outras coisas que precisam de ateno. Enquanto havia a 
esperana de que ningum soubesse sobre o saque da Ravina 
do Corvo, fortalecer a barreira s teria levantado suspeitas. 
Acho que j passamos desse ponto.
        Mas como a gente pode fazer isso?  perguntou Jack.  
 uma cidade. No uma fortaleza. Quero dizer, as pessoas 
vo a Cleveland para trabalhar e tudo mais.
        A gente vai continuar permitindo que os Anaweirs 
entrem e saiam.  arriscado, mas no d para evitar. A gente 
constri uma muralha Weir que mantenha os dotados do 
lado de fora. Vamos envolver os feiticeiros nisso. A 
Mercedes pode ficar no comando, ela  boa com materiais. 
A gente coloca um porto.  Ele ergueu os olhos para Jack e 
Ellen.  Os porteiros provavelmente vo ser guerreiros, 
vivos e mortos.
        A Mercedes no est muito ocupada com os artefatos na 
igreja?  perguntou Ellen.
        Ns catalogamos tudo que podamos classificar. Ainda 
sobraram alguns mistrios, mas a gente chegou num beco 
sem sada.
Jack encarou Seph.
        Ainda no vejo como isso vai funcionar.
        Sou o responsvel pela segurana dentro do santurio  
disse Seph secamente.  E vou fazer o que tiver de fazer.
Jack falou em meio ao silncio mortal.
        Voc  o responsvel pela segurana? Quem disse?
        Hastings. Ele passou a responsabilidade para mim, e vou 
dar tudo de mim pra cuidar disso.
        Por que voc?  Jack ergueu as mos, numa rendio 
antecipada.  No que eu esteja questionando a escolha 
dele, nem nada do gnero.
        Ele vem trabalhando comigo durante todo o inverno  
disse Seph.  Pelo menos quando ele est aqui. Ele e o 
Nick. Eles me ensinaram a monitorar atividades mgicas 
dentro do santurio. E agora que a Linda se foi...
        Sem querer ofender, mas por que no o Nick?  indagou 
Jack.
        Ele e o Hastings conversaram a respeito e decidiram que 
deveria ser eu. O Nick tem outras coisas com que se 
preocupar, acho. Ele  o presidente em exerccio da 
Comisso do Santurio desde que a minha me partiu, e 
ainda est trabalhando nas coisas na igreja.  Seph olhou 
rpido para Jack e depois para as prprias mos.  Eu... eu, 
na verdade, no quero isso  sussurrou ele.  Eu... sinto 
como se fosse um trabalho impossvel, mas se eu fracassar... 
 estremeceu.
Jack se remexeu na cadeira, lembrando-se de como tia Linda 
havia lhe contado sobre seu destino como guerreiro e 
deixado que ele tomasse suas prprias decises.
        O que diz o Nick?
        A gente conversou sobre a muralha, se  isso o que voc 
quer saber, e ele concorda com a idia. Especialmente depois 
da noite passada.  Ele hesitou.  Sabe, o Nick no parece 
muito bem. Fico me perguntando se ele est sentindo o peso 
da idade, finalmente. Ou se a quebra da bengala teve algum 
tipo de efeito nele.
        O Nick est bem  Jack se apressou em dizer.  Ele s 
anda trabalhando demais ultimamente.
        Vai ficar bem mais fcil quando a gente tiver erguido a 
muralha. No vou ter de fazer muitas sondagens. E a gente 
vai poder chutar os invasores para fora e impedir que eles 
voltem.  Seph flexionou as mos.  Eu s queria que a 
gente tivesse mais magos para ajudar. Seria muito bom se o 
Jason voltasse. Se...
Seph se calou subitamente, como se ele no quisesse fazer 
com que as preocupaes deles se realizassem ao diz-las em 
voz alta.
"No  de admirar que o Seph esteja to estressado", pensou 
Jack.
        Eu sei que a Madison tem escrito a voc e tudo mais. Mas 
talvez a gente deva mandar algum mais para o Condado de 
Coalton. Sabe como , pra ver o que est acontecendo  
disse ele.  S que isso at parece um daqueles filmes de 
horror, em que eles ficam mandando pessoas para ver o que 
aconteceu com o cara que sumiu, e elas continuam 
desaparecendo.
        A gente no pode segurar o lance da muralha at o 
Hastings voltar?  sugeriu Ellen.  At l a gente vai estar 
livre da escola.
Jack se perguntou por que eles estavam falando de escola. 
quela altura, a escola estava l embaixo na lista de 
prioridades.
        No podemos esperar mais  disse Seph.   como eu 
falei. Tem quinze magos em Trinity no momento. Qualquer 
um deles pode ser um espio ou um assassino. E apenas trs 
esto do nosso lado.

Captulo Dezenove
Fronteiras

As portas e janelas da Capela McAlister na Faculdade de 
Trinity cintilavam com feitios de proteo projetados para 
excluir os no convidados. Os retratos de James e Mallory 
McAlister olhavam sombriamente das paredes, como se 
desaprovassem os acontecimentos.
Havia provavelmente 300 pessoas espalhadas pelos bancos 
 "decepcionantemente poucos", pensou Seph. E a maioria 
era Weirs Anamagos: feiticeiros, adivinhos, encantadores e 
guerreiros. O comit eleito se sentava  frente  a maga ris 
Bolingame, o adivinho Blaise Highbourne e a feiticeira 
Mercedes Foster,  claro. Alm da encantadora Akana 
Moon, que estivera com eles em Second Sister. Aps a 
experincia que tivera l, Seph estava impressionado com a 
disposio dela em servir de novo como representante.
Nick havia insistido em trazer Leesha Middleton, que estava 
sentada isolada numa das laterais. Um pequeno grupo de 
magos desconhecidos se sentou junto nos fundos.
Conversas em uma dzia de lnguas reverberavam pelo 
aposento. Guerreiros fantasmas brilhantes em roupas de 
poca perambulavam pelas laterais e observavam das galerias.
"Bem, temos os votos desse grupo", pensou Seph. O que 
precisamos  que os feiticeiros embarquem neste projeto. 
Ele olhou de relance para as notas no pedao de papel que 
levava na mo.
        Vamos comear  murmurou Nick, tocando o ombro de 
Seph. O velho mago arrastou os ps at o palanque e segurou 
a bancada com ambas as mos.  Amigos das ordens!
As conversas morreram.
        Obrigado por virem  continuou Nick.  A maioria de 
vocs me conhece. Meu nome  Nicodemus Snowbeard, 
presidente em exerccio da Comisso Diretora do Santurio, 
na ausncia de Linda Downey. Temos nos reunido na 
comisso para discutir questes como a criao de abrigos de 
emergncia e programas de linguagem, intermediar disputas 
e assim por diante. Mas esta noite estamos aqui com um 
propsito diferente: discutir uma mudana nos 
procedimentos de segurana do santurio.
Ele fez uma pausa, sondando o aposento  espera de 
perguntas. Ento prosseguiu.
        Recentemente, temos visto um influxo pouco usual de 
magos para Trinity. Podem ser turistas inocentes, podem ser 
espies, ou podem ter a inteno de sair daqui com o nosso 
arsenal de armas mgicas. Ns no sabemos. Mas  preciso 
uma vigilncia constante sobre eles.
        Que armas mgicas?  indagou um mago de aparncia 
nervosa nos fundos.  Onde elas esto? Por que no contam 
pra gente?
        Magos? Turistas inocentes? Bah!  disse um jovem 
adivinho francs na fileira da frente. Um rumor de apro-
vao se seguiu.  A gente deveria expulsar todos eles antes 
que nos esfaqueiem pelas costas.
Ellen se levantou.
        Tenho mais motivos pra odiar os magos do que a maioria 
das pessoas, Mas a gente precisa de magos para lutar contra 
magos, e eles tm um plano. Acho que devamos ouvir  
disse ela, fuzilando a multido com os olhos e s se sentando 
quando os resmungos cessaram.
        Muito bem  disse Nick, aproveitando a calmaria.  
Seph McCauley concordou em coordenar as questes de 
segurana do santurio. Ele vai responder s perguntas de 
vocs.
Seph subiu os degraus do palanque e sentou-se numa cadeira 
de armar. As conversas se intensificaram por todos os lados, 
castigando-lhe os ouvidos hipersensveis devido  Chama de 
Mago.
        Ele  s um menino  disse um dos magos nos fundos, 
olhando para Seph por sobre seu longo nariz.  Por que ele 
est encarregado da segurana? Estamos to desesperados 
assim?
         o filho do Hastings  murmurou o mago nervoso.  
Deve ser bem poderoso.
        Poder  uma coisa.  O primeiro mago bufou.  
Experincia e bom-senso  outra.
Um terceiro mago, uma mulher jovem com feies asiticas, 
pediu silncio aos dois.
        Vocs no ouviram falar do que ele fez em Second Sister? 
 sussurrou ela.  Duelou com doze magos de uma vez e 
matou todos.
        Como eu falei, Felicia, nenhum bom-senso  disse o 
primeiro mago.
Seph ouviu um feiticeiro dizer para outro:
        Ele  mago, e vai proteger os Anaweirs?
"Fantstico", pensou Seph, com ironia. "Todos j tm
uma opinio." Ele olhou para a multido, fazendo contato 
visual com vrias pessoas que conhecia. Mercedes piscou 
para ele, e ele relaxou um pouco.
        Ento  disse Seph , como a maioria de vocs sabe, 
alguns de ns tm... montado guarda desde os 
acontecimentos de Second Sister, para garantir que as regras 
escritas na Ravina do Corvo sejam mantidas aqui no 
santurio. Mas tem sido mais difcil ultimamente, por causa 
de todas as intruses.
        No so intruses  disse o mago de nariz comprido.  
O santurio est aberto para todos.
        Temos que mudar isso  disse Seph de sua cadeira no 
palanque.  Ultimamente os magos tm vindo para c aos 
montes. Se deixarmos o santurio aberto, h uma 
probabilidade de o equilbrio de poder pender em favor das 
Rosas. Com as coisas instveis como esto, podemos ser 
subjugados antes de conseguirmos armar uma defesa.
        O que voc tem em mente?  indagou a maga asitica.
Seph se aprumou e enfrentou o olhar da maga.
        Vamos construir uma muralha Weir.
Houve um tumulto imediato. Ele esperara por isso. As 
muralhas Weirs eram polmicas. Haviam sido usadas pela 
primeira vez durante a Guerra das Rosas, para aprisionar 
magos. Em geral eram obra de feiticeiros, mas alguns magos, 
como Barber, tinham a habilidade de cri-las tambm. 
Muitos magos as consideravam jogo sujo.
        Que tipo de muralha Weir?  perguntou finalmente um 
dos feiticeiros, gritando acima do clamor.  E quem vai 
projetar e construir?
        Boa pergunta  disse Seph, aliviado por ser uma pergunta 
que ele podia passar a outra pessoa.  Mercedes?
Mercedes Foster subiu ao palanque e encarou os Weirs com 
uma expresso zangada.
        Deem uma chance ao rapaz!  berrou ela.  Ele no 
pediu esse trabalho. Ele merece o nosso agradecimento, no 
a nossa crtica. Est tentando salvar a nossa pele.
O barulho diminuiu um pouco.
        Cad o Hastings?  indagou Nariz Comprido.  E a 
Linda Downey? Parece que foram eles que criaram essa 
confuso. Deveriam estar aqui pra lidar com ela.
        Com saudades dos bons e velhos tempos, hein, Randolph? 
 replicou Mercedes, em tom cido.  Quando os magos 
governavam as ordens?
        Com certeza era... bem mais eficiente  retrucou 
Randolph.
        Se no gosta daqui, saia.  Mercedes deu-lhe as costas, 
balanando um calhamao de papis no ar.  Eu concordei 
em coordenar o projeto de construo, mas ficaria feliz em 
ouvir sugestes de qualquer um que tenha experincia nesse 
tipo de empreendimento. Fiz um mapa e alguns esboos 
preliminares.  uma muralha tradicional, que bloqueia 
seletivamente os Weirs. Ningum vai ficar preso nela, se  
com isso que esto preocupados. Vocs podem entrar e sair 
pelo porto. Os Anaweirs podem passar livremente.
        Quer dizer que os Anaweirs podem passar, mas ns no? 
 perguntou Randolph, procurando por aliados em torno, 
em vo.  Quem vai vigiar o porto?
Jack se levantou.
        A corporao dos Guerreiros concordou em guardar o 
porto. A no ser que voc tenha uma idia melhor.
Randolph se aquietou, ainda furioso. No tinha nenhuma.
        S pra voc saber, Jack  disse ris.  Alguns dos 
camels na praa tm reclamado de guerreiros fantasmas que 
acampam no gramado. Isto , na verdade os Anaweirs 
acham que  um tipo de grupo de encenao histrica. Os 
guerreiros tm ficado nos bares do campus, jogando cartas, 
flertando com a clientela e se metendo em brigas.
        Bom, eles so soldados  disse Jack, dando de ombros.  
Vou ver o que posso fazer. Acho que posso fazer com que 
eles troquem o gramado por um dos parques mais afastados.
        A construo da muralha vai exigir um trabalho mgico 
considervel  disse Mercedes, voltando com firmeza para 
o assunto em questo.  A Comisso j aprovou o projeto. 
Mas precisamos de voluntrios para ajudar. Feiticeiros e 
magos, principalmente.
        Quando esto planejando comear?  perguntou um dos 
feiticeiros.
        Amanh de manh  respondeu Mercedes.  Tenho 
uma lista de inscries aqui. Qualquer um disposto a ajudar 
deve me procurar.  Ela olhou rapidamente para Nick, e ele 
assentiu com a cabea.  Isso  tudo. A reunio est 
encerrada.
Magos e feiticeiros fizeram fila para se oferecer como 
voluntrios para o trabalho na muralha. Seph ficou surpreso 
de ver Leesha entre eles. Quando acabou, ela se dirigiu at 
onde Jack, Seph e Ellen esperavam por Nick. Ela parecia 
quase contente.
        Isto  bem legal  disse ela.  Gostei da idia da 
muralha. A gente no quer qualquer um entrando aqui.
        Se est falando do Barber, voc prometeu nos ajudar a 
encontrar o desgraado  lembrou Jack.  Seno voc 
pode acabar do lado de fora.
Leesha pareceu ficar menos alegre.
        Eu sei.  que ainda estou pensando em como conseguir 
que ele venha at o santurio.
        Ele no vai vir pra c  disse Seph.  Especialmente 
com a muralha erguida. O que quer que se pense dele, bobo 
ele no . Vamos ter de ir atrs dele l fora.
        Certo  disse Leesha, remexendo no cabelo.  Hum... 
que tal isso? Eu posso marcar um encontro com ele, e vocs 
podem esperar por ele com uma dzia de magos.
        A gente no tem uma dzia de magos  disse Seph.  Se 
eu for atrs do Barber, o Nick teria de ficar aqui.
        Alm disso, acho que a gente quer voc l junto conosco 
 disse Ellen.  Sabe como . S no caso de haver uma 
traio ou coisa assim.
Leesha juntou as mos, parecendo um pouco em pnico.
        Mas, eu realmente... eu realmente preferia no deixar o 
santurio  disse ela, com a voz fraca.
        Se tentar voltar atrs, vai sair do santurio num instante  
disse Jack.  Voc disse que o Barber sabe algo sobre o 
Jason, e a gente quer saber o que ele sabe.
        Certo  retrucou Leesha.  Eu disse que ia fazer. Vou 
pensar em alguma coisa.

Captulo Vinte
A Mercadora

Da janela do primeiro andar do depsito, Barber espiou a rua 
vazia. Olhou para o relgio pela quarta vez. Ela j devia ter 
aprendido a lio.
"Bem, ela vai pagar, de uma forma ou de outra, pelo atraso."
Apoiando-se na janela, ele acendeu outro cigarro, tomando 
cuidado com onde lanava as cinzas. O lugar era um 
verdadeiro barril de plvora. Muitas das velhas construes 
no Warehouse District em Cleveland haviam sido 
transformadas em escritrios, restaurantes e bares. No 
aquela. Era decrpita, ainda cheia de lixo, equipamento 
industrial abandonado e barris de s Deus sabe o qu. Ele 
podia ouvir os ratos correndo por todos os lados quando se 
deitava  noite, e fazia questo de usar feitios de proteo 
para mant-los  distncia.
No havia nenhum santurio para Warren Barber. Sentia-se 
nervoso, irrequieto. O cheiro da traio estava por toda 
parte, ferindo-lhe as narinas e subindo-lhe pela pele. 
Assassinos tinham ido atrs dele, duas vezes. Escapara em 
ambas, mas a sorte dele no duraria para sempre. Haviam 
sido enviados por Claude D'Orsay ou pelas ordens servis em 
Trinity. Qualquer que fosse a opo verdadeira, Leesha o 
havia denunciado.
Por isso Barber deixara o apartamento dele e se mudara para 
aquele lugar trs noites atrs. Aps se encontrar com Leesha, 
se mudaria de novo. Se bem que, se Leesha viesse como 
prometido, talvez ele no precisasse faz-lo.
No dia anterior, Leesha havia telefonado para dizer que 
finalmente descobrira onde estava escondido o Corao do 
Drago, junto com o resto das coisas roubadas da ravina. Ela 
quisera encontr-lo no santurio, mas ele no era tolo o 
bastante para cair nessa. Ela tentara fazer um acordo por 
telefone, mas Barber exigira que ela o encontrasse ali para 
discutir os termos. Daquela posio privilegiada, conseguiria 
ver se Leesha trouxesse algum com ela.
Mercadores. Ele bufou. Sempre acham que esto em posio 
de negociar.
Se ela estava dizendo a verdade, as coisas poderiam dar 
certo, afinal. Havia sido por mero azar que Jason escapara 
antes de Barber conseguir interrog-lo. Barber estivera 
preocupado com a possibilidade de nunca conseguir a 
informao de que precisava. Mas agora as coisas estavam de 
novo no caminho certo. Assim que tivesse o Corao do 
Drago, no precisaria mais de D'Orsay. Com o Pacto e o 
Corao do Drago, os magos viriam correndo para o lado 
dele. Ele ditaria as regras. No teria mais de espreitar becos 
escuros, ficar olhando para trs o tempo todo esperando a 
morte atacar.
Se Leesha aparecesse, traria o tesouro consigo. Caso 
contrrio, no se atreveria a deixar o santurio. Ela queria 
que ele lhe removesse a coleira. Como se isso fosse acon-
tecer. Caado como estava sendo, Barber precisava de 
algum para seguir suas ordens. No estava pronto para abrir 
mo dela.
Algo se moveu na rua l embaixo. Barber se concentrou, 
sentindo a proximidade da coleira. Ele se inclinou para fora 
da janela, tomando cuidado com o vidro quebrado de ambos 
os lados.
Era Leesha. Ela passou sob a lmpada de mercrio na lateral 
do prdio, a sombra se estendendo  sua frente, uma mochila 
pendurada no ombro. Ele olhou para os dois lados da rua. Ela 
parecia estar sozinha.
Era engraado quando se pensava a respeito: uma menina 
adolescente andando sozinha naquela vizinhana s duas da 
manh. Qualquer assaltante que achasse estar vendo um alvo 
fcil se surpreenderia.
Ela chegou ao depsito e virou para o lado, passando sob 
Barber para chegar  entrada. Ele saiu pela janela e desceu 
pela escada de emergncia at um beco. Mais uma vez, 
olhou para os dois lados da rua, alerta para uma traio. No 
havia ningum.
Quando ele entrou pela porta lateral, Leesha estava dando 
voltas, espalhando chamas em todas as direes. Ele se jogou 
para trs, ergueu escudos, e ento percebeu que no era o 
alvo. Leesha, de sangue azul, estava pulverizando ratos.
 Ei! Cuidado com isso. Vai pr fogo no lugar.
Ela se voltou na direo dele.
        Como se isso pudesse ser alguma perda. No acredito que 
me pediu pra encontrar voc aqui nesse lixo.
Ele relaxou um pouco. Era a Leesha mesmo.
        Gozado  disse ele.  As pessoas esto tentando me 
matar. Este lugar parece mais seguro do que o meu 
apartamento.
        Mesmo? Que droga. Bem, no quero ficar aqui mais do 
que o necessrio, no caso de algum tentar de novo.  Ela 
tirou a mochila, colocando-a sobre um barril como se fosse 
feita de vidro.  Certo. Eu trouxe tudo: o Corao do 
Drago e algumas outras coisas. S... tenha cuidado.  bem 
poderoso e difcil de manejar. Eles estavam tendo 
dificuldades em controlar a coisa, pelo que eu soube.
        Onde encontrou?
        Eles tinham escondido embaixo da varanda da casa do 
McCauley.
        Como descobriu que estava l?
        Subornei algum.
        Bom trabalho, Leesha. Estou orgulhoso de voc.
Ela deslocou o peso de um p para o outro.
        Eu estava me perguntando. O que aconteceu com o J... 
com o Haley? Voc... voc se encontrou com ele?
"timo", pensou Barber, riscando um problema de sua lista. 
Haley era passado. Nunca ligou. Nunca escreveu. Nunca 
voltou para acabar com Leesha Middleton por delat-lo. Ele 
devia estar morto.
        , eu me encontrei com ele, na verdade  disse Barber, 
sorrindo.  Por que pergunta?
Leesha mordeu o lbio.
        S... curiosidade, s isso  sussurrou ela.
"No me diga que est brotando uma conscincia em Leesha 
Middleton", pensou ele. "Isso seria inconveniente."
Mas ela se recomps e olhou para o relgio.
        Olha  disse ela com frieza.  Voc pediu o Corao do 
Drago e eu entreguei. Agora tire essa coisa de mim e eu me 
mando daqui.
Ela passou o indicador pela linha do pescoo e ergueu o 
queixo, expondo o torque cintilante.
Barber pousou a mo na mochila.
        Voc espera que eu confie na sua palavra?
        Veja por si mesmo. O Corao do Drago est na bolsa de 
veludo, em cima do resto. Eu preferiria que voc no 
mexesse nele antes de eu sair. Vai saber o que vai acontecer 
quando voc o ativar.
        Nananinano.  Ele jogou a mochila na direo dela.  
Me mostre.
Chiando de irritao, Leesha abriu o zper da mochila e tirou 
a bolsa de veludo atada por uma corda. Ela desatou os ns.
Ento ela jogou a bolsa sobre ele.
Ele pulou para o lado e rolou pelo cho. Quando a bolsa caiu, 
explodiu numa chuva de p negro. Como p de carvo.
Gemynd bana. Assassino da Mente. Para derrub-lo num 
instante.
Leesha era mais gil do que ele julgara. Ela deu um salto 
mortal para trs, para fora do alcance da exploso de p, e 
correu em disparada na direo da porta. Ele poderia ter 
usado a coleira; poderia ter utilizado um feitio de 
imobilizao, mas algumas coisas eram melhores feitas 
diretamente. Ele correu atrs dela, trs longos passos, e 
agarrou-a, derrubando-a ao cho. A cabea dela bateu com 
fora no velho assoalho de madeira.
Ele ergueu um escudo a tempo de repelir um feitio de 
imobilizao e um jorro de chamas. Prendeu as mos dela 
para impedi-la de arranhar-lhe os olhos, depois lanou 
chamas atravs da coleira, como castigo. Ela gritou e se 
debateu, tentando soltar as mos.
 Sua mercadorazinha traidora e calculista  resmungou 
Barber.  O que esperava conseguir?  E ento veio a 
compreenso.  Pra quem est trabalhando agora? D'Orsay? 
Longbranch? McCauley?
Ele podia ter continuado com uma longa lista, mas naquele 
momento a porta da frente se estilhaou, cobrindo a ambos 
com lascas de madeira e pedaos de metal.
Duas figuras altas estavam postadas na abertura onde devia 
estar a porta. Uma tinha uma espada sinistra na mo. A outra 
no precisava de armas. Um guerreiro e um mago, lado a 
lado.
Era Jack Swift, parecendo um robusto heri de histrias de 
ao. Exceto pela camiseta do time de futebol de Trinity e os 
jeans.
E Seph McCauley. Leesha tinha razo quando dissera que ele 
era assustador. Mal dava para reconhecer o ingnuo de 
sangue azul que chegara ao Porto Seguro. Estava mais alto do 
que Barber se lembrava, magro, esguio e enrgico, como se 
houvesse crescido demais para o seu peso. Vestia uma blusa 
preta com capuz e jeans, e o rosto plido e os olhos verdes 
eram emoldurados por um emaranhado de cachos. Dava para 
ver o sangue de Hastings nele  destilado e concentrado. 
Leicester havia sido um idiota por no perceber isso no 
Porto Seguro.
Barber rolou e se ps de p. Estendeu a mo, agarrou Leesha 
pelo brao e puxou-a para a sua frente, pressionando os 
dedos contra a cartida da jovem, onde uma parcela nfima 
de poder poderia deter o fluxo de sangue.
        Eles me obrigaram!  disse Leesha, estremecendo ante a 
ferroada dos dedos dele.
        Claro que sim  resmungou ele.
Perguntando-se se eles se importariam, Barber soltou o 
clssico:
        Para trs ou a garota morre!
Swift sondou o aposento em busca de mais inimigos, depois 
se concentrou em Barber.
        Achei que a gente ia se encontrar de novo mais cedo ou 
mais tarde. Eu devia ter matado voc da ltima vez que o vi.
Certo. Devia. Mas Jack Swift havia sido nobre demais para 
cortar a garganta de um inimigo indefeso. E era por isso que 
Barber iria vencer.
McCauley estendeu a mo e murmurou um feitio; Leesha 
ficou inerte nos braos de Barber. Imobilizada.
Esperto. Barber ainda poderia decidir mat-la, mas teria de 
arrastar o corpo inanimado com ele se quisesse continuar 
usando-a como escudo e refm.
Ele tentou o contra-feitio, mas no deu em nada. A magia 
de McCauley era sinistramente poderosa. Barber estava 
cansado daquilo. Quantas vezes teria de enfrent-lo?
        Solte a Leesha, Barber, e vamos conversar  disse 
McCauley.  Ns queremos o Pacto, e queremos saber o 
que aconteceu com o Jason.
O Pacto. Jason Haley. No dava para confiar qualquer tipo de 
segredo a uma mercadora. Algum sempre podia fazer uma 
oferta melhor.
        No sei do que esto falando. A Leesha me chamou para 
um encontro aqui. Disse que tinha uma proposta. A ela me 
atacou.
        Sei...
Swift fintou com a espada, e Barber se virou, mantendo 
Leesha entre si e a lmina do guerreiro. Mas era algo 
bastante cansativo, e Barber no tinha ps muito rpidos.
        No seja idiota  disse Barber.  Ela  mercadora, 
lembra? Ela diria qualquer coisa se pensasse que poderia 
lucrar com isso.
        Que sorte que voc est aqui pra nos alertar a respeito  
disse McCauley.
McCauley lanou um feitio de imobilizao, e Barber se 
jogou para o lado para se desviar dele. Swift lanou bolas de 
fogo da ponta de sua espada, que passaram rente s orelhas 
de Barber. Leesha no era grande o bastante para lhe dar 
uma boa cobertura. Barber rebateu com um graffe que por 
pouco no atingiu McCauley, mas o menino prodgio soltou 
trs feitios em resposta, e Barber soube que aquela era uma 
batalha que no conseguiria vencer.
Sua nica vantagem era que eles provavelmente o queriam 
saudvel o bastante para ser interrogado.
Erguendo o corpo inerte de Leesha, Barber jogou-a sobre 
Swift e McCauley. Teceu uma rede de arame farpado, 
lanando-a em espiral sobre eles. A inerte Leesha, Swift e 
McCauley acabaram embolados juntos no cho, numa 
espcie de casulo gigante ensangentado, o arame cortando-
lhes a carne. Swift lutou para manobrar a enorme espada at 
uma posio em que pudesse cortar a rede sem decapitar 
ningum. Barber lanou cascatas de chamas sobre eles at 
que McCauley ergueu um escudo improvisado.
Barber no esperou para ver o resultado. Num rodopio, ele 
borrifou toda a volta com chamas. O aposento se incendiou 
com um som sibilante.
"Vejam s", pensou ele. "Este depsito  um barril de 
plvora."
Fogo mgico era famoso por ser difcil de apagar. Aquele 
lugar estava acabado, e trs dos maiores problemas dele se 
acabariam junto.
Se bem que, no caso de Leesha, no havia necessidade de 
confiar na sorte. Com pesar, ele afastou os pensamentos 
sobre a escrava Leesha e pronunciou um feitio que ativava 
o torque. Ser que ela morreria queimada ou seria 
estrangulada primeiro?
Ele correu em direo  porta dos fundos, parando no 
corredor pelo tempo necessrio para tecer uma teia sobre a 
porta. Mesmo que eles se libertassem da rede, a teia os 
retardaria por tempo suficiente para permitir que as chamas 
e a fumaa cumprissem sua misso.
Ao se virar para sair, ouviu um som atrs de si e desviou- -se 
instintivamente para o lado. Algo se chocou contra a cabea 
dele. Se Barber no tivesse se mexido antes de ser atingido, 
estaria acabado na certa.
Ele tropeou, quase caiu. Sangue correu-lhe pelos olhos.
Cambaleou para trs, cuspindo chamas em todas as direes. 
Seguiu-se um forte golpe em seu ombro. Ele berrou de dor, 
o brao esquerdo quase inutilizado.
Ele se virou, enxugando o sangue dos olhos para clarear a 
viso.
Uma garota, com uma senhora espada. Familiar, de certa 
forma. A garota, no a espada. Ento ele se lembrou: Ellen 
Stephenson, a guerreira que encontrara na primeira vez em 
que fora a Trinity em busca de Seph McCauley.
Se ela quisesse mat-lo, poderia ter-lhe cortado a cabea com 
aquela lmina. Ela o atingira com o lado cego, portanto 
estava tentando captur-lo vivo. Era bom saber disso.
Ele preparou um feitio, mas, antes que pudesse lan-lo, 
teve de se jogar para trs: a lmina cortou-o junto ao trax, 
rasgando-lhe a camisa e a camada exterior da pele. Droga, ela 
era boa. Ele nem notou o corte at ver o sangue correr.
A fumaa invadiu o corredor, fazendo com que os olhos dele 
ardessem. Respirou fundo, tossindo, lanando chamas em 
espirais, como um foguete fora de controle, para manter 
Stephenson  distncia. Ela repeliu facilmente com a espada 
esse ataque disperso e avanou na direo dele.
 Os seus amigos vo morrer queimados l dentro!  gritou 
Barber, arquejante, indicando com a cabea o depsito 
principal.  Escolha!
Ele se virou e seguiu em ziguezague pelo corredor. 
Atravessou a porta da sada e parou por tempo suficiente 
para criar uma barricada com outra teia.
Barber correu pelo beco, pegou um atalho por entre vrias 
fileiras de depsitos e desceu at a rea residencial junto ao 
rio. Tentou proteger o brao ferido; cerrou os dentes de dor 
ao roar nele. Passou por entre as enormes bases de 
concreto de uma ponte suspensa, depois diminuiu o ritmo 
para uma caminhada rpida, seguindo o rio, tentando se 
misturar aos transeuntes noturnos que rumavam para os 
bares. Aqueles que ainda estavam sbrios se desviavam dele. 
Examinando-lhe furtivamente o cabelo e a roupa empastados 
de sangue. O mximo que ele podia fazer era resistir ao 
impulso de jog-los no rio. Estava a vrios quarteires do 
depsito quando comeou a ouvir as sirenes.
Boa sorte, pensou ele.
Barber estava furioso. O brao doa como o diabo. 
Aparentemente, todos em Trinity sabiam que ele estava com 
o Pacto. Mais umas mil pessoas para entrar na caada.
Pior ainda: Leesha havia sido a sua mensageira. Mat-la 
talvez lhe trouxesse um pouco de satisfao, mas agora ele 
precisava de mais algum para lhe servir como 
intermedirio. Mas quem?
O nico pensamento que o animava era o de que deixara 
Jack Swift, Joseph McCauley e Leesha Middleton no prdio 
em chamas. Com alguma sorte, Stepherson morreria 
tambm.

No fim, no foi uma escolha difcil, apenas frustrante. Ellen 
desistiu de Barber e tateou pelo caminho por entre a fumaa. 
A porta para o outro aposento estava terrivelmente quente. 
Ela se posicionou num dos lados, estendeu a Abridora de 
Caminhos e abriu um corte na porta, liberando um jorro de 
calor e fumaa.
A entrada estava coberta por uma malha formada por um 
labirinto de fios translcidos. Obra de Barber. O interior do 
aposento estava um inferno. Toda a frente de Ellen recebeu 
um calor abrasante. Ela sentiu a pele se contrair no rosto e 
nas mos. "No", pensou ela. "Oh, no."
        Seph! Jack!
Uma fraca resposta veio de algum lugar alm da teia.
Ellen golpeou com a espada e cortou os fios. Precisou de 
quatro golpes fortes para criar uma abertura pela qual 
pudesse passar. Atirou-se para a frente, forando o caminho 
por uma parede de fumaa e chamas.
        Onde vocs esto?  berrou ela.
Estremeceu quando a resposta veio de baixo, quase aos ps 
dela. Por pouco no tropeou numa pilha de corpos 
ensangentados. A teia de arame farpado havia cumprido a 
sua misso. Jack, Seph e Leesha se cortaram em dezenas de 
lugares, e tossiam e engasgavam ao inalarem a fumaa. 
Leesha se debatia, lutando para se libertar, o que apenas 
aumentava o dano feito pela teia aos trs prisioneiros.
        Fique parada, Leesha, ou vou deixar voc queimando aqui 
 disse Ellen.
Leesha pestanejou para ela, surpresa. Depois, para espanto de 
Ellen, obedeceu.
Ellen tentou ignorar o calor e as chamas que se aproximavam 
deles rapidamente. Segurou o punho da Abridora de 
Caminhos com ambas as mos e correu a ponta pela teia de 
arame, rompendo delicadamente os fios sem puxar a rede. 
Concentrou-se em libertar Jack, que vibrava de impacincia.
Finalmente, Jack se soltou das ltimas gavinhas de arame e 
se ps de p. Manejando a Sombra Assassina, ajudou Ellen a 
libertar Seph e Leesha. Seph se endireitou e estendeu as 
mos ensangentadas, empurrando a parede de chamas que 
ameaava engolf-los. Estava ficando cada vez mais difcil 
respirar. Leesha, em especial, continuava tossindo, 
engasgando e pigarreando.
Quando Seph e Leesha estavam livres, Jack os ajudou a se 
erguerem. Leesha caiu de novo quando ele a soltou, por isso 
ele passou o brao por baixo dela e colocou-a por sobre o 
ombro.
"Essa garota faz qualquer coisa para ficar perto do Jack", 
pensou Ellen, irritada.
Com as mos dadas para no se perderem uns dos outros na 
fumaa escura, eles seguiram tateando at os fundos do 
aposento e atravessaram a porta, saindo para o ar fresco.
Seph virou-se para trs para olhar para o depsito em 
chamas. quela altura, o fogo havia atravessado o teto e 
lanava-se nos ares. Normalmente calmo numa crise, ele 
parecia nervoso e agitado.
        Vo embora  disse Seph, puxando o capuz por sobre a 
cabea.  Para o mais longe que puderem. Vou logo atrs de 
vocs.
        Seph! Espere!  gritou Ellen, tentando segur-lo, mas ele 
se desviou e desapareceu no prdio em chamas.
Balanando a cabea, Ellen inspirou o ar fresco, mas Leesha 
ainda engasgava. Jack carregou-a para o lado oposto do 
estacionamento e deitou-a no asfalto.
        Calma, est bem?  disse ele.  Relaxe. J samos.
Leesha resmungou algo como "Barber!" e "Tire isso de mim!" 
Ela rasgou o decote e exps uma coleira de ouro que lhe feria 
a carne. A pele ao redor estava manchada de roxo e 
vermelho, coberta de bolhas horrveis.
        Mas o qu...?  Jack tentou segurar a coleira com as 
mos, porm logo as recolheu, praguejando.  Est 
queimando!
        Barber fez isso?  perguntou Ellen.
Leesha assentiu com a cabea. Lgrimas rolavam-lhe pela 
face e todo o corpo dela sacudia com soluos. Ellen e Jack 
agarraram-lhe os braos e endireitaram-na, tentando achar 
um fecho, uma abertura, alguma coisa, mas no tiveram 
sorte. Era slida e sem emendas.
Ellen tirou a adaga do cinto e tentou deslizar a ponta por 
baixo da coleira, mas esta j estava apertada demais.
Jack tentou alguns dos contra-feitios de seu repertrio, 
porm estes no tiveram nenhum efeito aparente.
        Lembra quando o Leicester usou um torque no Leander 
Hastings?  murmurou Ellen.  A coleira s podia ser 
removida pelo mago que a colocou.
E esse era Warren Barber.
quela altura, o rosto de Leesha estava azul, e os esforos 
dela se tornavam mais fracos, menos organizados. "Ela vai 
morrer", pensou Ellen, sentindo-se totalmente impotente.
        Ei! O que pensam que esto fazendo aqui, garotada? - 
indagou um bombeiro corpulento, trajando o uniforme 
completo, o rosto franzido de desconfiana.  No  para 
ningum ficar aqui atrs.
Atrs dele, meia dzia de bombeiros surgiram vindos do 
beco, trazendo para o estacionamento mangueiras 
gigantescas e outros equipamentos.
Ellen enfiou a Abridora de Caminhos de volta no boldri, 
abafando as chamas que corriam pela lmina. A Sombra 
Assassina estava pendurada nas costas de Jack, mas o punho 
se sobressaa por cima do ombro. Seria difcil de explicar se o 
bombeiro notasse. Ele chegou mais perto de Jack. Ele sabia 
um pouco de magia. Talvez ele conseguisse...
        Vocs no podem ficar aqui  grunhiu o bombeiro.
        Com a brisa vinda da costa e todos esses depsitos velhos, 
a possibilidade de que o fogo se espalhe por todo o 
quarteiro  grande.  Ele apontou para o outro lado da rua. 
 Voltem pra trs da faixa de segurana.
Ento ele estreitou os olhos para eles, cheio de desconfiana.
        O que aconteceu com vocs? Esto todos arranhados e 
cobertos de fuligem. Vocs estavam no prdio?
        A gente viu a fumaa  disse Ellen.  E, ahn, viemos ver 
o fogo.
Ela era pssima em contar mentiras. Mas o bombeiro foi 
distrado por Leesha.
        O que h de errado com ela?
Jack se ajoelhou junto dela, rasgando vigorosamente pedaos 
da camisa dele. Ele envolveu as mos com o tecido e tentou 
de novo segurar a coleira. Leesha parecia no estar mais 
respirando.
- A nossa amiga se machucou  disse Ellen, no sabendo 
o que mais dizer.  Ela no est respirando.
Jack tirou a adaga do cinto e debruou-se sobre Leesha, os 
olhos franzidos, a boca cerrada em determinao. "Oh, 
Deus", pensou Ellen. Ele vai tentar fazer uma traqueostomia. 
Como na televiso. Dois anos atrs esse garoto no era capaz 
de pr uma tala numa perna quebrada no campo de batalha e 
agora est fazendo uma cirurgia.
        Ei!  disse o bombeiro quando viu a lmina.  O que 
voc est fazendo?
Seph se materializou em meio  fumaa como um espectro, 
sangue e suor abrindo listras pela fuligem no rosto.
        O que est acontecendo?
Jack ergueu os olhos arregalados.
        O Barber ps um torque na Leesha. Ela est sendo 
estrangulada.
"Foi estrangulada, na verdade", pensou Ellen. Tempo 
pretrito. Era estranho que ela tivesse tempo para pensar em 
tudo aquilo. Era como se tudo estivesse se movendo em 
cmera lenta. O bombeiro estava gritando algo ao fundo, 
talvez pedindo reforo policial.
Seph caiu de joelhos junto a Leesha, envolveu o torque com 
as mos como se no sentisse o calor, e fechou os olhos. Jack 
se colocou entre Seph e Leesha e o bombeiro, para impedir 
que este interferisse.
"No adianta, Seph", pensou Ellen. "S o mago que colocou 
isso pode remover."
Ondas de poder cercaram Seph. Ele inclinou a cabea para 
trs, concentrando-se, murmurando feitios. O suor rolava-
lhe pelo rosto, embora a noite ficasse cada vez mais fria. Ele 
engoliu uma vez, duas, a longa coluna da garganta se 
projetando. Ento o metal se dissolveu sob as mos dele, e 
Leesha estava livre.
Um segundo se passou. Leesha respirou com um rudo 
gutural.
        Mas que diabos?  disse o bombeiro, inclinando-se para 
olhar atrs de Jack.
Seph se manteve de joelhos, as mos pousadas nas coxas, 
tremendo como se houvesse pegado um resfriado. Ento 
olhou para o bombeiro.
        Ela est respirando de novo, mas talvez devesse receber 
oxignio.
Os bombeiros rodearam Leesha num instante, 
desempacotando equipamentos.
O lder do batalho deu a volta em Jack e agarrou a blusa de 
Seph, iando-o at que ficasse de p.
        Quero saber o que aconteceu com ela e o que voc acabou 
de fazer.
Seph ps a mo no ombro do bombeiro, e o comandante 
estremeceu.
        Nada aconteceu, comandante  disse Seph com 
suavidade, olhando-o nos olhos.  O colar derreteu com o 
calor e queimou o pescoo dela. S isso.
O comandante pestanejou e assentiu com a cabea, devagar.
        Certo. Bom. Queremos os nomes de vocs. Como 
testemunhas.
        No vai precisar disso  disse Seph, a mo ainda no brao 
do homem.  Vai ficar tudo bem.
        Est bem  disse o comandante.
        Comandante!  Outro bombeiro chegou correndo.  
Acho que a gente pode cancelar o terceiro caminho.  Ele 
hesitou.  Eu... no sei como, mas parece que o fogo 
apagou.
        O qu?
O outro homem deu de ombros.
        Ainda tem muita fumaa e alguns focos, mas o fogo 
simplesmente... se apagou.
O fogo estava contido dentro das paredes do prdio, por isso 
eles no conseguiam ver, mas o calor parecia estar 
diminuindo em vez de aumentando.
        Venha  disse o lder do batalho.  Vamos olhar mais 
de perto.  Ele se voltou para Ellen e os outros.  Vocs 
trs, saiam daqui. Vamos transportar a menina para a 
unidade de queimados do Hospital Metropolitano.
Mas Leesha j estava recusando o oxignio e lutava para se 
sentar.
        Eu estou tima  rosnou ela.  Por que esto fazendo 
essa tempestade num copo d'gua?  Ela fez vrios 
bombeiros carem sentados e se levantou com esforo.  
Me deixem em paz, est bem?
Ellen teve de admitir que os magos eram resistentes. E 
teimosos.
O paramdico tentou ponderar com a paciente que no 
colaborava:
        Moa, voc est com queimaduras de segundo e terceiro 
grau que precisam de tratamento.
        Elas vo sarar. S vou precisar um pouco de maquiagem 
por uns tempos.  Ela tambm recusou os analgsicos e 
sedativos.  Vou embora com os meus amigos, 
entenderam? Assino qualquer documento que quiserem.  
Ela ergueu os olhos para Ellen e os outros.  Vamos.
Apesar do tom desafiador, Ellen podia notar que Leesha 
estava abalada. Ela cambaleou ao lado deles at que Jack e 
Ellen ignoraram-lhe os protestos e cada um tomou-lhe um 
brao, apoiando-a. Leesha tocou o pescoo como que para se 
convencer de que o torque se fora, ento fitou Seph como se 
ele fosse alguma maravilha do mundo recm-descoberta.
        Por que no contou pra gente sobre o torque?  indagou 
Ellen, amparando Leesha quando esta tropeou mais ou 
menos pela dcima quarta vez.
A voz de Leesha soou baixa e spera, como se falar lhe fosse 
penoso.
        Eu sabia... que no havia nada que vocs pudessem fazer... 
para tirar o torque.  Ela respirou fundo, como se ainda 
estivesse sem flego.  Enquanto eu estivesse no santurio, 
ele no podia usar o torque contra mim. Mas eu sabia que, 
assim que vocs soubessem a respeito, eu seria um risco 
grande demais. Vocs me expulsariam.
        Como ele colocou o torque em voc, afinal?  perguntou 
Ellen.
Leesha revirou os olhos.
        Nem pergunte.
        O que voc pensou que ia acontecer esta noite?  
indagou Jack.  Por que concordou em se encontrar com 
ele fora do santurio? Ele quase a matou.
        Eu s estava torcendo para que ele fosse morto por algum 
 disse Leesha, roando as pontas dos dedos sobre o anel de 
carne coberta de bolhas onde o torque estivera.  Por mim 
ou por vocs, no importava. Eu no agentava mais.
        Bem, voc est sem o torque, mas ele ainda est  solta  
disse Jack.  Infelizmente, no sabemos mais do que 
sabamos antes sobre o que aconteceu com o Jason ou onde 
est o Pacto.
Leesha deu de ombros e fitou o cho, o lbio inferior 
tremendo. Ellen percebeu que estava com pena dela.
Seph falou pela primeira vez.
        Acho que voc no deve voltar pra casa da sua tia.
Ele no disse mais nada, mas todos sabiam o que ele
queria dizer. Barber estava  solta, e a muralha no fora 
construda ainda.
Leesha engoliu em seco, estremecendo.
        Mas, se no posso ficar na casa da tia Milli...
        Vamos perguntar pro Nick  disse Jack.  Ele vai 
encontrar um lugar. Alm disso,  bom que algum d uma 
olhada no seu pescoo, tambm.
Seph no falou mais. S caminhava com eles, a cabea baixa, 
as mos enfiadas nos bolsos da frente da blusa de moletom, 
perdido em pensamentos. Mas Ellen tinha suas prprias 
perguntas que precisavam de respostas.
        O que foi que voc fez?  perguntou ela a Seph quando 
passaram entre os carros de bombeiro no caminho de volta 
para o carro.
        Como assim?
        Com o fogo. Fogo mgico  impossvel de apagar.
Ele deu de ombros de leve, ainda olhando direto em frente.
        Como voc tirou o torque?  insistiu ela.
Ele continuou a no dizer nada. Recusava-se a olhar para ela.
        Seph.
Quando ele finalmente falou, tinha a voz baixa e rouca.
        Eu no queria que a vizinhana toda pegasse fogo por 
nossa causa, est bem? No queria que ningum mais... que 
ningum ficasse preso nas chamas.
A voz dele falhou, e ele enxugou os olhos com as costas da 
mo.
Ellen ps a mo no brao dele e quase teve de retir-la. Ele 
ainda estava bastante quente devido ao poder.
        Seph. Olhe pra mim.
Seph finalmente ergueu os olhos e enfrentou-a.
        O que ?  perguntou ele.
Como ela no dissesse nada, Seph acrescentou:
        Olha, houve um incndio... em Toronto. Uma amiga 
minha morreu.
Os olhos verdes estavam estranhamente brilhantes, as 
pupilas eram pontos minsculos, o rosto mortalmente 
plido. Ele desviou o olhar.
"Ele est usando o Queima-Mente de novo", pensou Ellen, 
"mesmo depois de ter prometido no usar, a no ser em 
circunstncias extraordinrias." Ela no podia culp-lo; ele 
apagara o fogo e salvara a vida de Leesha.
Mas parecia que aquelas circunstncias extraordinrias 
estavam se tornando cada vez mais freqentes.

Captulo Vinte e Um
A Vida Como Arte

Duas semanas se passaram, e Grace e J. R. no foram cavalgar 
na propriedade dos Ropers de novo. Madison encontrou 
Brice uma ou duas vezes na cidade, e ele fingiu no a ver. Ela 
tentou ver o lado bom daquilo: pelo menos ele no estava 
mais tentando cortej-la.
A princpio, Grace tinha esperanas de ser convidada de 
novo; depois ficou zangada, e aos poucos se transformou em 
desapontamento  o seu estado costumeiro. Madison levou 
Grace e J. R. para pescar no reservatrio. Ela os ajudou a 
assar biscoitos para ces para Hamlet e Oflia e jogou longas 
partidas de Banco Imobilirio, que levavam dois dias. Mas 
era difcil competir com cavalos rabes e quilmetros de 
trilhas. E Madison hesitava em lev-los  cidade com medo 
de se encontrar com Warren Barber. Ser que ele ainda 
andava pelas vizinhanas, procurando por Jason, ou havia 
voltado para o buraco do qual havia sado?
Jason era surpreendentemente paciente com Grace e J. R. 
Ele os ensinou a jogar vinte e um e pquer. Quando 
comeou a se sentir melhor, foi at o riacho Booker com 
eles para verem as salamandras e girinos. Encontrou um 
velho aqurio no poro, armou-o e ps a bomba para 
funcionar. Eles o povoaram com carpas, percas e outros 
peixes que Madison no conhecia e para os quais Jason 
inventou nomes, como "cascavel de queixo frouxo" e "papa-
terra dentuo".
John Robert achava tudo o que Jason dizia hilrio e esperto, 
e mesmo Grace encontrava pretextos para ir at o celeiro 
mostrar-lhe coisas e ver se ele queria algo para comer ou um 
livro para ler.
Jason tambm no se arriscava a ir  cidade, mas caminhava 
por toda a montanha com Maddie, carregando telas, 
molduras e apetrechos, e tirando fotografias com a cmera 
que ela tomara emprestada de Sara.
Madison sabia que era errado esconder a presena dele de 
Carlene, mas estava to habituada a fazer as coisas sem que a 
me soubesse que lhe era natural guardar segredos. No 
conseguia entender direito por que Jason ainda estava ali  
se esperava convenc-la a voltar para o norte com o tempo, 
ou se estava l como guarda-costas ou espio.
Ela esperara que Jason fosse ficar inquieto, preso na 
montanha sem ter o que fazer, mas ele na verdade parecia 
contente, mais relaxado do que jamais o vira. Era como se 
houvesse conseguido largar o fardo de dor que carregava 
consigo o tempo todo  por enquanto, pelo menos.
A montanha Booker estava exercendo seus efeitos, com 
certeza.
Jason era uma lembrana constante de tudo e todos que 
Madison havia deixado para trs em Trinity. Ela pensava em 
ir  cidade e ligar para Seph, s para ter notcias e ouvir a voz 
dele. Mas a ele perguntaria sobre Jason, e ela no achava 
que conseguiria mentir para ele. Alm disso, ela j 
ultrapassara a fina linha que separava o sofrimento do luto de 
longa durao, e temia que qualquer conversa entre eles 
reabrisse aquelas feridas. Por isso escrevia longas cartas, 
mandava e-mails e guardava o segredo de Jason.
Certa tarde, Madison estava voltando do celeiro quando 
encontrou Carlene sentada  mesa da cozinha, fumando um 
cigarro e batendo as cinzas numa lata vazia de Pepsi. A me 
trajava o uniforme de garonete, um vestido com botes na 
frente e CARLENE bordado no bolso. Parecia estilo retr, 
mas na verdade no era.
Madison no havia dito uma palavra sobre Brice Roper ou 
sobre o galpo. De que adiantaria? Discutir sobre aquele 
assunto no transformaria nenhuma das duas numa pessoa 
diferente, em pessoas que concordassem em alguma coisa. 
Madison seria a dona da montanha Booker em trs meses. 
Outra pessoa teria de dar o prximo passo.
Brice havia contado a Carlene alguma coisa sobre o que 
acontecera na propriedade dos Ropers; Madison tinha 
certeza disso. Carlene lanava-lhe olhares com o canto do 
olho como se esperasse algum tipo de confronto. No que 
elas se vissem muito, considerando o trabalho e os horrios 
de sono de Carlene e o hbito de Madison de passar as tardes 
fechada no celeiro. Isso limitava os encontros entre elas ao 
mnimo.
Madison abriu a geladeira e examinou as escassas 
possibilidades, perguntando-se o que fazer para o jantar.
Ento Carlene perguntou:
        Quem  aquele rapaz que voc est mantendo no celeiro?
Madison tirou a cabea da geladeira e se virou, batendo o 
cotovelo.
        O qu?
        Ele  seu namorado?
        Ah... bem, no  gaguejou Madison.   s um amigo 
que precisava de um lugar pra ficar.
        Bem, diga ao seu amigo que ele pode ficar na casa, se 
quiser. Tem espao suficiente. No  educado deixar o rapaz 
l fora.  Carlene apontou para a outra cadeira com o 
cigarro.  Sente-se um minuto, querida.
Madison fechou a geladeira e sentou-se  mesa.
        Est bem. Eu digo a ele, mas acho que ele vai embora 
logo.  Ela hesitou.  Por favor, mame, no conte a 
ningum que ele est aqui.
Naturalmente, Carlene no assumiu nenhum compromisso.
        Voc no tem nenhuma quedinha por ele?
Madison rasgou o papel-toalha que servia de guardanapo em 
tiras regulares.
        No, no tenho. Por que pergunta?
        Estou tentando entender por que voc no gosta do Brice.
        Mame, tenho uma centena de motivos pra no gostar do 
Brice, a comear pelo fato de ele ser egosta, arrogante... um 
canalha.
        Mas ele  bonito. E rico.
Carlene descartou egosta e arrogante como se as outras 
magnficas qualidades fossem suficientes para anular as 
primeiras.
        Quem sabe voc deva se casar com ele, ento.
Carlene pensou a respeito, depois balanou a cabea.
        Ele gosta de voc.
        Ele gosta da montanha Booker. Se voc fosse a 
proprietria, ele gostaria de voc.
"Cuidado, Madison", pensou ela. "Tenha calma."
        Se eu fosse a proprietria, com certeza pensaria em vender 
para ele.
        Onde voc moraria, ento?
Carlene olhou para a cozinha ao redor, com o piso de linleo 
gasto e o papel de parede florido desbotado, tudo recoberto 
por anos de resduo de propano.
        Em qualquer lugar. Qualquer lugar menos aqui.  Ela fez 
uma pausa.  Pense no que significaria para Grace e John 
Robert se eles pudessem se mudar para outro lugar com boas 
escolas, onde tivessem amigos com quem brincar.
Ela apagou o cigarro.
        Eles esto oferecendo muito dinheiro, Maddie, o bastante 
pra pagar pela faculdade, por uma nova casa, por... por tudo. 
Seramos milionrios. A gente poderia se mudar pra onde 
quisesse e comear do zero, onde as pessoas no sejam... 
hostis.
A montanha Booker  minha, quis dizer Madison, embora 
sentisse que ela pertencia a Grace e a John Robert tambm. 
Mas no pertenceria a nenhum deles se a vendessem. Se 
Min no tivesse sido to teimosa, a montanha j teria sido 
destruda.
Madison imaginou os tratores chegando, as escavadeiras 
raspando o topo da montanha, todo o Condado de Coalton 
coberto pelo p negro das exploses.
        Mame, voc sabe o que eles esto planejando fazer com a 
montanha  disse Madison.  O Brice contou a voc a 
respeito. Como pode deixar uma coisa dessas acontecer?
        Que  isso, meu amor  disse Carlene, em tom melfluo. 
 No exagere. Eles vo consertar depois. Alm disso, 
existem outras montanhas. A gente poderia se mudar para 
algum lugar no oeste, como Las Vegas. Tem montanhas por 
todo lado l.
Madison pensou na pequena encosta do cemitrio no vale, 
as lpides inclinadas como dentes tortos nos locais em que o 
gelo as havia empurrado para fora do solo. E na caverna 
junto  cascata onde ela encontrara gravuras rupestres de 
ndios americanos e jamais contara a ningum, pois receara 
que algum entrasse l e as destrusse, como as pessoas 
sempre faziam. E tambm na velha fornalha de ferro junto 
ao riacho, construda por seu bisav, um de seus loucos 
planos para ganhar dinheiro.
Ela se sentia cercada, com Brice Roper, Carlene, o Juizado da 
Infncia e da Juventude, Seph, a iminente guerra entre os 
magos e o Corao do Drago puxando-a de todos os lados, 
estivesse ela dormindo ou acordada.
        A gente tem que falar sobre isso agora?  perguntou ela, 
cansada.
        Madison.  Carlene olhou-a nos olhos.  Voc quer 
esperar at que a Grace e o John Robert estejam crescidos? 
No somos o tipo de pessoas que podem se dar ao luxo de ser 
romnticas sobre as coisas. Temos de ser prticas.
Prticas. Vindo de Carlene.
        O senhor Roper pediu a voc que falasse comigo?  
indagou Madison.
Carlene fez que sim com a cabea. Ela abriu e fechou o mao 
de cigarros.
        Eu disse a ele que falaria. No faz sentido, o jeito como 
voc vem tratando a ele e ao Brice.
        Bem, se eu tiver que decidir agora, a resposta  no.
        No decida agora, ento.  Carlene se levantou, pegou a 
carteira e tirou de dentro uma nota de 20 dlares.  Tenho 
que ir trabalhar. Tome. Leve as crianas ao cinema na cidade 
esta noite. E no seja teimosa. s vezes voc precisa pensar 
em algum alm de si mesma.

 

Chamas bruxuleavam nos castiais janto s paredes, 
colorindo a grande cmara de pedra em vermelhos e ama-
relos. Os prisioneiros seguiram pela passagem entre os 
bancos at o altar na frente, as correntes tilintando, vestidos 
em tnicas com capuzes em tecido tosco que traziam a 
insgnia das casas de cada um. A Rosa Vermelha. A Rosa 
Branca. O Urso Prateado. O Drago. Numa fila sem fim.
O carrasco estava de p ao lado do altar, segurando um 
grande cajado com o Corao do Drago na ponta. Um 
escrivo estava junto, lendo um pergaminho, chamando 
nomes, confirmando sentenas. Muitos dos nomes eram 
familiares. Leander Hastings. Linda Downey. Claude 
D'Orsay. Jessamine Longbranch. Jackson Swtft. Jason Haley. 
Joseph McCauley. A acusao: anarquia. Rebelio. 
Assassinato. Cada um dos condenados se ajoelhava no altar e 
deitava a cabea sobre a pedra em silncio. O carrasco erguia 
o grande cajado, apontava para o prisioneiro. Chamas 
irrompiam do Corao do Drago, incinerando o condenado 
num instante. O odor de carne queimada enchia a cmara.
O capuz do carrasco caiu para trs, revelando o rosto dela 
mesma.
        Maddie, acorde! Maddie, voc est sonhando.
Algum lhe puxou o brao, como se quisesse arranc-lo
do ombro. Maddie abriu os olhos. O rosto preocupado de 
Grace encheu-lhe o campo de viso: solenes olhos cinzentos 
e um punhado de sardas, os cabelos castanhos lisos puxados 
para trs num rabo de cavalo.
        Voc est me assustando, gritando desse jeito.
        Oh.  Maddie se apoiou nos cotovelos e tentou engolir o 
gosto amargo que tinha na boca. Dormia pensando em Seph. 
Acordava pensando no Corao do Drago. Agora eles lhe 
invadiam os sonhos.  Desculpe. Que horas so, afinal?
        No sei,  tarde  disse Grace, acendendo a lmpada.  
Voc deve ter cado no sono no sof depois do jantar. 
Chegou a levar alguma coisa pro Jason comer?
Madison balanou a cabea.
        No, eu... droga!  Ela olhou para o relgio da cozinha. 
 J passa das oito. Eu ia levar voc e o J. R. ao cinema hoje.
        A gente ainda pode ir?  implorou Grace.
        Est tarde demais esta noite, s tem uma sesso s oito. 
Vamos amanh, numa matin, e a vamos ter dinheiro 
suficiente para pipoca tambm. Est bem?
        Est bem. Acho.  Grace se sentou  beira do sof.
        Com o que voc sonhou, afinal?
O Corao do Drago, Madison quase falou. Ela massageou a 
testa. Mesmo quando no pensava na pedra, ela ainda 
brilhava no fundo de sua mente, despertando o mesmo tipo 
de desejo que ela associava  arte. E a Seph McCauley.
Como Madison no lhe respondeu, Grace disse:
        Voc nunca foi de ter pesadelos.
        Vai ver eu simplesmente fazia menos barulho.  Madison 
balanou a cabea, tentando afugentar as imagens 
remanescentes.  Obrigada por me acordar, Gracie
        disse ela, esquecendo que Grace agora detestava 
oficialmente ser chamada de Gracie.   melhor eu levar 
alguma coisa para o Jason comer.
Madison encheu com ch gelado uma garrafa trmica de 
metal, aquela que o pai dela costumava levar para a mina. 
Passou camadas generosas de manteiga e mel em biscoitos 
velhos e os enrolou num guardanapo, alm de embrulhar 
sobras de frango frito em papel-manteiga. Pensou que devia 
convidar Jason para vir comer na casa, mas aquilo no 
importava agora, afinal. Ele teria de partir.
Carlene no era capaz de guardar um segredo to bem 
quanto Grace e J. R. Toda a cidade saberia a respeito de Jason 
em menos de uma semana.
Com certeza Warren Barber devia ter voltado para o lugar de 
onde viera. Ningum na cidade havia mencionado t-lo 
visto. Ele chamaria a ateno onde quer que estivesse, mas 
especialmente em Coal Grove.
A luz da lmpada no alto do poste criava um pequeno osis 
na floresta escura. Os galpes projetavam longas sombras 
sobre o gramado quando ela atravessou o ptio, passando 
pelos canteiros de flores onde as penias e as ris de Min 
foravam passagem para fora da terra. Morcegos agitavam-se 
como lenos negros entre as rvores  beira da clareira.
Hamlet levantou-se e esticou-se em saudao, cutucando a 
tigela de comida com o focinho.
        Isto no  pra voc  disse Madison, coando-o atrs das 
orelhas com a mo livre. Voc j jantou, lembra?
Hamlet se empertigou e apontou com o focinho cinzento na 
direo da floresta, os pelos em torno do pescoo se 
eriando. Ele rosnou e arreganhou os dentes, o que era uma 
surpresa, pois era totalmente surdo e parcialmente cego.
        Ei, Hamlet  disse Maddie, com um leve estremeci-
mento, tentando enxergar por entre as rvores.  O que 
voc descobriu? Um fantasma? Um guaxinim?
Ela viu vrias formas se movendo entre as rvores, e por um 
momento pensou que realmente poderiam ser fantasmas, j 
que havia um brilho assustador em torno deles. Ento 
compreendeu o que deviam ser e largou o jantar de Jason no 
cho.
Quatro magos pararam no limiar da proteo das rvores e 
ficaram ali, olhando na direo da casa. No haviam visto 
Madison ainda, escondida como estava na sombra do celeiro.
Que eles estavam ali para aprontar alguma, ela no tinha 
dvida. O fato de estarem todos usando capuzes pretos com 
buracos cortados para os olhos confirmava isso. Deviam ter 
deixado o carro mais para baixo na estrada.
A picape dela estava estacionada dentro do celeiro, mas 
Grace e J. R. estavam assistindo  televiso na casa e no 
havia jeito de busc-los, voltar para o celeiro e sair de l sem 
serem notados. Ela poderia brandir a espingarda na direo 
dos intrusos, mas esta tambm estava dentro da casa.
Ela ficou paralisada, os pensamentos em turbilho. Talvez 
fossem as Rosas vindo  sua procura. Seph a havia avisado de 
que isso poderia acontecer. Ou talvez fossem as Rosas, ou 
Barber, ou qualquer um, vindo atrs de Jason.
Os magos saram do arvoredo e avanaram silenciosamente 
na direo da casa, caminhando com determinao. Estavam 
todos vestidos de preto, emoldurados em luz.
 Pensei que voc tinha dito que no haveria ningum em 
casa  disse um dos magos.  A casa est toda iluminada.
Para a surpresa dela, o jeito como ele falava indicava que era 
algum da regio.
Madison no percebeu que estivera contendo a respirao 
at que a soltou. "Certo", pensou ela. "Pelo menos este 
problema  domstico."
        No se preocupe  disse o mago mais alto.  Eles
provavelmente s deixaram as luzes acesas.
A voz parecia familiar, mas era difcil dizer, abafada como
estava pelo capuz.
        Tem certeza de que no tem nenhuma criana l dentro?
 insistiu o primeiro mago.
- Quer calar a boca!  rosnou o mago mais alto. Madison
achou que ele devia ser o lder.  A gente veio at aqui em
cima, vamos acabar logo com isso e ir embora.
Eles continuaram a se mover em direo  casa.
Ento Madison se lembrou da histria de Grace sobre o
incndio no galpo. Eram quatro ou cinco, aqui no escuro.
Eles tinham tochas...
"No. No vou deixar isso acontecer", pensou ela. "No na
minha montanha."
        Que diabos vocs pensam que esto fazendo na minha
propriedade?  gritou ela bem alto, esperando alertar Grace
e J. R. na casa e Jason no celeiro.
Os magos se assustaram ao som da voz dela e correram
confusos de um lado para o outro, tentando enxergar na
escurido e descobrir onde ela estava.
Com alguma sorte, Grace seria sensata o bastante para agarrar
J. R. e sair pela porta dos fundos. Era esperta demais para sair
pela porta da frente e se meter naquilo.
        Eu sabia. Sabia que havia algum em casa  disse o
primeiro mago.
        Olha, ela no tem como deter a gente. O que ela vai fazer?
 disse o mago alto, continuando a andar na direo da casa,
seguido pelos cmplices, que continuavam a olhar para trs.
        O que esto fazendo?  gritou Madison. Ningum
respondeu.  Tem crianas na casa!  berrou ela.
        Bem, ento  melhor tir-las de dentro agora  disse o
mago com frieza.  Porque a gente vai pr fogo nesse lixo.
Ele estendeu as mos, e o fogo brotou-lhe das pontas dos
dedos.
Foi quando ela teve certeza.
        Brice Roper! Se voc se aproximar eu chamo o xerife!
Aquilo fez com que ele estancasse. Ele ficou parado por um
momento, depois deu de ombros e se virou, arrancando o
capuz e passando a mo pelo cabelo desgrenhado.
        Ol, Madison.
        Brice  queixou-se um dos outros magos.  No foi isso
o que a gente...
        Cale a boca, eu falei  resmungou Brice.  Eu devia ter
lidado com isso sozinho. No faa com que me arrependa de
ter trazido vocs comigo.
        Estou avisando  disse Madison.  Nunca vai se safar
dessa.
Brice deu risada.
        Quem  que vai acreditar em voc? Este lugar  um barril
de plvora. Vai ser a sua palavra contra a minha, e eu com
certeza vou ter um libi e dez testemunhas pra jurar que me
viram em outro lugar. Se qualquer um acreditar em voc,
vou persuadir a no acreditar.
        As pessoas me conhecem por aqui  disse Madison,
tentando parecer mais confiante do que se sentia.  Vo
acreditar em mim.
"Certo. Quando  que eles alguma vez acreditaram em voc
a respeito de qualquer coisa?"
        Srio? Acha mesmo? Se eu disser uma palavra, voc  uma
bruxa. Se eu disser uma palavra, voc mesma ateou fogo na
casa. As pessoas nesta cidade so ovelhas, Madison, e iro
para onde eu quiser.
        Foram vocs que provocaram todos aqueles incndios no
ano passado  sussurrou Madison.
Brice fez uma reverncia zombeteira.
        Isso prova o meu argumento, no concorda? L estvamos
ns, incendiando todo o vale, e aqueles idiotas culpando
voc. Se toda a cidade se voltasse contra mim, eu venderia
minhas terras e me mudaria. Mas voc no fez isso. Oh, no.
Em vez disso, sacou uma espingarda contra eles. Voc 
teimosa como uma pedra. E to esperta quanto uma pedra,
tambm.
Naquele momento, a tenso em seu ntimo se desfez e ela
ficou muito, muito zangada. Ela andou na direo deles, para
a luz.
        As pessoas sabem o que voc . Algumas delas, pelo
menos.
        Vou dizer a voc uma coisa que elas sabem  disse Brice.
 O meu pai d emprego para metade do condado... Para
qualquer um que esteja ganhando um salrio decente. O que
vai acontecer quando a gente fechar a mina? Este lugar s vai
murchar e desaparecer. A montanha Booker vai manter a
Carvo Roper funcionando por outros dez anos ou mais.
        E depois, o que vai acontecer?
        Bem, a eles vo ter um lugar bem plano pra colocar
alguma coisa, no ? Vai ser o nico trecho plano de terra
em todo o condado.
        No vou vender  disse Madison.  No para voc. No
vou.
        Onde a Carlene e as crianas vo morar, ento, depois que
eu incendiar este lugar?  Brice bufou.  Voc nem tem
como pagar a conta do telefone. Aposto que no consegue
arcar nem com o primeiro ms de aluguel. Vai morar numa
barraca ou o qu?
Madison cerrou os punhos e deu um passo em frente.
        Como voc consegue viver consigo mesmo?
        A culpa  sua. Voc devia ter concordado em vender. 
assim que o mundo funciona. Todos sabem disso. Mas voc
no. Voc anda por a como se fosse a realeza em trapos ou
algo assim. Como se fosse melhor do que eu. Eu!  repetiu
ele, a voz aumentando de volume.
        Brice  disse um dos outros magos. Uma garota, pela voz.
 Vamos fazer o que viemos fazer logo ou ir embora.
Brice se recomps.
        Muito bem, Madison. Voc tem cinco minutos pra tirar
aquelas crianas da casa e algo que queira guardar. No pode
ter muita coisa que valha a pena salvar.  Ele sorriu.  No
se preocupe. A gente ainda vai pagar um bom preo. A casa
no acrescenta nenhum valor, se entende o que quero dizer.
A gente ia derrubar tudo, de qualquer jeito.
Ele fez uma pausa. Como Madison no dissesse nada,
acrescentou:
        Em um ano, voc vai me agradecer.
Madison percebeu um rpido movimento com o canto do
olho, e algum gritou de dor. Um dos magos  aquele que
ficava reclamando  caiu ao cho, segurando a cabea.
Ficou deitado ali, grunhindo, pressionando as mos na
cabea ensangentada.
Ento Madison viu Jason, a mochila pendurada no ombro, o
basto de beisebol de J. R. na mo, afastando-se do mago
cado. Um basto de beisebol contra magia? Ela abriu a boca,
com a inteno de gritar, dizer alguma coisa. Jason balanou
a cabea, erguendo a mo para silenci-la.
E ento ela compreendeu: ele estava imperceptvel para os
outros magos no ptio. Perceptvel apenas para ela, a
extratora.
        Ei! Carl? O que foi?  perguntou Brice.  Tropeou nos
prprios ps ou algo assim?
Carl apenas gemeu ainda mais.
Jason tirou uma faca da mochila e partiu diretamente para
cima de outro dos magos, um rapaz corpulento, com calas
de camuflagem de cintura baixa e um daqueles tnis
gigantescos de cano alto. Jason se aproximou, enfiando a faca
para cima e para baixo, quatro golpes rpidos, e o mago
berrou e segurou o trax. Ele rasgou a camisa, revelando um
tosco M rabiscado no peito e na barriga.
        O q-q-que est acontecendo?  gemeu ele.  Estou
sangrando! Algum me atingiu. Parece... parece com um...
 Ele olhou para Madison, arregalando os olhos.  Foi... foi
voc quem fez isso?
Pensando rpido, Madison se empertigou, jogou o cabelo
para trs e sorriu para ele.
        O que voc acha?
Os trs magos ainda de p se juntaram, encarando Madison.
Ela avanou, as mos estendidas, e eles recuaram. Toda a
raiva, medo e humilhao do ano passado ferviam dentro
dela. Ela desejou ter realmente poderes mgicos, ser capaz
de inciner-los com um gesto.
Jason continuou agindo. Ele tirou uma lata de metal da
mochila, uma que Madison reconheceu como vinda do
celeiro.
"O que ele est fazendo?"
Ele abriu a tampa e virou a lata sobre a garota maga. Ela
berrou e cobriu a cabea com os braos, lutando contra o
oponente invisvel.
        O que  isso?  Ela cheirou, ento gritou e arrancou o
capuz, lanando-o longe, revelando um rosto plido e
horrorizado.   querosene!  Ela se afastou de Madison,
balanando a cabea lentamente de um lado para o outro. 
Se acha que vou atear fogo numa casa quando estou
ensopada em querosene, est maluco.
Ela se virou e fugiu para a floresta.
Madison andou na direo de Brice, abrindo um sorriso
forado. Tinha medo de que o corao dela saltasse do peito,
de to forte que batia.
        Ento, Brice  disse ela.  Ouvi dizer que voc gosta de
brincar com magia.
        Que d-diabo?  O normalmente articulado Brice parecia
estar no meio de um pesadelo e torcendo para acordar logo.
 Como  que est fazendo isso? Voc no  maga. Eu...
no senti nada... quando toquei em voc.
        Voc diz uma palavra e eu sou uma bruxa  disse
Madison, em voz gutural.  No  isso?
Brice recuava  medida que Madison avanava, erguendo as
mos para se defender dela.
        Fique longe de mim.
Enquanto isso, Jason aproximou-se dele pela lateral.
        Me enfeitice, por que no?  provocou ela.  Veja se
consegue. Eu desafio voc.
A sombra de Madison se estendia  frente dela, alta e esguia.
Ele esticou as mos, depois as recolheu, sem dvida
lembrando-se do que acontecera no estdio.
        Madison, qual ! Vamos conversar.
Ela estendeu a mo em direo a Brice, imitando um sinal de
maldio que Min utilizara. O imperceptvel Jason brandiu o
basto, atingindo Brice no rosto. Brice foi jogado para trs,
gritando, pressionando a manga contra o rosto para estancar
o fluxo de sangue de um nariz perfeito que agora estava
esmagado e torto.
        Oh, que horror  disse Madison, balanando a cabea. 
Voc no  muito bom nisso, ? Acho que precisa de um
pouco mais de prtica. Quer brincar de novo?
Brice cuspiu sangue e um dente quebrado.
        No entendo  murmurou ele com sua boca machucada.
        No. Voc no entende. Mas vou explicar. Vou lhe propor
o mesmo acordo que voc me ofereceu. Dou cinco minutos
pra voc juntar qualquer coisa que queira guardar.  Ela
olhou em volta: para Carl que havia se sentado e estava
limpando o sangue do rosto com a camisa; para o outro mago
que ainda contemplava o ferimento em seu trax, parecendo
prestes a desmaiar.  No pode ter muita coisa que valha a
pena salvar.
Brice passou as mos sob os braos de Carl e colocou-o de
p, ambos abatidos e ensangentados.
        Mais uma coisa  disse Madison.   melhor voc torcer
para que a minha vida corra tranqilamente de agora em
diante. Qualquer coisa que acontecer com este lugar...
incndios, exploses, terremotos, se o poo secar, se a ponte
cair, se a macieira pegar alguma praga... vou saber a quem
culpar. E a vou atrs de voc. Se pisar na minha propriedade
de novo, vou incinerar voc.
Pela primeira vez na vida, Brice no achou o que dizer. Ele e
Carl correram para dentro da floresta, na direo da estrada.
Madison esperou at cinco minutos depois que os magos
saram de seu campo de viso. Ento se agachou junto ao
velho galinheiro e vomitou, at no lhe sobrar nada no
estmago. Jason se agachou ao lado dela, segurando-lhe os
cabelos para trs, longe do rosto. Depois Jason foi buscar um
jarro de gua da torneira para que ela pudesse lavar a boca.
Ele a ajudou a voltar para dentro da casa, e os dois se
sentaram nos degraus da varanda. Madison tremia, os dentes
batendo. Jason passou um brao em torno dela e a puxou
para perto, dando-lhe tapinhas nas costas.
        Uau, voc  tima  disse ele, balanando a cabea. Ele
parecia atordoado com a habilidade dela.  No dava pra
acreditar. Voc  to corajosa! Eles ficaram apavorados.
        Eu?  Madison, estremeceu.  Voc.  Lgrimas se
acumularam nos olhos de Madison, escaparam e correram-
lhe pelas faces.  Fui... to estpida. Eu devia saber que isso
ia acontecer. Eu conheo o Brice. Sei o que ele . O que teria
acontecido se voc no estivesse aqui?
        Voc podia ter acabado com eles  disse Jason, tomando-
lhe a mo e apertando-a.  Sem problemas. Voc  como 
uma... uma leoa defendendo a sua toca. Quero dizer, o poder 
no  algo assim to especial, comparado com isso.
Ele revirou os olhos e ela riu, mas havia algo na expresso 
dele, como se tivesse tido uma revelao.
         melhor eu ir buscar as crianas  disse ela, enxugando 
as lgrimas.  Elas devem estar morrendo de medo.
Ela se levantou e se virou na direo da casa, mas ouviu a 
voz de Grace vindo da floresta atrs do celeiro.
        Madison? O que est acontecendo? A gente pode sair?
        Venham  disse Madison, e Grace e J. R. emergiram de 
dentro do arvoredo, Grace segurando a mo do menino com 
firmeza.
Madison rezou uma prece silenciosa em agradecimento. 
Grace havia feito o que devia fazer. Havia levado J. R. e se 
escondido na floresta. A irmzinha de Madison estava 
crescendo.
        Aonde foram aqueles homens?  perguntou Grace, 
olhando para o ptio em torno.  Eram os mesmos que 
atearam fogo no galpo.
        O quanto vocs viram?  perguntou Madison, trocando 
olhares com Jason.
        A gente no conseguiu ver nada!  reclamou J. R.  A 
Grace me fez ir at a floresta.
        No se preocupem. O Jason e eu pusemos os caras pra 
correr  disse Madison.  Acho que eles no vo voltar.
Aps as crianas terem ido para a cama, Madison convidou 
Jason para jantar. Sentaram-se  mesa da cozinha, com os 
ces praticamente deitados a seus ps.
As coisas haviam mudado, embora Jason no conseguisse 
dizer exatamente por qu. Para incio de conversa, ele 
apostaria a vida  e a de Seph tambm  no fato de que 
Madison Moss no estava mancomunada com Warren 
Barber. Ou com as Rosas. Jason no sabia como explicar a 
pintura e sabia que a assustaria se perguntasse a respeito. 
Mas, de alguma forma, isso no era mais necessrio.
        E a? O que voc vai fazer?  Madison perguntou a Jason.
Pelo jeito ela tambm sentia que haviam chegado a um 
ponto decisivo.
        Talvez seja melhor eu ficar por aqui, para o caso de o Brice 
e os amigos dele voltarem  sugeriu Jason.
        No precisa  disse ela.  Imagino que o Brice no vai 
querer se meter comigo to cedo.
"Certo", pensou Jason, "voltei a ser descartvel." Mas daquela 
vez ele sentia que dispunha de mais opes.
        Bem, eu queria voltar pra Inglaterra. Hastings est 
planejando um ataque  ravina, e eu queria entrar nessa.  
Ele deu de ombros.  Provavelmente j aconteceu, a esta 
altura.
        Quer dizer que mudou de idia?
Ele assentiu com a cabea.
        Eu poderia voltar a Trinity, acho. Mas nunca me senti 
muito til quando estava l. Eu me sentia como se, junto do 
Seph, eu fosse...  A voz dele sumiu. No conseguia 
acreditar que estava confessando tudo aquilo a algum.  
No consegui agentar aquilo, no fazer nada. Quando parti 
pra vir pra c, o Seph me disse que precisava que eu voltasse, 
que a minha ajuda seria til. Mas achei que ele s estava 
dizendo isso por dizer, porque somos amigos.
Madison ps a mo no brao dele.
        J que so amigos, acho que voc deveria acreditar nele. 
 Ela hesitou, depois foi em frente.  Eu... estou to 
confusa. Sinto tanta saudade do Seph. Quero ficar com ele, 
mas no posso. E o Corao do Drago...  como uma sarna 
que no consigo coar. Parece que no consigo tirar da 
minha cabea.
Jason fitou-a. Ela dissera tudo. Ambos ansiavam pela pedra, 
mas no podia ser pela mesma razo. Jason a via como uma 
espcie de tnico. Podia sentir o fluxo do poder do Corao 
de Drago para a sua pedra Weir, a cada minuto do dia. Mas 
Madison no tinha uma pedra Weir.
Naquele momento, Oflia ergueu a cabea e olhou na 
direo da porta. Um carro entrou ruidosamente no ptio e 
parou.
Jason se perguntou o que seria. Aquilo j estava ficando 
cansativo. Ele fez um gesto de mo para Madison, sinali-
zando para que ela ficasse onde estava, foi at a porta e 
espiou pela tela.
Duas pessoas estavam saindo de um jipe velho que ele 
reconheceu de imediato. Soltando um longo suspiro de 
alvio, ele saiu para a varanda.
        Jason!  berrou Harmon Fitch, um sorriso se espalhando 
pelo rosto. Ele se voltou para Will Childers e um bateu a 
palma da mo contra a do outro.  O cara est vivo!  a 
primeira boa notcia que temos h muito tempo.
Eles se sentaram  mesa da cozinha. Jason parecia nervoso e 
distrado, como se tentasse pensar em respostas para as 
perguntas que sabia que viriam. Madison adiou o 
interrogatrio o mais que pde, conversando sobre assuntos 
gerais, procurando bebidas na geladeira, batendo as bandejas 
de gelo no balco e servindo batatas fritas numa cesta.
Finalmente, o nervoso Fitch no conseguiu se agentar mais.
        No caso de vocs estarem se perguntando o que a gente 
est fazendo aqui, todos esto preocupados por no terem 
notcias suas.
        O que vocs tm feito?  indagou Will.  Por que no 
telefonaram?
"Bem", pensou Madison, "porque Jason me implorou para 
no contar e ameaou revelar que a Grace  extratora se eu 
contasse." Ela lanou um olhar para Jason,
esperando que ele falasse, enquanto ele parecia esperar que 
ela lidasse com aquilo.
        Eu mandei um e-mail para o Seph  disse ela afinal.  E 
escrevi um monte de cartas.
        Mas voc disse que o Jason nunca apareceu  disse Will.
        Bem... , foi isso mesmo  gaguejou Madison.  Mas...
        A culpa foi minha  interrompeu Jason.  Eu fui um 
idiota. No deixei que ela ligasse. No queria que ningum 
soubesse que eu estava aqui.
Will ergueu uma sobrancelha.
        No deixou? Voc amarrou os ps e as mos dela ou o 
qu?
Um rubor tingiu as faces de Jason.
        Algo parecido.
"Ele realmente est corando", pensou Madison. "H uma 
primeira vez para tudo."
        Que confuso! Qual  o problema com voc? Todo mundo 
ficou alucinado. Algumas pessoas disseram que voc tinha 
cado fora.  Fitch tirou os culos e os poliu na manga da 
camisa.  Mas o Seph no acreditou. Estava convencido de 
que algo tinha acontecido com voc.
        Bem.  Jason olhou para Madison, depois de volta para 
Fitch.  Algo aconteceu.
Eles contaram a Will e Fitch sobre Barber, o ferimento de 
Jason e Brice Roper.
        Voc devia ter nos contado  disse Will, uma expresso 
magoada no rosto.  O Nick, a Mercedes ou mais algum 
poderiam ter ajudado voc.
        Eu ia cair fora, est bem?  Jason ergueu a voz.  Eu 
teria ido, se no tivesse sido ferido. Queria sair de Trinity e 
de tudo aquilo. E depois eu... ahn... estava fora de mim.  
Ele fitou a mesa.  Estou melhor agora.
Fitch observou-o, depois assentiu com relutncia.
        Parece que as coisas esto quase to perigosas aqui quanto 
l em casa.
A boca de Madison ficou seca como algodo.
        Por qu? O que est acontecendo em Trinity?
        Bem, pra comear, o Barber foi visto l pelas nossas 
bandas  disse Will.  O Jack, a Ellen e o Seph travaram 
uma grande batalha com ele num depsito em Cleveland e 
praticamente puseram o lugar abaixo num incndio.
        O qu?  Madison olhou de Will para Fitch.  Como 
isso aconteceu? Eles esto bem?
        Eles esto timos  disse Will, recuando ante a enxurrada 
de perguntas.  S alguns arranhes e queimaduras. Rotina, 
pra eles.
        E o que mais?  indagou Jason.  O que aconteceu com 
o Barber?
        Ele escapou.  Will hesitou.  A Leesha Middleton nos 
contou que ele estava atrs de voc.
O rosto de Jason pareceu perder a animao costumeira, e os 
olhos azuis se estreitaram e se fixaram.
         mesmo?  disse ele, numa voz fria e desinteressada.
        Foi ela que os levou at o Barber  acrescentou Fitch, 
franzindo o cenho para Jason.
        Esse foi o erro do Barber  disse Jason, com indiferena. 
 Confiar na Leesha.
Hamlet cutucou-o, choramingando, e Jason coou o co 
atrs das orelhas.
Madison se perguntou o que estaria acontecendo. Ser que 
Jason pensava que Leesha tinha algo a ver com...
        De qualquer forma  insistiu Fitch , a Leesha ajudou 
bastante, e eu queria que voc soubesse disso. Eu sei que 
alguns de ns no fomos exatamente... amistosos quando ela 
voltou, mas...
        O que mais est acontecendo, ento?  interrompeu 
Jason, sua ateno ainda voltada para o cachorro.
Will deu de ombros.
        A Mercedes est construindo uma muralha mgica em 
torno de Trinity. Com a ajuda de muita gente, acho. No que 
a gente tenha realmente visto a muralha.
        Esto construindo uma muralha?  Jason olhou de Will 
para Fitch.  Esto falando da barreira?
Will deu de ombros como se dissesse: Como  que eu vou 
saber?
        Acho que  diferente. Tipo uma muralha de verdade. De 
verdade para os Weirs, pelo menos.
        Entenda, Jason, o lance  que eles realmente precisam da 
sua ajuda  disse Fitch.  No sei muito a respeito, mas 
parece que esto faltando magos. O senhor Hastings ainda 
est fora, e  s o Seph, o Nick, a ris e alguns outros poucos 
magos que esto fazendo tudo. O Jack est ajudando um 
pouco, mas quando os guerreiros comearem a se ocupar do 
porto, ele no vai estar muito por l. Precisa de muita 
magia, acho, pra escorar a muralha.
        Voc precisa voltar conosco.  Fitch deu um sorriso 
torto.  Vou dizer uma coisa pra voc: no quero ser a 
pessoa que vai contar  tia Linda sobre o carro dela.
Jason hesitou. Madison segurou-lhe a mo e abriu um sorriso 
encorajador.
        Parece que o Barber foi embora, de qualquer forma. A 
deciso  sua, mas acho que voc devia voltar.
Ele assentiu.
        . Eu tambm acho.
Ele parecia mesmo aliviado, como se tivesse suportado um 
grande peso por longo tempo e agora o soltasse.
        O Seph quer que voc volte tambm, Madison  disse 
Fitch.
Madison balanou a cabea, sentindo-se ainda mais sozinha
do que quando Jason chegara. Ela teria de acertar as coisas de
uma vez por todas com Brice Roper. E com a me. De
alguma forma.
        No posso partir. Se o Brice descobrir que estou fora, ele
pode atacar a casa de novo. Mas digam ao Seph... que sinto
muitas saudades dele.
Aquilo era to pattico. To inadequado. Mas era s o que ela 
podia dizer.

Captulo Vinte e Dois
Estranhos Aliados

A primavera normalmente era um tempo dourado na Ravina 
do Corvo. Os ventos sombrios de inverno que uivavam da 
Esccia partiam para dar lugar s suaves brisas primaveris 
impregnadas com o aroma de flores das terras altas. O 
melhor de tudo era que os turistas que atormentavam o resto 
do Lake District no vero no chegavam nem perto dali.
Mas aquela era uma estao estril. A grama alta que 
ondulava pela ravina mirrara e ganhara tons marrons, 
assolada pelo frio e pelas chuvas inclementes. Os botes 
murcharam nas rvores, frustrando a promessa de flores. Os
pssaros e a vida selvagem desapareceram. Na maioria das
noites, a fornalha no poro era ligada, e os servos acendiam o 
fogo na lareira num vo esforo de aquecer a sala de estar. 
D'Orsay foi forado a enfeitiar os servos para impedi-los de 
fugir para climas mais amigveis. Seria arriscado trazer 
novos, que poderiam ser assassinos trabalhando para as 
Rosas. As luzes mgicas cintilavam nas montanhas em volta, 
evidncia de que as Rosas no haviam abandonado o cerco.
No tinham recebido notcias de Alicia Middleton e, 
portanto, perderam a pista de Warren Barber. O que podia 
significar que eles estavam mortos e que outros haviam se 
apropriado do novo Pacto, ou que ele havia sido perdido. 
Quanto ao Corao do Drago, D'Orsay supunha ainda estar 
no santurio. A menos que as Rosas tivessem se apoderado 
dele tambm.
Ele e Dev perambulavam pelo Castelo da Ravina do Corvo, 
brigando um com o outro  eles que sempre haviam sido 
famosos por se darem to bem.
Ento, finalmente, receberam uma mensagem das Rosas. 
No um ultimato para que se rendessem, como D'Orsay 
esperara, mas um pedido de reunio.
Levaram dias para negociar os termos. Seria mais seguro 
realiz-la na Ravina do Corvo, ou isso possibilitaria uma 
invaso? Poderia D'Orsay se sentir seguro em um encontro
fora da ravina? Seria necessrio realizar o encontro com 
todos nus para impedir que algum viesse com sefas 
escondidas?
Enfim, os termos foram decididos, principalmente porque 
ambos os lados estavam ansiosos por se encontrar e resolver 
o impasse. Encontraram-se numa campina no planalto que 
dava para a ravina, um lugar revistado pelos dois lados antes 
do evento.
Aquele costumava ser um belo local na primavera, florido 
com campainhas azuis e botes-de-ouro. Mas agora estava 
seco e silencioso, como o palco de algum horrvel acidente 
industrial.
Era uma reunio ntima  D'Orsay e Devereaux, Jessamine 
Longbranch da Rosa Branca, e George Wylie da Rosa
Vermelha. A ltima vez em que todos haviam estado juntos
havia sido em Second Sister  quando o golpe de D'Orsay e
Leicester contra as Rosas quase fora bem-sucedido.
Foi uma reunio frugal, sem cerimnia ou hospitalidade, j
que nenhum dos lados confiava no outro o bastante para 
partilhar uma refeio. Encontraram-se num pavilho 
semelhante a uma tenda com um piso de tacos de madeira 
coberto por tapetes de l.
        Jessamine. Que prazer.  D'Orsay segurou-lhe as mos 
enluvadas e beijou-lhe o rosto. Ele inclinou a cabea 
bruscamente para Wylie.  Geoffrey. Este  meu filho, 
Devereaux.
O pobre Dev encurvou os ombros e enfiou as mos nos 
bolsos. Como de costume, era tmido e calado na frente de 
visitas.
Eles se acomodaram num crculo de cadeiras. Uma lareira no 
centro espalhava algum calor em meio ao frio.
        No me lembro de j ter visto este lugar to horrvel assim 
no ms de abril  disse Jessamine, tremendo a despeito das 
camadas de couro e peles.  No pode fazer alguma coisa a 
respeito?
Como se o clima fosse uma falha na hospitalidade dele.
        O tempo est anormalmente frio  admitiu D'Orsay.  
Por outro lado, como diz o poeta T. S. Eliot, 'abril  o ms 
mais cruel'. Presumo que no tenham vindo aqui para
discutir o clima. Embora ele esteja relacionado a outros
acontecimentos.
Jess agitou-se como uma truta pulando sobre uma mosca.
        O que voc quer dizer com isso?
        Primeiro voc, minha querida  disse D'Orsay, corts.
        Sabemos que voc tem o Pacto  disse Jessamine, indo 
direto ao ponto.  Mas  incapaz de consagr-lo.
D'Orsay inclinou a cabea.
        O que a faz pensar assim?
        Porque voc j o teria consagrado se pudesse.
        Muito bem  disse D'Orsay, com o ar de um anfitrio 
fazendo a vontade de convidados difceis.  Ento por que 
esto aqui? Por que no nos deixam definhar na obscuridade?
        Porque voc mantm a ravina. A ravina abriga a pedra 
Weir. E alguma coisa deu errado.
D'Orsay se sentia ridculo, como o capito de um navio que 
afundava, ainda manejando o leme enquanto o convs 
chacoalhava sob as ondas.
        Errado?
Wylie ergueu ambas as mos, indicando os arredores.
        Ora, vamos e venhamos! Voc est presidindo uma terra 
devastada, Claude. Quando penso em como costumava ser...
        No seja melodramtico, Geoffrey  disse D'Orsay.  
Isto no passa de uma conseqncia do tempo anormal-
mente ruim e de jardineiros incompetentes.
Longbranch pressionou a mo sobre o peito.
        A pedra Weir est escura. Geralmente consigo sentir a 
presena dela de qualquer lugar na Cmbria. E agora?
Nada.  Ela estremeceu.   como se a fonte do nosso 
poder tivesse se movido, como se estivesse a uma grande 
distncia.
Na verdade, D'Orsay j havia tomado uma deciso. A poltica 
criava estranhos aliados, e as opes dele estavam 
definitivamente se esgotando. Precisava sair da ravina, ou ele 
e Dev acabariam simplesmente cortando a garganta um do 
outro.
        Tambm notei  admitiu D'Orsay.  A sensao que d 
 como se o plo magntico tivesse se alterado, no ?
Wylie se reclinou na cadeira.
        A pergunta : por qu?
        Talvez seja efeito do cerco  sugeriu D'Orsay.  J faz o 
qu, seis meses?
        Voc poderia se render  sugeriu Longbranch.  S uma
idia.
D'Orsay olhou para as montanhas ao redor, para as chamas
mgicas queimando por l.
        Vocs poderiam retirar as suas foras.
        No  por causa do cerco  disse Wylie, impaciente.
        A alterao no poder foi bem sbita. No meio do inverno, 
creio.
        Vocs querem mesmo saber quem  o responsvel?
        indagou D'Orsay, emitindo um pouco de poder para
aquecer os ps.
Longbranch se inclinou para a frente.
        Quem?
        Jason Haley.
        Jason Haley?  Wylie franziu a testa.  Aquele de 
Second Sister?
        O prprio.
        O que tem ele?  indagou Longbranch.
        Ele roubou o Corao do Drago.
Longbranch e Wylie se entreolharam.
        O que  isso?  perguntou Wylie.  Nunca ouvi falar 
disso.
        O corao mgico da ravina. Uma arma de capacidade 
infinita. A fonte do poder de todas as ordens.
        Nunca ouvi falar disso  repetiu Wylie.  No me diga 
que acredita nessas velhas histrias sobre bestas mgicas 
cuspindo chamas. E, mesmo que acredite, isso foi h muito 
tempo.
        Se acredito ou no em drages  irrelevante. A questo  
que o Corao do Drago  uma sefa poderosa que ficou sob 
a pedra Weir nas minhas terras ancestrais por sculos. De 
alguma forma, ela alimentava a pedra Weir. A pedra Weir 
ainda est l, mas escureceu.
        Quer dizer que voc sabia que essa pedra estava l esse 
tempo todo?  indagou Longbranch.
Era mais fcil simplesmente mentir.
        Sim  disse D'Orsay.  Mas apenas recentemente 
compreendi o alcance de seu poder.
        Por que est contando isso a eles, pai?  indagou 
Devereaux.
        Est tudo bem, Dev  disse D'Orsay, dando um tapinha 
no ombro de Dev.
Dev recuou.
        Por que est nos contando isso?  perguntou Wylie, 
desconfiado.
        Porque chegou a hora de trabalharmos juntos  disse 
D'Orsay.  Estou preso, como sabem, na ravina. Preciso da 
cooperao de vocs a fim de ir atrs da pedra.
        Tem alguma idia de onde ela est?  perguntou Wylie.
        No santurio, presumo  disse D'Orsay.  A menos que
a tenham levado embora. Por algum tempo, tive um agente
em Trinity. Sei que o Haley voltou para l depois de saquear
a ravina, e recebi relatrios de que os objetos mgicos
estavam escondidos l.
        Muito bem  disse Longbranch.  Agora que nos
contou, por que precisamos do seu envolvimento? Podemos 
ir atrs da pea ns mesmos.
D'Orsay tambm havia previsto isso.
        Por dois motivos  disse ele.  Eu tenho o dirio escrito 
pela pessoa que escondeu a pedra na ravina, que fornece 
detalhes sobre o uso dela. Poderosa como , ningum iria 
querer cometer um erro, no ?
Talvez ele estivesse exagerando um pouco o valor do dirio, 
mas assim era a natureza das negociaes.
        E o segundo motivo?
        O Corao do Drago  apenas uma pea. Talvez vocs 
tenham ouvido falar do tesouro da Ravina do Corvo?
Wylie enfiou as mos nos bolsos, encolhendo os ombros 
contra o frio.
        Outra lenda?
        De forma alguma. O tesouro inclui uma coleo de
artefatos mgicos e sejas acumulados desde a fundao das 
ordens.
        E por que iramos precisar disso?  Longbranch fingiu 
indiferena, mas os olhos brilhavam de ambio.
        Diz-se que o Corao do Drago  a mais poderosa sefa 
conhecida, capaz de destruir a todos ns. No sabemos se as 
ordens servis compreendem quo poderoso ele , ou como 
us-lo. Mesmo assim, seria prudente irmos armados a 
qualquer confronto com eles.
        Se Hastings est envolvido, podemos supor que ele 
descobriu  disse Wylie, a boca se retorcendo em 
repugnncia.
        Os meus agentes em Trinity me informaram que ele no 
est l  disse Jessamine.  E nem a Linda Downey.
        Pergunto-me quem est no comando  murmurou 
D'Orsay.
        O Snowbeard est l  disse Jessamine.  Alm dele... 
 Ela hesitou, depois comeou a contar com os dedos 
enluvados.   o garoto, McCauley, basicamente. E a ris 
Bolingame. Jason Haley parece ter desaparecido. Talvez haja 
outros magos.  Ela revirou os olhos.  Jack Swift e Ellen 
Stephenson organizaram um exrcito de fantasmas.
        Elimine o McCauley e a coisa toda vem abaixo  disse 
Wylie.  Ele parece ser o elo mais forte da corrente.
D'Orsay se perguntou como podia ser to difcil.
        Vocs no tm ningum dentro do santurio?  indagou 
ele, delicadamente.  Um ataque generalizado pode no ser 
a melhor alternativa.
        Ns enviamos assassinos  disse Wylie com franqueza. 
 Eles nunca voltaram, nunca entraram em contato de 
novo. Devem ter sido identificados e eliminados 
imediatamente.
        O McCauley parece estar bem protegido  ponderou 
Longbranch.  Afinal, ele no passa de um garoto.
        Tem certeza de que no  o Hastings?  indagou D'Orsay,
contendo um tremor.
Wylie balanou a cabea.
        At onde sabemos, o Hastings e a Downey esto em 
algum lugar na Europa.
Eles todos olharam rapidamente em torno, como se o casal 
pudesse cair em cima deles a qualquer momento.
        Nesse caso  disse Jessamine, sorrindo , talvez 
possamos simplesmente entrar e pegar a pedra.
Os sorrisos se espalharam por toda a volta.
O vento uivava sobre a Cabea do Corvo, e o pavilho 
estremeceu sob sua fora. Grossas gotas de chuva 
respingaram na lona. D'Orsay gesticulou, e as chamas na 
lareira ficaram mais quentes.
Devereaux falou de novo:
        Pai, por que deveramos dar qualquer coisa a eles? Eles 
no tm nada para dar em troca.
"Rapaz esperto", pensou D'Orsay, com carinho.
        Ns oferecemos a liberdade de ir e vir  disse Jessamine. 
 Como o seu pai com certeza compreende. Se 
conseguirmos sozinhos o Corao do Drago, o Pacto dele  
intil. Junte-se a ns e podemos negociar emendas ao Pacto 
para distribuir o poder entre ns. Parece que a pedra  que 
tem sido a fonte de poder o tempo todo, e ns ramos 
escravos de velhos mitos e lendas sobre drages. No haver 
nenhuma necessidade de aderir s velhas restries, de 
compartilhar o poder fora do nosso crculo.  Ela passou 
um dedo na esmeralda que lhe pendia do pescoo.  As 
possibilidades so ilimitadas.
Claude D'Orsay sorriu. Era um campo de jogo familiar, pelo 
menos. Mais um acordo proposto entre magos envolvendo 
termos a serem negociados mais tarde. Com assassinatos e 
derramamento de sangue, sem dvida. E, dado o fato de que
ele no tinha nenhuma carta na mo, nem mesmo o Pacto,
era uma proposta atraente.
        Certamente podemos chegar a um acordo  disse
D'Orsay, olhando para cada um dos jogadores.
        Pai  protestou Devereaux , a gente no pode
simplesmente...
        Mais tarde, Dev  disse D'Orsay, levantando a mo.
Dev cedeu, as mos se retorcendo em irritao.
D'Orsay se voltou para os outros.
        O meu filho e eu faremos o inventrio do tesouro e 
providenciaremos uma inspeo pessoal.
Aps uma discusso sobre mais algumas questes logsticas, a 
reunio foi encerrada. Os D'Orsays se despediram das Rosas 
e ordenaram aos servos que desmontassem o pavilho. 
D'Orsay e Dev desceram para a ravina, ansiosos para irem 
para junto da lareira dentro do castelo.
        Ento  disse D'Orsay, quando haviam alcanado a base 
do vale , voc no gosta da idia de partilhar do tesouro 
com as Rosas.
        Por que a gente deveria fazer isso? Ele pertence a ns.  
nossa famlia.
        Temos que sair desta maldita ravina, Dev. O que quer que 
seja o Corao do Drago, o que quer que ele faa, 
precisamos recuper-lo. A estaremos de novo no jogo. No 
tivemos notcias da Alicia h semanas. Por isso no  
provvel que tenhamos sucesso sem as Rosas.
        O que acha que aconteceu com aquela garota? A Alicia?
         difcil dizer.  arriscado l fora, Dev.  por isso que 
tenho mantido voc por perto.
        Ela vai aonde quiser. Ela faz o que bem entender  disse 
Devereaux com inveja.
        E ela pode muito bem estar morta  retrucou D'Orsay, 
impaciente.
Por que Dev andava to rebelde ultimamente?
Dev parou junto aos jardins que levavam para o castelo.
        Que estranho  disse ele.  A ponte levadia est 
erguida e o porto est fechado.
D'Orsay piscou para conseguir ver em meio  chuva e olhou 
para o castelo. A ponte levadia havia sido pouco mais do 
que uma pea decorativa desde a assinatura do Pacto sculos 
atrs.
Na verdade, ele erguera a ponte pela ltima vez na noite em 
que Jason Haley invadira a ravina. Afinal, ele tinha feitios 
de proteo e sentinelas para avis-lo de qualquer perigo.
A ponte estava erguida agora.
        Que diabos?  resmungou D'Orsay.  Vai ver o Stephen 
est sendo super protetor esta noite, por causa dos nossos 
convidados.
        Bem, ele devia estar  nossa espera  disse Dev.  Devia 
ter notado que estvamos chegando e aberto o porto.
Dev no tolerava falhas por parte da criadagem. Comeou a 
caminhar a passos rpidos estrada acima, provavelmente 
com a inteno de repreender Stephen.
        Devereaux! Espere!  sussurrou D'Orsay, mas o garoto j 
estava bem longe.
D'Orsay estava ofegante quando alcanou o galpo junto  
parte mais elevada do jardim. Ele se apoiou na parede do 
galpo, olhando de relance para dentro, e notou, enfiado 
embaixo de um dos bancos, um corpo, vestido apenas com 
as roupas de baixo. E, mais para dentro, outro corpo.
D'Orsay espiou o interior escuro, sem acreditar no que via.
        Stephen?  murmurou ele. Ento se virou e correu atrs 
do filho, que quela altura estava fora do seu campo de viso. 
Quando chegou ao topo da montanha, viu Dev na margem 
mais prxima do fosso, berrando na direo da guarita.
        Stephen! Abra, seu imbecil pattico, ou vou...
        Devereaux!  gritou D'Orsay.  Saia da!
Ele empurrou o filho para o lado bem no momento em que 
uma exploso de fogo mgico irrompeu da guarita e queimou 
o solo onde Dev estivera.
D'Orsay ergueu um escudo a tempo de desviar mais trs 
ataques vindos de sua prpria fortaleza. Seria possvel que as 
Rosas tivessem se aproveitado da ausncia deles do forte para 
se infiltrar na ravina sem ser notadas? Teria a guarda do 
castelo se voltado contra ele?
Feitios de proteo estavam sendo erguidos em todas as 
fortificaes, barreiras poderosas contra qualquer magia que 
pudesse ser usada para derrubar as muralhas. No que 
D'Orsay tivesse inteno de derrubar sua prpria casa, se 
pudesse evitar.
Eles recuaram at uma distncia segura. Dev estava abalado, 
mas ileso. Rpido, ele acrescentou a sua fora ao escudo de 
D'Orsay.
        O que aconteceu, pai? Aquele idiota do Stephen 
enlouqueceu?
        O Stephen est morto, Dev. O corpo dele est no galpo 
do jardim.
        O Stephen? Morto?  Os olhos de Dev se arregalaram.  
Que horror! No acredito.
Naquele momento, uma dzia de homens da guarda com o 
uniforme de D'Orsay chegaram correndo.
        O que est acontecendo, senhor?  perguntou o 
comandante, arfando.  Vimos chamas l de baixo.
        Eu esperava que vocs me dissessem, o que poderiam 
fazer se estivessem em seus postos, onde deveriam estar  
disse D'Orsay com sarcasmo.  Onde estavam?
        Ns... ahn...
Eles se entreolharam e esfregaram os ps no cho.
Obviamente ningum queria ser o primeiro a confessar.
Finalmente o capito falou.
        Meu senhor, ns ouvimos uma mulher cantando e fomos
investigar.
        Vocs ouviram uma mulher cantando.  D'Orsay fez 
uma pausa, para o caso de haver entendido mal, e o capito 
assentiu com a cabea.  E vocs... vocs todos... foram 
investigar.
        Bem.  O capito remexeu na manga.  Sim. Era... Bem, 
o senhor mesmo precisava ter ouvido.
        Ficaram enfeitiados, no foi? E encontraram essa mulher?
Ele balanou a cabea.
        Encontramos isto.
Ele estendeu a mo, e um pequeno pssaro de cristal cintilou 
no centro da palma cheia de calos.
D'Orsay derrubou o objeto da mo do capito com um tapa.
        Um truque de encantador. E vocs caram nele. E agora 
algum me trancou fora da minha prpria casa.
Foi quando lhe veio a suspeita de quem poderia ser esse 
algum.
D'Orsay se voltou para o castelo, ps as mos em concha e 
gritou:
        Hastings!  Ele aguardou, depois repetiu:  Hastings! Sei 
que  voc, por isso pode muito bem se mostrar!
Um instante mais tarde, ele ouviu, vinda do parapeito, uma 
voz risonha de mulher.
        Leander, por que voc sempre leva o crdito por tudo?
Eles saram para o caminho de ronda, lado a lado, envoltos 
em magia  o mago alto e a pequena encantadora, 
parecendo Romeu e Julieta trajando equipamentos de 
alpinismo.
Ou como os novos senhor e senhora da manso.
Linda Downey e Leander Hastings. Claude D'Orsay tinha os 
dois aprisionados na ravina.
Era uma maneira de ver as coisas.
D'Orsay voltou-se para a guarda.
        Cerquem o forte  ordenou ele.  No deixem que 
escapem.
        Oh, no temos nenhuma inteno de escapar  disse 
Hastings.  Gostamos daqui.
        Vocs dois no tm como defender o forte contra um 
exrcito  disse D'Orsay, tentando soar convincente.
        Quem disse que somos s ns dois?  replicou Downey. 
 E o forte parece incrivelmente bem construdo. Alguma 
fraqueza da qual a gente deva saber?
Por muito pouco, D'Orsay no contou tudo a ela. A voz dela 
era como uma cano que se insinuava na mente at a 
pessoa se ver cantarolando junto.
Maldita! O Mestre de Jogos geralmente preferia manter 
distncia da violncia, delegando-a a outros. Mas, naquele 
momento, ele adoraria ter a oportunidade de fazer aqueles 
dois em picadinho. Pessoalmente. Com as prprias mos.
O pior de tudo era que, com exceo de algumas peas 
selecionadas que D'Orsay escondera em outros lugares da 
ravina, a maior parte do tesouro de armas mgicas estava no 
cofre interno no Castelo da Ravina do Corvo  agora na 
posse de Downey e Hastings, e no mais acessvel a D'Orsay 
e seus aliados. Havia o risco de que as Rosas ficassem pouco 
impressionadas com o pouco que ele seria capaz de oferecer 
 a contribuio dele  causa.
        Vamos deixar vocs sem comida at sarem!  ameaou 
ele, embora no fosse do tipo de fazer ameaas vazias.
        Parece que isso vai levar algum tempo  disse Hastings. 
 Meus cumprimentos pela sua adega, Claude.
        Ele fez uma pausa.  Na verdade, estou achando a sua 
adega bastante... intrigante.
Ele havia encontrado o tesouro, ento. Este era bem pro-
tegido com feitios, mas... aquele era Leander Hastings. 
Muito em breve, ele usaria as sefas contra eles.
        Onde voc vai estar nesse meio-tempo?  perguntou 
Downey docemente.  No caso de algum telefonar?
Dev avanou na direo deles, e D'Orsay segurou-o pelo 
brao, puxando-o para trs.
        No, Dev, eles esto tentando provocar voc para que faa 
alguma tolice.
        Faa com que eles saiam!  O rosto de Dev estava 
vermelho de fria.  Esta  a nossa casa!
        Deixe estar, Dev.  Ele se voltou para o capito.
        Quero uma guarda 24 horas por dia neste castelo. 
Ningum entra ou sai sem minha permisso. Qualquer um 
que tenha sobrado vivo l dentro, fica l.  Ele fez uma 
pausa.  E, com mil demnios, da prxima vez que ouvirem 
algum cantando, tampem os ouvidos.
        Onde vamos morar, pai?  indagou Dev, desanimado.  
Todas as minhas coisas esto l dentro.
D'Orsay deu um tapinha nas costas do filho.
        Voc queria sair daqui, de qualquer forma. Vamos juntar 
as armas que conseguirmos recuperar e ir para Trinity. Acho 
melhor estarmos l para ficar de olho nos nossos novos 
aliados. Sabe, acho que o Hastings e a Downey cometeram 
um erro ttico ao virem para c. A posse do tesouro no tem 
importncia, em comparao
com a posse do Corao do Drago. Com o Hastings e a 
Downey no forte, os rebeldes perderam dois dos agentes 
mais eficientes que possuam. Vejamos como as crianas se 
viram sozinhas, hein?

Captulo Vinte e Trs
Um Ultimato

- Jack.
Jack Swift parou com a mo na tranca da porta dos fundos e 
olhou para trs na direo das escadas. A me estava em p 
no patamar, olhando para ele.
        Aonde voc vai?  perguntou ela.
Era uma pergunta difcil de responder, j que ele estava indo 
cumprir o servio de guarda do porto Weir, onde o trabalho 
dele era impedir as idas e vindas irrestritas de espies, 
assassinos e possveis ladres mgicos. Ele celebrou o fato de 
que a Sombra Assassina estava escondida na bolsa pendurada 
s suas costas.
        Eu... vou dar uma caminhada. No parque Peny.
O porto Weir ficava dentro do parque Perry, a maior rea 
de floresta contnua no santurio.
Becka desceu os degraus at chegar a uma altura em que 
pudesse olh-lo nos olhos.
        Tudo bem se eu for junto? Faz muito tempo que no 
fazemos uma caminhada juntos.
        Bem. Isso seria...  "Um desastre".  Seria timo, s que 
a gente vai escalar. No desfiladeiro.  uma escalada tcnica. 
Voc no iria gostar.
Ela cruzou os braos.
        Certo. Vou ser mais direta. O que est acontecendo?
        Acontecendo?
Becka hesitou. Cobrana no era algo que lhe vinha 
naturalmente.
        O Harold vem reclamando que voc no tem aparecido 
por l para preparar os barcos para a temporada. Ele teve de 
contratar outro capito em tempo integral pra manter os dois 
barcos em operao. O Seph parou de trabalhar nas docas de 
vez. O Jason tambm.  Ela soltou um suspiro exasperado. 
 Voc vai se formar em algumas semanas. Achei que ia 
querer ganhar algum dinheiro este vero. Ou tratar de se 
inscrever em alguns cursos para fazer no prximo semestre. 
Ou quem sabe voc quer ir para Boston e trabalhar com o 
seu pai?
        No  disse Jack rapidamente.  Quero ficar aqui.
        E fazer o qu?
Ela fez uma pausa. Como Jack no respondeu, falou:
        Eu me sinto responsvel por vocs trs com a Linda fora 
da cidade.  Uma nota de reprovao ficou evidente.  
Embora ela parea achar que o Seph e o Jason esto bem 
sozinhos. No tenho visto o Jason h semanas. E ele no tem 
ido  escola tambm, pelo que sei.
Mensagens de aparncia oficial enviadas pela seo de 
freqncia da secretaria do colgio vinham chegando 
regularmente  casa de tia Linda, endereadas aos Pais de 
Jason Haley ou responsveis por ele.
Ali estava uma boa notcia que ele podia dar a Becka.
        O Jason est de volta, me. Voltou faz dois dias. Ele tinha 
ido... ahn... visitar a Madison no Condado de Coalton.
Ela ergueu uma sobrancelha.
        No meio do semestre?
         que depois ele ficou doente.
        Voc sabe como a freqncia s aulas  importante. O 
senhor Penworthy vai cair em cima dele.
        Caiu mesmo. Em cima dele, digo. O Jason passou a manh 
toda na secretaria.
Jack no pde deixar de pensar que havia um motivo pelo 
qual os heris clssicos no tinham advogadas como mes.
        No posso reclamar que voc passe o tempo todo em casa 
jogando videogames. Na verdade, voc nunca est em casa. 
 Ela estendeu os braos e ps as mos nos ombros dele.  
Pelo lado bom,  bvio que voc tem se exercitado. E no 
tenho ouvido falar de noitadas na praia.
Ironicamente, seria mais difcil conseguir esconder uma 
noitada na praia numa cidade pequena do que construir uma 
fortaleza mgica. Linda e Hastings no eram os nicos a ter 
uma rede de inteligncia em Trinity. As informaes 
voavam at Becka Downey de todos os lados da cidade.
Como se tivesse lido seus pensamentos, Becka se apoiou no 
corrimo e disse:
        O Bill Childers me disse que receia que voc e o Will 
tenham brigado.
O pai de Will, o recm-eleito prefeito de Trinity, era um dos 
contatos regulares e melhores amigos de Becka.
        O qu? No, est tudo bem entre a gente  disse Jack.  
 s que as coisas tm estado meio complicadas com o 
horrio de trabalho do Will. Alm disso, ele est no time de 
futebol e tem os treinos e... tudo mais.
        Isso  outra coisa estranha. Voc nem tentou entrar no 
time este ano.
Ela fez uma pausa e, como ele no falou nada, continuou:
        Por que no? Voc adora futebol, ou costumava adorar.
        Eu s... s achei que no tinha tempo, por causa das aulas.
        O Bill perguntou se a Ellen tem vindo muito aqui. Acho 
que ela tambm est entre os desaparecidos.
Ellen morava com a famlia de Will.
        . A gente tem... ahn... passado bastante tempo junto. Em 
caminhadas.
Jack deu uma olhada no relgio. Ele e Ellen fariam o 
prximo turno juntos na muralha, e ela lhe daria um pontap 
se ele se atrasasse. Ela seguia bem a linha "disciplina militar" 
no que se referia  segurana do santurio.
        A Ellen j decidiu o que vai fazer no prximo outono?
        O qu? Ah. Ela ainda est pensando a respeito.
        Estou preocupada com ela.  to inteligente e tem tanto 
potencial. Mas no parece estar nem pensando no futuro.  
Becka espanou a poeira do pilar do corrimo com a bainha 
da camiseta.  Se o problema  dinheiro, eu posso dar uns 
telefonemas. Dou um jeito de angariar a quantia que ela 
precisa para ir para a faculdade.
E ela faria isso mesmo. Becka sempre oferecera ajuda a quem 
precisasse.
Ela era tambm pacifista. Por isso ele no sabia como contar 
a ela que, se no fosse a crise iminente em Trinity, a sada 
vocacional bvia para Ellen seria um posto num exrcito 
mercenrio mgico.
        Voc sabe que o dia de visita  Faculdade de Trinity  
amanh.
"Xiiii."
        Eu preciso mesmo ir? Sinto como se eu tivesse passado a 
vida inteira naquele campus. Acho at que poderia liderar a 
excurso e contar os segredinhos sujos de quase todos os 
professores.
Becka riu.
        Tenho certeza de que sim. Mas desta vez voc vai estar l 
num papel diferente.  Ela fez uma pausa.  Odeio admitir 
isso, mas talvez o seu pai tenha razo. Sobre voc ir  escola 
numa outra cidade, seja da Ivy League ou no.
        Me, eu...
Becka foi em frente.
        Voc viveu aqui por toda a vida. Nunca conheceu outro 
ambiente. Pra ser sincera, estou surpresa que voc queira ir 
para a Faculdade de Trinity. Sei que morar numa cidade 
pequena d nos seus nervos. s vezes a gente precisa ir pra 
outro lugar pra apreciar o que se tem aqui.
        Eu aprecio o que tenho aqui  disse Jack, em desespero. 
 No quero ir para uma escola em outra cidade. Trinity 
est bom para mim.
        Escute s o que voc est dizendo: "Trinity est bom para 
mim". Quando eu tinha a sua idade, mal podia esperar pra ir 
para a faculdade. Queria ficar o mais longe possvel dos meus 
pais. Queria viver num dormitrio estudantil horroroso, 
mergulhar nos poetas ingleses e ficar fora a noite toda.  Ela 
franziu a testa e mordeu o lbio.  Certo. Esquea essa 
ltima parte.
Ele fez o melhor que pde para evitar uma mentira explcita.
        Sinto como se este ano fosse como... sabe como ... o 
momento da virada. Como se nada fosse ser igual depois 
dele. O Fitch vai pra Stanford. O Will vai para a universidade 
estadual de Ohio. Sei que eles vo voltar nas frias e tudo, 
mas mesmo assim.  Ele fitou o cho, evitando os olhos 
dela.  O Seph, a Ellen, o Jason e eu... a gente s est 
tentando encontrar o nosso caminho. Quero viver este 
vero antes de fazer planos para o resto da minha vida. 
Espero que voc possa... confiar em mim.  Ele a encarou. 
 Acredite em mim. No acho que o meu futuro vai 
depender de se vou entrar na Escola de Direito de Harvard 
ou no.
Ela estudou-lhe o rosto, depois assentiu com a cabea.
        Muito bem. Vou deixar voc sossegado. Mas quero que v
at a seo de alunos amanh e se matricule em alguns
cursos. Voc sempre pode desistir depois, mas se decidir em
setembro que quer cursar, no vai conseguir vaga.
        Certo.  Ele transferiu o apoio de um p para o outro,
sentindo o peso da Sombra Assassina s suas costas. 
Obrigado, me. At mais tarde.
Em passos rpidos, tentando recuperar o tempo perdido,
Jack atravessou o campus a caminho do parque Perry.
Construes cobertas de hera se agrupavam pelos canteiros.
rvores altas sombreavam as caladas de pedra que se
entremeavam aos gramados. Era um lugar para se isolar do
mundo exterior. Mas o mundo exterior tinha a mania de
invadir a vida de Jack.
Apesar das passadas velozes, foi interceptado antes de chegar
 orla do arvoredo. Will Childers apareceu de um lado e
Harmon Fitch do outro. Vestiam cales esportivos e
camisas de futebol e carregavam bolsas, o que indicava que
acabavam de vir do treino de futebol. Jack sentiu uma
pontada de inveja.
        Ei, Jack  disse Fitch, acompanhando o passo, apesar da
passada mais longa de Jack.  O que  que h?
        Faz tempo que a gente no se v  acrescentou Will.
        No  verdade  disse Jack.
"Devia ser o dia de ir ver o que  que h com o Jack", pensou
ele.
        Fitch, voc acha que ele sabe que a gente vai embora 
daqui a uns trs meses?
        No  possvel, Will. Se soubesse, ele seria mais atencioso 
com os velhos amigos. Ia se sentir nostlgico em relao aos 
velhos tempos. Estaria pensando na grande despedida que se 
aproxima.
        Ento aonde voc vai, Jack?  indagou Will, puxando a 
bolsa de Jack.  Jogos de guerra na floresta?
        Como a gente pode ajudar?  perguntou Fitch.  A 
gente foi buscar o Jason. O que mais a gente pode fazer?
        Esta guerra no...
        Eu sei  disse Will, erguendo a mo para deter o discurso. 
 Esta guerra no  nossa. S est acontecendo na nossa 
cidade e envolve todos os nossos amigos. Vamos fingir que 
discutimos sobre isso e finalmente concordamos que esta 
guerra  nossa.
        Tudo bem  disse Jack, cedendo.  Venham. Vou 
mostrar o que a Ellen e eu temos aprontado.
No que houvesse muito para eles verem. O parque Perry se 
estendia alm dos limites da cidade de Trinity. Mercedes 
havia colocado o porto Weir bem no meio da floresta, na 
esperana de que o trfego fosse menos perceptvel pelos 
cidados no mgicos. Nick Snowbeard havia construdo 
uma barreira em torno do porto para afastar os Anaweirs 
que fizessem suas caminhadas por l. Era um feitio de 
confuso um pouco mais elaborado. Jack teve de criar uma 
abertura para Will e Fitch. Ainda assim, a passagem pela 
barreira no foi muito agradvel para nenhum deles.
        Isso me lembra a Ravina do Corvo  disse Will, 
estremecendo.
Fitch ficou to plido que as sardas se salientaram no rosto 
dele.
        Por que tem que ser to horrvel?
        Fica ali logo em frente  disse Jack, indicando a Will e 
Fitch a direo correta.
        O qu?  Fitch espiou em volta, entre as rvores.  
Onde?
        Est bem ali  disse Jack, gesticulando.  Est terminada, 
finalmente. Tem... ahn... cerca de doze metros de altura e 
quatro e meio de largura. A gente est indo para o porto.
Jack abriu o zper da bolsa e tirou de dentro a Sombra 
Assassina.
Will olhou para ele, desconfiado, como se algum estivesse 
tentando lhe passar um trote.
        Voc quer que a gente acredite que tem uma muralha ali.
Jack assentiu com a cabea, testando a espada nos ares, 
sentindo a excitao costumeira da conexo com a Sombra 
Assassina. A lmina cintilava sob a luz que era filtrada pelas 
rvores.
        Eu vi aquele outro lance de muralha-barreira. Na Ravina 
do Corvo  disse Fitch.  Mas no enxergo esta aqui.
        Isso  porque esta  s para os dotados. So os nicos que 
conseguem enxergar. Vocs podem passar direto atravs 
dela.  Ele atou o boldri e deslizou a espada para dentro da 
bainha.  Lembram quando o Seph veio para Trinity pela 
primeira vez, e aqueles magos puseram uma barreira pra 
manter ele do lado de fora? Mesmo tipo de coisa.
Mas no era o mesmo tipo de coisa, de forma alguma. 
Warren Barber havia construdo uma monstruosa teia de 
aranha em torno de Trinity com a inteno de capturar Seph 
McCauley. Era bastante eficaz  tecida com gavinhas que 
pareciam cobras, que agarravam quem tentasse atravessar.
Mas Mercedes no tolerava a idia de construir algo que no 
acrescentasse beleza ao mundo. Por isso aquela muralha era 
uma estrutura elegante, como o baluarte cristalino de algum 
castelo de fadas, coberto com ameias, flores, torres grandes 
e pequenas. Flmulas do Drago Prateado tremulavam nas 
torres.
O porto era um barbac impressionante que se projetava da 
muralha.
Jack escutou Ellen antes de a avistar.
 Venham e tentem passar por mim  gritou ela.  Quem 
quer ser o primeiro?
Jack ouviu a msica da espada sendo brandida.
A isso seguiu-se o sibilar distorcido de vozes.
Jack libertou a Sombra Assassina, atravessou a arcada 
correndo e encontrou Ellen, com a Abridora de Caminhos 
na mo, enfrentando quatro magos irritados.
Ellen estava plida, determinada e mais do que um pouco 
abalada. Por um bom motivo. Alinhados contra ela estavam 
o velho inimigo de Ellen, Geoffrey Wylie da Rosa Vermelha, 
e aquela que fora a cirurgi de Jack e quisera ser sua mestra 
guerreira, Jessamine Longbranch da Rosa Branca. Os dedos 
de Jack tocaram o lugar no peito onde ela fizera a inciso, 
salvando-lhe a vida e mudando-a para sempre.
Inacreditavelmente, ali estava tambm Claude D'Orsay, o 
cmplice de Gregory Leicester que havia dado o golpe em 
Second Sister a fim de roubar das Rosas o controle sobre as 
ordens. O que ele estava fazendo na companhia daqueles 
dois agora?
Junto com D'Orsay estava um menino loiro, de cerca de 14 
anos, que observava tudo com vido interesse. De vez em 
quando D'Orsay se inclinava e dizia algo ao garoto, como se 
estivesse explicando.
"Algum tipo de aprendiz de monstro?", perguntou-se Jack.
Era como uma daquelas cenas em que se confronta os 
demnios do passado. Ele jamais pensou que veria os lderes 
de ambas as Casas de Magos trabalhando juntos. Muito 
menos chegando  reconciliao com Claude D'Orsay. 
Aquilo dava calafrios em Jack.
        Que bom que pde vir  resmungou Ellen entre dentes 
cerrados quando Jack tomou o lugar dele junto a ela.
Os magos se movimentaram tambm, todos tentando recuar. 
Ningum parecia ansioso para enfrentar a Sombra Assassina.
        Onde voc estava?  indagou Ellen.
        Fiquei preso em casa. A minha me queria saber onde 
temos passado todo o nosso tempo, e se voc vai pra 
faculdade.
        Oh. O que voc disse pra ela?
Os magos avanaram. Jack fez chamas explodirem da ponta 
da espada, forando-os a recuar.
        Falei que a gente est tentando encontrar o nosso 
caminho.
Ellen assentiu, com relutncia.
        Foi uma boa.
Na verdade, Jack achou que, como um grupo, os magos 
pareciam meio doentes e abatidos. Mas tambm pareciam 
animados, como se tivessem acabado de ver a cura chegando 
ao horizonte. Eles ficavam olhando em direo ao centro da
cidade, como limalhas de ferro alinhadas diante de um 
poderoso m, embora Claude D'Orsay se mantivesse um 
pouco distante.
Jessamine Longbranch finalmente se adiantou, empurrando 
os outros com os ombros.
        Jackson, estou feliz que esteja aqui  disse ela, jogando 
para trs a juba de cabelos negros.  Essa guerreira se recusa 
a nos deixar entrar no santurio. Diga a ela que saia da frente 
antes que eu faa algo irreversvel.
        Voc perdeu a cabea  retrucou Ellen.  Isso  
irreversvel.
A Abridora de Caminhos cantou num amplo arco, lanando 
fascas sobre o grupo de magos. Longbranch pulou para trs, 
quase caindo.
        Novas regras, doutora Longbranch  disse Jack.  O 
santurio est fechado at segunda ordem.
        Por ordem de quem?  indagou Wylie. A voz do mago 
tinha um toque sibilante e seco, como ar escapando de um 
pneu, e o rosto dele, marcado por uma cicatriz, estava 
contorcido numa carranca.
        Da Comisso do Santurio  respondeu Jack.
        Bobagem  disse Wylie.  Os magos esto se matando 
uns aos outros por todo o mundo. No temos tempo para 
lidar com as ordens servis.
Ele avanou como se tivesse a inteno de passar. Jack jogou 
o mago para trs com um golpe de ar, fazendo-o cair de 
costas.
Jack estendeu a Sombra Assassina, pressionando a ponta 
contra o pescoo de Wylie at que comeou a escorrer 
sangue. Os outros magos se remexeram em desaprovao, 
resmungando entre eles. Wylie fitou a lmina, os olhos 
arregalados e meio vesgos.
        Da prxima vez vou mais fundo  disse Jack, afastando a 
Sombra Assassina de Wylie e dando um passo para trs. Ele 
estremeceu. O que estava acontecendo com ele? Ele se 
lembrou do tempo em que a idia de fazer algum sangrar 
parecia impensvel.
Longbranch olhou de relance para Wylie como se no se 
importasse de v-lo com o traseiro no cho, depois se voltou 
para Jack.
        Voc sempre foi to deliciosamente fsico, Jack  disse 
ela, como se ele fosse algum tipo de curiosidade brbara e 
explosiva.  Agora escute aqui. Exigimos falar com o mago 
no comando dessa nova poltica.
Uma nova voz falou:
        Esse sou eu.
Cabeas se voltaram.
Seph McCauley no havia se vestido para o papel (trajava 
uma camiseta preta e jeans), mas Jack precisava admitir que 
ele tinha certa presena que fazia com que as pessoas o 
levassem a srio. Cada vez mais, ele fazia Jack se lembrar de 
Hastings. Era algo alm da aparncia: era a aura de poder que 
emanava de Seph, ou talvez a intensidade que parecia mal 
contida dentro dele.
Longbranch estreitou os olhos para observar Seph.
        Voc est no comando?
        Bem...  Seph deu de ombros com modstia.  Da 
segurana, pelo menos.
        Ento  verdade. Este lugar est realmente sendo 
administrado por novatos adolescentes.
Seph deu um meio sorriso.
        Se fosse uma questo de idade, eles teriam escolhido a 
pessoa mais velha.
Wylie lutou para se levantar, limpando as roupas com as 
mos, lanando a Jack um olhar venenoso que dizia que ele 
se arrependeria algum dia.
Mas no hoje. Jack havia recebido tantos daqueles olhares 
vindos de magos que apenas acrescentou mais um  conta.
De repente, Nick Snowbeard estava l. Ele sempre tivera a 
incrvel habilidade de aparecer do nada. No era que se
movesse mais rpido do que a luz. Era como se as pessoas
simplesmente no o houvessem notado at aquele
momento.
        Jessamine, Geoffrey. Por favor  disse o velho mago. 
Parem de desperdiar o nosso tempo e digam o que diabo 
vocs querem.
Longbranch olhou para o centro da cidade, onde a torre do
sino da Igreja de St. Catherine despontava acima das rvores.
Ento se voltou para Nick.
        Esses jovens guerreiros esto nos negando entrada.
Nick fez um gesto de aprovao com a cabea.
        Esse  o trabalho deles. Por ordem da Comisso e do Seph,
como responsvel pela segurana.
        Vocs no podem fazer isso  rosnou Wylie.  Temos
tanto direito de entrar quanto qualquer um.
        O que est havendo?
Cabeas giraram novamente. Jason Haley saiu de dentro do
arvoredo.
        Ento voc est aqui  disse D'Orsay baixinho, mas alto o
bastante para Jack ouvir.
O menino loiro junto a ele bateu no brao de D'Orsay e
apontou para Jason, sussurrando algo ao Mestre de Jogos.
        Ora, ora, Jason Haley.  Wylie olhou para Jason como
algum olharia para uma ex-namorada com quem talvez no
devesse ter rompido.  No o vejo desde Second Sister.
        Ah, sim,  verdade: quando o Seph e eu salvamos a pele
de vocs.  Jason se virou e cambaleou para trs, fingindo 
perceber D'Orsay pela primeira vez.  D'Orsay! 
D'Orsayzinho! To longe de casa? Que se passa?  
perguntou, abrindo um sorriso de crocodilo.
D'Orsay inclinou a cabea.
        Senhor Haley  disse ele, os olhos cintilando, parecendo 
igualmente predatrios.
Jason olhou de Longbranch e Wylie para D'Orsay, e de novo 
para os dois primeiros.
        Epa, isso no  possvel. Voc est com eles?  Jason 
pressionou as costas da mo contra a testa, como para 
verificar se estava com febre.  Espere a, isto  um sonho?
        Se no nos deixar entrar, exigimos uma reunio  disse 
Longbranch, esforando-se ao mximo para ignorar Jason.
        Perdoar e esquecer,  isso?  Jason deu um sorriso 
irnico.  Beleza.
        ... com quem quer que esteja em posio de negociar
        continuou Longbranch com teimosia.
        Ei, D'Orsays, eu ficaria esperto, se fosse vocs  
prosseguiu Jason.  Trancaria as minhas portas, mudaria a 
minha senha, contrataria um provador de comida e sabe l o 
que mais. Esse  o grande lance com os magos: nunca se 
sabe de um dia pro outro quem est com voc ou contra 
voc.
        Tudo bem, Jess  disse Nick, parecendo lutar para conter 
o riso. Vamos deixar voc entrar em uma reunio.
        Ele olhou para Seph.  O que voc sugere?
        No mais do que trs magos  disse Seph, observando os 
candidatos.  Nada de sefas.
        Certamente Devereaux pode vir junto  disse D'Orsay. 
 Ele  s um menino, afinal, e detesto deix-lo sozinho.
Seph hesitou, depois assentiu.
        Muito bem. Jack, Ellen, talvez a gente deva trazer mais 
alguns guerreiros para reforar o porto.

 

Jason notou que Longbranch e Wylie ficavam lanando 
olhares para ele durante todo o trajeto at o pavilho. Dava 
quase para ver as engrenagens girando, o que era estranho, 
pois a maioria dos magos no tinha dificuldade em sorrir para 
algum enquanto lhe passava o brao por trs e lhe 
esfaqueava as costas.
D'Orsay mantinha Devereaux perto de si, como se Jason 
pudesse atac-lo assim que tivesse uma oportunidade. Jason 
sorriu para os dois do jeito menos tranqilizador possvel.
Eles se acomodaram ao redor de uma mesa de piquenique de 
madeira vermelha.
        Ento  disse Nick, juntando os dedos nodosos em forma 
de torre sobre o tampo da mesa , qual  o problema?
Longbranch tirou uma farpa de madeira da palma da mo.
        O mundo dos magos est um caos. Assassinatos, roubos, 
batalhas campais. Alguns dos tesouros foram saqueados e as 
armas roubadas.  cada mago por si. As leis esto sendo 
esquecidas. No entanto, quando viemos ao santurio, o 
encontramos fechado para ns.
Seph pigarreou, os cantos da boca se revirando.
        Ahn... Esto dizendo que esto aqui como... refugiados?
        Estamos dizendo que precisamos trabalhar juntos para 
restaurar a ordem entre as ordens  disse Wylie com calma.
        A necessidade de restaurar a paz j uniu antigos inimigos 
 disse D'Orsay em tom solene, gesticulando em direo a 
Wylie e Longbranch.  Torcemos para que concordem em 
se juntar a ns tambm.
"Daqui a pouco eles vo comear a cantar o Kumbaya", 
pensou Jason, tamborilando os dedos na mesa.
        E a o que acontece?  indagou Jason.
Wylie endireitou as mangas para ganhar tempo.
        O que quer dizer?
        Quem est no comando?
        Tenho certeza de que podemos chegar a um... acordo 
satisfatrio em relao a um governo compartilhado  disse 
Longbranch, arqueando as sobrancelhas negras.
        Vocs tinham algo especfico em mente quando disseram 
que deveramos trabalhar juntos?  indagou Nick.
Os trs magos se entreolharam.  claro que tinham.
D'Orsay falou pela primeira vez.
        Sabemos que o Haley invadiu a Ravina do Corvo e roubou 
alguns artefatos mgicos importantes... Sefas que esto na 
minha famlia h geraes.  D'Orsay olhou para Jason 
como ele fosse desmoronar e confessar.
        Artefatos que, por direito, pertencem a todos ns  
observou Wylie.  Temos motivos para acreditar que eles 
esto aqui no santurio.
        E aonde vocs querem chegar?  perguntou Nick, sua 
lendria pacincia se esgotando.  O que vocs querem?
        Queremos o que foi levado da ravina  disse Longbranch. 
 Queremos o Corao do Drago.
Era como se ela houvesse soltado uma bomba no meio da 
mesa. Todos ficaram congelados, fitando uns aos outros.
        O Corao do Drago  disse Seph, devagar e 
deliberadamente.  Que, na verdade, ...
         a arma do sculo  retrucou Wylie.  Incrivelmente 
poderosa.
        Mesmo?  Jason se inclinou para a frente.  Quem disse 
isso pra voc?
        Temos o livro que voc deixou cair na ravina quando 
atacou o meu filho  disse D'Orsay, dando um tapinha no 
ombro de Devereaux.
        Na verdade, foi ele que pulou em cima de mim  
retrucou Jason.
        Quando voc estava invadindo.  Devereaux levantou-se 
parcialmente do assento.  Voc  um ladro,  isso o que 
voc .
        Devereaux, agora no  o momento  murmurou 
D'Orsay, puxando o filho de volta para a cadeira.
Devereaux libertou o brao com um puxo, fazendo uma 
careta.
D'Orsay fingiu no notar.
        O dirio diz muito claramente que qualquer um que 
controle o Corao do Drago vai governar as ordens. Ou 
destru-las.
        Vamos us-lo para restaurar a ordem  disse Longbranch. 
 E assegurar uma paz duradoura.
        Restaurar a ordem  disse Nick, pensativo.  Um 
negcio complicado, com certeza.
        No tente negar que ele est aqui  avisou Longbranch, 
as faces coradas, como se estivesse sentindo muito calor.  
Podemos sentir a presena dele. Certamente voc 
compreende que as coisas no podem continuar como esto. 
Uma vez que a situao seja estabilizada, todos nesta mesa 
tero um papel a cumprir  declarou, varrendo a todos com 
os olhos.
"", pensou Jason. "Eu vou fazer o papel de cadver. Um 
entre muitos."
        Se tivssemos uma arma  disse Seph , por que a gente 
compartilharia com vocs?
Wylie sorriu.
        Sefas poderosas devem ser manuseadas com delicadeza e 
habilidade. Seno  mais arriscado us-las do que deix-las 
em paz. Estamos dispostos a correr esse risco por vocs.
        Que generoso  resmungou Nick,  Vocs tm alguma 
idia de como utilizar o Corao do Drago? Ou vai ser um 
chute no escuro?
        No se preocupe  disse D'Orsay, com alegre confiana. 
 O texto dava instrues detalhadas e explcitas.
        No me lembro de ter visto isso  replicou Jason.
Ele dera apenas uma olhada rpida, mas o Corao do Drago 
s havia sido mencionado na ltima pgina, quando o drago 
estava morto e a serva morrendo.
        Voc deve ter deixado passar essa meno  disse 
D'Orsay, enquanto Longbranch e Wylie fitavam-no com 
suspeita.
        Enfim  disse Wylie.  Acho que podem ver que  do 
interesse de vocs cooperar. Caso contrrio, podemos tornar 
a vida de vocs bastante desconfortvel.
        Se lhes entregssemos uma arma incrivelmente poderosa, 
parece-me que vocs poderiam ir muito alm do 
desconfortvel  comentou Nick.
Os olhos de Longbranch cintilaram de irritao.
        Deixe-me ser clara. Entreguem o Corao do Drago e 
vocs governaro as ordens ao nosso lado. Recusem-se e 
vamos destruir esta cidade com tudo e todos dentro. At a 
criana mais jovem e seu bichinho de estimao.
"E l se vai o Kumbaya", pensou Jason.
Nick levantou-se abruptamente, um sinal de que a reunio 
havia terminado.
        Deixamos vocs entrarem e dizerem o que queriam. 
Agora falo eu.  Ele fez uma pausa, olhando para todos ao 
redor da mesa.  Tenham cuidado e vejam bem a quem 
vocs ameaam, ou podero acabar como vtimas de um 
poder que nem conseguem imaginar.
        O que esto dizendo?  rosnou Wylie.  Vocs nem...
Seph se esticou em toda a sua altura, uma cobra letal se
desenrolando.
        O que estamos dizendo : se atacarem o santurio, ns
vamos usar o Corao do Drago. Ser o ltimo erro que
cometero.

Longbranch levantou-se e fez um gesto para Wylie.
        Se entrarmos em guerra, ningum dentro destes muros vai 
sobreviver.  Ela lanou um olhar venenoso para Will e 
Fitch, que estavam nos arredores.  E isso inclui a sua 
famlia e os seus amigos Anaweirs.
Nick ergueu a mo com impacincia para conter a torrente 
de ultimatos.
        Jason, voc poderia acompanhar os nossos visitantes at o 
porto.
Jason se levantou.
        Com prazer.
Eles caminharam na direo do porto, Jason e Longbranch 
lado a lado, e Wylie, D'Orsay e Devereaux  frente. 
Longbranch diminuiu o passo para que os que estavam  
frente se distanciassem mais.
Mal estavam fora do alcance dos ouvidos dos outros, 
Longbranch se voltou para Jason.
        Voc parece ser um jovem bastante esperto. Apesar disso,
foi enviado para fazer o servio arriscado na Ravina do
Corvo, enquanto o McCauley, o Snowbeard e o Hastings
davam as ordens.
Jason olhou direto em frente.
        Eu... ahn... me ofereci como voluntrio.
        Por qu?
        Tenho meus motivos.
Ela ps a mo no brao dele, e ele sentiu a fisgada do poder.
Ele se virou, e eles ficaram frente a frente, envoltos num
crculo de rvores.
        A pedra pertence a voc, por direito  disse Longbranch.
 Voc a trouxe da ravina. Voc  que deveria se beneficiar
dela.
Jason no disse nada. A pedra nunca sara de seus
pensamentos e era ainda mais inebriante agora que estava ao
seu alcance.
Encorajada pelo silncio dele, Longbranch foi em frente.
        O que voc quer? Voc poderia subir na hierarquia, se isso
lhe agrada. Ou voc poderia se esquivar da poltica e viver
como um rei com um squito de encantadores, feiticeiros e
Anaweirs para servi-lo. Podemos dar a voc acesso ilimitado
a qualquer coisa que o faa feliz.
        Qualquer coisa que me faa feliz?
        Sim  sussurrou Longbranch, inclinando-se para perto.
 O que  que voc quer?
        D'Orsay.
Longbranch pestanejou, momentaneamente sem fala.
        O qu?
        Quero a cabea de D'Orsay. Foi por isso que me ofereci 
pra ir at a ravina.  Jason deu um sorriso torto.  Mas, por 
outro lado, voc vem tentando pegar o cara h meses sem 
sucesso. Eu cheguei mais perto do que voc jamais chegou e 
sa vivo. Por isso no tenho nenhum motivo pra achar que 
voc pode fazer esse servio pra mim.
Longbranch olhou de relance para Wylie e D'Orsay, depois 
de novo para Jason e sorriu. Dessa vez com sinceridade.
        No se preocupe com isso. Voc me entrega o Corao do 
Drago, e eu lhe entrego o D'Orsay.

Captulo Vinte e Quatro
Idiota

Leesha conhecia de cor a planta do apartamento. Andara de 
um lado para o outro milhares de vezes, da porta que levava 
para fora e para a liberdade, passando pela cozinha bem 
equipada e pela sala de estar at o minsculo quarto. Todos 
os aposentos forrados de estantes de livros. Todas as estantes 
cheias de livros.
Ela dormia num colcho japons no segundo andar, no 
escritrio com prateleiras de pergaminhos, latas de meleca 
misteriosa e garrafas de poes fedorentas. As escrivaninhas 
estavam entulhadas de manuscritos, plantas arquitetnicas, 
objetos mgicos no identificados e mquinas esquisitas.
O velho lhe dissera em quais objetos ela no deveria mexer 
e, depois de duas semanas, ela viu que era melhor mesmo 
no tocar em nada daquilo. Leesha chupava os dedos 
cobertos de bolhas, distrada, apanhava objetos que no lhe 
eram proibidos e os colocava de novo no lugar.
O ponto alto do dia foi quando a me de Jack, Becka, saiu de 
casa, entrou no carro e deu partida.
Leesha at sentia saudades de tia Milli. Embora viver com ela 
fosse, de certo modo, aterrorizante, a tia sempre dera a 
Leesha o tempo e a ateno que ela no recebera de 
ningum mais.
Mesmo assim, ela sabia, no fundo do corao, que havia 
coisas bem piores do que ficar escondida no apartamento de 
Nick Snowbeard, sobre a garagem, cercado de feitios de 
proteo.
Barber estava l fora em algum lugar. Pelo menos agora, com 
a muralha erguida, ele no podia entrar e sair livremente da 
cidade. Com sorte, ele pensaria que ela estava morta. At ali, 
no corao do santurio, ela estremecia ante pequenos 
rudos e acordava no meio da noite suando frio.
Toda vez que pensava em Jason ficava com o estmago 
embrulhado, o que significava que se sentia nauseada todo o 
tempo. Uma lembrana lhe voltou: o sol reluzindo por entre 
os pinheiros nevados, a minscula coruja de penas eriadas, 
os brilhantes olhos azuis de Jason e a nsia dele de lhe 
mostrar algo novo.
"Seria bom se a gente pudesse apenas ficar juntos", dissera 
ele, sem tentar extrair nada dela alm de sua companhia.
Como ela pudera entreg-lo a Barber? Por que no era 
possvel voltar e consertar os erros da vida?
Ela no estava acostumada  culpa. Estava acostumada a ser 
uma jogadora. Estava acostumada a ter opes, a sempre 
planejar o prximo passo. Ela poderia procurar outros aliados 
 Longbranch e Wylie, por exemplo. Poderia voltar a 
procurar D'Orsay. O Corao do Drago poderia ser o 
caminho para chegar  boa vontade deles.
Ela sentia a atrao constante do Corao do Drago, noite e 
dia. Era como uma corda ligada  sua pedra Weir. Era como 
se a pedra houvesse despertado, e seu poder florescente 
pulsasse por todo o santurio.
Encontr-lo no era o problema, embora ele estivesse, com 
certeza, fortemente protegido por feitios. O problema dela 
era que estava imobilizada, deprimida pela perda. No queria 
mais ser uma jogadora.
Como se seus pensamentos houvessem invocado o demnio, 
Leesha ouviu um barulho na garagem. Depois o lento som 
ritmado de passos nas escadas. Uma chave girou na 
fechadura, e a porta se abriu.
Era Snowbeard. O velho ficou postado  entrada, pacotes nas 
mos, o sorriso se transformando em perplexidade.
        Voc est bem, Alicia?
Ela engoliu o medo que sentia.
        Como acha que estou?  murmurou ela.
        Ah.  Ele avanou arrastando os ps, largou as chaves 
num prato junto  porta e depositou um saco da padaria e 
uma lata de ch na mesa.  No conseguiu se divertir?
A pergunta a fez se sentir culpada, como se pudesse evitar o 
tdio.
        Me divertir? Como?
Snowbeard ps a chaleira no fogo, apanhou um prato do
armrio sob a pia e disps sobre ele uns brownies de
aparncia pecaminosamente deliciosa.
        Tentou ler algum dos livros que separei pra voc?
Ela balanou a cabea, de olho nos brownies.
        No conseguia me concentrar.
        Que pena! So alguns dos meus favoritos. Tinha esperana
de que pudssemos discuti-los esta noite.  Ele fez um
gesto em direo  mesa.  Por favor, sente-se. Vamos
jantar daqui a pouco, mas creio que devamos comer
primeiro a sobremesa. Gostaria de um ch, caf, refrigerante?
Ela escolheu ch, depois foi para a mesa e se sentou.
Ela mordeu um brownie. Ficou feliz de ter o metabolismo de
uma maga. O velho trazia doces fantsticos todos os dias.
Quando a chaleira apitou, ele a trouxe para a mesa e serviu o
ch. Depois se sentou tambm.
Leesha soprou o ch e pegou outro brownie.
        No agento isso  disse ela.  No saber o que est 
acontecendo, quero dizer.
        Bem, vejamos. A gente se encontrou com o Wylie, a 
Longbranch e o D'Orsay hoje  disse Snowbeard.
Leesha engasgou com o ch, cuspindo sobre a mesa.
Snowbeard fingiu no notar.
Leesha limpou a toalha com o guardanapo.
        Todos eles juntos?
O velho assentiu com a cabea.
        Parece que eles descobriram um denominador comum.
Todos eles odiavam Alicia Middleton, para citar um.
        O que... o que eles disseram?
        Pediram permisso para entrar no santurio.
Leesha apertou a xcara de ch.
        E vocs disseram...?
        Ns recusamos.
        Eles disseram por que queriam entrar?
        Eles querem o Corao do Drago.
        O Cora... o que  isso?
Snowbeard balanou a cabea, parecendo desapontado.
        Ora, faa-me o favor.
Ela se irritou.
        No ligo para o que qualquer um pense, eu nunca...  
Parou de falar quando os olhos do velho a pregaram  
cadeira. Ela engoliu em seco.  E agora?
Ele deu de ombros e apoiou as mos enrugadas na mesa.
        Eles ameaaram destruir a todos ns.
        O que vocs disseram?  indagou Leesha, sem conseguir 
conter o interesse.
        Para resumir, dissemos que eles podiam vir e tentar.
Snowbeard sorriu e at ganhou certo ar juvenil.
        Uau, voc est... hum... confiante.
Snowbeard esfregou a lateral do nariz.
        Temos armas com as quais eles nem sonham.
        O que vocs vo fazer comigo?
Leesha observou o velho, torcendo para que ele trasse suas 
intenes. Eles iriam mat-la. Sabia disso. No fazia idia de 
por que estava viva at agora, a menos que estivessem 
esperando por Hastings. Ela havia ajudado na
muralha, mas isso no importaria, no fim das contas. Ela 
seqestrara Will e Fitch, trara Jason e no conseguira 
entregar-lhes Barber.
 claro que eles no sabiam exatamente o que ela fizera com 
Jason.
        A existncia do Corao do Drago e a presena dele no 
santurio  do conhecimento de todos, ao que parece. 
Portanto, voc no tem nenhuma informao que possa nos 
prejudicar. Assim, voc tem uma escolha, minha querida. 
Voc pode deixar o santurio e ir aonde quiser.
        Vocs me deixariam ir?  perguntou Leesha, espantada.
Snowbeard abriu um sorriso afvel.
        Com a condio de que nunca mais volte.
Leesha analisou essa idia como faria com uma pedra 
preciosa, procurando por falhas.
        Os meus inimigos vo me assassinar. O Barber e a doutora 
Longbranch.
        Acho que vai descobrir que eles esto... ocupados com 
outras coisas. A curto prazo, pelo menos. Pode ser um bom 
momento para desaparecer.
Leesha concordou com um gesto de cabea.
        Certo. Voc disse que tenho uma escolha. Qual  a minha 
outra opo?
        Voc pode ficar aqui, como tem ficado.
Ela indicou o apartamento minsculo com um gesto de mo.
        Vou morrer de tdio se ficar aqui por mais tempo.
Morrer de culpa era o mais provvel. Ela precisava de
algo para fazer, algo para parar de pensar em Jason.
A boca de Snowbeard se retorceu.
        No se preocupe. Se ficar, ns vamos achar alguma coisa 
pra voc fazer.
        Por que vocs me deixariam ficar?  Leesha estava 
realmente curiosa.
        Bem, dado o seu histrico, talvez seja melhor ter voc ao 
alcance de nossos olhos. E estamos precisando 
especialmente de magos.  Snowbeard fez uma pausa.  
Antes de tomar uma deciso, h algo que voc precisa saber. 
O Jason voltou duas noites atrs.
Por um momento, Leesha pensou que fosse desmaiar de 
verdade (ela havia fingido desmaiar dzias de vezes). Todo o 
sangue deixou-lhe a cabea e correu para onde quer que o 
sangue v quando se leva um choque.
Se no estivesse sentada, ela teria cado.
        O J-J-Jason voltou? Ele est vivo? Ele est bem?  Ela 
praticamente gritou.
        A resposta a todas essas trs perguntas  "sim".
        No acredito!  Impulsivamente, Leesha abraou o velho 
(no era o tipo de coisa que fizesse normalmente), depois 
recuou e olhou-o com desconfiana.  Voc no mentiria 
para mim, no ?
        No. Eu no mentiria.  Snowbeard estudou-a com um ar 
sagaz.  Embora o Jason tenha tido um encontro bem 
horrvel com o Warren Barber.
Houve uma longa pausa. "Ele sabe", pensou Leesha. O 
velhote sabe. Mas ela estava feliz demais para se importar.
        Certo. O Jason... falou alguma coisa sobre mim?
        Acho que vocs dois precisam conversar um com o outro 
 disse Snowbeard.
Nem mesmo aquela idia era capaz de fazer com que sua 
animao diminusse. No fim, talvez no fosse nada bom 
para ela que Jason estivesse vivo, mas aquilo a deixava 
radiante.
No fundo de sua mente, uma voz gritou: "Voltar e consertar 
os erros".
Talvez.
        Se voc decidir ficar, devo avisar que no vai poder mudar 
de idia mais tarde  declarou Snowbeard.  Uma vez que 
eles tenham sitiado a cidade, vai ser difcil sair.
Era ridcula a idia de que eles logo estariam sob stio. Ela 
sentia a presena cumulativa de centenas de magos como 
um lao se apertando ao redor da cidade. No entanto, sentia 
uma estranha relutncia em partir, como aqueles idiotas que 
resolvem resistir a um furaco num acampamento de trailers.
Havia um poder naquela cidade, como um enorme corao 
pulsando que atraa as pessoas para seu ritmo at que 
marchassem ao som dele, batida por batida. Dar-lhe as costas 
era como se afastar da lareira e mergulhar no frio do 
inverno.
Era o Corao do Drago. Tinha que ser. Mas talvez hou-
vesse mais do que isso. E, se ela ficasse, talvez pudesse achar 
um jeito de reconquistar Jason.
        O que vocs vo fazer com os Anaweirs?  ela se viu 
perguntando.
        Sabe Deus!  Snowbeard revirou os olhos.  Tem 
alguma sugesto?
"Bem", pensou ela, "pelo menos os Anaweirs so maleveis. 
Talvez pudessem ser todos mandados para Cedar Point para 
algumas semanas de frias. Ou postos em barcos e levados 
para o outro lado do lago. Que bom que a faculdade no 
estava..."
Ela ergueu os olhos abruptamente.
        O que est fazendo comigo?  indagou ela.
        Fazendo com voc? Como assim?
Ela e Snowbeard tentaram pegar o ltimo brownie ao
mesmo tempo. O velho partiu-o em dois e deu-lhe metade.
        Voc est me enfeitiando ou algo parecido. Usando
persuaso. Est fazendo com que eu me preocupe com a
droga dos Anaweirs, quando eu devia estar pensando em
salvar a minha prpria pele.

        Minha querida, eu lhe asseguro, se est se preocupando
com os Anaweirs, est fazendo isso por conta prpria.  Ele
se levantou e levou o prato para a pia, depois se virou e se
recostou no escorredor de loua.  Sou um homem muito
velho, Alicia, e cometi muitos erros na minha longa vida,
alguns dos quais imperdoveis. Tenho que acreditar que as
pessoas podem mudar. Que as pessoas merecem uma
segunda chance.
        Eu posso mesmo ficar aqui?  perguntou Leesha com
humildade.
        Foi o que eu disse. Gostaria disso?
Havia toda a sabedoria, mas nenhum trao de julgamento,
no rosto do velho.
        Eu gostaria de ficar  disse ela, simplesmente.
Depois disse a si mesma:
        Idiota.

Captulo Vinte e Cinco
 Espreita

Warren Barber estava ansioso por notcias, preso do lado de
fora e ficando sem opes. Depois de ficar na moita por uns
tempos, retornara a Trinity, torcendo para descobrir quais
haviam sido os resultados do incndio no depsito. Para a
surpresa dele, a cidade estava cercada por uma muralha Weir
com 12 metros de altura, muito mais elaborada do que
qualquer coisa que ele j construra. E quem estava
guardando o porto? Jack Swift e Ellen Stephenson, que
haviam, de algum modo, escapado da armadilha em que os
deixara.
Leesha com certeza estava morta. Ningum alm dele
poderia ter tirado aquela coleira. Mas Leesha morta no era
necessariamente uma boa coisa. Pois no havia nenhum jeito
de ele passar pelos guardas por conta prpria.
Ele se sentia como um menino trancado fora do circo, certo
de que tudo estava acontecendo do lado de dentro. Voltou
para junto da fronteira vrias vezes. Ondulaes de poder
emanavam da cidade  como se algum houvesse atirado
uma pedra no centro de uma poa mgica.
A cidade inteira estava carregada de poder, e ele s queria 
mergulhar nele.
Warren no era o nico matando tempo no lado errado da 
muralha. Havia um verdadeiro acampamento de magos nos 
terrenos e balnerios  beira do lago, em torno da cidade. Ele 
tivera de se esconder quando avistara seu antigo aliado 
Claude D'Orsay junto a Geoffrey Wylie da Rosa Vermelha. 
Eles estavam inspecionando a muralha, testando-a com 
doses cautelosas de magia. Procurando pontos vulnerveis, 
sem dvida.
Qual era a deles? Desde quando eram to amiguinhos? 
D'Orsay deveria estar trabalhando com Warren, contra as 
Rosas.  claro que no tinha havido nenhuma comunicao 
entre eles a no ser por meio de Leesha, e D'Orsay 
supostamente no deveria saber quem era o scio dela. 
Como se Leesha no o tivesse trado de imediato.
Warren comeava a se sentir dispensvel. Haviam se passado 
semanas desde a ltima vez em que algum tentara mat-lo. 
Enquanto algum estivesse tentando mat-lo, sabia que era 
importante.
Ele estava com o Pacto, mas este parecia cada vez mais um 
pedao de papel intil, j que no tinha os meios de 
consagr-lo. No atrara ningum til para ele.
Era uma questo de classe. Warren podia ser um mago, 
governante dos Anaweirs e das ordens, mas os aristocratas 
que lideravam as Casas nunca lhe dariam um assento  mesa.
Aps alguns dias, ele se cansou de ficar ali apenas 
observando os outros. O que ele precisava era de um novo 
scio. Ou, de preferncia, um servo. Ele podia escolher 
quem quisesse entre os Anaweirs, mas queria algum que 
pudesse contribuir mais.
Algum como Madison Moss.
At onde ele sabia, Madison havia deixado Trinity. Ele no
havia encontrado nenhuma pista de para onde ela fora ao
revistar o quarto dela. Mas, se ela no estava em Trinity,
estava em algum lugar.
Foi pateticamente fcil. Ele pegou um carro num
estacionamento prximo e seguiu at Cleveland. Foi at a
biblioteca pblica e entrou na internet. A busca por Madison 
Moss levou a vrios sites de exposies de arte no Condado 
de Coalton em Ohio.
Condado de Coalton. Ele havia seguido Jason Haley at o sul 
do Condado de Coalton. Warren nunca conseguira descobrir 
por que ele estava por l.
Agora sabia. E agora que tinha um nome e um lugar, no 
seria difcil encontr-la.
Brice Roper comeava a pensar que ser mago no era assim 
to maravilhoso. Sim, ele podia ter quase qualquer garota, 
conseguir quase qualquer coisa, incendiar quase tudo o que 
queria.
Mas havia sido assim durante toda a sua vida. Era rico, 
mimado e, desde os tempos mais remotos da infncia, 
concentrava sua ateno naquilo que no tinha. E o que no 
tinha era a habilidade de conseguir o que queria de Madison 
Moss. Isso estava ligado a muitas outras coisas, como 
impressionar o pai  o que era importante, porque no 
conseguia se lembrar de nenhuma vez em que isso houvesse 
acontecido. Aqueles eram os objetivos dele: impressionar o 
velho e depois sair do Condado de Coalton para sempre.
Isso o consumia, mesmo sabendo que deveria simplesmente 
partir e se esquecer da Carvo Roper, do pai e de ser 
humilhado na montanha Booker.
Aquilo estava em seus pensamentos quando acordava, estava 
em seus pensamentos quando ia para a cama e contaminava-
lhe os sonhos. Ele ficava mal-humorado na sala de aula e era 
grosso com os que eram corajosos o bastante para se sentar 
com ele  mesa do almoo. Todo o charme de ser o rei de 
uma corte de alunos do ltimo ano do colgio estava se 
exaurindo.
O fato de seu pai se tornar cada vez mais insuportvel  
medida que desciam a ladeira da runa financeira no ajudava 
em nada. Bryson Roper Pai havia abordado Madison Moss 
formalmente sobre a venda da montanha Booker, e ela 
recusara formalmente. A nica coisa boa era que Bryson Pai 
passava bastante tempo fora da cidade, tentando arrumar 
financiamentos, fazer acordos, encontrar um scio, qualquer
coisa.
Carlene no era de nenhuma ajuda. Ela alegava ter insistido
com Madison at perder a voz, sem que isso fizesse qualquer
diferena.
Brice ainda no compreendia onde Madison se encaixava no
esquema mgico das coisas. Ele andara perguntando a todos,
e ningum ouvira falar de uma ordem de Bruxos. Ningum
alm dos magos exibia aquele tipo de poder.
O que ele no queria admitir era que sentia um frio no
estmago diante da idia de enfrent-la de novo.
Por isso ele passava os dias como um sonmbulo durante as
aulas, evitando o pai e sonhando com vingana.
Certo sbado, ele acabara de voltar de uma longa cavalgada e
passara o cavalo para Mike. Estava caminhando na direo da
casa para tomar um banho bastante necessrio, quando
algum chegou num jipe e estacionou na frente do estbulo.
Eles no recebiam muitos visitantes no anunciados, por isso
Brice esperou, apoiando-se nas estacas do cercado.
Era um rapaz desconhecido, de altura mediana, talvez um
pouco mais velho do que Brice, com cabelos louros
esbranquiados e despenteados e plidos olhos azuis que
eram um tanto assustadores. Caminhava com passos suaves,
flutuando sobre o solo como um predador. Brice sentiu ao
mesmo tempo um forte interesse e um desconforto irritante.
Ele olhou rapidamente para trs, tentando ver se Mike ainda
estava  vista, mas este havia ido levar Annie para o estbulo.
        Posso ajud-lo?  perguntou Brice, fingindo indiferena.
        Talvez  disse o rapaz, sorrindo.  Acho que estou
perdido. Estou procurando por Madison Moss.  A voz dele
era suave, mas, assim como seus passos, chamavam a
ateno.  Ouvi dizer que mora nesta estrada.  aqui?
No, quis dizer Brice. No . Agora d o fora daqui.
Mas no o fez. Aquele cara estava procurando por Madison.
Seria tambm um bruxo? Era por isso que era to ameaador?
        Voc est perdido mesmo  disse Brice, forando um
sorriso.  O que voc quer com a Madison?
        A gente se conheceu no ltimo vero, e venho pro-
curando por ela desde ento  disse o desconhecido. 
Queria fazer-lhe uma surpresa.
Era uma coisa estranha de se dizer, como se o cara a
estivesse espreitando, mas Brice teve a sensao de que o
outro no se importava com o que Brice achava daquilo.
Como se o que ele pensasse no tivesse importncia.
        Talvez ela tenha mencionado voc.  Brice olhou de
novo para trs procurando por Mike, que no havia
reaparecido.  Qual  o seu nome?
- Isso no  importante  disse o rapaz de cabelos claros.
 Como chego  casa dela?
        Bem  disse Brice, tentando parecer desinteressado. 
No vou lhe dar as indicaes sem saber quem voc .
O estranho atacou, rpido como uma cobra, atirando Brice
contra a cerca. Ele agarrou Brice pelos ombros e lanou um
fluxo de persuaso para dentro dele. As defesas mgicas de
reflexo de Brice eram fracas em comparao, mas chamaram
a ateno do rapaz.
        Voc  mago!  exclamou ele, soltando Brice.
Ele parecera surpreso e um tanto cauteloso, mas no
particularmente impressionado.
        V-voc tambm?  gaguejou Brice.
O mago manteve as mos erguidas  altura da cintura, como
que pronto para se defender.
        Ora, ora. Quem diria?  O rapaz fitou Brice, depois olhou
em volta, como se outros magos mais poderosos pudessem
sair inesperadamente de algum lugar.  Em qual Casa voc
est?
        Hum  disse Brice, sentindo uma inferioridade social
com a qual no estava acostumado.  Eu no estou...
afiliado no momento.
        Quer saber de uma coisa? Eu tambm no. Qual  o seu
nome?
        Brice Roper.
         amigo da Madison ou o qu?
        No exatamente  disse Brice, imaginando que aquela era
a resposta mais segura. O outro mago ainda no lhe dissera o
prprio nome. Era mais um interrogatrio do que uma
conversa.  Ela  uma conhecida, s isso. Foi minha colega
na escola.
        Vocs no esto namorando, ento, nem nada?  O tom
do rapaz era ligeiramente zombeteiro.
        De jeito nenhum!  Brice no conseguiu afastar a
amargura da voz.
O rapaz sorriu.
        Ento no se importa se eu fizer uma visita a ela, no ?
Brice se sentiu lisonjeado. Era um tipo de lance entre magos,
como se o rapaz pedisse permisso para entrar no territrio
dele.
        Bem, acho que gostaria de saber o que voc quer com ela.
No que Brice estivesse preocupado com Madison, mas
quela altura sua curiosidade fora despertada.
        No se preocupe. No desejo nenhum mal a ela.  O
rapaz sorriu, os olhos cintilantes.  No se ela cooperar.
Brice fitou o outro mago. A esperana venceu a surpresa.
Talvez houvesse encontrado a soluo para o problema dele.
Um modo de se vingar de Madison.
Mas a ele se lembrou do episdio na montanha Booker. Ser
que aquele mago arrogante sabia o que ela era capaz de
fazer?
        Bem  disse Brice.  Ela... hum... no foi cooperativa no
passado. Eu teria cuidado, se fosse voc.
         mesmo?  disse o rapaz, avaliando-o com uma
intensidade sbita.  Me conte mais.
        Por que no vamos at a casa?  sugeriu Brice.  A
contarei tudo o que sei sobre ela.  Ele se virou na direo
da casa, ento parou, recobrando um pouco de confiana. 
Voc disse que o seu nome era qual mesmo?
A irritao cruzou o rosto do rapaz, e Brice achou que havia
cometido um erro. Ento o mago sorriu e estendeu a mo.
        Na verdade, eu no disse. Eu me chamo Warren Barber.

Captulo Vinte e Seis
Terra de Ningum

Jason pronunciou o feitio de imperceptibilidade e passou
pelo porto Weir, ouvindo o sussurro das trancas mgicas
quando um dos guerreiros fantasmas, Mick, fechou-o atrs
dele. Passava da meia-noite, mas a lua no havia nascido.
Alm da muralha, a escurido era opressiva, e uma chuva
constante engolia a luz. Mas Jason fazia aquele trajeto quase
todas as noites no papel de espio. Jason adquirira bastante
prtica de espionagem em seus tempos do Porto Seguro.
Agora ele passava por entre duas rvores como se fosse
etreo.
Estava bem equipado para o papel de espio, pois este exigia
pouco em relao a poderes mgicos. Apesar disso, era difcil
percorrer a fronteira naqueles dias. Mal dava para se mexer
sem tropear em algum mago. Para qualquer lado que
olhasse, chamas mgicas faiscavam nas trevas como estrelas
cadas na terra. Vozes de magos em mltiplas lnguas
colidiam sob o dossel das rvores.
Eles vinham de todos os lugares, cada vez mais, todos os
dias. A Rosa Vermelha. A Rosa Branca. Mercadores. Os no
afiliados. Atrados para Trinity pelo pulsar do poder dentro
das muralhas.
Magos acampando, quem diria! Vivendo sem luxo na
floresta. Como um Woodstock de Magos. Era quase en-
graado.
Mas nem tanto.
E, todo o tempo, os Anaweirs iam e vinham, sem notar a
multido se aglomerando, sem perceber a tenso crescente
em qualquer um dos lados da muralha de Mercedes.
Desviando-se de vrios acampamentos protegidos por
feitios, Jason atravessou um leito pedregoso de rio e escalou
o barranco do outro lado. De l podia monitorar as idas e
vindas dos acampamentos dos magos e ter uma estimativa
dos Weirs na regio da fronteira. Porm dessa vez, ao chegar
ao topo da elevao, notou que a vista havia se alterado
dramaticamente. A paisagem estava obscurecida por uma
sombra sinistra que se estendia at onde ele conseguia
enxergar, em ambas as direes. Ele levou alguns instantes
para entender o que era. Quando entendeu, praguejou e deu
um soco na palma da mo.
As Rosas estavam construindo sua prpria muralha, a poucas
centenas de metros da fortificao de Mercedes. Era alta, lisa
e ameaadora, com arame farpado em seu topo, sem a graa
e o estilo da barreira de Mercedes. Uma luz verde venenosa
refletia nela, como uma mancha de leo em gua negra.
Era o tipo de muralha que se via em pesadelos; o tipo de
muralha que a bruxa constri para manter o prncipe do lado
de fora. Ou do lado de dentro. O tipo de muralha que cerca o
castelo do senhor das trevas. Era uma muralha que podia
capturar tanto Weirs quanto Anaweirs. E, pelo jeito, estava
quase terminada.
Eles deviam ter utilizado glamoures para esconder o
progresso. Mesmo que tivessem precisado esperar escurecer
para comear a construir, eles tinham mais magos para
dividir o trabalho do que Mercedes e suas equipes. Sem
mencionar a potncia mgica ilimitada. Era uma evidncia
do poder das foras alinhadas contra eles.
Jason desceu o barranco no lado oposto, deslizando e
escorregando na terra solta. Sabia a quem creditar aquela
jogada mais recente.
Os pavilhes elaborados e fortemente protegidos de Wylie,
Longbranch e D'Orsay ficavam junto  muralha
parcialmente construda. L eles traavam seus planos e
brigavam entre si, pelo que Jason havia observado nos dias
anteriores.
Ao se aproximar dos pavilhes, Jason moveu-se com cautela,
alerta para armadilhas e alarmes. Ele estaria muito melhor
morto do que se fosse apanhado ali sozinho. Em frente,
avistou as paredes de seda reluzente das tendas, encantadas
para afastar a chuva. Nos picos acima tremulavam as flmulas
das Rosas Vermelha e Branca, e um corvo negro sobre
branco que era a nova insgnia de D'Orsay.
Geoffrey Wylie estava em p diante das tendas, dando
ordens  enorme multido de jovens magos em roupas
molhadas de camuflagem. Entre eles estava Bruce Hays, um
ex-aluno do Porto Seguro, segurando o cajado mgico de
metal e vidro de Gregoiy Leicester e parecendo bem
orgulhoso disso.
Com Wylie estava Jessamine Longbranch, vestida em
camuflagem de alta-costura. E Claude D'Orsay.
As feies aristocrticas de D'Orsay eram ntidas sob a luz
que vazava do pavilho. O mago alto postava-se em meio a
seus inimigos, aparentemente confortvel, gastando
pequenas doses de poder para manter a chuva afastada.
Usava anis em ambas as mos  sefas poderosas, se Jason
era capaz de julgar. O que queria dizer que D'Orsay viera
bem armado para aquela reunio.
Devereaux estava junto ao pai, os olhos arregalados,
observando tudo.
        Vamos comear imediatamente  disse Wylie.  Os
Anaweirs no percebem a muralha Weir dos rebeldes, j que
podem passar livremente por ela. No entanto, qualquer um
que deixe o santurio vai ficar preso na nossa muralha.
Vocs vo capturar tanto os Weirs quanto os Anaweirs e
traz-los para a rea de deteno, para serem fichados e
identificados. Quando as notcias correrem, o povo da
cidade, em pnico, com certeza sair em massa pela muralha
interna. Teremos centenas de refns, alguns deles com fortes
laos com os rebeldes.
        O que vamos fazer com eles?  indagou Hays.
        Quando formos romper a muralha interna, colocaremos os
refns imobilizados na rea intermediria. Desse modo, os
rebeldes no vo poder usar o arsenal deles contra ns.
Esse era, pelo visto, o plano de Wylie, pois Longbranch
revirou os olhos.
        Acha mesmo que magos vo negociar em troca de refns
Anaweirs?
Wylie deu de ombros.
        Quem sabe? Eles tm demonstrado uma inexplicvel
dedicao a eles.
        Que estranho!  Longbranch se virou para os soldados.
 Vocs devem imobilizar os prisioneiros o mais rpido
possvel, para que no haja gritaria. Especialmente os Weirs.
 Ela distribuiu bolsas de couro entre os soldados.  Isto 
Gemynd bana. Assassino da Mente. Vai derrub-los sem ser
detectado pelos que esto dentro da muralha. S tenham
cuidado com isso, ou vo acabar vocs mesmos desacordados
no cho.
Jason ficou paralisado. O pnico obstrua-lhe a garganta,
dificultando-lhe a respirao.
"Droga", pensou ele. "Est comeando. Est acontecendo.
Quando se est com medo, por que a boca fica seca,
enquanto as mos ficam suadas?"
        Se houver alguma dvida  continuou Longbranch ,
usem um feitio de imobilizao. No faam nenhuma
bobagem! Podem ir.
Os soldados magos se dispersaram, deixando os trs magos e
o menino sozinhos.
        Ajudaria se soubssemos mais sobre as armas que voc nos
forneceu, Claude  disse Longbranch.
        Hein?  D'Orsay parecia distrado, olhando com tristeza
alm de Longbranch e Wylie para as muralhas do santurio.
"Pode esquecer", pensou Jason. "Voc nunca vai pr as mos
no Corao do Drago"
D'Orsay forou-se a desviar os olhos do santurio e voltou-se
para Longbranch.
        Voc sabe tanto quanto eu, Jessamine. Vamos ter de nos
arriscar um pouco.
        Parece-me que ns vamos nos arriscar, j que so os
nossos magos que se envolvero no ataque.
        Eu ficaria mais do que feliz em contribuir  replicou
D'Orsay , mas temo no ter muitos exrcitos  disposio
no momento. Tive de deixar a minha guarda para trs para
proteger a ravina.
        Eu posso lutar, pai  disse Devereaux, ansioso.  Sou s
um, mas...
        No, Dev  disse D'Orsay, franzindo o cenho.  No
desta vez.  Ele se voltou para as Rosas.  Como vocs
pretendem encontrar o Corao do Drago quando
estivermos l dentro?
Longbranch e Wylie se entreolharam, depois fitaram o
santurio.
        Acha mesmo que vai ser difcil de encontrar?  disse
Wylie.
Jason analisou as suas possibilidades, considerou e descartou
vrias opes. Ele poderia ouvir mais se ficasse, mas os
magos j estavam esperando por qualquer um que
atravessasse a barreira. No havia tempo a perder.
De costas, ele se afastou dos pavilhes dos magos, pisando
com cuidado para no trair a prpria presena, embora o
corao parecesse estar batendo alto o bastante para ser
ouvido.
Assim que se distanciou, Jason se virou e correu na direo
de onde viera.
Ao se aproximar da muralha interna, diminuiu o passo. A lua
havia nascido, e raios de luz penetravam pelo dossel das
rvores e banhavam a trilha com luz prateada. O caminho
parecia livre adiante.
Jason deixou a trilha, cortou caminho por entre as rvores e
aproximou-se do porto pelo leste. Ele sondou a borda
nebulosa da floresta do outro lado da clareira e viu
movimento nas sombras por l. Ento, surpreendentemente
perto, algum estapeou um mosquito. Jason mal conseguiu
se conter para no pular para trs, entre os arbustos.
A armadilha j estava montada para os residentes de Trinity.
Jason estava determinado a no cair nela. Imperceptvel ou
no, Mick ainda precisaria abrir o porto para deix-lo entrar.
Contendo o flego, Jason atravessou a clareira aberta na
direo do porto. Os pelos da nuca se arrepiaram. A
qualquer momento, esperava ser atingido por um feitio de
imobilizao.
Quando chegou  muralha, pressionou a palma contra o
porto.
        Mick  sussurrou ele.  Abra.
No houve resposta.
        Mick  repetiu Jason, um pouco mais alto.   o Jase.
Me deixe entrar. Ande logo.
Ele olhou para trs de relance e viu trs magos saindo de
dentro do arvoredo, olhando para o porto. Jason
reconheceu Bruce Hays, com o vistoso cajado.
Jason bateu no porto com o punho.
        Vamos l, Mick. Abra a droga do porto!
Por fim, ele escutou rudos vindos de dentro, a voz de Mick
infelizmente reboando alto, vomitando palavres irlandeses
de uma outra era.
        Ser que um sujeito no pode tirar gua do joelho no meio
da noite sem que lhe venham encher as pelotas?
Jason olhou para os magos atrs. Hays ergueu o cajado e
apontou-o diretamente para Jason.
        Aetywan!  gritou Hays.
Uma nvoa se projetou da ponta do cajado e envolveu Jason
numa nuvem de vapor.
Incapaz de responder em seu estado imperceptvel, Jason
prendeu a respirao para evitar inspirar o gs, agachou-se a
fim de se fazer um alvo menor e lutou para se lembrar do
pouco anglo-saxo que conhecia.
Aetywan. Devia significar... revelar?
         o Haley!
Berros reverberaram pela clareira.
Jason baixou os olhos para ver a si mesmo. O anteriormente
imperceptvel Jason fora de fato revelado. Era como ser
despido no meio da rua principal durante uma festa no
quarteiro organizada pelos piores inimigos.
        Peguem!  gritou Hays.  Agarrem! Peguem ele vivo!
Eles correram na direo de Jason como ces de caa
seguindo um cheiro e ladrando. Mais magos surgiram da
floresta.
        Mick!  Jason ergueu um escudo pattico, firmou os ps
no cho, agarrou a borda do porto e puxou.  Abra agora
ou pode me esquecer!
Ele estava cercado por magos, num caleidoscpio de rostos
excitados. Muitos jogavam Assassinos da Mente sobre ele.
Apesar de fraco, o escudo repeliu o p. Um mago cambaleou
e tombou, vtima de fogo amigo.
Enfim o porto se moveu, terrivelmente devagar, com a
litania de pragas de Mick continuando do outro lado, s que
agora com certo tom de urgncia. Jason ouviu ps correndo
dentro do barbac de porto duplo. Um baque surdo de
corpos contra o porto e este se escancarou, jogando Jason e
um punhado de guerreiros para a terra de ningum entre as
barreiras.
Jason se levantou com dificuldade enquanto Mick passava
por ele voando, balanando o machado em jbilo, soltando
um grito de batalha em galico. Jack, Ellen e Jeremiah
vieram atrs, armas reluzindo, forando os magos a recuar
em direo  muralha externa. Fogo mgico se espalhava nos
ares, incendiando as copas das rvores.
Quanto tempo at que as chamas e os sons de batalha
atrassem os Anaweirs para alm da barreira interna e para as
mos das Rosas?
Sem armas, Jason correu atrs dos guerreiros quando dois
magos se aproximaram por trs. Jason derrubou um dos
magos e incapacitou-o com um toque mgico, aplicado no
ponto vulnervel sob o queixo. Ellen derrubou o outro com
o lado cego da espada.
        O que est acontecendo?  indagou Jack, rebatendo um
raio vindo do elegante cajado de Hays.  Parece que todos
os demnios esto a solta.
        Grande encrenca  disse Jason, arquejando.  Tem um
exrcito esperando l fora. Eles construram uma muralha
prpria. Esto planejando capturar as pessoas para manter
como refns. Temos que voltar.
Com relutncia, os guerreiros pararam de perseguir os magos
e recuaram, lanando chamas para trs para desencorajar a
perseguio. Uma vez passado o porto, Jason ajudou a
colocar as trancas no lugar enquanto os muros estremeciam
sob o ataque dos magos.
 Cad o Seph?  perguntou Jason, sem flego.  No
podemos esperar mais. Temos que fazer alguma coisa a
respeito dos Anaweirs. J.

Captulo Vinte e Sete
Um Pacto com o Demnio
parei aqui
O rdio na velha picape de Min s captava trs estaes. 
Dava para escutar o que se quisesse, desde que fosse country, 
western ou rock clssico. Madison aumentou o volume e 
cantou junto, inventando as palavras que no sabia.
Ela baixou as janelas, e os cabelos chicotearam-lhe os 
ombros. Os gorjeios de primavera e o grave rugir dos troves 
competiam com o rdio. O sabor do ar indicava que choveria 
antes de amanhecer.
 medida que as montanhas se erguiam em ambos os lados, 
at o sinal das estaes mais potentes comeou a falhar. Por 
isso ela desligou o rdio e ensaiou suas falas.
 Sou Madison Moss. Estudo no Instituto de Arte de 
Chicago.
A o estmago se revirou de novo  em parte por medo, 
em parte por alegria.
Sara havia conseguido o dinheiro atravs de um programa de 
bolsas de estudo para alunos carentes. Quem diria que viver 
de nada alm de sonhos por toda a vida daria em alguma 
coisa? Mas Sara dissera que ela no ganhara a bolsa apenas 
pelo fator necessidade.
 A comisso de bolsas de estudo adorou o seu trabalho, 
Maddie , Sara lhe falara.  Eles disseram que voc tem 
uma perspectiva nica, que atrai tanto aqueles que gostam de 
arte primitiva quanto aqueles que preferem a arte conceituai. 
Esto loucos para conhecer voc.
Aquela parte a deixava nervosa. E se eles vissem seus cabelos 
selvagens e as roupas de loja barata, ouvissem o seu jeito de 
falar e achassem que haviam cometido um erro? E se a 
tratassem como uma mendiga, desajeitada e caipira, que 
necessitava da caridade deles?
No importava. A obra era o que importava. Ela acharia um 
jeito de sobreviver ao encontro com a comisso. E de 
freqentar o Instituto de Arte de Chicago no outono com a 
bolsa de estudos.
O portflio ia junto dela no banco do carona. Sara havia se 
espantado com algumas das imagens mais exticas, mas 
achava que elas fariam sucesso em Chicago.
Chicago. Madison nunca estivera l. Haveria bibliotecas, 
museus e teatros. Ela poderia se sentar em cafs e conversar 
sobre livros, arte e msica. Assuntos dos quais ningum 
falava em Coal Grove. Todos os dias ela veria milhares de 
pessoas que no sabiam nada sobre ela. Que no haviam 
ainda formado uma opinio sobre Madison Moss.
Ela mal podia esperar.
Estava morrendo de medo.
Um sonho levava a outro. Talvez ela ainda conseguisse 
convencer Seph a estudar na Northwestern. Se fosse tarde 
demais para ele comear no outono, ele poderia se transferir 
na primavera. Poderia dar certo. Ele se sentia  vontade em 
qualquer lugar. Alm do mais, ele se dava bem em cidades 
grandes. Tinha um jeito de organizar o mundo em torno 
dele, como se lhe servisse como pele. Saber que ela teria um 
amigo faria toda a diferena. Saber que esse amigo seria 
Seph...
Ela ficou presa na imagem do rosto dele: os olhos verde-
acinzentados, como uma camada de fumaa sobre guas 
paradas, escondendo segredos. O porte esbelto preenchendo 
o espao de uma porta aberta. O sorriso to sbio, mas sem 
arrogncia. O jeito como ele passava para o francs quando o 
ingls no lhe era adequado.
Os beijos.
Ela teve de pisar no freio e girar o volante de sbito para 
pegar a sada para a montanha Booker.
Voc no tem jeito. Igualzinha a Carlene. Seph nunca ir 
para Chicago. No por sua causa. No enquanto o destino do 
mundo estiver em jogo. E quem poderia dizer o que 
aconteceria se ele fosse? Ela soltou o volante e examinou as 
mos. Desde o dia em que tocara o Corao do Drago, no 
vira mais sinal da maldio que ela absorvera em Second 
Sister. Ser que havia realmente sumido, ou era s porque 
estivera longe de Seph?
Apaixonar-se era como cair de um precipcio. Parecia-se 
muito com a sensao de estar voando, at o momento em 
que se atingia o cho.
A estrada mergulhou de novo na densa floresta e serpenteou 
por vrias curvas fechadas, atravessando o riacho Booker 
pelas pontes de pedra que o bisav dela construiu.
As primeiras grandes gotas de chuva atingiram o teto da 
picape quando ela estacionou no ptio. Estava escuro como 
breu quela altura, e Carlene no havia nem acendido a luz 
da varanda.
Madison abriu a porta do motorista e saiu do carro. Apanhou 
a sacola de compras, pendurou a mochila no ombro e enfiou 
o portflio embaixo do brao, com a inteno de fazer uma 
nica viagem at a casa antes do dilvio.
Quando chegou aos degraus, chovia forte. Ela hesitou sob o 
abrigo imperfeito do teto da varanda, pensando que Hamlet 
e Oflia pudessem vir saud-la. Mas nenhum co veio at a 
varanda respingando gua para saud-la com entusiasmo. 
Nem Grace ou John Robert apareceram tambm.
Aparentemente eles eram espertos o bastante para ficar fora 
da chuva.
Assim que ela abriu a porta da frente com o ombro, escutou 
a televiso ligada na sala. Largou o portflio e a mochila 
junto  porta.
        Mame? Grace? J. R.? Tenho notcias timas. Esperem s 
pra ouvir.
        Oi, querida  disse Carlene da outra sala.  Estou 
assistindo  televiso.
Madison ps os ovos, o leite, o suco, os frios e o queijo na 
geladeira junto com o pote de maionese, o bacon 
embolorado, quatro garrafas de cerveja e a jarra de refresco 
artificial que j se encontravam l dentro.
Ela jogou o bacon fora.
Estava escuro na sala de estar tambm. Carlene estava 
reclinada num canto do sof, o rosto iluminado pelas 
imagens cambiantes da tela da televiso.
Madison acendeu a lmpada do abajur de mesa.
        Est sentada aqui no escuro, mame?
        Ahn?  Carlene pestanejou.  Acho que sim.
Ela parecia meio sonolenta e distrada.
        Onde esto as crianas?
Carlene deu de ombros e olhou em volta, como se no 
houvesse dado pela falta delas.
        Ah, sim. Eles foram at a casa dos Ropers.
        Dos Ropers!  Os sonhos de Chicago se dissiparam na 
mente de Madison. Ela fitou Carlene.  Para qu?
        Acho que foram cavalgar.
Madison olhou pelas janelas molhadas.
        Bem, eles no esto cavalgando agora. Est chovendo a 
cntaros. Quando eles foram?
        Hoje de manh.  Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas 
delineadas a lpis de Carlene.  Acho.
Madison ficou tentada a agarrar a me pelos ombros e 
sacudi-la. Mas algo a deteve. Carlene parecia quase... 
enfeitiada.
        Mame.  Ela se sentou junto a Carlene e tomou-lhe as 
mos.  Como foi que eles foram cavalgar com os Ropers?
        O Brice Roper apareceu. Com um outro rapaz.  A 
mente dela pareceu divagar.  Que nunca vi antes.
        Como era esse outro rapaz?
        Tinha cabelo comprido, mais claro que o do John Robert.
As palavras de Min de muito tempo atrs lhe voltaram.
Vejo quatro belos meninos bruxos se aproximando. Dois vo 
reclamar o seu corao de maneiras diferentes. Dois so 
impostores que viro  sua porta: um moreno, outro loiro. 
Todos eles tm magia...
Mas eles s vo ter o poder que voc entregar a eles.
Madison se levantou, empertigou-se e respirou fundo. Foi 
at a lareira, tirou a arma do pai do estojo de madeira e 
enfiou-a na mochila. Apanhou as chaves e voltou para a sala 
de estar.
 Fique aqui, mame  disse ela, embora Carlene no 
estivesse fazendo nenhum movimento que indicasse que 
quisesse ir a algum lugar.
Carlene assentiu com a cabea, distrada, j perdida na tela 
piscante.
A picape de Maddie, com os pneus quase carecas, deslizava e 
derrapava na estrada escorregadia devido  chuva. Pareceu
levar uma eternidade para chegar at o retorno. Ela virou na
entrada da propriedade dos Ropers entre os dois requintados
pilares de tijolos e avistou a casa e as estrebarias pelo pra-
brisa sujo. O elegante carro esporte de Brice estava
estacionado no passeio da frente da casa. Ela estacionou ao
lado dele, abriu ruidosamente a porta da picape e saltou para
o cho. Virando-se, enfiou a mo na mochila e segurou a
pistola de Jordan Moss.
Ela subiu os largos degraus at a varanda e derrubaria a
enorme porta de nogueira mas esta j estava destrancada.
A casa se escancarou, vazia, diante dela, ecoando com os
passos de Madison. Ela caminhou sobre a madeira lustrosa,
atravessou o hall, entrou no corredor, viu aposentos
ricamente mobiliados em ambos os lados. Nos fundos da
casa, na grande sala de dois andares, um fogo ardia na lareira,
a nica fonte de luz.  direita, uma porta levava para o que
provavelmente era a sala de jantar.
Um corpo jazia  entrada, os ps calados com botas se
estendendo at a cozinha. As botas eram familiares: couro
preto e caro.
Abafando um grito, Madison cambaleou na direo do corpo
de Brice Roper.
        Eu no chegaria muito perto  disse uma voz atrs dela.
 No est muito bonito. No foi um dos meus melhores
trabalhos.
Ela se virou. Suas chaves tilintaram ao cair sobre o piso de
ladrilhos.
Ele estava postado entre ela e o corredor, como uma vela no
escuro, reluzente de poder, exalando vapor ao expulsar a
chuva das roupas. Estava vestido inteiramente de preto, mas
o cabelo era to claro que parecia translcido.
Warren Barber.
Ele sorriu.
        Voc no  fcil de se encontrar.
Embora o corao dela martelasse, ela conseguiu falar com a
voz clara e firme.
        Onde eles esto?
        O qu? Nenhuma lgrima pelo pobre Brice?
        Quero saber o que voc fez com os meus irmos.
        Sabe, Madison, voc realmente fez o cara de bobo. O que
voc disse para ele, que  uma bruxa?
Madison no disse nada.
        Mas voc no  uma bruxa, ? Voc  algo bem diferente.
 Ele fez uma pausa, convidando-a a falar, mas ela
continuou sem dizer nada.  De qualquer forma, ele estava
completamente iludido. O pobre Brice estava to feliz de ter
encontrado um aliado poderoso! Ele odiava voc, sabia?
Voc deveria me agradecer.
Vrios pensamentos cruzaram-lhe a mente. Como ele a
havia encontrado? O quanto sabia? Ser que ela conseguiria 
faz-lo tentar enfeiti-la?
        O que voc quer?  indagou ela.
        Preciso da sua ajuda, Madison.  Ele parecia gostar de 
dizer o nome dela, como se o possusse.  Preciso que faa 
algo pra mim.
        Voc est louco.
Barber riu.
        Veremos. Acho que voc vai fazer tudo o que eu pedir.
Talvez ele soubesse menos do que ela pensava. Ele parecia 
quase confiante demais. Talvez se ela o atacasse, ele lanasse 
poder sobre ela.
Os olhos plidos dele cintilaram com malcia.
        No me esqueci do que voc fez em Second Sister.  Ele 
deu um passo na direo dela.  Grande erro. Ningum 
vem atrs de mim com uma faca. Eu deveria ensinar uma 
lio a voc.  Ele ergueu as mos, aumentando as 
esperanas de Madison, depois as deixou cair de novo, 
sorrindo.  Mas estou disposto a perdoar e esquecer.
Ele sabe. Est s brincando comigo.
Ela sacou a arma, segurou-a com as duas mos como o pai 
lhe ensinara e apontou-a para Warren Barber.
Barber parou de sorrir quando viu a arma.
        Eu falei pra voc me dizer onde esto os meus irmos.
Barber ficou totalmente imvel por um longo instante, 
depois disse:
        Estou perdendo a pacincia, Madison. Agora abaixe isso 
antes que algum se machuque.
Ele deu um passo em frente.
        Estou avisando  disse Madison.  Tenho tima mira.
Era verdade. O pai a havia ensinado a atirar. Mas ela era um 
fracasso como caadora, porque jamais fora capaz de atirar 
em algo vivo. Barber poderia ser o primeiro.
Os olhos de Barber, com os ncleos plidos e franjas de 
clios brancos, eram frios e no piscavam, como olhos de 
cobra.
        Muito bem. S quer saber de negcios, no ? Tenho algo 
pra mostrar pra voc.  Ele bateu no bolso do casaco.  
Posso?
Com relutncia, Madison assentiu.
Ele enfiou os dedos no bolso e tirou de dentro algo 
brilhante, que estendeu a Madison.
Ela gesticulou com a arma.
        Jogue na mesa.
Barber fez um gesto com a mo, e os dois objetos caram 
sobre a frmica desgastada. Madison postou-se de modo a 
deixar a mesa entre ela e o mago, e olhou para baixo.
Foi como se algum houvesse enfiado a mo em seu peito, 
agarrado o corao e apertado.
Um dos objetos era um velho canivete suo, com as iniciais 
JR gravadas toscamente no exterior. O outro era um 
medalho de ouro gravado com rosas numa levssima 
corrente de ouro.
O canivete havia pertencido ao pai deles. John Robert o 
carregava consigo para onde quer que fosse e dormia com 
ele sob o travesseiro. Min havia deixado o medalho para 
Grace. Madison havia prendido o fecho milhares de vezes 
quando Grace no conseguira faz-lo, havia removido-o 
cuidadosamente e colocado sobre a cmoda quando Grace 
adormecia em meio  leitura. Ela o usava todos os dias.
Madison ergueu os olhos para Barber. Precisou de algumas 
tentativas para fazer a voz funcionar.
        Onde eles esto?  Dessa vez, ela no conseguiu afastar o 
tremor da voz.
        Ningum jamais saber onde eles esto se voc atirar em 
mim.
Ela se recomps e mirou mais baixo.
        No preciso atirar na cabea.
        E se eu sangrar at morrer?  Ele ergueu uma 
sobrancelha.  Qual , Madison, voc no  assassina. Alm 
do mais,  provvel que eu consiga bloquear o tiro. Baixe a 
arma e vamos conversar.
        Se eles estiverem feridos, eu vou...
        Voc  a nica que pode impedir isso. Coopere, e eles 
sero soltos. Seno...  Ele deu de ombros.  Seria uma 
pena.
        Como vou ter certeza de que eles ainda esto vivos?
Barber descartou a pergunta dela com impacincia.
        Eles so a minha garantia. Eu seria estpido se acabasse 
com eles. A menos que voc me desaponte. Quando nossos 
negcios estiverem terminados, eles sero soltos. Entende? 
Ningum se machuca. Agora baixe a arma antes que eu perca 
a pacincia.
Grace e John Robert. A rebelde e voluntariosa Grace e o 
inocente John Robert nas mos daquele monstro. O que ele 
queria dela, para ter ido atrs deles?
Com cuidado, ela depositou a arma na mesa, recuou um 
passo e postou-se com os braos ao lado do corpo, fitando 
Warren Barber com raiva.
        timo  disse Barber. Ele indicou a mesa da cozinha com 
a cabea  Por favor. Sente-se.
Madison andou rgida at a mesa e se sentou. Tentou olhar 
para todos os lados menos para o corpo de Brice e o sangue 
derramado no cho. Barber tinha razo. Ela no era assassina.
Barber foi at a geladeira e remexeu l dentro.
        Est com fome?
        No.
O estmago de Madison se revirou, ameaando rejeitar o 
pouco que havia em seu interior.
Barber tirou duas garrafas de refrigerante e um prato de pizza 
fria e os levou para a mesa.
        Conflitos sempre me deixam faminto, sabe como ?
Ele ps uma garrafa de refrigerante na frente dela.
        O... J. R. e a Grace tm o que comer?  sussurrou ela.
        Voc se preocupa demais. No faz nenhum bem, reduz o 
seu tempo de vida.
Ele se sentou diante dela, girando a outra garrafa entre as 
mos. Tatuagens de teias de aranha espalhavam-se pelos seus 
antebraos.
Ela empurrou o refrigerante de volta na direo dele.
        Eu no...
        Beba  disse ele.
Ela olhou nos olhos gelados, apanhou a garrafa e tomou um 
longo gole, forando o lquido, garganta abaixo.
        Assim est melhor  disse ele, sorrindo.  Se acostume a 
fazer o que eu digo e vamos nos dar bem. Agora vou lhe 
dizer o que voc precisa fazer. V buscar o Corao do 
Drago. Ento a gente faz uma troca: o Corao do Drago 
pela Grace e pelo J. R. Justo?
        O qu-que voc quer com aquilo?  indagou ela, no 
vendo nenhuma utilidade em negar que ouvira falar da 
pedra.  O que est planejando fazer?
        Apenas se concentre em ir l e pegar a pedra  disse 
Warren, dando uma mordida na pizza.  Deixe que eu me 
preocupe com o resto.
Pensamentos e imagens rolaram pela mente dela como 
rochas montanha abaixo, chocando-se uns com os outros. O 
Corao do Drago ainda pulsava dentro dela como um 
segundo corao. Se fosse to poderoso quanto diziam, 
poderia ela colocar esse tipo de poder nas mos de algum 
como Barber?
Seph, Jason, Jack, Ellen e Nick... todos estavam lutando por 
algo em que acreditavam, por menores que fossem suas 
probabilidades de sucesso. J era bastante ruim no t-los 
ajudado. Agora Warren Barber queria que ela fosse at o 
santurio e trasse as pessoas que significavam tudo para ela.
S que Grace e J. R. estavam naquela confuso por causa 
dela. Seph a avisara de que ela no conseguiria se livrar 
fugindo, e ela no lhe dera ouvidos. E se Barber descobrisse 
que Grace tambm era extratora...
"Toda a minha vida eu venho pagando pelos erros de 
Carlene", pensou ela. "Grace e J. R. no vo pagar pelos 
meus"
        Pode no ser fcil  disse ela.  Pode levar algum 
tempo.
Barber enfiou o ltimo pedao de pizza na boca e limpou os 
dedos na toalha.
        S no se esquea de que, quanto mais tempo levar, mais 
tempo a Grace e o J. R. vo ficar presos.

Captulo Vinte e Oito
Rumo s Minas de Sal

Uma qualidade que Jack sempre apreciara na me, Becka, era 
a habilidade de fazer com que as coisas acontecessem, 
mesmo quando era acordada de um sono profundo no meio 
da noite. Em retrospecto, ele nem conseguia se lembrar do 
que havia dito a ela. Ou talvez fosse a aparncia dele  todo 
enlameado e ensangentado por causa da luta na fronteira. 
De qualquer forma, fora o bastante para arranc-la da cama e 
faz-la ir at o telefone. Como este estava mudo, ela enviara 
mensageiros, e o resultado era aquela reunio em torno da 
mesa da cozinha no Chal de Pedra menos de uma hora mais 
tarde.
O vento castigava a casa e o granizo se chocava contra as 
janelas. Troves ribombavam sobre o lago. Parecia sempre 
haver uma tempestade naqueles dias.
Era um grupo dspar. Ellen andava pelo aposento, corada e 
inquieta, ainda agitada pelos negcios inacabados na 
fronteira. O suor reluzia em seus braos vigorosos. Ela 
enxugou o rosto com a camisa, apesar da brisa fria que 
entrava pelas portas do terrao. Os olhos cinzentos estavam 
to turbulentos quanto a superfcie do lago.
Jack compreendia  o sangue ainda pulsava nas veias dele, o 
corpo rebelde em interminvel preparao para a batalha.
Nicodemus Snowbeard parecia ter envelhecido muitas 
centenas de anos, mas os olhos negros ainda brilhavam com 
a mesma intensidade. Nick havia insistido em que Leesha 
Middleton fosse includa, embora quase todos os outros se 
opusessem. Mas o velho era uma maioria de um.
Dessa vez Leesha tinha pouco a dizer. Ela se sentou de um 
dos lados da lareira, os braos cerrados em torno dos joelhos. 
Ficava olhando para Jason, como se tentasse atrair a ateno 
dele, que olhava para todos os lados, menos para ela.
Jason mostrava sua costumeira personalidade agitada, 
remexendo-se o tempo todo, olhando as horas no celular. 
Nada acontecia rpido o bastante para ele.
Seph, taciturno e perigoso, exalava poder.
Mercedes Foster parecia um pedreiro de mang, trajando 
macaco, quimono de kasur e chinelos japoneses, ris 
Bolingame estava recostada num canto, exausta. Havia 
chegado recentemente da muralha.
Will e Fitch estavam junto a Jack e Ellen, como que 
determinados a no serem deixados de fora do que quer que 
estivesse para acontecer.
O pai de Will, Bill Childers, prefeito de Trinity, e o tio, Ross 
Childers, agora delegado de polcia, pareciam to 
incomodados como dois protestantes num templo hindu.
        Acho que estamos todos aqui  disse Becka a Jack.  
Agora acredito que voc v nos contar o que est 
acontecendo.
        E que seja uma boa histria  acrescentou Ross, irritado, 
bocejando atrs do antebrao e olhando feio para Will.  
Muito boa.
Nick se levantou.
        Ross, Bill, Becka. Estes jovens vo contar a vocs agora 
uma histria extraordinria. Mas posso garantir que  tudo 
absolutamente verdade. Espero que escutem o que eles tm 
a dizer com a mente aberta  concluiu ele, inclinando a 
cabea para Jack.
        Bom  disse Jack, pigarreando.  Quer dizer, a gente... 
ahn...
Ele vinha guardando segredos h tanto tempo que era difcil 
abrir mo deles. Em desespero, levou a mo ao ombro e 
sacou a Sombra Assassina do boldri, deitando a grande 
espada sobre a mesa da cozinha. Ellen imitou-o, puxando a 
Abridora de Caminhos da bainha e colocando-a ao lado da 
Sombra Assassina.
Todos fitaram as duas espadas brilhantes sobre a mesa, como 
se as armas pudessem falar.
Becka encontrou a prpria voz.
        Jack, de onde vieram essas espadas? Parecem peas de 
museu.
Ellen pousou a mo sobre o punho de sua espada e falou, em 
tom bastante formal:
        A Abridora de Caminhos foi tirada de um tesouro de 
armas na Ravina do Corvo, na regio da Cmbria, no Reino 
Unido. Perto da casa do senhor Hastings, onde vocs 
ficaram aquela vez.  uma das sete grandes espadas, feita por 
feiticeiros sob o domnio do drago Aidan Ladhra. O Jason... 
a encontrou e... hum...
Ellen se calou. Becka, Ross e Bill Childers fitaram-na como 
se lhe houvesse crescido uma segunda cabea. Ela olhou para 
o cho, com as faces vermelhas. Ellen odiava falar em 
pblico, mesmo nas melhores circunstncias.
Jack pousou a mo direita nas costas de Ellen e o punho de 
sua prpria espada com a outra mo.
        Me, esta  a Sombra Assassina.  outra das sete. 
Pertenceu  minha trisav Susannah. A gente, Will, Fitch e 
eu... ns a desenterramos do tmulo da Susannah, l no 
Condado de Coalton.
        A Susannah possua uma espada?  Becka franziu a testa 
para Jack, desconfiada, ento se voltou para Will e Fitch,  
espera do fim da piada.
        A Susannah era uma guerreira mgica  disse Fitch, em 
meio ao silncio ctico.  Como a Ellen e o Jack.
        Eles esto combatendo um exrcito de magos, senhora 
Downey  disse Will.  A senhora se lembra de quando 
fomos a Coal Grove com a tia Linda para pesquisar 
genealogia? Encontramos a espada, mas a uns magos nos 
atacaram. Eles tentaram roubar a espada, e a gente teve de se 
esconder numa igreja. A tia Linda parou no estacionamento, 
o Jack lanou chamas...
        A Linda? O que tem a Linda?  interrompeu Becka.  
Est dizendo que ela  uma guerreira tambm?
        Bem...  Will pigarreou.  No. Ela  uma encantadora.
        Uma encantadora  disse Ross Childers, pressionando a 
mo contra a testa.  Certo.  Ele havia convidado Linda 
para sair diversas vezes, antes de o relacionamento dela com 
Hastings se tornar de conhecimento pblico.
        A gente voltou pra Trinity, mas a os magos vieram atrs 
do Jack  disse Fitch.  Lembra daqueles caras que 
tentaram raptar o Jack no colgio e que o senhor Hastings 
afugentou?
Becka levantou a cabea, assumindo aquela expresso 
familiar de advogada que indicava que estava prestes a 
interrogar uma testemunha nada confivel. Embora no 
houvesse engolido completamente a histria que lhe 
contaram na poca, tambm no estava engolindo essa.
        Eram mercadores  explicou Will.  Havia um preo 
enorme pela cabea do Jack, que eles iam vender num leilo. 
 que os magos jogam com os guerreiros em grandes 
torneios mgicos, que eles chamam de "o Jogo".
        Vocs esto me dizendo que aqueles homens eram magos. 
E Leander Hastings afugentou-os?  Becka ergueu uma 
sobrancelha.
        Na verdade, eles esto... enterrados no estacionamento da 
escola  admitiu Jack.  Ele tinha de fazer alguma coisa 
com os corpos antes que a polcia chegasse.
Ele lanou um olhar de desculpas a Ross, que fora o policial 
no comando naquele incidente.
        O senhor Hastings  mago tambm  disse Will.  E o 
Nick tambm.
Todos se voltaram para Nick, que inclinou levemente a 
cabea.
        Sim. Receio que seja verdade.
Bill Childers olhou de Nick para Will e elaborou uma 
explicao prpria.
        Vocs tiraram todos ns da cama para conversar sobre um 
jogo? Sobre um RPG?
        No  disse Jason do seu canto junto  parede.   real. 
E vai haver um massacre se a gente no... se a gente no 
fizer alguma coisa.
        Agora espere a.  Bill olhou feio para Jason, que jamais 
lhe parecera muito confivel.  Um massacre?
        Os magos cercaram esta cidade  disse Mercedes, de seu 
jeito sucinto.  Ns construmos uma muralha Weir, uma 
barricada mgica.  a nica coisa que os mantm do lado de 
fora no momento. Agora os magos ergueram uma muralha 
prpria... uma barreira mgica. A inteno deles  capturar 
ou matar todos os que tentarem sair.
        Escutem  disse Ross, tirando o casaco e jogando-o sobre 
uma cadeira. A camisa tinha grandes manchas de suor sob os 
braos.  J sa e entrei dzias de vezes da cidade nas 
ltimas duas semanas. No vi nenhuma muralha, quanto 
mais duas.
        Vocs no conseguem ver a muralha Weir  disse 
Mercedes.  Ela  invisvel para os Anaweirs. Os no 
dotados. Aqueles sem as pedras Weirs. Como vocs.
        A outra muralha foi construda esta noite  disse Jason. 
 Essa vocs vo conseguir ver. Eu posso mostrar pra vocs, 
mas a gente tem que ter cuidado. Eles j esto l fora 
esperando.
Ross arregaou as mangas, expondo os braos musculosos.
        Vocs esperam que a gente acredite que algum construiu 
uma muralha em volta de toda a cidade desde o pr do sol.
Mercedes torceu o nariz.
        Bem.  uma coisa feia. Desleixada. Mas temos de supor 
que seja eficaz.
        Vocs viram essa muralha?  perguntou Bill.
        Eu vi  disse Jason.  Quando eles comearem a 
capturar os moradores da cidade, vai haver pnico em massa. 
Temos de encontrar um lugar pra manter os Ana... os no 
dotados... at que a guerra tenha acabado. De um jeito ou de 
outro.
        Estamos perdendo tempo  disse Seph, falando pela 
primeira vez.  As pessoas comeam a ir para o trabalho 
daqui a duas horas. Temos sentinelas postadas para fazer as 
pessoas voltarem, mas qualquer um que passar vai ficar preso 
dentro da muralha externa e ser capturado. No vou deixar 
isso acontecer. Vou imobilizar todos eles, se precisar.
Becka pestanejou.
        Seph?
        Escutem, garotos  grunhiu Ross, exasperado.  
Conheo a maioria de vocs desde que eram bebs, mas 
preciso dizer que vocs esto me assustando. Acho que 
devamos todos ir pra cama e ver se esses magos desapa-
receram quando acordarmos.
        Escutem com a mente aberta  repetiu Nick baixinho.
        Ei.  Jason olhou pelas portas do terrao em direo ao 
lago.  Venham ver isto.
Eles se aglomeraram no terrao, alinhando-se junto  
mureta, curvando os ombros para se proteger das pedrinhas 
de gelo que o vento atirava neles. Jason estendeu as mos. A 
luz jorrou-lhe dos dedos, dourando as cristas das ondas por 
um trecho cinzento de gua at atingir uma grossa barreira 
negra, a uns 90 metros da costa, que se estendia de 
horizonte a horizonte. Lembrava nuvens de tempestade 
junto  terra, ou uma camada de fumaa densa e turva com 
raios esverdeados brincando junto s bordas.
        Mas que diabos...  Ross olhou para o lago, esfregando a 
palma da mo na barba por fazer.  Isso  algum tipo de 
tromba-d'gua, uma frente de tempestade ou...
         parte da muralha dos magos  disse Jason, sem rodeios. 
 E no seria uma boa idia tentar atravessar com um barco. 
Ou seja, no d pra escapar pela gua.
        Como voc fez isso?  indagou Bill.  Aquela coisa com 
as mos?
        Magia  disse Jason, como se fosse algo muito natural.  
 melhor se acostumar, pois vai ver muita magia por aqui, 
quer queira, quer no.
Jack relembrou sua prpria experincia, dois anos antes, 
quando tia Linda lhe dissera que era uma encantadora, que 
Jack era guerreiro e que magos o estavam caando. 
Simplesmente no havia jeito de dizer essas coisas de forma 
menos traumtica.
Jack voltou  cozinha, pegou a Sombra Assassina de cima da 
mesa e voltou para o terrao.
        Pra trs  disse ele.
Segurando o punho com ambas as mos, ele brandiu a longa 
espada num amplo arco, lanando raios de chamas sibilantes 
por sobre as guas escuras para se chocarem contra a 
muralha, sentindo um alvio familiar e estimulante ao faz-
lo. Fumaa e chamas subiram como uma fonte no cu 
noturno, e exploses menores reverberaram ao longo da 
costa rochosa. A seguir, repetiu o gesto. Chamas rasgaram a 
noite, explodiram contra a barreira, colorindo as ondas em 
tons berrantes de vermelho e laranja. Quando a fumaa se 
dissipou, a muralha ainda estava l, mas um pouco mais 
irregular do que antes.
        Santo Deus  disse Bill, aps um momento de silncio 
atnito.
Um cheiro cido de queimado lhes chegou, carregado pela 
brisa da praia. Ces latiam furiosamente por toda a costa.
Becka se deixou cair sobre a mureta, apoiando-se nas mos. 
Vrias emoes cruzavam-lhe o rosto. Espanto. Medo. 
Arrependimento. Culpa.
        Isto tem que ser um sonho  disse ela.
        Est tudo bem, me  disse Jack, embaraado, postando-
se a seu lado e apoiando a Sombra Assassina na mureta.
Ellen olhou para os dois, ento guiou o resto do grupo para
dentro.
        Dez minutos, Jack. A gente vai passar os informes para o
pessoal da cidade.
Ela fechou as portas.
        No temos muito tempo  disse Jack.  Sinto muito que
a gente tenha precisado contar dessa maneira.
        Eu devia estar cega  disse Becka. Ela ergueu os olhos
para Jack.  Quando voc soube?
        S no primeiro ano no colgio. Os poderes dos guerreiros
no se manifestam at eles serem velhos o bastante para...
ahn... lutar.
        Mas e depois disso? Por que no me contou?  Ela
segurou-lhe o queixo com a mo e forou-o a virar o rosto
para poder olh-lo nos olhos.  Eu devia ter feito mais
perguntas. Voc teve de lidar com tudo isso sozinho!
        Me, voc perguntou  disse Jack, em desespero. 
Voc me perguntou uma centena de vezes o que estava
acontecendo. Eu simplesmente no podia contar. Eu no
sabia como.  Ele baixou o olhar para o prprio corpo
esbelto e musculoso, projetado para um nico propsito.
        Como  que eu ia contar a voc que sou guerreiro? Um
matador nato? Isso  totalmente contrrio a tudo em que
voc acredita, e em que eu acreditei, por toda a minha vida.
        Ele apoiou os braos na mureta do terrao, o queixo sobre
os braos, fitando o lago.  Alm disso, eu no estava
completamente sozinho. A Linda sabia, o tempo todo. E o
Nick estava aqui pra ficar de olho em mim, acho. Ele me
ensinou um pouco de magia. E Hastings me ensinou a lutar.
        Hastings.  Ela soltou um longo suspiro.  E quanto 
Ellen?
        A Ellen levou a vida que eu poderia ter tido se... as coisas
tivessem sido diferentes.  Ele fez uma pausa, organizando
os pensamentos.  Ela foi mandada para c para me matar.
Ela teria conseguido. Mas no me matou.
A cabea de Seph surgiu entre as portas.
        Jack.
Jack se levantou, olhando para a me.
        Nesses ltimos meses, voc e o pai ficaram tentando me
convencer a me concentrar no meu futuro. No sei se tenho
um futuro, nem se vou sobreviver a este ano. Sei que a gente
precisa conversar. E a gente vai fazer isso. Mas agora quero
dizer que amo voc. E que sinto muito.
Becka se levantou, estendeu as mos, puxou-lhe o rosto para
baixo e beijou-o na testa.
        Eu amo voc, Jack. E acredito em voc. Mago, guerreiro,
o que for  disse ela com firmeza, conduzindo-o para
dentro da casa.
Os outros estavam agrupados em torno da mesa da cozinha,
bebendo caf para no dormir. Algo havia acontecido
naquele nterim. Persuaso mgica, talvez. O prefeito e o
delegado haviam passado do ceticismo teimoso para a crena
absoluta.
        Ainda no entendo  dizia Ross.  Por que eles iriam
atacar uma cidadezinha universitria em Ohio? O que eles
querem?
Nick e Seph trocaram olhares.
        Temos algo que eles querem  disse Nick com suavidade.
 Um objeto mgico que dizem ser extraordinariamente
poderoso. Um pequeno grupo de magos tm esperanas de
utiliz-lo para ganhar o controle sobre as ordens mgicas. Na
prtica, para governar o mundo.
        No podemos usar esse objeto contra eles?  indagou Bill.
Seph balanou a cabea.
        A gente no sabe como.
        Ns... ns no podemos dar o objeto pra eles? 
perguntou Ross.  Quero dizer, se no serve para nada,
afinal...
        Isso no  uma opo  disse Nick.  Vai ter de confiar
em mim nesse ponto.
"O que ele sabe que no est nos dizendo?", perguntou- -se
Jack.
        Somos apenas a fora policial de uma cidade pequena 
disse Ross.  No temos homens suficientes nem
equipamento para lidar com grandes problemas. Precisamos
de ajuda. Eu poderia ligar para o gabinete do governador.
Mandar vir a guarda nacional.
        No adiantaria nada  disse Seph.  Eles poderiam matar
alguns magos com armas convencionais, se chegassem de
surpresa. A seriam imobilizados e trucidados pelas Rosas. S
haveria ainda mais corpos pelo cho.
Ross assentiu com a cabea, parecendo quase aliviado, como
se no quisesse nem imaginar aquela conversa com o
governador.
        Certo. E se as... ahn... sub-ordens partissem? Os... magos
no deixariam Trinity em paz assim?  O delegado estava
fazendo o mximo para dominar o jargo, para combater os
monstros que haviam sado de debaixo da cama.
         tarde demais pra isso agora  objetou Jason.  Tem
centenas de magos l fora. No tem jeito de sairmos sem
sermos capturados ou mortos.
        No se esquea de que estes aqui so crianas tambm. 
Becka apoiou os quadris no balco da cozinha.  No
importa que poderes tenham, no podemos esperar que
elas... tombem sobre as prprias espadas.
        No importa, me  interveio Jack.  Tentaramos fugir
se achssemos que serviria de alguma coisa, e nos
renderamos se pensssemos que isso salvaria a cidade. Mas...
eles sabem que estamos envolvidos com as pessoas daqui. E
os magos so vingativos. Os Anaweirs so descartveis para
eles. Os que eles acharem que podem usar como refns, vo
ser mantidos prisioneiros. O resto, bem...  Jack se viu
incapaz de dizer o que sabia que aconteceria.
Mas Jason era capaz.
        Eles vo matar todo mundo: homens, mulheres, crianas,
at os ces e gatos. No vai sobrar um prdio de p. Vo
queimar tudo at virar cinza. Ento vo envenenar o solo pra
que nada cresa aqui de novo. Ser como se algum jogasse
uma bomba nuclear na praa.
        No tem ningum que possa ajudar?  indagou Becka. 
Cad a Linda e o Hastings?
        No sabemos, Becka  disse Nick baixinho.  Eles foram
pra Inglaterra, proteger um tesouro de armas mgicas, para
mant-las fora das mos dos nossos inimigos. Por isso vamos
ter de fazer o melhor que pudermos sozinhos.  Ele lhe deu
um tapinha no ombro.  Nem tudo est perdido. Temos
alguns magos de princpios do nosso lado. O Seph pode ser
jovem, mas  bem poderoso. E tem o Jason. A ris. E eu 
acrescentou ele, como se fosse uma lembrana tardia.
        E eu  disse Leesha. Ela ainda estava sentada na lareira,
mas o queixo se ergueu com teimosia, como se estivesse
pronta para encarar uma briga.
        Certo: o Seph, o Jason, a ris, eu e a Leesha  disse Nick.
 E alguns outros.
O terror atingiu o estmago de Jack. Cinco contra centenas.
Se  que podiam confiar em Leesha.
        Temos guerreiros  continuou Nick.  Tem o Jack e a
Ellen,  claro, e temos tambm um exrcito formidvel de
guerreiros fantasmas. Temos centenas de feiticeiros,
encantadores e adivinhos. Temos uma grande coleo de
armas mgicas e sabemos como usar a maioria delas.
Nick sorriu, e Jack se sentiu um pouco melhor.
        Muito bem, ento  disse Becka, retesando-se e
recuperando sua costumeira capacidade de concentrao. 
Pensem. O que podemos fazer em relao s... pessoas? A
gente poderia coloc-las no Centro de Convenes, mas isso
s as tornaria um alvo mais fcil.
        A gente precisa esconder essas pessoas em algum lugar 
sugeriu Ellen.  Contar alguma histria pra elas para que
permaneam l. Quantos pores so necessrios pra
esconder dez mil pessoas?
        Sabe, no consigo imaginar como contar aos cidados de
Trinity que estamos sob o ataque de magos  disse Bill. 
Perder meu cargo de prefeito  o que menos importa.
Gostaria de achar um jeito de lev-los pra fora daqui.
Jack se perguntava como eles poderiam fazer isso. Cavar um
tnel sob a muralha? E quanto tempo isso levaria?
Aquilo lhe deu uma idia.
        A gente tem que achar um lugar onde eles fiquem at que
tudo esteja acabado  disse Seph.  Como... como um
abrigo anti-bombas ou algo assim.
        Bem  disse Jack, pensativo.  Tem as minas de sal.
        Qual , Jack  retrucou Jason.  A gente no tem tempo
pra...
        Estou falando srio  disse Jack.  Tem bastante espao,
e elas so bem ventiladas e...
A expresso sombria de Jason se transformou em interesse.
        Do que voc est falando?
        Eles mineram sal sob o lago  explicou Ross Childers,
fitando Jack com um olhar pensativo.  H anos. As minas
so como enormes cavernas feitas pelo homem que vo at
o meio do caminho at o Canad.
Jack sorriu.
        Meio caminho at o Canad, mas todo o caminho at as
Sisters.
Bill Childers inclinou a cabea para Jack com relutncia.
        Certo.  uma idia.
        Nunca ouvi falar de nenhuma mina de sal  disse Jason.
 Onde elas ficam?
        A entrada  no parque industrial, s margens do lago 
explicou Ross.  Na fronteira da cidade. Alguns alunos e
professores da faculdade foram presos por fazer piquete l,
na primavera.  Ross esfregou a ponte do nariz com o dedo
indicador, lanando um olhar para Becka.  Parece que
havia uma proposta de fechar as minas e us-las como um
depsito de lixo nuclear.
Jack revirou os olhos. Naturalmente, a me havia sido a lder
do protesto.
Becka fez um gesto de mo para indicar que sua priso no
era importante, no demonstrando nenhum arrepen-
dimento.
        Depois que pusemos um fim quela idia do depsito, os
proprietrios nos levaram a uma excurso privada pelas
obras.  como um palcio subterrneo, o que eles chamam
de minerao de "cmara e pilares". As minas seguem em
direo ao norte at as Sisters, e h dutos de ventilao que
sobem at algumas das ilhas menores.
        Quer dizer que podemos levar as pessoas pelas minas at
as Sisters  concluiu Ross.
- Vai ser como as Minas de Moria  disse Fitch.  Com
sorte, sem os ores.
Jack assentiu.
        No  perfeito. A gente ainda precisa resolver a questo da
comida, e vai haver longas filas nos banheiros portteis.
        Temos toneladas de gua mineral e raes militares no
poro da prefeitura  disse Ross.  Para o caso de um
ataque terrorista.
        Bem, eu diria que isso se aplica ao nosso caso 
resmungou Ellen.
        O banco de alimentos est cheio  disse Becka.  H
pouco acabamos a arrecadao anual. Mas como vamos fazer
as pessoas entrarem na mina?
        Um acidente nuclear iminente  props Fitch.  Na
usina de Ohio. Todo o noroeste de Ohio pode ser
contaminado.  melhor que um vazamento qumico, j que
no d pra detectar a radiao. Assim a gente vai de
porta em porta e diz para as pessoas que elas tm uma hora
pra juntar as coisas delas...
        Meia hora  interveio Seph.
        Meia hora, e a elas tm de ir pras minas para a sua prpria
segurana at que esteja tudo bem.
Seph se apoiou no console da lareira.
        Ningum tem permisso de partir. No podemos deixar
vazar a informao sobre o que estamos fazendo. Os
Anaweirs vo ficar vulnerveis depois de sarem do
santurio.
Jack estremeceu. Era idia dele, e se tudo desse errado...
Os grossos dedos de Ross se agitaram, tamborilando sobre a
mesa.
        Quando chegarem s Sisters, poderemos tirar as pessoas de
l de avio, ou enviar barcos a partir do continente, e...
Seph balanou a cabea.
        No. De jeito nenhum. Se as Rosas descobrirem, as
pessoas vo ficar ainda mais vulnerveis na gua. Cuidarei do
servio telefnico nas ilhas tambm. No podemos deixar
que ningum saiba que elas vo estar l. O que significa que
temos de terminar tudo antes que a comida se esgote 
acrescentou Seph, meio que para si mesmo.
        No se preocupe  disse Jason, com um sorriso torto. 
Uma vez que comece, vai acabar num instante.
        O Will e eu vamos de porta em porta  disse Fitch.
Fitch estava vestindo seus trajes de pirata urbano, roupas
cqui de camuflagem e botas militares, pesadas correntes em
torno do pescoo, uma bandana amarrada de qualquer jeito
na cabea. Junto dele, Will parecia um membro da Cmara
de Comrcio Juvenil dos Estados Unidos.
        Vocs vo precisar de ajuda  disse Seph, observando-o
com ceticismo. Jack sabia o que ele estava pensando.
Algumas pessoas na cidade provavelmente bateriam a porta
na cara de Fitch se ele aparecesse na varanda no meio da
noite.  Temos de contatar todo mundo antes que as
pessoas comecem a sair para o trabalho.
        Fitch, por que voc e o Will no se encarregam do
alojamento estudantil na faculdade?  sugeriu Becka. 
Quando acabarem de passar nos dormitrios, comecem com
as ruas no sul do campus. Eu cuido do lado norte.
        Eu ajudo tambm  anunciou Leesha.
Todos se viraram para olhar para ela. Jack havia se esquecido
de que ela estava ali.
        Voc?  perguntou Jack, sem conseguir se conter.
        Vocs precisam de ajuda, afinal  disse ela, na defensiva.
 Posso ser bastante persuasiva.
        Qualquer um disposto a ajudar pode ser til  disse Nick.
        De acordo. Voc vem com a gente. Vamos.  Fitch jogou
para Leesha uma bandana como aquela que estava usando.
 Amarre isso na cabea, no brao ou em qualquer outro
lugar.
Leesha olhou de relance para Jason, que fitava a lareira,
fingindo no ouvir, depois seguiu Fitch pela porta.
"Oh, bem", pensou Jack. "Se Fitch  capaz de perdoar ser
raptado e arrastado at a ravina como refm, eu posso fazer o
mesmo."
        A Ellen e eu vamos cuidar da barreira, garantir que
ningum escape  disse Jack a Ross.
        Vou voltar pra delegacia e informar o pessoal do primeiro
turno  disse Ross.  Vou mandar algumas viaturas para
ajudar a esvaziar as casas, escoltar as pessoas at a mina e
impedi-las de fugirem. Vamos todos nos ater  histria de
que houve um acidente nuclear.
Ele saiu pela porta, batendo-a.
Os outros partiram em grupos de dois e trs at que restaram
apenas Seph, Jack, Ellen e Jason.
        Bem  disse Ellen, enfiando a Abridora de Caminhos
dentro do boldri.   melhor a gente ir tambm.  Ellen
olhou de Seph para Jason.  O que a gente faz quando os
Anaweirs forem embora? A gente vai com eles ou o qu?
Jason balanou a cabea.
        Se a gente for, os magos vo saber que escapamos. No
vo levar muito tempo pra encontrar a entrada da mina. E se
levarmos o Corao do Drago conosco, eles com certeza
vo nos rastrear. Acho que a gente no vai querer estar
numa rocha no meio do lago quando isso acontecer. Temos
que armar a resistncia, e aqui  um lugar to bom quanto
qualquer outro.
"Mas eles vo destruir a cidade", pensou Jack. Ele sentiu a
infncia lhe fugindo, como uma corda se desenrolando de
um carretel.
        Parece estranho o fato de que agora todos sabem  disse
ele.  Mesmo que a gente sobreviva, as coisas nunca mais
vo ser as mesmas.
        No acho que isso vai ser problema  disse Jason. 
Vamos estar todos mortos.
Quando Seph abriu a boca para falar, Jason levantou a mo
para det-lo.
        Sei que temos armas. Sei que temos talento e inteligncia
e estamos do lado do bem e tudo isso. Mas eu vi o que tem l
fora. Com ou sem muralha, eles vo entrar. Se esta fosse uma
luta limpa, a gente venceria. Do jeito que as coisas so,
vamos perder. No importa quantas Chamas de Mago voc
tome.
Seph se empertigou.
        Eu no...
        Qual   resmungou Jason.  Acha que a gente  idiota?
Como se voc no fosse poderoso o bastante sem isso.
        Seph.  Ellen se levantou e ficou cara a cara com Seph,
erguendo-se nas pontas dos ps, as mos cerradas ao lado do
corpo.  Voc prometeu.
        Eu prometi no usar sem necessidade. E no estou
fazendo isso.
        Seria legal se ele compartilhasse um pouco com o resto de
ns  disse Jason.
        Venha, Ellen  disse Jack, subitamente ansioso para
deixar para trs aquele aposento sufocante e infligir leses
corporais em algum.  Vamos ajudar a arrebanhar os
extraviados.
        E a?  disse Jason, quando Jack e Ellen haviam partido.
 Teve notcias dos seus pais?
Seph olhou para ele com cautela, como se achasse que ainda
estavam falando da Chama de Mago. Depois balanou a
cabea.
        Tive vontade de perguntar ao D'Orsay se sabia alguma
coisa deles, mas tive receio de deixar escapar alguma pista.
Nem sei se eles chegaram at a ravina.
        Se esto no Castelo da Ravina do Corvo, isso explicaria por
que eles no tm ligado  disse Jason.
        Pois .
Seph esfregou os ns dos dedos na testa, como se lhe doesse.
Ele parecia mal, pensou Jason. Havia sombras negras sob
seus olhos, os ossos no rosto estavam mais salientes do que
de costume e as mos tremiam um pouco. Quando notou
que Jason o observava, ele as enfiou nos bolsos e fuzilou-o
com os olhos, os lbios apertados, como se o desafiasse a
mencionar o assunto.
"Vamos deixar isso pra l", pensou Jason. Nick, Linda e
Hastings tinham largado um fardo enorme sobre Seph, no
havia dvida. E ningum queria falar sobre a possibilidade de
que Linda e Hastings estivessem mortos.
"Corao mole. Voc est virando um grande corao mole."
        Quer dizer que  to ruim assim?  perguntou Seph.
Jason ergueu os olhos, assustado, pensando que
Seph talvez houvesse lido a sua mente, de algum jeito. Mas
ento Jason percebeu que ele estava falando da situao no
santurio.
Jason se lembrou das sries de tendas que cercavam as
muralhas, o bruxulear das luzes de mago em meio s rvores.
        . Pior ainda.  Ele fez uma pausa, pensando em como
articular o que precisava dizer.  Andei pensando. Tem
algum tipo de conexo entre a Madison e o Corao do
Drago. A gente devia trazer ela de volta.
        No.  Seph respondeu to rpido que Jason soube que
ele andara pensando na mesma possibilidade.
        Mas ela pode ajudar  insistiu Jason.  O Corao do
Drago  a chave, e a gente precisa dar a ela uma chance
com ele. No somos apenas ns. So todos os outros
tambm. Vai haver um massacre. Pode ser o fim das
subordens.
        Ela no  uma de ns. Ela tem que pensar na famlia dela.
Alm disso, mesmo no sendo vulnervel  magia, ela pode
ser morta do mesmo jeito. No quero ser responsvel por
isso.
Jason teve a impresso de que Seph estava tentando
convencer a si mesmo.
        Ela vai fazer, se voc pedir.
        Voc fala que nem o meu pai.  Seph passou a mo pelos
cabelos com impacincia.   claro que ela diria sim se eu
fosse at ela e dissesse que todos ns vamos morrer se ela
no fizer isso.
Jason deu de ombros.
        Eu tambm no gosto da idia, mas...
        Voc no entende? No fiz nada alm de pr a vida dela
em perigo desde que a gente se conheceu. Se a gente tivesse
certeza a respeito de alguma coisa, a sim. Mas  tudo palpite
e especulao. A gente no tem nenhuma prova de que a
Madison possa mesmo ajudar. Se a situao  to ruim
quanto voc diz e a gente a trouxer para c, ela vai morrer
com o resto de ns. Pelo menos assim algum permanece
vivo.
"Parece que no existe uma sada fcil", pensou Jason.
"Talvez nem mesmo uma sada difcil. E se eles perdessem,
bem..." Ele estremeceu. Os magos eram especialistas em
tortura e tinham algo a provar. Ele no havia esquecido as
experincias por que passara nas mos de Leicester.
''Nota para si mesmo: no seja capturado vivo."
Ele conversaria com Mercedes. Talvez ela no lhe desse
Chama de Mago, mas quem sabe tivesse alguma coisa...
algum tipo de plula de veneno que o pusesse fora de alcance
se fosse necessrio.
Captulo Vinte e Nove
xodo

Jason nunca vira tanta atividade nas ruas de Trinity, Ohio, s
cinco da manh. Policiais encapotados iam de casa em casa,
batendo nas portas e acordando os ocupantes  quebrando
janelas e desocupando casas  fora quando necessrio. As
famlias saam dos lares, rebocando malas e crianas
adormecidas, carregando bolsas de viagem e bichos de
estimao em gaiolas protegidas do vento. Carros da polcia e
ambulncias levavam os idosos e enfermos.
Jack e Ellen haviam vestido luvas de armadura em couro e
leves cotas de malha. As grandes espadas despontavam por
sobre seus ombros, mas, naquelas circunstncias, ningum
prestou muita ateno nisso. Passar despercebido nessas
situaes depende muito da atitude que se assume, pensou
Jason.
Os retirantes tentavam se proteger com o que tivessem ao
seu dispor. Todos os membros de uma famlia, at o beb de
colo, vestiam capacetes feitos de papel-alumnio para se
proteger da radiao. A Loja Csmica junto ao campus havia
aberto as portas e vendia rapidamente seus cristais curativos.
Will, Fitch e Leesha haviam cumprido sua misso nos
dormitrios e repblicas de estudantes. Alunos passavam de
skate, bicicletas e patins, levando mochilas e fones de
ouvido, envoltos em cobertores de l, carregando animais de
pelcia e laptops. Muitos ainda vestiam roupas de dormir sob
os casacos: camisetas e mole tons, chinelos ou tamancos.
Pareciam refugiados de um pas em que predominavam a
tecnologia de udio, calados pouco prticos e transportes
individuais no poluentes.
Nas esquinas, policiais em capas de chuva em amarelo vivo
com os dizeres POLCIA DE TRINITY orientavam o fluxo
de pessoas rumo ao lago.
        Ei, cara!  Um aluno empurrou o rdio dele em direo a
Fitch e bateu com o dedo nos fones.  Por que  que no
consigo captar nenhuma estao?
        Deve ser a radiao  respondeu Fitch.
Apesar das multides, e talvez por ser to cedo, o xodo era
relativamente calmo. As pessoas seguiam em silncio,
agarrando-se a seus pertences, o medo e a apreenso nos
rostos.
"Bom", pensou Jason. "Quem sabe a gente consegue mesmo
fazer isso sem atrair a ateno dos magos l fora?".
Jason deixou o fluxo do trfego em direo  mina de sal e
rumou para oeste ao longo da costa. Relmpagos piscavam
quase que continuamente, e troves chacoalhavam as janelas
dos chals junto  praia. As ondas batiam contra o quebra-
mar, banhando-o em respingos gelados. O vento uivava,
soprando do lago, e o granizo chicoteava-lhe a pele exposta.
Magos querendo provar que estavam certos.
Jason percorreu a fila de chals, aperfeioando o seu sistema
de retirada dos habitantes. Se no havia resposta quando ele
batia, explodia um buraco na porta, enfiava o brao e a
destrancava. Ele acordava a famlia, aplicava um pouco de
persuaso sobre o chefe da famlia para obter cooperao
imediata (de outra forma, ningum concordaria em sair
naquele clima) e empurrava-os para fora. Aps algumas
casas, ele reduzira o tempo da operao para 15 minutos por
casa.
Junto  muralha Weir, estava a manso de Shrewsbury,
parecendo um pedao de chiclete cor-de-rosa de estuque
grudado s margens do lago. Ele visitara o lugar nos tempos
em que Leesha morava com a tia Millisandra. Antes de ele ir
at o Condado de Coalton. Agora Leesha estava hospedada
no apartamento de Snowbeard. Mas onde estaria a tia Milli?
Ele examinou a rea, que era cercada por uma requintada
cerca de ferro trabalhado. Leesha j devia ter vindo e
resgatado a tia. Com certeza.
Mas Leesha estava cuidando do lado sul, no campus.
Ningum atendeu quando ele bateu  porta, por isso ele
entrou em seu estilo habitual.
As pessoas costumavam acordar quando ele explodia a porta,
mas ningum respondeu, e ele torceu para que isso
significasse que tia Milli j havia ido embora.
Acabou surpreendendo a velha na cama. Tia Millisandra
gritou quando abriu os olhos e o viu inclinado sobre ela. Ela
jogou um abajur nele, e a seguir uma rajada de fogo. Jason se
atirou de bruos no tapete persa, o fogo chamuscando-lhe a
parte de trs da cabea.
Ela pulou da cama com uma agilidade incrvel para algum
to idosa e se trancou no banheiro. Jason conseguia ouvi-la
do outro lado da porta, gemendo e falando consigo mesma.
Ele tinha receio de explodir a porta com ela to perto.
        Ei, no vou machucar a senhora.  o Jason, lembra? Todo
mundo tem que partir. Eu vim buscar a senhora. Fique longe
da porta.
Ela no respondeu, s ficou resmungando para si mesma. Ele
ouviu vidros quebrando, louas explodindo. gua jorrava
por debaixo da porta. Tia Milli estava criando sua rea de
desastre mgico de costume.
Droga. Ele no tinha tempo para aquilo.
        Vamos l, tia Milli. Fique calma e se afaste da porta.
Nada. Ele teria de explodir a porta, gostasse ou no.
Ele ouviu um rudo na frente da casa: uma porta batendo.
Era Leesha. As faces estavam coradas do frio e a bandana de
Fitch amarrada em torno de seus cachos. Ela o pegara de
surpresa, e ele se deu conta do quanto sentira a falta dela.
        Ela est ali dentro  disse ele, engolindo em seco,
indicando o banheiro com a cabea.
        Tia Milli?  Leesha bateu na porta.   a Alicia. Abra. 
No houve resposta, e ela repetiu, mais alto.  Ela  meio
surda, lembra?  sussurrou ela a Jason.
Uma voz trmula veio do outro lado da porta.
        No acredito em voc. V embora.
        Tia Milli, sinto muito se o Jason a assustou. Lembra-se do
Jason? Ele veio para o ch.
        No me lembro de nenhum Jason.
"Quem sabe Jasper", pensou Jason. "Lembra-se dele?"
Leesha baixou os olhos para a gua que lhe chegava at os
tornozelos.
        Precisa nos deixar entrar, tia Milli. Parece que h uma
inundao.
        Estamos no meio da noite  disse Millisandra com a voz
trmula.
        No, ainda  cedo.  Leesha fez uma pausa.  Tem um
baile no pavilho junto ao lago, e achei que talvez voc
quisesse vir.
Houve uma pausa, e ento tia Milli falou:
        Mesmo? No est muito frio?
        Est uma noite linda  respondeu Leesha.  A lua est
no cu, brilhando sobre a gua, e aposto que d para ouvir o
conjunto at no Canad.
        Oh, Deus, bem, faz tanto tempo! Quem sabe eu possa ir
por um tempinho.
Jason ouviu um remexer no trinco, e ento a porta se abriu,
revelando Millisandra com um sorriso tmido.
Leesha ergueu a mo e lanou um punhado de p no rosto
da tia. Gemynd bana. Assassino da Mente. Tia Milli
desmaiou, e Jason apanhou-a antes que ela tombasse sobre os
ladrilhos. Ele a ergueu nos braos. Ela no pesava nada.
Eles se juntaram aos rios de seres humanos fluindo pela costa
em direo s minas.
        Obrigada por buscar a tia Milli  disse Leesha, tocando o
brao dele.  Acho que eu no agentaria o peso dela.
Jason no disse nada.
Eles deram mais uma meia dzia de passos, e Leesha disse:
        Escute, Jason, me desculpe. Pelo Barber.
Jason continuou olhando para frente.
        O Seph e o Jack me contaram a respeito da coleira.
Leesha parecia determinada a dizer o que tinha a dizer,
como se pensasse que no teria outra oportunidade.
        O Barber bateu em mim. Disse que contaria sobre mim
pra todos vocs se eu no fizesse o que ele mandava. Vocs
me expulsariam do santurio, e a ele me mataria.
Jason lembrou-se do ch com tia Milli, uma noite antes de
ele partir para o Condado de Coalton. Lembrou-se de que o
rosto de Leesha estava arranhado e inchado.
        Voc no teve escolha. D pra entender.
        Depois que coloquei o m na sua mochila, percebi que
tinha cometido um erro. Tentei ligar pra voc, mas voc no
atendeu.
Jason se lembrou das chamadas no atendidas no celular.
        Quer dizer ento que a culpa foi minha  disse ele, em
tom amargo. Toda vez que abria a boca, saam palavras frias e
duras.
        Jason.  Ela ps a mo no brao dele de novo, e ele a
repeliu.  Eu... eu no quis dizer isso, s queria que voc
soubesse que... eu no queria...
Ele estava com medo de olhar para ela, medo de acabar
cedendo.
        Certo  disse Jason, chutando galhos cados para fora do
caminho. Estavam chegando ao posto de controle da polcia
na entrada das minas.  Acredito que esteja arrependida por
ter me entregado ao Barber.
Ela sacudiu o gelo dos cabelos e piscou para remov-lo dos
clios.
        Ele... ele machucou voc?
"No tanto quanto voc me machucou", pensou Jason. Era
culpa dele mesmo. No podia alegar que havia entrado
naquilo sem saber onde estava entrando.
        Estou bem.
Dois homens do Servio Mdico de Emergncia trouxeram
uma maca, e ele deitou tia Millisandra cuidadosamente sobre
ela.
         melhor voc ficar com ela, garantir que ela fique
inconsciente  disse ele a Leesha, imaginando o caos que a
tia Milli criaria nas minas.  Vou fazer outra ronda.
Mas Leesha no iria desistir. Ela barrou-lhe o caminho.
        Se acredita que no tive escolha, qual  o problema, ento?
Ele no respondeu, e ela insistiu.
        O que ?
        Achei que voc gostasse mesmo de mim. No percebi que
era tudo armao.
Pattico.
Ela pegou-lhe a mo, segurou-a com firmeza entre as dela,
como se nunca quisesse soltar.
        Eu gosto de voc. Jason. Por favor, voc tem que acreditar
em mim. Eu...
        Eu no tenho que fazer nada. E no acredito em voc.
Nunca mais.
Gentilmente, ele soltou a mo das mos dela. E foi embora.

Captulo Trinta
Concordando em Discordar

Jessamine Longbranch estava cansada das privaes da
guerra.
Sentia falta do seu palcio s margens do Tmisa: os jardins
repletos de rosas brancas, os servos que atendiam a todos os
seus desejos, as intrigas mais civilizadas que se desenvolviam
sob o disfarce de poltica de magos.
Tremendo de frio, ela apertou o casaco em torno dos ombros
e afastou o prato de camares. Estava sozinha em seu
pavilho, s trs da manh.
O problema em cercar uma fortaleza era que os sitiantes
ficavam to aprisionados quanto os sitiados. Era divertido
brincar de exrcito por um ou dois dias, mas aquilo j era
demais.
Ela no conseguia se livrar da sensao irritante de que
estavam sendo passados para trs. Onde estavam os cidados
Anaweirs de Trinity? Por que no estavam saindo pela
muralha Weir para serem arrebatados pelos magos  espera?
Onde estava o pnico nas ruas? Justamente o que aquele stio
precisava para dar fim ao impasse. Embora tivesse sido idia
de Wylie, ela achara que iria funcionar.
Inclinando-se para a frente na cadeira, ela se serviu de outro
clice de vinho. Quase o derramou quando algum falou:
        Oi.
Ela se virou de sbito, sabendo que j era tarde demais para
se defender.
        Calma  disse Jason Haley, levantando as mos para
mostrar que estava to desarmado quanto um mago podia
estar.  Se eu tivesse vindo matar voc, j estaria morta.
        Ento por que est aqui?  indagou Jess, ainda abalada. 
E como chegou at aqui?
Ele ignorou a pergunta e deixou-se cair na cadeira  frente
dela.
        Preciso de uma passagem segura pra sair do santurio.
Jess pestanejou, surpresa.
        O qu? Por qu?
        O McCauley est louco  disse Haley, sem rodeios. 
Ele vai matar a todos ns.
        Ah.  Jess se recostou mais na cadeira. Intriga e
discrdia. Talvez ela no chamasse os guardas ainda.  Quer
dizer que essa arma da qual ele fala no  to poderosa,
afinal?
Haley balanou a cabea com impacincia.
        Errado.  incrivelmente poderosa. Esse  o problema.
        Como assim?  indagou Jess, impaciente com o andar
vagaroso da histria.
O rapaz parecia nervoso. Estremecia com qualquer rudo e
tamborilava os dedos na coxa em um ritmo errtico.
        Esto todos mortos  disse ele finalmente, olhando para
ela, depois desviando os olhos.  Os Anaweirs.
        O qu?  Jess encarou-o, pensando que devia ter
entendido mal. Pela expresso no rosto dele, no era o caso.
 Como isso aconteceu?
        Foi um acidente.  Haley fitou o vazio, um msculo
latejando no maxilar.  Ele estava fazendo experincias com
o Corao do Drago.
        Est dizendo que o McCauley matou toda a populao
Anaweir da cidade?
Haley assentiu com a cabea, respirando fundo.
        Tem alguns nas mos dos curandeiros, mas, mesmo que
eles sobrevivam, no acho que...  Ele passou a mo pelo
cabelo repicado.  Enfim, foi um desastre.
Jessamine examinou-lhe o rosto. Ou o rapaz era um timo
mentiroso ou estava dizendo a verdade.
        A Becka Swift? Aqueles meninos que foram at a Ravina
do Corvo?
Ele assentiu, olhando para o cho.
Jess no pde deixar de admirar a estratgia, embora tornasse
a tarefa dela mais difcil.
        Que conveniente. Agora o McCauley no tem que lidar
com eles.
Dada a falta de resposta de Haley, Jess sups que ele estivera
pensando a mesma coisa, ainda que no fosse capaz de diz-
lo.
        Bem  disse ela.  O coitado do Jackson deve se sentir
um pouco trado.
        No sei o que ele acha. As pessoas esto com medo de
falar muito. O McCauley sabe mais ou menos como usar a
pedra, mas isso no  o suficiente, considerando que ela
pode destruir todo o norte de Ohio e Indiana. Mas ele no se
importa. Desde que... que isso aconteceu, ele est
determinado a fazer com que ela funcione. Sabe como ,
fazer o sacrifcio valer a pena.
McCauley havia parecido arrogante e pretensioso na ltima
vez que ela o vira.
        E voc no quer ser um mrtir?
 claro que ele no queria. O que quer que ela pensasse de
Jason Haley, ele no era idiota.
        No quero jogar a minha vida fora por nada. Vou tentar
pr um fim nisso.
Jess ergueu uma sobrancelha.
        Voc vai lutar contra o McCauley? Isso no seria um
confronto um pouco... desequilibrado?
Haley levantou a cabea de sbito, e Jess ocultou um sorriso
atrs do clice de vinho. O rapaz tinha inveja, naturalmente.
McCauley recebia toda a ateno. Era a estrela do espetculo
dos rebeldes.
        Veremos  disse Haley.  No me atrevo a tocar no
Corao do Drago.  muito instvel. Mas vou trazer algum
que pode lidar com ele sem ser morto.
Longbranch esfregou o queixo.
        Algum mais poderoso do que o McCauley?
        De certa forma.
        Quem?
        Madison Moss.
Longbranch se inclinou mais para perto.
        A garota de Second Sister? Ela  realmente dotada, ento?
        No exatamente. Ela no pode usar a pedra como um
mago pode. Mas, com ela, a pedra no provocar um
desastre.
Ela estudou-o.
        Tem certeza disso?
Haley assentiu com a cabea.
        Onde est a garota?  perguntou Longbranch.
Haley emitiu um som de desprezo.
        Certo. Como se eu fosse idiota.
Jess suspirou.
        O que voc est propondo?
        Acho que podemos, sabe como , fazer uma troca. Se eu
trouxer o Corao do Drago para voc, o McCauley vai se
render. No vai ter escolha.
        Por que voc faria isso?  indagou Jess.  Por que nos
entregaria a nica arma que vocs tm?
Ela queria acreditar.
Haley apontou para a cidade com a cabea.
        Tem pessoas l dentro que eu gostaria de salvar. Alm
disso, voc me entrega o D'Orsay. Como prometeu.
Humm. Ela no se importaria de perder D'Orsay, agora que a
utilidade dele havia acabado. Eles tinham as
sefas do tesouro, por mais desapontadoras que estas
houvessem se revelado.
        Como vamos ter certeza de que voc no vai buscar o
Hastings?
        Vocs controlam a muralha externa  retrucou Haley. 
Como  que ele ia entrar sem que vocs soubessem? Aposto
que adorariam pegar o Hastings sozinho aqui fora.
Ah, sim. Sem dvida.
        Por que a Madeline... Madison Moss ajudaria voc? 
perguntou ela com delicadeza.  Ela no est namorando o
McCauley?
        Estava. Eles romperam. Digamos apenas que ela est
aberta a novas... possibilidades  sugeriu Haley, encarando-
a com firmeza e, para a alegria de Jess, sem mostrar
nenhuma vergonha.
Haley possua um tipo perigoso de carisma. Meninas
adolescentes sempre se apaixonavam pelos meninos
malvados. Aquilo estava parecendo cada vez melhor. Mas
Jess ficava desconfiada quando as coisas pareciam boas
demais para ser verdade.
Haley sorriu, como se lesse os pensamentos dela.
        Acredite em mim ou no, voc no arrisca muita coisa. A
minha presena ou ausncia no vai fazer muita diferena no
resultado final. Se eu estiver dizendo a verdade e fizermos
um acordo, vai salvar a pele de todos vocs. Confie em mim.
Todos vo morrer se o McCauley usar o Corao do Drago.
        Voc trairia os seus amigos?  perguntou ela, pensando,
"por que no?". Afinal, era o que os magos sempre faziam.
        Melhor trados do que mortos. Podemos negociar anistias
quando isso houver acabado.
         claro  disse Jess diplomaticamente.  Quando planeja
ir?
        Hoje  noite. Vou sair pelo porto externo, logo aps a
meia-noite. Esteja com a minha carta de "sada livre da
priso" na mo.
O Chal de Pedra estava deserto, como era habitual naqueles
dias. Jason levou menos de uma hora para juntar seus
pertences e enfi-los numa bolsa de viagem. No precisaria
de muito.
Foi uma caminhada longa e assustadora pelas ruas quase
desertas at o parque. Jason se manteve nas sombras,
torcendo para no encontrar algum conhecido. As foras de
segurana de Trinity haviam entrado nas minas junto com os
cidados, mantendo a fico de que a desocupao era por
causa da "contaminao radiativa".
Alguns guerreiros fantasmas patrulhavam as ruas para
impedir saques. Parecia um desperdcio de esforo para
Jason. A cidade estaria perdida em pouco tempo, dada a
proclamada poltica de terra arrasada das Rosas.
Os ponteiros do relgio da torre se juntaram enquanto ele
cortava caminho pela praa vazia. Os sinos ressoaram 12
vezes.
O costumeiro grupo de guerreiros estava de guarda junto ao
porto Weir. Jason acenou rapidamente com a cabea ao
passar, na esperana de desencorajar conversas, mas
Jeremiah Brooks saiu do meio deles.
        Seu Haley, n?
Jason ergueu a mo num tipo de saudao.
        Ol, Brooks.
Ele continuou andando, torcendo para que isso os fizesse
perceber que ele estava numa misso urgente. Mas o
guerreiro deixou os camaradas e o acompanhou.
A brisa noturna carregava o cheiro do guerreiro at Jason:
uma mescla de suor, couro, sangue velho e tabaco. Ele
pintara o rosto e enfiara algumas penas no cabelo, o que lhe
dava um ar cruel e primitivo.
        E ento, para onde est indo?  perguntou Brooks, com
um sotaque cantado na voz que traa sua origem britnica do
sculo XVIII.
        Pensei em dar uma olhada l fora  disse Jason
vagamente.  Ver se tem algum movimento na fronteira.
        Certo  disse Brooks.  Muito bem, ento.  Ele
esfregou um dedo no nariz.  Tome cuidado l fora. As
Rosas... eles so cheios de truques.
        Certo  disse Jason.  At mais.
Ele passou pelo porto e entrou na terra de ningum. Sentiu
a nuca se eriar. No pde deixar de se perguntar se
Longbranch ia mesmo cumprir o acordo, e se o plano havia
sido comunicado aos magos de guarda. Caso contrrio,
aquela seria uma jornada bem curta. Ele resistiu  tentao de
reexaminar a localizao de todas as sefas que trazia
escondidas.
Ao se aproximar da muralha externa, viu meia dzia de
magos da Rosa Branca agrupados em torno de um porto da
muralha dos magos. Da casa de Longbranch. Nenhum sinal
da Rosa Vermelha.
As sentinelas barraram-lhe o caminho.
        Nome?
        Haley.
Em silncio, eles se afastaram para deix-lo passar.
O porto se abriu diante dele. Jason deu um passo  frente,
depois outro, esperando a qualquer momento ser incinerado
por alguma armadilha que eles tivessem se esquecido de
desarmar. Mais cinco passos e ele havia passado. Olhou para
trs. Os magos da Rosa Branca o observavam. Ele se virou e
continuou andando pelo labirinto de tendas dos magos,
passando os acampamentos das Rosas. Mais cinqenta passos
e ele estava bem oculto na floresta. Parou por um momento
para se livrar de todas as correias e equipamentos de
espionagem mgicos que haviam sido postos nele no porto.
Ele avanou a passos rpidos. Incrvel quanta resistncia ele
tinha, agora que parara de fumar. Teria de encontrar uma
casa, apropriar-se de um carro. No tinha muito tempo.
Olhou para trs mais uma vez ao chegar ao topo de uma
pequena elevao. Trinity nadava, inquieta, num mar de
nvoa mgica, como um castelo de fadas, as pequenas torres
da muralha de Mercedes despontando no cu. Nuvens
negras se aproximavam vindas do lago, projetando uma
sombra profunda sobre a cidade e adensando a noite.
Ele se virou e saiu correndo.

Captulo Trinta e Um
Armagedom no Lago

Talvez a gente devesse ter se reunido na casa do Jack",
pensou Seph. Naquele momento, parecia perigoso estar
empoleirado numa salincia de rocha na beira do lago.
O vento uivava, impelindo ondas espumantes contra o
quebra-mar, arrancando telhas de ardsia do telhado e
lanando-as em espiral para dentro da escurido. As rvores
no jardim se dobravam sob as superfcies cintilantes de gelo.
Chuva e neve batiam contra as janelas de caixilhos de
chumbo do Chal de Pedra; o vento encantado assobiava na
chamin e troves ribombavam sobre o lago. Eles tinham de
falar alto para serem ouvidos.
Era pior para Seph do que para qualquer outro. O aelf-aeling
o deixava hipersensvel:  tempestade conjurada,  nuvem
baixa que pairava sobre eles, s legies de magos que se
aglomeravam em torno das muralhas, como as trevas ao
redor de um abajur. Era como se os nervos dele houvessem
sido lixados at se reduzirem  sensibilidade extrema. A
atividade mgica na fronteira era um tremeluzir constante,
apenas um pouco alm do seu campo de viso. Ele conseguia
ver todas as possibilidades, e todas pareciam ruins.
Ele pensou nos refugiados nas Sisters e perguntou-se como
estariam. Deviam achar que o mundo estava realmente
chegando ao fim.
        Imagino o que os meteorologistas esto dizendo sobre esta
tempestade  resmungou ele.
        S podemos imaginar  observou Nick, sarcstico, de seu
lugar junto ao fogo.  Dado o hbito deles de fazer uma
tempestade ordinria parecer com o Juzo Final.
O velho mago havia puxado um cobertor de l por sobre os
ombros. Ele e Leesha estavam sentados com um tabuleiro de
xadrez entre eles. Ou ela era muito boa ou Nick a estava
deixando vencer. Ele parecia estar se esforando bastante
para anim-la, por algum motivo.
Jack e Ellen chegaram batendo portas, sacudindo-se como
ces para se livrar da chuva e da neve. E depois deles vieram
Will e Fitch.
Seph olhou de Will e Fitch para Jack e ergueu uma
sobrancelha.
        Esses dois no deviam estar nas Sisters?
        Eles estavam escondidos  explicou Jack.  Mas eles tm
trabalhado bastante.
        Eles esto plantando minas na terra de ningum entre as
muralhas  disse Ellen, sorrindo, batendo nas costas de
Will, espalhando gelo em todas as direes. A gente tem
dado cobertura.
Will e Fitch pareciam membros da Resistncia Francesa,
trajando jeans pretos e casacos com capuz e gorros de l
preta, os rostos manchados de preto para no brilhar no
escuro.
        As Rosas esto procurando por refns  disse Seph. 
No  uma boa idia ir l fora.
        J fomos refns, a gente conhece o protocolo  disse
Fitch, remexendo na geladeira e pegando uma garrafa de
suco.
Seph se voltou para Jack em busca de apoio.
        No est com medo de explodir os nossos prprios
guerreiros? Quero dizer, a gente est patrulhando aquela
rea.
        Os sensores de movimento vo nos dizer quando tiver
algum l.  Fitch exibiu um dispositivo eletrnico, to
pequeno quanto um tocador de MP3, sacudindo-o diante de
Seph.  Mas nada explode at que eu mande.
        Enfim. A gente no vai para as minas de sal  disse Will,
erguendo o queixo em desafio, como que ansioso para
encerrar a questo.  Por isso, pode esquecer.
        Vocs no tm nenhuma chance contra a magia  disse
Seph.
A resposta de Will foi algo como:
        Humpf.
        Est certo  disse Seph.  Obrigado. Mas no morram,
est bem?
Seph tomou nota mentalmente de tentar coloc-los fora de
perigo quando acontecesse a catstrofe. Mais uma coisa em
que pensar.
Mercedes havia entrado enquanto eles conversavam. Assim,
estavam todos l com a exceo de...
        Algum viu o Jason?  perguntou Jack, olhando ao redor
de forma exagerada.
        O Jason?  Seph deu de ombros.  Ele vai chegar.
Provavelmente se atrasou. Por qu?
        Era para ele ter nos encontrado duas horas atrs  disse
Ellen.  Para a gente vistoriar o acampamento junto das
muralhas. Ele no apareceu.
Houve uma pausa longa e tensa, cheia de pigarros e olhares
significativos.
        O que vocs esto sugerindo?  indagou Seph, irritado.
        S acho que  estranho, s isso.  Jack enfiou a ponta do
atiador nas chamas na lareira. Fascas subiram em espiral. 
Tipo, ele anda meio desgarrado desde o incio. Louco para ir
embora.
Seph esperou que algum discordasse. Ningum o fez.
        O Jason andava se sentindo frustrado, sim, mas isso era
porque ele achava que podia fazer mais no Reino Unido do
que aqui. Ele no pode acreditar nisso ainda.
        Ento cad ele?  indagou Jack.
        Ei.  Ellen franziu a testa para Jack.  Pega leve.
O silncio pesou entre os dois.
        Brooks viu o Jason do outro lado da fronteira, logo antes
da meia-noite  disse Jack, apoiando o atiador na lareira.
 Estava indo para o porto dos Magos. Ningum mais viu o
Jason depois disso.
        O que voc est dizendo?  perguntou Seph.  Que ele
nos abandonou?
Jack deu de ombros.
        Ele no iria embora sem mais nem menos  declarou
Seph, revivendo em parte a antiga animosidade entre ele e
Jack.
Sem querer, Seph buscou em sua mente a fagulha raivosa
que era Jason. No o encontrou em lugar algum dentro dos
limites do santurio. Teria ele ido para as Sisters? Estaria de
algum modo incapacitado, para no poder ser detectado?
Seno como ele teria atravessado a barricada externa e
passado pelas fileiras de magos l fora?
        Ele no abandonaria vocs  disse Leesha de sbito.
Todos eles se voltaram para ela.  Ele no faria isso 
insistiu ela, empurrando o tabuleiro de xadrez para longe, de
forma que as peas tombaram no cho.
Jack revirou os olhos, como se dissesse: Olha s quem fala.
        Ningum insinuou isso  disse Seph, olhando para os
outros ao redor, desafiando-os a discordar.
Jack fitou-o com seus olhos azuis, mas no disse nada. Seph
lembrou-se do que Ellen lhe dissera, mais de um ano atrs: O
Jack est mais cauteloso do que costumava ser antes da
Ravina do Corvo.
        Talvez a gente deva discutir o que vai acontecer amanh
 sugeriu Nick baixinho.
Jack sentia uma sede avassaladora. A fadiga pesava-lhe nas
pernas e braos como bigornas. Ou talvez fosse a armadura
que vestia. Sempre que fechava os olhos, via as imagens dos
homens que matara, como se estivessem pintadas nas
plpebras. Por isso ele lutou para manter os olhos abertos,
piscando para se livrar da poeira, do suor e do sangue que lhe
sujava o rosto.
Procurava pelos companheiros. Havia se perdido deles
durante o ltimo duelo com um mago que se recusava a cair.
Quando enfim acabou com ele e arrancou a espada de seu
corpo, viu-se sozinho entre as rvores, numa floresta cheia
de cadveres e regada a sangue.
Ele andou silenciosamente pela floresta, buscando o som
caracterstico do choque de metal e magia que o levaria at a
luta em andamento. Mas nada. At os pssaros haviam
deixado aquele local desolado horas atrs, entendendo que
aquele no era lugar para seres vivos.  uma peculiaridade do
homem  perfilar-se e marchar para a morte. As nicas
outras criaturas que no fogem de um campo de extermnio
so as que se alimentam de carnia e aparecem depois do
fato consumado.
Por todos os lados jaziam os despojos de mortes terrveis. Ou
mortes hericas. Os resultados pareciam ser os mesmos.
Finalmente, ele saiu da floresta e passou para um campo
pontilhado de rvores ancis, muitas delas queimadas,
estilhaadas ou quebradas, como se ainda no tivessem
notado que estavam condenadas, apontando punhados de
folhas para um brilhante cu azul. Construes de pedra
cercavam o gramado por todos os lados.
A praa. E, para onde quer que olhasse, cadveres.
 Jack!  Ellen cutucou gentilmente o brao de Jack. Ele
respondeu tentando acert-la com o punho, que ela segurou
entre as duas mos e forou para baixo, contra o travesseiro.
 Jack, voc est sonhando, pare com isso!
O corpo dele arqueou e contorceu-se enquanto ele tentava
se libertar. Os cabelos loiro-avermelhados se espalhavam
sobre o travesseiro, molhados de suor, e Jack resmungava
algo ininteligvel.
        Qual , Jack, voc vai acordar a casa toda!
"Cara, ele  forte", pensou ela, incapaz de conter certa inveja
profissional.
Mais uma vez aquele grande punho quase atingiu o alvo, e
ela apanhou um copo da mesa de cabeceira e esvaziou o
contedo no rosto dele.
Ele se sentou de repente, cuspindo, a mo buscando a adaga
do cinto. Ainda bem que ele no estava com ela, ou Ellen
teria ido para o espeto antes que ele acordasse. Ela se desviou
das mos dele, firmou os ps no cho e recuou alguns
metros, observando-o.
Finalmente, os turvos olhos azuis clarearam e se fixaram
nela.
        O qu...?
        Voc estava sonhando  repetiu Ellen.  Esteve
gritando e berrando durante metade da noite. Ningum
consegue dormir.
Ele a fitou como se ela fosse um fantasma. Era assustador.
        Eu fui escolhida para entrar e dar um fim nisso. No h
dvida de que voc acorda de mau humor. No leve uma
arma pra cama,  o meu conselho.
        Ellen  sussurrou ele em voz rouca , eu matei. Matei
todos eles.
Ele olhou para as mos, virando as palmas para cima, como
se elas estivessem cobertas de sangue.
        Matou quem?  perguntou Ellen, mas Jack no parecia
t-la escutado. Ela se aproximou e sentou na beirada da
cama.  Escute, foi s um sonho.
Em resposta, ele atirou as cobertas para o lado e saiu da
cama, sem ligar para como estava vestido. Tirando a bolsa de
viagem do armrio, ele a esvaziou no cho. Remexeu na
pilha de roupas e encontrou um pacote embrulhado em
camura.
Ele se sentou junto a Ellen na cama e arrancou a camura
com dedos trmulos. Era um espelho, a moldura prateada
gravada com drages e outras imagens fantsticas. Ele olhou
no espelho com um ar de desespero.
        Uau, que legal!  disse Ellen, ajeitando com os dedos os
cabelos de Jack, que estavam espetados em todas as direes.
 O que ele faz?  Ela chegou mais perto para poder
enxergar.   mgico?
O que ela viu no foi o rosto de Jack, mas uma imagem que
parecia um campo de batalha. S que familiar.
        Isso  a terra de ningum?  perguntou ela.
Um guerreiro solitrio estava de p no centro do campo, a
luz do sol atingindo-lhe os cabelos loiro-avermelhados, a
cabea baixa, trazendo nos braos um companheiro de
armas. Em toda a volta dele havia corpos tombados:
guerreiros de cinco sculos, cercados pelos equipamentos e
armas de seu tempo.
         voc  disse Ellen.  O que isso significa?
Jack apanhou o espelho e jogou-o no outro lado do quarto.
Ele se espatifou na parede e caiu atrs da cmoda.

Captulo Trinta e Dois
No Olhe Para Trs

J havia muito tempo, Madison Moss tinha aprendido a olhar
para a frente  a se concentrar estritamente em seus
objetivos. No que no isso no tivesse um preo. s vezes
ela se perguntava se no estava condenada a repetir os erros
do passado, j que se treinara a no olhar para trs.
Mas Maddie era, antes e acima de tudo, uma sobrevivente.
Alm disso, sempre havia protegido aqueles a quem amava.
No importava o que custasse. Isso, pelo menos, lhe dava um
rumo.
Assim, por enquanto, podia deixar de lado as perguntas sobre
o que acontecera na Fazenda Bryson. Deixar de lado o
Instituto de Arte de Chicago e Seph McCauley.
Deixar de lado as ameaas de Warren Barber.
Ela no levou muito tempo para fazer as malas. Enfiou duas
mudas de roupa numa bolsa de viagem. Aps pensar um
pouco, devolveu a arma do pai ao estojo de madeira, fez dois
sanduches com o que comprara no armazm e empilhou-os
numa sacola trmica pequena com duas latas de refrigerante.
No tinha inteno de fazer paradas.
Finalmente, vestiu as calas jeans, uma blusa e botas sobre
meias grossas. Roupas que sinalizavam que ela no estava
para brincadeira. Ela ps a bolsa no cho e largou a jaqueta
de brim com botes prateados por cima, depois amarrou o
cabelo para trs com uma bandana.
O plano dela era simples: iria de carro para Trinity, direto at
a Igreja de St. Catherine. As barreiras e feitios de proteo
de Seph no lhe causariam nenhum problema. Com alguma
sorte, ela pegaria o Corao do Drago e iria embora antes
que qualquer um soubesse que ela estava l.
Era isso. O que faria se encontrasse com Seph? Inventaria
alguma coisa.
Tentou pensar no que viria depois disso, mas nada lhe veio 
mente. No confiava em Barber, mas no tinha idia de
como se livrar dele.
Ouviu o rudo de cascalho contra metal de um carro
estacionando no ptio, depois o som de uma porta batendo.
Ser que Barber havia voltado por alguma razo? Seria a
polcia? O Juizado da Infncia e da Juventude do condado?
Nenhuma daquelas possibilidades era boa. Ela pensou em
fugir pelos fundos, mas ainda assim teria de passar por quem
quer que fosse para descer a montanha. Por isso ela se
ajoelhou no cho ao lado do estojo de madeira como um
animal acuado, uma mo segurando a pistola carregada.
Ouviu passos atravessarem a varanda que rangia. Mesmo
assim, deu um pulo quando algum bateu  porta.
        Entre!  disse ela, mirando a porta da frente com a
pistola, atrs do estojo de madeira.
A silhueta do visitante projetou-se sobre um retngulo de luz
do sol. Ele apertou os olhos para enxergar no aposento
escuro, depois deu alguns passos hesitantes para a frente.
        Madison?
        Jason?  Ela soltou a pistola e se agachou, soltando a
respirao com alvio.
A luz bateu no rosto de Jason quando ele se afastou da porta.
Ele parecia melhor do que da ltima vez em que o vira,
quando partira para Trinity. As cores tinham voltado,
embora parecesse que ele no dormia havia dias. O cabelo
tinha crescido de um jeito desordenado.
Ela gostaria de poder agarr-lo e dividir com ele a carga de
problemas que enfrentava. Mas talvez ele no fosse um
aliado. Ela tinha um nico objetivo; no podia ter mais do
que um objetivo. O dele poderia ser diferente.
Ela se levantou, um pouco trmula, com os pensamentos
agitados.
        E a? Sem querer ser rude, mas por que voc voltou? 
indagou ela.
A pergunta pareceu surpreend-lo, como se ele no
houvesse planejado nada alm de chegar  montanha
Booker.
        Bem, a gente... ahn... Quer dizer, eu estava me
perguntando se voc ouviu falar sobre o que est
acontecendo em Trinity.
Barber lhe havia dito que havia problemas, mas ela no tinha
certeza de que tipo. Alm disso, no seria bom dizer que
andara batendo papo com Warren Barber. Por isso ela
balanou a cabea.
        O que est acontecendo em Trinity?
Os olhos de Jason se iluminaram ao ver a bolsa de viagem
junto  porta.
        Estava indo a algum lugar?
        Bem...  Ela pensou por um momento, decidiu-se e
respondeu com pressa.  Na verdade, eu estava me
aprontando para sair. Para voltar para o norte. Os meus... 
Ela engoliu em seco, perdida por um instante, antes de
prosseguir.  Uma outra pessoa vai tomar conta das crianas
por uns tempos. Por isso pensei...
        timo  disse Jason.  Isso  timo.
Eles ficaram num silncio incmodo por algum tempo,
ento ele lanou um olhar rpido em direo  cozinha.
        Eu vim de l at aqui sem parar. Ser que eu poderia beber
alguma coisa?
        Sim, claro.
Ela guiou-o at a mesa da cozinha e foi pegar um refrigerante
na geladeira. O tempo todo louca para ir embora de uma vez
por todas.
Madison depositou a bebida na mesa diante de Jason e
recostou-se no balco da cozinha.
        Voc parece melhor  disse ela.
Ele fez uma careta.
        , estou perto dos cem por cento. Mas cem por cento no
 grande coisa.  Ele no disse isso como se estivesse em
busca de um elogio.  Maldito Warren Barber, onde quer
que esteja.
"", pensou ela. "Maldito Warren Barber."
Ela no conseguiu se conter:
        Como est o Seph?
As palavras de Jason vieram num jorro, como se um dique
interno houvesse se rompido.
        Mal. Escute, Maddie, a gente precisa da sua ajuda, mas ele
no vai pedir. Trinity est sob stio. O lugar est cercado, e
eles dizem que vo atacar amanh se a gente no se render.
Ela piscou, momentaneamente distrada da nsia de partir.
        Como assim, a cidade est cercada? Por quem?
        As Rosas. E o D'Orsay. Eles ergueram uma muralha de
mago colossal em volta de toda a cidade, e essa muralha
mantm todo mundo l dentro, Weirs e Anaweirs. Bem,
primeiro, a Mercedes construiu uma muralha. Lembra? O
Will e o Fitch nos contaram a respeito disso quando vieram
aqui. Mas a muralha da Mercedes s funciona para os Weirs.
Segundos se passaram enquanto ela absorvia aquela
informao.
        Certo. Est me dizendo que existem duas muralhas, uma
dentro da outra. E a do lado de fora apanha os Anaweirs. Por
isso ningum pode sair de Trinity? Como  que isso 
possvel? Com certeza as pessoas iriam notar. E quanto ... 
polcia?
Jason fez um gesto de desprezo.
        Por que as Rosas se importariam? As autoridades Anaweirs
no podem fazer nada. Trinity  meio isolada, para incio de
conversa. Eles cobriram a muralha com feitios de confuso,
por isso ningum consegue nos encontrar. Os telefones, a
televiso e o rdio no funcionam dentro da muralha. 
como se a gente estivesse na Idade Mdia.
Uma imagem ocorreu a Madison: Trinity como uma cidade-
universidade do sculo XV, sob stio, num perptuo
crepsculo,  sombra de muralhas negras ameaadoras.
        Mas... no est todo mundo enlouquecendo l dentro? E
quanto aos alunos do colgio? E as pessoas... as pessoas tm
empregos...
Jason hesitou, como que se perguntando se seria sensato
compartilhar um segredo.
        Os Anaweirs foram embora. O Seph fez com que eles
fossem para fora da cidade s escondidas.
        E o Seph est...
        Ele est usando Chama de Mago  disse Jason
bruscamente.  Ele fica incrivelmente poderoso, mas acho
que  arriscado. Ele vai salvar a cidade e todos dentro dela ou
morrer tentando.
No. Foco  frente. No olhe para trs. No h nada l atrs a
no ser monstros.
        Mas... Por que eles esto fazendo isso? O que eles querem?
        Querem o Corao do Drago.
Madison se virou e olhou pela janela da cozinha, para a
silhueta sensual das montanhas l longe. Ela esperava que a
vista a acalmasse e a impedisse de vomitar na pia.
        O que eles querem com ele?
Ela sentiu a presso quente do olhar de Jason sobre a nuca.
        Eles acham que  uma arma... Tipo, a maior de todas as
armas.
        Uma arma?  Ento era por isso que Barber o queria.
Madison nunca pensara no Corao do Drago como algo
perigoso. Mas o que  que ela sabia?  Se  uma arma, no
pode ser usada contra eles?
        A gente no sabe como. A gente nem sabe ao certo o que
ele faz.  Ele respirou fundo.  E... a gente no consegue
chegar perto dele.
Ela girou para encar-lo.
        O qu? Desde quando?
        Desde que voc foi embora.  como se houvesse algum
tipo de campo de fora em volta dele. Se gente tenta tocar,
ele explode em chamas ou faz com que a pessoa que o tocou
seja lanada para longe.
        Est dizendo que quatro magos no conseguem segurar
uma pedra?
Ele fez que sim com a cabea.
        Por que no me contou?  perguntou ela.
Ele deu de ombros com tristeza.
        Eu achava que a pedra ia se acalmar. Eu... queria tentar ir
l eu mesmo, pegar e usar a pedra.
Ser que as coisas podiam ficar ainda piores?
        Mas voc o manejou antes, no foi? O Corao do Drago.
Teve algum problema naquela poca?
        No.  Jason esfregou o queixo com a barba por fazer. 
O Nick, a Mercedes e eu mexemos nele durante semanas,
tentando descobrir o que ele fazia. Mas  como se algo
tivesse despertado o seu poder. Ele s fica l, emitindo
poder.  como uma grande antena que atrai os magos e os
Weirs de todos os cantos.  Ele ergueu os olhos para ela,
fitando-a com os olhos azuis.  Parecia responder a voc
antes. Imaginei que talvez... a sua partida... tenha acionado
alguma coisa, de algum modo.
Ela tocara no Corao do Drago pela ltima vez no dia em
que partira para o Condado de Coalton. Ele havia se
iluminado, um brilho to forte que lhe doera nos olhos. A
magia havia fludo para dentro dela at que ela afastara as
mos.
Talvez ela tivesse algo a ver com a mudana na pedra. Talvez
tivesse sido ela quem a afetara. Ou isso ou a maldio que
talvez a pedra houvesse extrado de Madison.
Jason ainda a observava, esperando por uma resposta.
        O que voc acha que posso fazer?  indagou ela.
Ele a estudou, como se avaliasse as suas probabilidades de
sucesso.
        Duas coisas. Quero ver se voc pode fazer alguma coisa
com o Corao do Drago. Voc no  vulnervel  magia,
por isso deve ser capaz de, pelo menos, manusear a pedra.
        Mas... no sou dotada  protestou Madison. Ela estava
dividida de tantas maneiras diferentes que nem sabia como
traar uma estratgia.  No sei fazer magia.
Jason tomou-lhe as mos e jogou a melhor cartada que
possua.
        Escute, o Seph e o Nick viram a pintura que voc fez. A
pintura amaldioada. Ela deixou o Seph derrubado por dias.
Ele ainda no se recuperou totalmente.  por isso que ele
est usando Queima-Mente. Eles acharam que talvez voc
tivesse... talvez voc tivesse trado a gente. Foi por isso que
vim aqui antes. Para investigar.
Madison debateu-se  procura do que responder.
        Eu... eu nunca machucaria o Seph  gaguejou ela,
sentindo-se como o pior tipo de mentirosa.  Ele deveria
saber disso.
        Ele sabe. Ele nunca engoliu a idia de que voc tivesse nos
trado. Mas ele precisa da sua ajuda agora. Deixando o
Corao do Drago de lado, voc pode nos ajudar quando as
Rosas atacarem. Quem sabe voc possa sugar o poder deles
como fez em Second Sister, se a gente planejar direito.
No posso.
Mas, talvez, depois de dar o Corao do Drago para Barber,
ela pudesse ajud-los de alguma forma. Ela poderia
compens-los por sua traio. Se no estivessem todos
mortos. Se ainda aceitassem a sua ajuda.
O plano de Madison estava em runas agora. No havia jeito
de entrar sem a ajuda de Jason.
Ela engoliu em seco.
        A cidade est cercada, voc disse. Consegue me colocar l
dentro?
Ele hesitou por uma frao de segundo, depois disse:
        Sim.
        Acho melhor a gente ir, ento. Estamos perdendo tempo.
Um sorriso aliviado surgiu no rosto de Jason.
        timo. Perfeito. Hum, a gente pode ir na sua picape? 
que eu peguei um carro emprestado sem pedir. Acho melhor
no andar com ele por a.
Madison havia planejado propor segui-lo na picape, para que
ela pudesse partir quando houvesse terminado o que
precisava fazer em Trinity. Mas havia uma estranha
intensidade nos movimentos de Jason que lhe disse que
aquilo no era negocivel.
        Oh, est certo.
Ela apanhou as chaves de cima da mesa e pendurou a bolsa
de viagem sobre o ombro.
Mas ele segurou o pulso dela e tomou-lhe as chaves da mo.
        Eu dirijo  disse ele.

Captulo Trinta e Trs
Tempestade Weir

Antes do amanhecer, as Rosas acordaram os habitantes
remanescentes de Trinity com uma fuzilaria de projteis
mgicos  cilindros de ligfyr  lanados de cima da
barreira dos magos. Eles explodiram contra a elaborada
muralha interna dos rebeldes com uma fora de chacoalhar
os ossos, banhando a terra de ningum com fogo mgico.
Uma fumaa txica subia das labaredas entre as muralhas,
manchando a parte inferior das nuvens baixas. Os defensores
tombaram da muralha interna como frutos podres, com as
mos nas gargantas.
Os rebeldes responderam com fogo intenso, varrendo o topo
da muralha externa, limpando-o de magos e armas.
Jessamine se inclinou para a frente, estreitando os olhos na
escurido, segurando-se no parapeito. Uma figura alta e
magra andou at a abertura sobre o porto rebelde, igno-
rando as bombas que explodiam ao seu redor. "McCauley de
novo", pensou Jess. Ele ergueu ambos os braos, e a fumaa
rolou para trs, para longe dos rebeldes, envolvendo as
fortificaes das Rosas numa nuvem de veneno.
Jess saiu correndo do baluarte e tentou rebater a fumaa para
o lugar de onde viera, depois se abaixou em busca de
cobertura quando uma exploso de chamas chocou-se contra
a muralha logo abaixo dela.
Espiando por cima da beirada, ela avaliou os danos: um
enorme pedao havia sido arrancado da lisa superfcie da
muralha dos magos, e grandes blocos de pedra jaziam
espalhados no cho abaixo. Outros golpes como aquele e a
muralha teria mais furos do que uma peneira.
Como ele fazia aquilo? A barreira fora construda para
agentar ataques mgicos  aquele era todo o seu propsito.
Jess correu em torno da muralha, passando pelos magos que
lanavam pedras chamejantes de liqfyr contra os rebeldes
sob pesada proteo.
 Mande uma patrulha l embaixo para reparar a muralha
imediatamente  ordenou ela.  E matar o McCauley 
acrescentou.
Do lado de fora do porto, o exrcito das Rosas se espalhava
pelos campos de fazendas e enchia os bosques. Magos, em
sua maioria, com alguns feiticeiros mal-humorados mexendo
em caldeires de liqfyr magicamente aprimorado. Outros
lanavam estrelas-projteis de metal brilhante, impregnado
com encantamentos mortais.
O famoso tesouro de D'Orsay havia sido uma decepo, para
dizer o mnimo. Jess no podia deixar de se perguntar se ele
estava escondendo o jogo, se tinha um estoque secreto em
algum lugar. Eles haviam sido forados a economizar no uso
das armas, mais para inspirar pnico entre os defensores do
que qualquer outra coisa. Algumas eram deliciosamente
horrveis, como as esferas de vidro que se abriam com o
impacto, soltando centenas de letais vboras naedercynn
dentro do santurio. Ou as gaitas gliwdream, cuja msica
estridente deixava os defensores insanos.
Jessamine parou para interrogar seus agentes no porto.
Ainda nenhum sinal de Haley.
L fora, no campo de treinamento, Geoffrey Wylie lutava
para organizar  fora hordas de magos. Os magos no eram
muito bons em trabalho de equipe. Essa habilidade jamais
havia sido considerada uma virtude. At agora. Quando viu
Jess, ele interrompeu as vociferaes e passou o comando a
um mago jovem e belo em uniforme da Rosa Vermelha.
Hays era o nome dele, se ela se lembrava corretamente.
        No gosto desse sistema de muralha dupla  disse Wylie,
escovando o gelo dos ombros com as mos (a ltima
tempestade Weir havia passado um pouco alm do alvo). 
Podemos ficar presos entre elas e ser aniquilados.  melhor
derrubarmos a muralha externa quando chegar a hora do
ataque.
Jessamine descartou a sugesto.
        Para que eles se espalhem como codornas e se reagrupem
em algum outro lugar? Nada disso. Precisamos dar-lhes uma
lio. Alm disso, no podemos nos arriscar a perder o
Corao do Drago.
        No  voc que tem de liderar o ataque pelo porto contra
uma arma desconhecida.
Jessamine se remexeu com irritao. Wylie havia sido
escolhido como comandante porque freqentara a Academia
Militar de West Point um sculo atrs. E com certeza ele
tinha a aparncia adequada ao papel, j que era alto e
controlador.
Mas Wylie pertencia  casa errada. A segunda pior desgraa
depois de perder o Corao do Drago para os rebeldes seria
v-lo cair nas mos da Rosa Vermelha.
        Eles esto to preparados quanto podem estar  insistiu
Wylie.  Se vamos atravessar as muralhas, devamos fazer
isso logo.  Wylie inclinou a cabea em direo ao exrcito
mgico.  Se mantivermos tantos magos assim juntos por
muito tempo, eles vo se matar uns aos outros.
        Por que no pe os encrenqueiros para reparar a muralha?
O McCauley est abrindo buracos nela, sabe l Deus como.
Jess preferia esperar por Haley, por vrias razes. Qualquer
coisa poderia acontecer em um combate dentro das
muralhas da fortaleza. Qualquer um poderia encontrar o
Corao do Drago. Wylie, por exemplo. Isso seria um
desastre.
Mas ela sabia que no poderia protelar por muito mais
tempo.
Ellen no conseguiu evitar ficar tensa e fechar os olhos com
fora ao ouvir o assobio familiar de uma carga se
aproximando, seguido pelo ressoar do impacto. Mais uma
que havia passado por ela.
Ela se virou, olhando atravs do parque para a rua da
Biblioteca. Uma coluna de chamas vermelhas e fumaa subia
do centro da cidade. Aquela devia ter cado em algum lugar
na praa. No havia sobrado muito do gramado para se
destruir, exceto uma fonte horrivelmente feia que sem
dvida sobreviveria  guerra inteira.
As Rosas lanavam cilindros de chama mgica que
explodiam em incndios incontrolveis. Esquadres de
feiticeiros eram mantidos ocupados dia e noite, apagando as
chamas, caso contrrio a cidade j teria sido destruda h
muito tempo.
Mas alguns dos msseis eram armadilhas, cuspindo gemynd
bana e coisas piores quando as equipes de incndio se
aproximavam. Aqueles que no eram mortos ficavam
incapacitados por dias. E eles no podiam se dar ao luxo de
perder uma nica mo.
Ellen preferia encarar os inimigos espada contra espada, no
solo. Aquele ataque areo sem rosto era assustador. Ela
respirou fundo e forou-se a olhar para o outro lado do
abismo negro da terra de ningum, para onde pontos de luz
se moviam como vaga-lumes no topo da muralha dos magos.
Magos preparando o prximo ataque. Era a terceira noite
seguida que ela passava na barreira, e estava exausta o
bastante para cometer erros. Mas o trabalho que ela e Jack
faziam na muralha mantinha o bombardeio at certo ponto
sob controle.
Do outro lado da barreira, um dos vaga-lumes se iluminou:
um mago acumulando poder, preparando-se para atacar.
Ellen sacou uma estrela-projtil da bolsa e lanou-a
assobiando escurido adentro, depois rolou para o lado,
batendo o cotovelo na muralha quando uma exploso de
chamas veio em sua direo.
Do outro lado da barreira, algum gritou. O vaga-lume se
lanou da muralha, caindo em espiral na escurido e se
extinguindo junto  base da barreira.
 Pegue uma estrela cadente  resmungou Ellen, limpando
o sangue do cotovelo e procurando por outro alvo.
 sua esquerda, um enorme jorro de chamas e fumaa
indicava que Seph estava em ao. Vrias vezes durante a
noite ele passara por ela, que o identificara pelo rastro de
calor mgico. Ele estava constantemente em movimento,
varrendo a muralha dos magos de artilheiros, dando
cobertura para as patrulhas de guerreiros entre as muralhas.
Abrindo buracos devastadores na muralha dos magos do
outro lado.
Ellen, Jack, ris Bolingame e alguns dos outros magos
ajudavam, mas Ellen tinha de admitir que at ento era Seph
quem mantinha as Rosas  distncia. Eles logo seriam
forados a realizar reparos na muralha, que estava
comeando a parecer um sinistro queijo suo preto.
"Eles que tentem", pensou Ellen, espiando pela fresta o solo
l embaixo, medindo a distncia de tiro at a base da
muralha. Eles seriam alvos fceis.
"Por que eles no tentam atravessar as muralhas? Estamos
em total desvantagem numrica", pensou Ellen. O que eles
esto esperando? Quanto tempo esse bombardeio vai durar?
At quando os Anaweirs conseguiro ficar nas Sisters antes
que as Rosas os descubram? Quanto tempo at que eles
fiquem sem comida?
Um leve som atrs dela a fez se virar, agarrando o cabo da
faca.
        Ei, calma a! No esfaqueie o mensageiro.  Era Fitch,
ainda com o uniforme da Resistncia. Ele depositou um
pacote nas mos dela.  Mais estrelas-projteis.  E mais
outro.  Lanche da meia-noite.
Os Weirs haviam armado um andaime na muralha do lado
do santurio, para permitir que os Anaweirs andassem por
ela. A muralha em si ainda era invisvel para eles.
Ellen rasgou o embrulho das estrelas-projteis e guardou-as
na bolsa.
        Diga obrigada a Mercedes.
Ellen voltou ao trabalho. No deixaria outra carga passar por
ela. No se pudesse evitar.
Fitch ps a mo no brao dela.
        O Jack disse que est cuidando da muralha. Pode tirar uns
dez minutos pra comer.
Ellen olhou para o local na muralha onde Jack devia estar.
Ela sentia falta da presena dele ao seu lado. Seria timo t-lo
a seu lado, mas, daquela forma, se aquela posio fosse
atingida, apenas um deles tombaria.
Lutar sempre a deixava faminta. Ela se sentou e desem-
brulhou o jantar, apoiando-o nos joelhos.
Fitch passou-lhe uma garrafa de gua cheia de um lquido
verde.
        O que  isso?  perguntou ela, desconfiada, virando a
garrafa na mo.
        Algum tipo de poo revigorante que a Mercedes fez.
        Nada de drogas  disse Ellen, tentando devolver-lhe a
garrafa.
        No acho que seja exatamente uma droga.  Fitch deu de
ombros, como se dissesse: "como  que eu vou saber?"  S
um tipo de... sabe como ... bebida energtica.
        Humpf.
Ela deu um gole experimental. E mais outro. Tinha o sabor
do ar fresco de alguma parte imaculada do mundo.
Ela bebeu metade da garrafa, colocou-a no cho e deu uma
mordida no sanduche.
Fitch ficou pendurado no andaime e sacou uma cmera
digital. Tirou vrias fotografias de Ellen.
        Voc est me fotografando enquanto como o meu jantar?
 Ela sacudiu uma coxa de frango na direo dele.  Que
emocionante. Pra qu?
        Algum tem que fazer isso  disse ele, fitando as chamas
alm das muralhas, o rosto solene e corado sob a luz
avermelhada.  Que nem aquele fotgrafo da Guerra Civil,
Mathew Brady. O governo dos Estados Unidos o enviou para
documentar a guerra.
        Fitch, voc  um tremendo nerd.
Ele no disse nada.
Ela terminou o sanduche e limpou a boca com as costas da
mo.
        Voc acha que a gente vai perder, no ?
        Por que diz isso?
Ellen percebeu que ele no havia negado.
        Porque os vencedores sempre escrevem a histria. Voc
quer ter certeza de que algo vai sobreviver. De ns.
Ele sorriu, parecendo um pouco embaraado.
        Mesmo que seja s algo digital.

Captulo Trinta e Quatro
Pelas Linhas Inimigas

Era aquela hora inquietante que precede o amanhecer. No
topo da montanha Booker, Maddie estaria esperando o
romper da luz ao leste, as fiis montanhas surgindo da
escurido.
Mas Maddie no estava na montanha Booker. Estava
andando sorrateiramente pela vegetao baixa do parque
Perry, seguindo Jason Haley, perguntando-se em que tipo de
misso insensata ela se metera.
Para um garoto da cidade, ele sabia andar bem na floresta.
Maddie s tinha que seguir a forma iluminada dele, como
uma nuvem passando  frente do sol.
Finalmente ela viu luzes se infiltrando atravs das rvores
adiante. Jason parou, esperando que ela o alcanasse.
 Os acampamentos dos exrcitos das Rosas  sussurrou ao
ouvido dela.
Ao entrarem num bosque dizimado de uma floresta antiga,
os arbustos ficaram mais escassos. Carvalhos
muito antigos e antes fortificados estavam cados: os magos
haviam derrubado as rvores, criando clareiras espalhadas
onde podiam erguer suas tendas, aplicar feitios de proteo
e posicionar guarda contra outros magos.
Uma grande massa imponente erguia-se acima das rvores
alm dos acampamentos, obscurecendo as estrelas
agonizantes.
        O que  aquilo?  sussurrou Madison, percebendo a
presena dos magos ao redor.
         a muralha dos magos  sussurrou Jason.
        No entendo. Por que eu consigo enxergar?
Ela conhecia as teias Weirs, que capturavam os Weirs, mas
eram invisveis para todos os outros, fossem Anaweirs ou
extratores.
Jason balanou a cabea.
        Eu tinha esperana de que voc pudesse passar atravs
dela. No  uma teia Weir,  uma muralha de magos. 
construda com magia, mas feita de pedra, como qualquer
outra fortaleza. Isso complica as coisas. Vamos ter de passar
pelo porto  disse ele, olhando de relance para ela, depois
desviando o olhar.
Ele estivera lanando muitos daqueles olhares de esguelha
sobre ela ultimamente. Ela no disse nada, esperando que ele
continuasse.
        H uma chance de a gente ser capturado. Se isso
acontecer, voc pode confiar em mim?
        Como  que ?  A voz dela se intensificou, e Jason
estremeceu, pondo um dedo sobre os lbios para silenci-la.
Ela continuou, num sussurro rouco.  Que tipo de pergunta
 essa?
        Eu fao voc passar, prometo, mas... vai no embalo, est
bem? Ser que voc consegue no fazer perguntas?
Ele parecia embaraado.
        Ahn, acho que sim. Tudo bem  respondeu ela.
E assim eles foram em frente, com Madison remoendo a
respeito do que ele dissera e perguntando-se com o que ela
se comprometera.
Quanto mais perto chegavam da barreira, mais difcil ficava
se manterem ocultos. Tiveram de parar a menos de cem
metros do porto. No havia mais cobertura: as rvores junto
 muralha haviam sido derrubadas. Os magos se
aglomeravam junto ao porto, em preparao para a batalha
iminente.
Os peritos em munio distribuam mochilas, armaduras e
suprimentos entre as tropas reunidas. Msseis reluzentes
traavam arcos no cu, desaparecendo atrs da muralha do
santurio. O cho tremia quando os alvos eram atingidos.
Fumaa e chamas rolavam em direo ao cu. Trinity fora
transformada numa fortaleza durante a ausncia de Madison.
Ela sentia a atrao sedutora do Corao do Drago do outro
lado das muralhas. O corao bateu mais rpido: medo e
terror em luta contra a excitao.
Jason danava inquieto no mesmo lugar.
        O nosso tempo est se esgotando. Acho que temos que
usar a abordagem direta.
Ele agarrou a mo de Madison e avanou como um trator
pela multido de soldados magos e sua equipe de apoio.
Em meio a todo aquele caos e confuso, ningum pareceu
not-los at estarem a poucos passos do porto. Ento uma
meia dzia de magos em uniformes da Rosa Vermelha
destacou-se da multido e cercou-os, de escudos erguidos.
Madison se aproximou de Jason, lembrando-se do que ele
havia dito.
        Haley?  mesmo voc. O famoso ladro do Corao do
Drago.
A pessoa que falava, um mago alto com uma cicatriz, parecia
vagamente familiar.
Jason estudou-o por um momento, como se considerasse a
possibilidade de negar a acusao, depois assentiu com
relutncia.
        Wylie.
Wylie sorriu.
        Isto  uma surpresa. Perambulando pelas linhas inimigas,
hein? Sabia que era ousado, mas parece que voc tem um
instinto suicida.  Ele olhou rapidamente para Madison e
pareceu espantado.  Eu conheo voc!  a garota de
Second Sister. A garota que estava com o McCauley.
Madison pestanejou e abriu a boca para responder, mas
estremeceu, surpresa, quando Jason passou um brao em
torno dela e puxou-a para perto. Ele segurou-lhe o queixo e
virou-lhe o rosto, beijando-a convincentemente nos lbios.
Ainda segurando-a firme, ele disse:
        Ela est comigo agora.
Os magos da Rosa Vermelha riram, dando cotoveladas uns
nos outros como garotos do colgio zoando embaixo da
arquibancada.
Maddie queria pisar no p de Jason, desvencilhar-se do
abrao dele e perguntar-lhe o que ele achava que estava
fazendo, mas a tenso no corpo dele era um aviso.
        Como assim? Pensei que ela e o McCauley estivessem
namorando  disse Wylie.
        Estavam  disse Jason, sorrindo.
Madison se enfureceu. Estavam falando sobre ela na sua
frente, como se ela fosse surda ou imbecil.
As emoes deviam ter transparecido em seu rosto, pois
Jason olhou para Madison e balanou a cabea quase que
imperceptivelmente, depois se voltou mais uma vez para
Wylie.
        Enfim. Valeu o papo, mas a gente precisa ir.
Dois dos companheiros de Wylie seguraram os braos de
Jason.
        Oh, no.  Wylie postou-se diante de Jason.  Vocs
dois vo voltar comigo. Vo me contar tudo sobre o Corao
do Drago e sobre o que est acontecendo no santurio. 
Wylie sorriu com ferocidade e bateu de leve no rosto de
Jason.  Mal posso esperar por essa nossa conversa.
Jason afastou a cabea.
        A doutora Longbranch no contou pra voc?
O sorriso de Wylie se desfez rapidamente.
        Como assim?
        Pergunte pra ela. Est tudo arranjado. Ela vai explicar.
Madison olhou de Jason para Wylie. Se era um blefe, era
bom.
Wylie ficou branco de raiva.
        Nem a pau. Vocs so meus prisioneiros e...
Subitamente eles estavam cercados por uma dzia de magos
da Rosa Branca.
        Senhor Wylie, a doutora Longbranch est aguardando
esses dois  disse um deles.
No havia nada a fazer a no ser deixar que os empurrassem
em direo a uma tenda requintada com teto cnico onde
tremulava a bandeira da Rosa Branca. Wylie e seus magos
seguiram atrs, descontentes. Jason fitava direto em frente,
mas segurava com firmeza o cotovelo de Madison. Madison
virou-se para olhar para o porto l atrs. O que Jason estava
pensando? Achava mesmo que teria mais sorte com
Longbranch?
A tenda da doutora Longbranch era protegida por mais uma
dzia de magos em trajes da Rosa Branca. Um dos guardas
desapareceu l dentro. Depois voltou e fez um gesto de
cabea para Jason e Madison.
        Vocs dois entram. O resto de vocs espera aqui fora.
Wylie observou, mal-humorado, enquanto os guardas
conduziam os prisioneiros para dentro.
O interior era o mais prximo de um palcio que uma tenda
poderia ser. Tapetes vistosos estavam espalhados pelo cho.
Cortinas de veludo e de cetim cobriam as paredes e
separavam uma rea de dormir num dos lados. Do outro
lado, cadeiras estavam dispostas em torno de uma mesa de
conferncias. Luzes mgicas projetavam longas sombras.
Msica suave flutuava nos ares, superando os rudos de
batalha que vinham das muralhas, e queimadores de incenso
eclipsavam o mau cheiro da guerra.
Madison mal teve tempo para reparar em tudo isso antes que
uma bruxa alta viesse na direo deles, a bainha do vestido
de veludo deslizando sobre os tapetes. Tinha olhos verdes e
uma longa cascata de cabelos negros como piche. Ignorando
Jason, ela segurou ambas as mos de Madison e olhou-a nos
olhos. Ao contrrio da maioria dos magos, no parecia ter
medo do toque de Madison, mas teve o cuidado de no
deixar nem um pouco de persuaso lhe escapar.
        Madison, estou feliz que tenha vindo. Sou Jessamine
Longbranch.
        Oi... ol  gaguejou Madison, enquanto a mente corria
em alta velocidade.
"Ela sabe quem eu sou. Estava me esperando." Ela olhou de
relance para Jason, que tinha o rosto completamente
impassvel, a no ser pelos olhos, que cintilavam sob a luz
mgica.
        Ouvi dizer que  artista  continuou Longbranch.
        Sim, senhora  disse Madison, livrando as mos.
        Sou uma espcie de mecenas das artes. Talvez eu possa
apresentar voc a algumas pessoas.
        Oh, claro. Isso seria timo.
De repente, todos estavam interessados na arte dela. Porque
tinham outros planos.
        Primeiro, contudo, temos que dar fim a essa guerra. 
prosseguiu Longbranch.  Tanto derramamento de sangue.
To desnecessrio!
        Vocs esto se preparando pra atacar?  indagou Jason.
A doutora Longbranch assentiu.
        Estvamos apenas esperando por vocs.
        Certo  disse Jason, apertando o brao de Madison, como
num aviso.  Ento  melhor irmos.
A doutora Longbranch ergueu a mo para conter qualquer
idia de uma partida imediata e voltou-se para Madison.
        Os rebeldes no vo se render enquanto tiverem o
Corao do Drago.  a que voc entra.  Ela fez uma
pausa.  O Jason disse que voc pode entrar no santurio e
traz-lo para ns.
Foi como um soco no estmago. Madison olhou de Jason
para a doutora Longbranch.
        O qu?
        Ei, Maddie, voc sabe. Aquela pedra da qual a gente falou,
lembra?  Jason apressou-se em dizer, pondo as mos sobre
os ombros de Madison e olhando bem dentro dos olhos dela.
 Tudo o que temos de fazer  trazer a pedra para a doutora
Longbranch, e a guerra acaba. Vamos ter todo o dinheiro
que precisamos para toda a vida e muito mais. Poderemos ir
aonde voc quiser: Paris, Londres, Bali... Voc vai poder
pintar em tempo integral. Poderemos ficar juntos.
E ento ele a beijou de novo, provavelmente para calar- -lhe
a boca.
A doutora Longbranch riu.
        Voc  uma figura, Haley. O McCauley sabe que voc
roubou a namorada dele?
"Esto todos loucos", pensou Madison, quando Jason a
soltou. "Mas no importa. Tenho que entrar no santurio.
E, se esse  o jeito de conseguir, bem..." Ela teria de
improvisar  medida que avanava.
        O Seph nunca teve tempo pra mim  disse ela, desejando
pela centsima vez ter herdado o gene da mentira.  
culpa dele mesmo se apareceu algum que sabe como tratar
uma garota.
"Estou falando que nem a mame", pensou Madison. Sempre
trocando o diabo que conhecia por aquele que lhe era
estranho.
        Certo  disse a doutora Longbranch, sorrindo.  
mesmo culpa dele.
        Podemos ir, ento?  perguntou Jason, nervoso como
sempre que precisava esperar.
        Sim e no  disse a doutora Longbranch.  A Madison
vai buscar o Corao do Drago. Haley, voc vai ficar aqui
para garantir que ela volte.
        O qu?  Madison girou e olhou feio para a maga.  De
jeito nenhum. No vou sem o Jason.
Ela se agarrou ao brao dele como se os dois estivessem
unidos com solda.
A um gesto de cabea de Longbranch, dois guardas da Rosa
Branca saram das sombras e seguraram os braos de Jason,
arrebatando-o de Madison.
        Levem-no at a nossa rea de deteno e mantenham-no
l  ordenou ela.
Longbranch se virou para Madison.
        Minha querida, seja razovel. V buscar o Corao do
Drago e traga-o para mim. O seu jovem namorado vai estar
livre num instante, e vocs vo sair disso com uma fortuna
em dinheiro vivo. Recuse, e eu o mato agora.
        V, Madison  disse Jason, dirigindo-lhe um olhar que
dizia "Cale a boca".  Vou ficar bem. Quanto mais cedo
voc for, mais cedo vai voltar.
        Apenas tenha certeza de dar a pedra diretamente a mim
 disse Longbranch.  No queremos que ela caia em
mos erradas.
Madison olhou para Jason, que gesticulou com a cabea em
direo ao porto, indicando que ela devia ir, e depois para
Longbranch, cujo olhar frio e direto dizia que Jason pagaria
em sangue por qualquer traio.
Uma coisa estava clara: Jason Haley estivera mentindo para
ela desde o momento em que pusera os ps na varanda da
sua casa. Estaria mesmo conspirando com as Rosas? Ou tinha
decidido se sacrificar para coloc-la dentro do santurio?
Madison lanou os braos em volta do pescoo de Jason
como se no pudesse encarar a idia de ser separada dele e
sussurrou-lhe ao ouvido, com fria:
        Seu mentiroso, seu luntico desgraado. Eles vo matar
voc.
        Tambm amo voc  murmurou ele.  V encontrar o
Seph. D uma fora pra ele.
Ela o soltou, virou-se e caminhou na direo do porto,
escoltada por um grupo de soldados da Rosa Branca, sem
prestar ateno no caos a seu redor.
Era uma confuso. Uma confuso total e absoluta, j que, no
importava o que fizesse, ela acabaria com sangue nas mos.
Porque ela jamais poderia levar o Corao do Drago para
Jessamine Longbranch.
Geoffrey Wylie observou os soldados da Rosa Branca es-
coltarem a extratora Madison Moss na direo do porto,
retorcendo as mos ao conter o impulso de inciner-los.
Momentos mais tarde, mais magos de Longbranch empur-
raram Jason Haley na direo contrria, para o meio do
acampamento da Rosa Branca.
O fedor da traio pairava no ar. E concentrava-se em Haley,
na garota e no Corao do Drago. Wylie sentia o poder se
acumulando atrs das muralhas, como um cataclismo em
formao. O que aconteceria se rompessem a muralha?
Seriam vaporizados, aniquilados em um instante?
Longbranch estava tramando algo, e Wylie no tinha a
inteno de ser o cordeiro do sacrifcio.
Ele se voltou para o capito da Rosa Vermelha, Bruce Hays,
que estava ali aguardando ordens.
        Quantos magos temos?
        Pela Rosa Vermelha?  O oficial pensou a respeito. 
Cerca de trezentos, tirando e acrescentando alguns
infiltrados e espies dos outros lados.
Wylie sorriu. Trezentos magos eram um exrcito maior do
que qualquer um j visto desde a Guerra das Rosas.
        Eis o que ns vamos fazer: rena os magos da Rosa
Vermelha e leve-os at o porto. No vamos esperar pelo
sinal da Longbranch. A Rosa Branca pode lutar contra os
rebeldes enquanto ns vamos atrs da garota e do Corao
do Drago.
Os carcereiros de Longbranch no pareciam considerar
Jason uma grande ameaa. Embora houvessem prendido os
pulsos dele com algemas de sefa, no se deram ao trabalho
de imobiliz-lo ou revist-lo em busca de pedras do corao
antes de empurr-lo por entre as tendas.
Por isso ele imaginou que, se fosse agir, era melhor faz-lo
antes que o atirassem em fosse qual fosse a masmorra que
Longbranch havia criado. Ele tinha a sensao de que seria
um lugar do qual seria difcil escapar. Mas no queria alertar
Longbranch antes que Madison estivesse bem longe.
O acampamento havia se esvaziado, tendo a maioria dos
soldados sido posicionada junto  muralha em preparao
para o ataque que se aproximava. Assim que Jason e os
guardas chegaram a um ponto isolado onde parecia que a
fuga dele poderia passar despercebida, os magos da Rosa
Branca em ambos os lados dele caram silenciosamente ao
cho, e um bando de magos em uniformes da Rosa
Vermelha viraram-no e arrastaram-no de volta pelo caminho
por onde haviam vindo.
Jason se sentiu como a estpida princesa de um video-game.
        O que est acontecendo?  indagou ele.
        O Wylie quer fazer algumas perguntas a voc. Agora cale
a boca.
Ao se aproximarem da orla do acampamento, gritos
irromperam atrs deles. A Rosa Branca descobrira que o
prisioneiro lhes fora roubado.
Os magos da Rosa Vermelha soltaram Jason e se voltaram a
fim de se defenderem. Enquanto os escudos se erguiam e
feitios comeavam a voar, Jason deixou seus seqestradores
para trs e correu na direo do porto.

Captulo Trinta e Cinco
Uma Casa Dividida

Fitch olhou atravs da fumaa e das chamas do caldeiro de
bruxa que era a terra de ningum, esfregou os olhos e olhou
de novo. Sim. Havia um movimento furtivo no porto
externo, as formas de muitas dezenas de figuras atravessando
o campo aberto.
Ele secou as mos suadas nas calas jeans. Era isso? O ataque
pelo qual estavam esperando? No era exatamente um
exrcito. Mas mesmo alguns poucos magos eram capazes de
causar muitos danos. Espiou pelo binculo, reconhecendo o
emblema da Rosa Branca em vrios dos invasores.
Ele se virou, procurando por Will, e viu que o amigo havia
cado no sono, apoiado no andaime junto  muralha. Fitch
no conseguia se lembrar da ltima vez em que eles haviam
dormido sem que fosse por acidente.
        Ei, Will. Acorde.
Will despertou de imediato, afastando-se apressadamente da
muralha.
        O qu? Eu s estava descansando os olhos.
 V avisar o Jack.  Fitch apontou com o queixo para a
muralha.  Alguma coisa est acontecendo.
Will avanou engatinhando e espiou por cima da abertura,
depois se arrastou para trs, como um caranguejo gigante.
Fazendo um gesto de positivo com o polegar para cima a
Fitch, Will seguiu pelo andaime e desapareceu nas trevas.
Conseguia ser incrivelmente silencioso para um atleta.
Fitch retomou a viglia, sentindo-se como um patrulheiro da
fronteira. Tirou o controle remoto do bolso e segurou-o
numa das mos. Havia colocado explosivos por toda a
muralha externa, numa verso moderna do mtodo que
sapadores medievais usavam para minar uma fortificao.
O primeiro grupo estava a meio caminho do campo quando
outro, mais numeroso, irrompeu pelo porto dos viles,
seguindo a primeira onda de magos da Rosa Branca. Pelo que
pde ver pelo binculo, esse segundo grupo parecia ser de
magos da Rosa Vermelha.
O grupo avanado da Rosa Branca no pareceu not-los a
princpio. Quando notaram, no pareceram felizes com os
reforos. Aps um momento de encontres e confuso,
metade do grupo prosseguiu, acelerando o passo, enquanto a
outra metade deu meia-volta para enfrentar o exrcito que se
aproximava.
Quando os dois grupos se chocaram, chamas de magos
irromperam por toda a linha. As Rosas estavam lutando
entre si!
Fitch esfregou um dedo no controle remoto, nervoso. Se
aquele era o ataque esperado, chegara a hora do espetculo.
Mas no sabia o que pensar dos acontecimentos a que estava
assistindo.
Seph havia encontrado um lugar calmo do qual monitorava a
fronteira do santurio em uma das muitas torres redondas
que Mercedes havia construdo na complexa muralha. Era
bom estar cercado por pedra, j que ele tendia a atear fogo
nas coisas.
Ele ficou ali, em silncio, como um morcego numa caverna,
seu sonar mgico sondando de leve as muralhas concntricas
da fortaleza interna e da muralha externa dos magos,
vasculhando o espao disputado entre elas. Estivera na
muralha por trs dias seguidos, apagando incndios e criando
suas prprias conflagraes.
Con-fla-gra-o. Uma palavra perfeita para um perfeito
ataque letal. Os inimigos dele eram vaporizados como
mosquitos que cometiam o erro de pousar numa linha de
transmisso de fora.
Que horas eram? Ele se levantou, esticando os msculos
fadigados, massageando a base da espinha. Esfregou os olhos
cheios de areia e tentou cuspir o gosto horrvel em sua boca.
No conseguindo, tirou um frasco do bolso e eliminou o
amargor da boca com um longo gole de Queima-Mente.
No sabia se estava realmente viciado na poo ou se era a
dor e a exausto que a tornavam temporariamente
necessria. Outrora aquela distino lhe teria parecido
importante. Se Mercedes no a preparasse para ele, havia
vrios magos que o fariam. Eles tinham visto o que ele fazia
na muralha. Sabiam que Seph estava entre eles e centenas de
magos, e sabiam o que aconteceria se ele falhasse.
O Queima-Mente fluiu por suas veias, e Seph estava bem de
novo. Completamente. Na verdade, sentia-se quase bbado.
Invulnervel. Outra palavra perfeita.
O mundo o invadiu e ele lhe deu boas-vindas, a cada
minscula folha de grama e folha de rvore e mago sedento
de poder. Mais uma vez, sentiu-se em casa. Conectado a
tudo e todos.
Em algum lugar atrs dele, o Corao do Drago pulsava
como uma dor de dente. O corao de Seph parecia bater no
mesmo ritmo. Ele era a energia que conectava e destrua.
Sentiu a presena dos intrusos antes de v-los, sentiu o
poder vivo de centenas de magos irrompendo pela muralha
dos magos e fluindo em direo ao santurio.
Deixando a torre redonda, Seph seguiu em silncio at
conseguir olhar por sobre a muralha de Mercedes. O sol
ainda no havia surgido no horizonte, e nenhum sinal do
amanhecer tinha penetrado por entre as muralhas.
"Sei que esto a embaixo", pensou Seph, arregaando as
mangas. "Acharam que eu no ia notar?" Ele estava repleto,
vibrando de poder. Eles estariam acabados antes de chegar 
muralha.
Vieram em duas ondas. Uma logo alcanou a outra.
Chamas surgiram entre as muralhas quando as duas ondas se
encontraram, uma linha tortuosa expelindo um vapor de
fumaa vermelha como lava atingindo o mar gelado. Os
magos lutavam entre si l embaixo. Mas um punhado de
invasores se aproximou, rumo ao porto Weir. Perto demais.
Seph ergueu as mos, com a inteno de lanar chamas
sobre o grupo que atacava o porto. E parou, captando um
rasgo no tecido da magia que lhe era familiar. Uma
lembrana.
Em vez de chamas, ele lanou um arco ondulante de luz
pelo cu. Este iluminou uma cena apocalptica.
Centenas de magos batalhavam uns contra os outros entre as
muralhas. A maioria trazia emblemas das Rosas, Branca ou
Vermelha. Junto ao porto, um pequeno grupo de magos da
Rosa Branca havia parado, detido pela barricada. E, entre
eles, Seph viu algum que fez com que seu corao parasse.
Madison.
Ela estava no centro, levada pelo fluxo de corpos como uma
tora de madeira numa inundao, empurrada e pressionada
pelos magos em torno. Os cabelos cintilavam sob a luz
mgica, serpenteando nos ventos quentes gerados pelas
chamas. Era prisioneira? Refm?
Seph pulou por sobre a abertura, aterrissando no meio de
uma escadaria interna que descia at o ptio l embaixo.
Depois correu escada abaixo, os ps tocando cada trs ou
quatro degraus.
 Comandante! Senhor! Acorde!
Jack emergiu do sonho, perguntando-se quem era o
comandante e desejando que este respondesse para que ele
pudesse voltar a dormir... at se lembrar de que ele era o
comandante. Ele se sentou, batendo a cabea no leito de
cima. Era a primeira vez que se deitava numa cama em uma
semana, e agora...
        O Will est aqui  disse Mick, o alto guerreiro irlands
que havia sido escolhido para ser o guarda-costas de Jack.
Will Childers empurrou Mick para poder passar.
        Jack, eles esto vindo. Esto atacando, ou algo assim.
Centenas deles. Indo em direo ao porto.
Jack calou as botas e estava de p antes de Will ter
terminado de falar.
        Eles esto esperando o senhor, comandante  disse Mick.
        Cad a Stephenson?
        L fora no meio daquilo.
        O que ela est fazendo?
Jack apanhou o boldri e atou-o no lugar. Abriu caminho
para fora da tenda e correu na direo do porto, deixando
Mick e Will com a tarefa de alcan-lo se pudessem.
O plano era evitar sadas hericas da muralha, pois fora do
santurio o seu nmero reduzido os colocaria em
desvantagem. Em vez disso, eles se alinhariam no topo da
muralha Weir e lanariam a destruio sobre qualquer
inimigo valente o bastante para se aproximar dela.
Ellen era a estrategista. Por que mudara de idia?
Estavam esperando por ele, os seus guerreiros fantasmas.
Haviam treinado por meses para aquele momento. Em
algum lugar l fora na escurido estava Ellen e sua centena
de guerreiros. Contra hordas de magos que se precipitavam
sobre a terra de ningum. Por que ela deixaria a segurana
relativa do santurio e se envolveria numa batalha que no
podia vencer?
        A peleja est feia, senhor  disse Brooks, puxando o
cabelo num rabo que parecia um ninho de ratos e
amarrando-o com uma tira de couro.   um arranca-rabos.
Fora da muralha Weir, Jack pde escutar o som seco de
corpos colidindo e os gritos dos feridos. Era barulho demais,
mesmo considerando o fato de Ellen estar envolvida.
        Por que ela saiu l fora?  indagou Jack.  Por que no
impediu que ela fosse?
Brooks cuspiu no cho.
        J tentou impedir a capit Stephenson quando ela
encasqueta de fazer alguma coisa? Ela estava olhando por
cima da muralha, viu algo l fora e foi atrs. Os outros foram
atrs dela.  Ele fez uma pausa.  Penso que  melhor
irmos atrs dela tambm. Ela no iria l fora sem um bom
motivo.
Era o que Jack queria ouvir. Tentou no pensar na
possibilidade de estar pondo os guerreiros em perigo a fim de
salvar a vida de Ellen.
        Muito bem, vou atrs da capit Stephenson. Se algum
quiser vir comigo,  bem-vindo, mas aquilo l fora est
parecendo um banho de sangue.
Os guerreiros avanaram. Todos eles.
        Bem.  Jack tentou engolir algo preso na garganta. 
Ahn, pelo menos metade de vocs precisam ficar aqui e
proteger a muralha.
No final, ele teve de for-los a assumir suas funes. Brooks
foi escolhido para ficar para trs, mas cobrou uma dvida de
jogo e juntou-se a Jack no barbac.
 Vamos.
Jack e seus 50 guerreiros passaram pelo longo tnel do
porto, sob os "buracos assassinos", orifcios que Mercedes
havia includo para que os defensores pudessem arremessar
coisas sobre os atacantes, e penetraram no caos.
Visualmente, era um mar de corpos  alguns to es-
premidos uns contra os outros que era impossvel manejar
uma espada, quanto mais diferenciar amigos de inimigos.
Alguns pares danavam e duelavam, como que esquecidos
da furiosa batalha ao seu redor, como se estivessem sozinhos
no campo de treinos. Mago contra mago, guerreiro contra
mago... mas nenhum guerreiro contra guerreiro, j que no
havia nenhum lutando pelo outro lado. As chamas subiam ao
cu em espirais e se espalhavam pelo solo como um
espetculo de fogos de artifcio que dera terrivelmente
errado. Alguns dos lutadores exibiam os emblemas da Rosa
Vermelha ou Branca, no entanto pareciam estar fazendo o
mximo para se matar uns aos outros.
O que era uma bno, pois de outra forma tudo j teria
acabado.
Por toda a volta, Jack ouvia os golpes de metal contra carne,
a exploso de ar quando os golpes atingiam seus alvos, os
berros polifnicos dos companheiros guerreiros. Engolfado
pela luta, ele se entregou a ela por um tempo, usando a
Sombra Assassina para abrir caminho  sua frente. Ainda
estava procurando por Ellen.
Ao ouvir um inconfundvel grito de guerra, virou-se e deu
com Brooks sozinho no topo de uma pequena elevao,
sangrando por vrios ferimentos, armado com um escudo e
o machado que eram suas marcas registradas, sob ataque de
quatro magos. Corpos estavam espalhados em torno dos ps
dele, e Jack se perguntou quantos seriam do grupo deles.
Brooks estava perdendo as foras. Aparava desajeitadamente
os ataques dos magos, cambaleando de uma posio a outra
enquanto os magos se fechavam sobre ele, farejando sangue.
Sem dvida j teria sido abatido se no o quisessem vivo.
Jack estava ainda a menos de cem metros de distncia
quando um raio de chamas mgicas atingiu Brooks no peito e
o forou a se ajoelhar. Os magos atacaram, e Brooks ergueu o
machado com ambas as mos, proferindo pragas e insultos
do sculo XVIII, provavelmente na esperana de incit-los a
mat-lo de uma vez.
Jack pegou a bolsa que levava pendurada transversalmente
ao peito e sacou uma estrela-projtil, um dos objetos da
Ravina do Corvo. No fazia idia do que esta era capaz de
fazer. Em desespero, atirou-a sobre os magos que atacavam
Brooks.
Ela ziguezagueou por entre eles, e dois deles tombaram,
berrando.
Jack aparou vrios golpes de chamas e lanou-se sobre eles,
brandindo a espada de lado a lado, forando os magos a
recuarem. Sangue quente respingou-lhe no rosto e nas mos.
Algum lhe pisou com fora no p e chegou mesmo a
resmungar:
        Desculpe.
Brooks se contorcia no cho, ainda tentando golpear o mago
que se inclinava sobre ele. Jack ouviu um feitio de
imobilizao se formando, como em cmera lenta, e se jogou
sobre a fonte, golpeando s cegas com a faca do cinto. O
mago caiu.
Jack se ajoelhou junto a Brooks em uma daquelas minsculas
bolhas de tempo que provavelmente durou meio segundo,
mas pareceu se estender para sempre.
        Vamos, Brooks. De p. Vamos levar voc at a Mercedes.
O sangue escorreu da boca do guerreiro.
        Estou acabado, Jack. Mas levei dez dos malditos comigo, e
isso  alguma coisa.  Ele agarrou a mo de Jack, como que
buscando confirmao. Jack pde apenas assentir com a
cabea.  Todos os torneios que venci, todos os pobres
guerreiros que matei... nada disso foi nem de perto to...
gratificante.
Jack mal podia falar.
        Levante  sussurrou ele, enxugando as lgrimas com a
luva da armadura.  Pare de se fingir de doente.
        Diga  menina, quando a encontrar, que... ela tem talento
 murmurou Brooks, arquejando.   uma grande
guerreira. Sempre foi.
E o guerreiro fechou os olhos.
Jack lembrou-se de uma manh ensolarada na Cmbria,
Brooks atacando-o no gramado, o cabelo tranado
esvoaando, os mocassins molhados pelo orvalho, um
machado em cada mo. Mais vivo do que qualquer fantasma
tinha o direito de estar.
Jack se levantou, olhando ao redor. O centro da batalha
havia se movido para uns cem metros alm. Ellen. Ele tinha
de encontr-la. Abriu caminho em meio  confuso,
brandindo a espada com eficincia mortal.
Finalmente, ele se afastou o bastante para perceber um
aglomerado de magos da Rosa Branca junto ao porto,
aparentemente em um duelo furioso contra alguns magos da
Rosa Vermelha. E, no meio de tudo, avistou Ellen e o que
restava da patrulha dela: cerca de 20 guerreiros
ensangentados lutando por suas vidas.
Ellen era um exrcito de um s, como sempre, atacando
com a Abridora de Caminhos, golpeando lateralmente com o
escudo, encorajando a tropa exaurida, tornando miservel a
vida de qualquer um que lhe chegasse ao alcance.
Jack forou caminho na direo deles, perguntando-se por
que os guerreiros se intrometeriam numa batalha entre
magos inimigos. Ento viu algum familiar junto  muralha,
entre os magos da Rosa Branca. A jaqueta de brim de botes
metlicos estava coberta de sangue, os olhos azuis
arregalados de medo. Ela estava presa atrs de uma falange de
magos e guerreiros.
"Madison?"
Os atacantes da Rosa Vermelha estavam to concentrados no
que faziam que Jack abateu meia dzia deles antes que
notassem sua presena. At quando no era mais possvel
ignor-lo, apenas alguns magos se voltaram para lidar com
ele, enquanto a maioria continuava o assalto impiedoso
contra a Rosa Branca. Eles abateram um dos magos
defensores e passaram pelo espao antes ocupado por ele,
mas foram forados a recuar diante do contra-ataque feroz
de Ellen.
"Esto atrs de Madison", pensou Jack, a mente processando
aos poucos as evidncias diante dele. "E a Rosa Branca a
estava defendendo?"
Talvez a Rosa Vermelha estivesse instruda a captur-la viva,
ou talvez estivessem todos cientes das conseqncias de
atacar Madison com magia. Fosse qual fosse o motivo,
estavam fazendo o mximo para matar todos em torno dela
ao mesmo tempo que a deixavam intocada.
Os magos afluam ao campo numa quantidade que parecia
interminvel. Havia magos atrs deles. Magos por todos os
lados. Magos da Rosa Vermelha e Branca. Magos sem
emblemas. Era como se toda a fria reprimida nos ltimos
sculos houvesse sido liberada naquela nica batalha. Se no
fosse por tanta confuso no campo, Jack teria sido morto
muito antes de conseguir se aproximar de Ellen.
Um por um, o pequeno grupo de magos da Rosa Branca foi
eliminado, at que s restava Ellen de p entre a Rosa
Vermelha e Madison Moss. Ela j sangrava por causa dos
vrios ferimentos, mas continuava com a costumeira
expresso obstinada de "Venha me pegar!" enquanto
enfrentava meia dzia de magos. Ela estendeu a mo para
trs e passou uma adaga para Madison, o punho voltado para
a ltima.
A estrela-projtil de Jack pegou um dos magos atrs da
orelha esquerda, e ele tombou. A espada de Ellen abateu
outro. Agora eram quatro contra um, um preo equilibrado
no que dizia respeito a Ellen.
Ela olhou para Jack, fazendo uma carranca sob o sangue e a
sujeira no rosto.
        Quer dizer para eles abrirem o maldito porto por tempo
suficiente para empurr-la pra dentro?
Jack compreendeu que ela estivera manobrando para ficar
cada vez mais perto do porto Weir, que agora estava logo
atrs deles. Mas os defensores nunca o abririam, com
centenas de magos do lado de fora. Eles no faziam idia de
quem era Madison.
        Mick! V dizer para eles abrirem o porto.  Ele fez um
gesto de cabea, indicando ao guerreiro aonde ir. Ento,
passando aos empurres por vrios magos, Jack tomou seu
lugar  esquerda de Ellen, onde o seu jogo canhoto de espada
cobriria o lado no dominante dela. Ele percebeu que ela
estava ferida pela maneira como se movia e pelas manchas
escuras em sua tnica, que ele no sabia se eram de suor ou
sangue.
        Leve a Madison pra dentro  sugeriu ele.  Voc est
ferida.
Ela balanou a cabea e se empertigou. Jack captou um
movimento pelo canto do olho e se virou. Um mago havia
se esgueirado por trs deles e se aproximava de Madison, que
tentava mant-lo  distncia com a adaga de Ellen. Era o
jovem Devereaux D'Orsay.
Um mago alto correu na direo deles, tentando se colocar
entre os dois guerreiros e o menino. Claude D'Orsay.
        Devereaux! Afaste-se da!
Madison foi distrada por D'Orsay por um instante, e
Devereaux tentou agarr-la.
Jack deu dois passos, mas Ellen estava l antes dele.
        Ei!
Ela empurrou o jovem mago para fora do caminho. O
menino se virou, sorriu, ergueu as mos. Perto demais para
errar.
        No!
Foi como um desses sonhos em que se est paralisado,
incapaz de se mover. Apenas alguns metros os separavam,
mas Jack no conseguiu cruzar a distncia a tempo. Ondas de
chamas partiram das mos de Devereaux e atingiram Ellen,
erguendo-a no ar antes que ela tombasse de costas no cho.
        Um j foi!  bradou o menino. Depois estendeu as mos
na direo de Jack, um sorriso ambicioso no rosto de beb,
os olhos claros brilhando de prazer por trs dos culos
redondos.  Quem diria que guerreiros morrem to
facilmen..
A Sombra Assassina deu fim quilo. O menino morreu com
um sorriso no rosto.
Algum gritou:
        Devereaux!
Jack se virou. Era Claude D'Orsay, o rosto contorcido pela
tristeza e pela raiva. Era o glido Mestre dos Jogos como Jack
jamais o vira.
        Voc o matou! Seu brbaro mestio, voc matou o meu
filho!
D'Orsay avanou implacavelmente, lanando uma vasta
parede de chamas pelo campo de batalha em direo a Jack,
sem se preocupar com quem mais incinerava desde que Jack
estivesse entre eles.
Jack se postou diante do corpo cado de Ellen, sabendo que
no havia como deter o que se aproximava. Ele ergueu a
Sombra Assassina e disse uma prece.
D'Orsay estava to concentrado na vtima escolhida que no
viu a pessoa que se materializou atrs dele. Jack pestanejou,
incrdulo. Era Jason Haley, com uma adaga nas mos
algemadas.
Jason avanou sobre D'Orsay, derrubando-o. Eles rolaram
pelo cho, deixando um rastro de chamas. Jason conseguiu
ficar por cima. Agarrou o punho da adaga com ambas as
mos e conduziu-a at seu alvo. D'Orsay gritou, uma nota
aguda e lamentosa, depois lanou chamas dilacerantes sobre
Jason, quase o cortando em dois. D'Orsay empurrou o corpo
de Jason para o lado, tentou se levantar, depois caiu duro
com a cara no cho e ficou imvel.
As chamas que se aproximavam hesitaram, amontoaram-se
cada vez mais alto, como um vagalho gigante batendo num
recife, depois desmoronaram e se dissiparam. D'Orsay estava
morto.
        Jason!  gritou Madison, tentando passar por Jack para ir
at onde Jason estava cado junto a D'Orsay.
Jack estendeu um brao enluvado, bloqueando-lhe o
caminho, e empurrou-a para trs.
        No! Por favor, Madison.
Ellen jazia onde havia cado, mas Jack no conseguia chegar
at ela. Os magos continuavam a vir atrs de Madison e a
morrer sob a espada de Jack to rpido quanto vinham. Mick
gritou para eles do porto da muralha Weir, gesticulando
para que se aproximassem. Mas havia um mar de magos
entre eles. Madison estava paralisada, os olhos fechados, os
punhos cerrados, como se quisesse bloquear o horror que a
cercava.
Jack viu movimento no campo de batalha, um tipo de
ondulao, como uma cobra serpenteando pela grama alta de
humanos.
Era Seph, os olhos esfumaados e escorrendo poder, abrindo
uma passagem at o porto. Ignorando os magos inimigos
que faziam de tudo para mat-lo, ele segurou as mos de
Madison, inclinou-se para ela e falou-lhe ao ouvido. Passou o
brao em torno dos ombros dela e se virou em direo ao
porto. Olhou para trs, para Jack.
        Venha, Jack. Vamos embora. Traga a Ellen.
A garganta de Jack estava dolorida por causa da tristeza e da
fumaa.
        Seph, pegaram o Jason  disse ele, apontando.
        O Jason?  A cabea de Seph se ergueu e ele ficou
imvel.  Mas ele nem est...  Ele se virou e passou
Madison para Mick.  Leve Madison para dentro. Agora.
Madison gritou e tentou se libertar e voltar para onde Jason
estava cado, mas Mick ergueu-a e carregou-a rumo ao
porto. Seph foi se postar junto a Jason, a cabea inclinada,
como um grande pssaro negro de asas cadas. Fazendo o
sinal da cruz, ele removeu o casaco e envolveu o amigo nele.
Agachou-se, tomou Jason em seus braos e se levantou.
Virou-se de novo para Jack, os olhos como grandes feridas
no rosto plido.
        Vamos.
Seph andou na direo do porto, as costas retas, desviando
uma centena de ataques chamejantes das Rosas.
Os magos lanaram-se atrs dele pela fresta como um
enxame. Jack sabia que no havia como carregar Ellen e
manter a Sombra Assassina em ao. Seria derrubado antes
que avanasse dez metros. Mas ele tinha de tentar.
Mick acabara de alcanar o porto com Madison. Jack viu
algum se esgueirar pela abertura estreita e correr na direo
dele, desviando-se agilmente dos corpos e dos destroos.
Uma pequena maga, mas poderosamente iluminada,
vestindo suter cor-de-rosa e calas jeans. Chamas
irrompiam-lhe das pontas dos dedos, atravessando
resolutamente o campo at a falange das Rosas que ameaava
engolfar Jack. Os atacantes hesitaram, recuaram.
Ela surgiu ao lado dele. Era Alicia Anne Middleton.
Ela desferiu um golpe de ar sobre os magos que se
aproximavam, derrubando-os como pinos de boliche, e
ergueu uma barreira para rechaar o fogo deles.
 Jackson. Vai levar Ellen pra dentro ou o qu?
A voz dela falhou, e ela pestanejou para conter as lgrimas.
Jack enfiou a Sombra Assassina no boldri. Inclinou a cabea
para Leesha. Ento se ajoelhou e passou os braos por baixo
de Ellen. Levantou-se, aninhando-a contra si, inspirando-lhe
o perfume. As roupas dela ainda fumegavam por causa do
ataque do mago. Mas, para ele, Ellen sempre cheirava a
flores.
Caminhou em direo ao porto, com Leesha dando-lhe
cobertura. Aquela era a cena que ele vira no espelho, todas
aquelas vezes. Ele era o ltimo guerreiro de p, carregando a
companheira cada.




Captulo Trinta e Seis
O Corao do Drago

Eles passaram sob o teto abobadado de pedra do porto, e
Madison perguntou-se por que ela conseguia enxerg-lo. Era
uma teia Weir e, nesse caso... no fazia sentido.
O mundo girava como um caleidoscpio  medida que Mick
a carregava por entre as rvores. Uma nvoa gelada pairava
at a cintura, redemoinhando quando passavam por ela. O
sol comeava a clarear o horizonte. Era como uma seqncia
de sonho numa pea que Madison assistira certa vez.
Um pesadelo. Jason estava morto, por causa dela.
As mos de ao de Mick relaxaram um pouco quando ela
finalmente parou de lutar. Todo o corpo dela formigava,
reverberava com o poder. A fonte deste estava em algum
lugar  frente, dentro do santurio. O Corao do Drago,
muito mais poderoso do que ela se lembrava.
Seph surgiu atrs dela e um pouco  direita, queimando de
poder, impossivelmente brilhante atrs dos olhos manchados
de lgrimas. Estranhamente intensificado. Ela se lembrou do
que Jason havia dito: Ele est usando Chama de Mago.
Os curandeiros armaram um centro de triagem em um dos
pavilhes no parque para atender os feridos. Mercedes
encontrou-os  porta, j pressentindo a tragdia. Houve uma
conferncia apressada, e ento Jack e Seph seguiram-na para
dentro do pavilho, carregando Jason e Ellen. Eles os
deitaram em camas portteis no centro do aposento.
Mick finalmente ps Madison no cho junto  porta,
mantendo um brao ao redor dela. Madison no sabia se era
para impedir que ela fugisse ou que desmaiasse no piso de
pedra. Ela estremeceu, e seu corpo se sacudia em grandes
soluos silenciosos enquanto Mick dava-lhe tapinhas
desajeitados nas costas e a acalmava em galico.
Leesha estava postada a alguma distncia, plida como papel,
os olhos fixos no corpo de Jason.
        Onde esto os outros?  sussurrou Madison, tentando se
recompor, indicando com um gesto o hospital improvisado.
Apesar de todo o derramamento de sangue l fora, no havia
muitos pacientes.
Mick balanou a cabea.
        Ou esto mortos, ou foram curados e voltaram para lutar.
        Se... se guerreiros fantasmas so mortos, eles podem
voltar?
Ele balanou a cabea de novo.
        No se forem mortos por magos.
Enquanto observavam, Mercedes se curvou sobre Jason,
pousando as mos no corpo dele. Ela fechou os
olhos e ficou daquele jeito por um longo instante, as lgrimas
caindo no manto de Seph.
        Fique em paz agora, menino  disse ela.
Ento Mercedes se endireitou e se voltou para Ellen.
Assim que Mercedes se afastou, Leesha foi para o lado de
Jason e libertou-lhe as mos das algemas. Ainda segurando-
lhe as mos, inclinou-se e beijou-o nos lbios enquanto
lgrimas lhe escorriam pelas faces.
Jack e Seph se aproximaram de Madison e Mick.
         melhor eu voltar  disse Jack em voz rouca.  Eles
vo precisar de mim na muralha. Acho que perdemos
metade dos nossos guerreiros naquela... naquela...  A voz
dele sumiu.
        Eu devo ir tambm  disse Seph.  Mas...
Ele olhou para Madison, como se no tivesse nenhuma idia
sobre o que fazer com ela.
        Vocs todos fiquem. Eu vou para a muralha.
Todos voltaram os olhos para Leesha, que parecera
voltar  realidade de repente, o rosto manchado com listras
de rmel.
        Quero dizer, a gente vai perder mesmo, de qualquer
modo. Vocs dois podem ficar aqui por tempo o bastante
para... para ter alguma notcia.
Ela tomou o brao de Mick.
        Vamos l, Mick. Vamos lutar contra algum por uma
causa perdida. Estou cansada de estar do lado vencedor.
Mick e Leesha partiram para a muralha, de volta ao trabalho
que no podia esperar. Os que ficaram se reuniram em torno
da mesa de piquenique fora do pavilho.
Jack no conseguia ficar parado. Andava de um lado para o
outro, mais plido e sombrio do que Madison jamais o vira.
Seph fitava direto em frente, o corpo esbelto e musculoso
retesado, as longas mos unidas  sua frente. Os cabelos
despenteados suavizavam os traos rgidos do rosto e
sombreavam-lhe os olhos. Os dedos de Madison se
contorceram. Ela ansiava por pint-lo daquele jeito... por
preservar de algum modo o que logo ela perderia para
sempre.
"Ele nunca vai me perdoar pelo que estou prestes a fazer."
E ento, sem olhar para ela, Seph fez as perguntas que
Madison vinha temendo.
        O que aconteceu, Madison? O que voc est fazendo aqui?
Como atravessou o Porto dos Magos?  A voz dele tremeu
de leve, lembrando-a de que ele s tinha dezessete anos.
Ela planejara antes o que dizer, mas ainda assim se
atrapalhou.
        Eu... o Jason veio me ver na montanha Booker. Ele... ele
disse que vocs no tinham conseguido chegar perto do
Corao do Drago, e que ele achava que eu poderia ajudar.
Por isso ele me trouxe de volta pra c.
        Eu falei para ele no envolver voc  disse Seph,
passando a mo pelo rosto como se assim pudesse afastar a
dor.
        Fomos apanhados tentando passar pela fronteira. Ele disse
para eles que, se me soltassem, eu poderia levar o Corao do
Drago pra eles. A, eles me escoltaram at o porto e
ficaram com ele como... como refm. Ele deve ter escapado.
        As Rosas estavam lutando entre si.
Seph ergueu os olhos para ela de relance, depois olhou para
longe.
        Aquela mulher-bruxa... a doutora Longbranch... disse que
eu devia levar o Corao do Drago para ela. Alguns dos
outros magos vieram atrs da gente. Acho que queriam a
pedra para eles mesmos.
Seph assentiu com a cabea e engoliu em seco.
        Jack, como... O que aconteceu com a Ellen e o Jason?
Em poucas palavras, Jack explicou o que acontecera a Ellen e
Devereaux D'Orsay.
        A o D'Orsay ficou furioso. Ele teria me matado, mas de
repente o Jason estava l. Ele esfaqueou o D'Orsay e salvou a
minha vida. Mas o D'Orsay... A voz dele sumiu.
        Ento o D'Orsay est morto tambm  murmurou Seph.
Os sons da batalha chegavam at eles, carregados pelo ar
parado da manh. As chamas moviam-se em arco por sobre
as rvores.  No que isso nos faa algum bem.
Ele parecia cansado, exaurido, subitamente trmulo. Enfiou a
mo dentro da camisa e tirou uma garrafa, sem fazer
nenhum esforo para escond-la. Tirou a rolha com os
dentes, tomou um gole, estremeceu.
Madison respirou fundo.
        Quem sabe... se eu vir o Corao do Drago... talvez eu
possa descobrir se h algum jeito de ele nos ajudar  disse
ela, mantendo propositalmente os olhos voltados para longe.
        Muito bem  disse Seph, cansado.  Acho que vale a
pena tentar. Mas  melhor a gente se apressar. Eu tenho que
voltar.
        Se ainda est na igreja, eu posso ir sozinha  sugeriu ela,
torcendo para que ele aceitasse.
Will Childers invadiu a clareira, sem flego por causa da
corrida.
        Cad a Ellen?  indagou.  Ouvi dizer que ela estava
ferida.
Jack olhou para ele, depois de novo para as botas,
comprimindo os lbios. Will se sentou ao lado dele e ps a
mo em seu ombro.
        As Rosas comearam um ataque macio  muralha 
anunciou Will.  O Fitch est a caminho. Ele vir depois
que explodir alguns magos.
Aquilo fez Jack abrir um leve sorriso.
Naquele momento, Mercedes emergiu do pavilho, a
expresso sombria. Todos se viraram na direo dela. Jack
permaneceu imvel, como se pensasse que deveria ouvir a
mensagem dela sentado.
        A Ellen est viva  disse ela, e se ouviu um tipo de
suspiro, como se todos estivessem contendo a respirao. 
Mas no est nada bem. Suspeito que seja um graffe, como o
que Barber usou no Jason. Mas est coberto por feitios, por
isso  difcil de diagnosticar ou tratar. Eu nem consigo achar
o ponto de entrada;  como se ficasse mudando. Diablico.
Ela precisa ser levada a uma igreja.
Madison pestanejou.
        O qu?
        Vamos lev-la para a igreja de Saint Catherine's. Os
feitios de cobertura so superficiais. Com sorte vo
desaparecer numa igreja consagrada, e vamos poder ver o
que  o qu.  Ela se virou para Jack.  Voc e o Will
podem lev-la?
        Todos ns vamos  disse Seph, olhando de relance para
Madison.  O Corao do Drago est l.
        Mas... e quanto  muralha?  gaguejou Madison. Ela
preferia que o mnimo de pessoas possvel fosse para a igreja.
 Voc no precisa...?
A mo de Seph no ombro dela guiou-a para fora do pavilho.
Os olhos verdes dele estavam turvos.
        Se no pudermos usar o Corao do Drago, vamos perder
de qualquer jeito. No importa o que eu faa. O Jason
entendeu tudo. Ele sabia que o Corao do Drago era a
nossa nica chance. Foi por isso que ele trouxe voc aqui.
E agora Madison iria trair Jason, junto com todos os outros.
A procisso at a igreja de St. Catherine tinha a cadncia e a
atitude de uma marcha fnebre, cada participante preso em
seus prprios pensamentos. Jack e Will carregavam Ellen
numa maca. Fitch juntou-se a eles em algum lugar no meio
do caminho, aparecendo de uma rua lateral como se fosse
um fantasma.
Muito havia mudado desde o incio do ano.
Trinity era como uma pintura familiar em que as
caractersticas principais haviam sido terrivelmente borradas.
As reas mais prximas  muralha Weir eram as mais
preservadas  o ngulo de mira tornava mais difcil para as
Rosas atingi-las de fora das muralhas. L as ruas estavam
assustadoramente iguais  exceto que no havia crianas
brincando nos quintais e playgrounds; no havia lojistas
varrendo folhas de suas caladas; no havia alunos do colgio
flertando nas esquinas ou esperando por caronas na frente
do Corcoran's. Nenhum caminho de incndio passava
tocando a sirene para cuidar das labaredas que se espalhavam
em vrios lugares da cidade. Madison imaginou as pessoas de
Trinity sendo levadas para o fundo do lago.
O centro da cidade se parecia com fotografias que ela vira
das capitais europias bombardeadas na Segunda Guerra
Mundial. Embora os prdios de pedra da faculdade
resistissem ao incndio, haviam sido tremendamente
danificados pela fumaa e pelos explosivos. A praa pitoresca
estava queimada e cheia de crateras, os carvalhos ancios
despedaados, carbonizados e desfolhados. Equipes de
limpeza formadas por feiticeiros usavam ps para remover
detritos da rua e aplicavam remendos mgicos nos dutos de
gua rompidos.
Seph tambm se transformara na ausncia de Madison. As
pessoas abriam caminho para ele nas ruas e juntavam as
cabeas, cochichando, aps a sua passagem, como se fosse
uma celebridade ou um santo.
Seph no parecia not-los, como se os assuntos realmente
importantes estivessem acontecendo dentro da cabea dele.
s vezes ele estremecia e inspirava fundo, os olhos se
arregalando como se reagissem a alguma dor particular.
 Voc est bem?  indagou ela.
Nem bem havia dito aquilo, pensou: "Idiota. Muito idiota".
Ele hesitou, como se ponderasse o quanto podia com-
partilhar.
        Eu sinto toda vez que algum morre  disse ele, enfim.
Ela estremeceu.
        Voc no pode se proteger de alguma forma?
        No se eu quiser saber o que est acontecendo.
Ela estava feliz por ele no poder entrar na mente dela. Feliz
que os pensamentos dela fossem privados. Ela precisava se
concentrar no caminho adiante, ou perderia a coragem.
Eles entraram na rua Maple, indo na direo do lago. Ela
podia sentir o Corao do Drago, bem  frente, aquecendo-
a, como se ela houvesse se virado na direo do sol em
alguma regio tropical. Seph falou pouco, mas sua mo
quente no cotovelo dela indicava-lhe o caminho a seguir.
Pelo menos a maldio dentro de Madison parecia ter
desaparecido totalmente. No que isso importasse mais.
Eles chegaram  igreja de St. Catherine. Os guerreiros
fantasmas que guardavam a porta j haviam ouvido as no-
tcias sobre Ellen. Eles removeram os protetores de cabea
de vrias pocas e ficaram de p em silncio enquanto o
grupo solene entrava. Jack e Will carregaram-na pela nave
at o interior de uma capela lateral, onde a deitaram no altar
como um corpo num esquife.
Ellen jazia imvel e fria, ostentando os sinais mudos da
batalha: arranhes e manchas no rosto e nos braos.
Mercedes correu as mos hbeis pelo corpo da guerreira.
Elas pararam logo acima da cintura.
        Ah. Aqui est. Foi por aqui que o graffe entrou.
Jack ficou de p na cabeceira do altar, segurando a mo de
Ellen e falando-lhe em voz baixa. Will e Fitch
permaneceram na entrada da capela para no ficarem no
caminho enquanto Mercedes se curvava sobre Ellen.
        Mercedes  disse Madison, envergonhada, tocando-lhe o
brao.  Talvez eu possa fazer alguma coisa.
A curandeira ergueu os olhos, surpresa, hesitou, depois deu
um passo para trs.
         vontade, menina.
"Aqui est", pensou Madison. "Um minsculo gesto para
compensar uma enorme traio."
Ela deslizou as mos sob a jaqueta de Ellen, pressionou as
pontas dos dedos na pele dela e sentiu o calor da maldio.
Madison extraiu-o, sugando a magia negra para o vcuo que
sempre existia dentro dela. Era uma maldio pequena perto
da de Leicester, mas igualmente mortal.
O corpo de Ellen ficou rgido e se arqueou sob as mos de
Madison. Ela gritou e as plpebras tremeram. Quando no
conseguiu mais sentir o calor entre os dedos, Madison
retirou as mos.
O rosto de Ellen estava lustroso pelo suor, contorcido pela
dor. Estava inquieta agora, gemendo, respirando rpido e
curto. Os cabelos brilhava  luz das velas dos altos castiais
em ambos os lados.
        Ela est reagindo  disse a feiticeira, parecendo mais
esperanosa do que antes.  Isso  bom.
        Madison. Vamos descer  disse Seph, virando-se
abruptamente.
Pararam no topo da estreita escadaria para que Seph pudesse
desativar as armadilhas mgicas que instalara. Depois
desceram os degraus irregulares at a cripta.
Seph acendeu uma fileira de velas altas de cera que haviam
substitudo as luzes eltricas. A eletricidade agora dependia
de um gerador intermitente e se tornara um bem precioso.
As chamas bruxuleavam com o vento da escadaria, ora
escondendo, ora revelando os nomes nas criptas ocupadas.
Em contraste com o corredor escuro, o nicho ao fim da
fileira estava brilhantemente iluminado. Uma figura
encurvada estava sentada no cho junto a ele, embrulhada
num xale, parecendo adormecida.
        Nick?  sussurrou Seph.
O velho levantou a cabea ante a aproximao deles.
Madison estava espantada com o quanto Nick havia en-
velhecido no tempo em que ela estivera fora. Ele se trans-
formara de um velho cheio de energia e de idade indeter-
minada em algum que parecia ter sobrevivido ao mais
antigo dos patriarcas.
Mesmo assim, por que ele estava ali, e no no campo de
batalha?
        Ah.  Nick assentiu com a cabea, como se eles fossem
esperados.  Voc veio.
Seph tambm parecia um pouco confuso.
        Hum. A Ellen, o Jack e os outros esto l em cima. Ellen
est ferida. Madison veio ver se consegue fazer alguma coisa
com o Corao do Drago.
        Sim.  claro.  Nick sorriu, como se Madison fosse a
resposta a uma prece.  Minha querida, estou to feliz que
esteja aqui!
Mas Seph ainda hesitava.
        Nick? Voc est bem?
Snowbeard fechou os olhos, como se estivesse cansado
demais para mant-los abertos.
        Sim. Creio que tudo vai ficar bem, agora que voc veio.
Talvez o velho estivesse enlouquecendo. Madison olhou de
relance para Seph e de novo para Nick, sem receber
nenhuma orientao de nenhum deles.
        Muito bem, ento. Acho que vou ver o que acontece.
Com cautela, ela se aproximou do nicho. Como saber quais
eram as regras ali? Estreitando os olhos contra a luz, ela
entrou.
A pedra estava mais brilhante, mais viva do que quando
Madison a vira pela ltima vez. Chamas e cores redemoi-
nhavam sob a superfcie cristalina, projetando sombras que
se moviam nas paredes, dando a Madison a sensao de estar
flutuando embaixo d'gua. Era como ficar diante de um
forno quente de carvo. S que havia algo mais, algo alm do
calor, um outro desafio a ser encarado. Algo que lhe roava a
conscincia como uma pluma, um certo... ceticismo. Ela
estendeu a mo, mas logo a puxou de volta quando algum
falou.
        Cuidado  disse Seph da porta.  A pedra queimou a
minha mo quando tentei tocar nela.
Madison engoliu em seco. Ela envolveu a mo na jaqueta e
estendeu-a de novo, cerrando os dentes, meio que
esperando ser incinerada viva. Uma arma, diziam eles a
respeito da pedra, mais poderosa do que qualquer outra j
vista antes. Madison deixou a jaqueta cair sobre a pedra,
enfiou as mos por baixo, embrulhou-a no tecido e ergueu-a
do suporte como se fosse um ovo que pudesse quebrar.
Nada aconteceu, exceto que ela se sentiu tonta e cheia de
calor, confusa e em dvida. Uma voz murmurava na sua
cabea, mas era fraca demais para que pudesse distinguir as
palavras. Pelo menos a pedra no explodira.
Ela se voltou para Seph, que a observava com o rosto
franzido.
        E a?  perguntou ele.  Alguma coisa?
        Talvez  disse ela, oscilando um pouco. Precisava tirar a
pedra da igreja de algum jeito.  S que... estou um pouco
tonta. Preciso tomar ar.
Madison forou caminho para passar por ele, protegendo a
pedra com o corpo. Ao emergir do nicho, Nick ergueu os
olhos de onde estava, sentado no cho.
        Desembrulhe a pedra, Madison  disse ele bruscamente.
 Segure-a nas mos.
        Vocs todos esperem aqui. Volto num minuto  disse
ela, cambaleando na direo das escadas e enfiando a jaqueta
com o Corao do Drago dentro da mochila.
Ela estava quase no topo da escada quando ouviu as passadas
rpidas de Seph atrs dela.
        Madison!
Ela acelerou o passo, chegando ao patamar da escada,
passando pela porta e entrando no interior da igreja. Ao
atravessar a capela lateral, viu que Will e Fitch permaneciam
 entrada. Os rostos plidos e surpresos se voltaram na
direo dela. Madison ouviu Seph atrs dela e saiu em
disparada pelo corredor entre os bancos. Jamais conseguiria
correr mais rpido do que as longas pernas de Seph em uma
corrida justa, mas a confuso dele dera a ela uma vantagem
inicial.
Ela segurou a mochila junto ao corpo, com medo de sacudi-
la, e alcanou as portas duplas de entrada uns nove metros
adiante de Seph. Ento colidiu com Jack Swift, o que era
como bater contra uma parede de tijolos.
        Ei!  Ele a segurou pelos ombros para impedi-la de cair
para trs.  Madison? O que aconteceu? Aonde voc vai
com tanta pressa?
Ela tentou se libertar e passar por ele, mas Seph gritou:
        Segure ela, Jack!
Parecia ter chegado a hora de Madison abandonar todas as
esperanas, mas ela deu uma joelhada em Jack, como
Carlene a ensinara, e ele ficou to surpreso que a soltou. Mas
ele ainda bloqueava a porta.
Ela correu pela passagem lateral, que terminava numa
pequena capela, um beco sem sada. Mas havia escadas para
cima, e ela as subiu, sabendo que provavelmente se dirigia
para outro beco sem sada. A escada levava a um balco, que
ela atravessou correndo, na esperana de descer pelo outro
lado. Deu com Seph subindo, e Jack estava logo atrs dela,
por isso Madison correu at o
corrimo e balanou a mochila por sobre o piso de pedra da
igreja l embaixo.
Seph veio pela direita, Jack pela esquerda.
        Para trs ou eu jogo a pedra  avisou ela, dando uma
sacudidela na mochila.
        Madison?  Seph parou a poucos metros de distncia,
franzindo as sobrancelhas escuras.  O que est
acontecendo? O que voc est fazendo?
        Preciso do Corao do Drago. Vo embora e me deixem
em paz.
        No deixe cair  disse Seph em tom apaziguador.  Ele
pode quebrar. Ou explodir.
Ele voltou a se aproximar com cuidado.
Madison agarrou o corrimo e passou para o outro lado,
segurando-se pelo lado de fora.
        Se chegar perto de mim, eu pulo. Estou falando srio. No
me importo com o que acontecer comigo.
Tanto Jack como Seph pararam de novo.
        Isso tem a ver com as Rosas?  perguntou Seph,
buscando alguma explicao para aquele comportamento
bizarro.  Voc acha que pode obter alguma coisa deles
com o Corao do Drago?
        Voc no pode dar a pedra pra eles  interveio Jack. 
No pode confiar neles. Eles vo nos matar.
        O problema no so as Rosas.
Ela parecia no conseguir controlar a prpria respirao, que
saa em grandes arfadas trmulas.
        Ento o que ?  perguntou Seph, claramente sem pistas.
        ...  a Grace e o John Robert. O Warren Barber est com
eles. Ele vai matar os dois se eu no levar o Corao do
Drago para ele.
A compreenso raiou no rosto de Seph.
        Maddie. Sinto muito.
        Bem, sentir muito no me ajuda em nada. No vou perder
meus irmos, esto me ouvindo?
        Voc no pode dar o Corao do Drago ao Barber. Voc
deve saber disso.
        Vou fazer o que for preciso para salvar as crianas.
        No vai conseguir desse jeito. Por favor, Maddie. Deixe a
gente tentar ajudar.
        Vocs tm uma cidade inteira pra salvar. E as sub-ordens.
A Grace e o J. R. no podem ser prioridades pra vocs. Mas
so para mim.
De algum modo, Jack atravessou o espao entre eles num
salto e tentou arrebatar-lhe a mochila. Ela se soltou do
corrimo segurando a mochila contra o corpo e se deixou
cair. Ento as mos quentes de Seph agarraram-lhe os pulsos
e puxaram-na por sobre o corrimo com fora desumana, e
todos os trs rolaram no cho, lutando pela mochila. Jack ou
Seph ou algum quase a tomou dela, mas ela conseguiu abrir
metade do zper da mochila e enfiou a mo dentro, tateando
pela pedra, sabendo que era agora ou nunca.
Afastando a jaqueta, ela sentiu a superfcie lisa sob os dedos.
Madison a tirou para fora, segurou-a contra o peito e recuou,
vagamente ciente da escadaria atrs dela.
        Estou avisando. Fiquem longe.
Eles avanaram sobre ela de duas direes, o som da
respirao deles competindo com o bater do corao dela.
Algo explodiu do lado de fora. O prdio estremeceu, o gesso
comeou a rachar e a cair do teto, os grandes candelabros
balanaram nervosamente.
Ela se virou e desceu as escadas aos pulos, chocou-se com a
parede na curva e escorregou nos ltimos degraus. Caiu
estatelada no piso da igreja, enroscando-se em torno da
pedra para proteg-la. Ficou deitada de costas, incapaz de se
mover. A pedra entre suas mos flamejou e pulsou, a luz
penetrando a pele e a carne, revelando os ossos por baixo
como a Mulher Visvel no laboratrio de cincias de sua
antiga escola.
Ela pestanejou e estreitou os olhos para se proteger do brilho
que inundou a nave, expulsando as sombras das abbadas
superiores. De muito longe, algum estava gritando:
 Madison!
Um nome que parecia familiar. A pedra se tornou mais
malevel sob seus dedos, a superfcie dura se dissolvendo
como algodo-doce. O poder invadiu-a de chofre, como o
conhaque medicinal de ma de Min, deixando-a bbada e
indefesa, o aposento girando at que ela achou que fosse
ficar enjoada. Uma chama insacivel queimava em seu
mago e ondulava sob sua pele, ameaando parti-la ao meio.
Algum estava gritando, e ela percebeu que era ela.
A pedra era uma chama entre suas mos. E ento se
dissolveu no corpo de Madison at que ela estivesse
iluminada por dentro.
Ela se lembrou de algo que Hastings havia dito.
"Os extratores sugam a magia de todos os tipos."
De algum lugar prximo vinham sons de batalha. As Rosas
deviam estar dentro das muralhas. No havia mais
escapatria.
Ela havia destrudo a nica chance de salvar Grace e J.R.
Desejou que a chama dentro dela simplesmente a queimasse
para que nada restasse alm de cinzas.
Pressionando as palmas quentes contra o cho frio, Madison
se sentou, recuando rapidamente at se apoiar contra o
banco de madeira. Ela iluminava o santurio inteiro,
expulsando as sombras como o sol nascente.
        Sumiu  disse ela, desalentada.
Lgrimas sibilavam em suas faces, evaporando assim que
emergiam.
        No sumiu  disse algum.
Madison levantou a cabea. Snowbeard veio pelo corredor
arrastando os ps, segurando-se nos bancos de cada lado,
menor do que ela se lembrava, o rosto enrugado revelado
claramente na nave iluminada. O calor dentro dela
fragmentou-se e dividiu-se. Ela recuou sem lutar, empurrada
para o lado por uma outra presena no interior da sua pele.
        Madison  sussurrou Seph.
Jack surgiu atrs dele, e eles andaram na direo dela, como
se estivessem se aproximando de um explosivo ou de um
demnio. Will e Fitch seguiram a uma distncia discreta,
sem dvida atrados pelo barulho da perseguio. Mercedes
estava paralisada junto  porta da capela lateral, no
querendo abandonar a paciente.
A estranha presena dentro de Madison agitou-se, tomando
controle do corpo dela. Madison se ergueu com elegncia,
parecendo esticar-se at estar mais alta do que todos eles. Os
braos dela deixavam rastros de luz, lembrando asas. A pele
refletia a luz como escamas cintilantes, e seus olhos
mudaram, as pupilas tornando-se fendas verticais. Ela era
bela e aterradora e, de certa forma, no era mais Madison
Moss.
 No.  Seph olhou para ela, os olhos arregalados e
horrorizados.  Por favor, Maddie...
Uma inteligncia poderosa se imps a ela. Um jorro de
lembranas e emoes, tristeza e dor a dominaram,
golpeando-lhe a mente como uma espada atravessando uma
folha de papel. Ela estava com a senhora, ela era a senhora.
Alternava entre uma identidade e outra.
Ela era um drago, numa armadura de placas resplandecentes
de rubi, esmeralda e ouro, a cabea longa e estreita
examinando Seph e os outros, as asas reluzentes apertadas
contra o corpo para no colidir com as paredes da igreja.
Depois uma outra mudana, e ela era Madison outra vez.
Mais ou menos.
As lembranas da senhora a dominaram, e ela olhou pelos
olhos do drago. A igreja se afastou, substituda por uma
paisagem verde e pedregosa pontuada pelo afloramento de
rochas. Nicodemus Snowbeard havia mudado, transformado
em um belo jovem, sem barba, com olhos negros de ave de
rapina e cabelos dourado-avermelhados como os de Jack.
Seph e os outros formavam um crculo, paralisados como
meglitos, silenciados e estupefatos pela vontade da senhora.
Madison olhou para eles de uma grande altura. Estendeu o
longo pescoo na direo deles, e eles recuaram, com medo.
        Demus!  chamou a senhora atravs de Madison. 
Nicodemus Hawk.  A voz dela soava entre os picos, to
surpreendentemente alta que os pssaros revoaram das
rvores.
O jovem Nick caiu sobre um joelho, curvando a cabea.
Estava vestido em trajes caros, de fino couro e seda, o corte
das roupas revelando o porte de um soldado.
        Minha senhora Aidan Ladhra.
        Nick  disse Jack, a mo no punho da espada.
Mas Nicodemus Hawk Snowbeard ergueu a mo e balanou
a cabea. Havia algo no rosto de Demus que parecia ser
esperana.
As lembranas da senhora rolaram pela mente de Madison
como pedregulhos brilhantes num riacho enquanto Madison
se encolhia num canto.
        Voc me traiu  disse a senhora Aidan.
A testa de Demus tocou o solo.
        Sim, minha senhora.
Ele se transformou novamente, voltando a ser o familiar
velho de barbas brancas. Mas os olhos... esses eram os
mesmos.
        Eu dormi todos esses anos  disse ela, soando levemente
espantada.  Enquanto voc envelheceu.
Ele no recuou.
        Sim, minha senhora. J faz mais de mil anos. Eu me
chamo Snowbeard agora.
         bem apropriado, velho  disse ela com sarcasmo. 
Tornou-se mais sbio tanto quanto se tornou mais velho?
Demus estremeceu.
         o que se espera, minha senhora.
        Por que me arrancou da montanha?
        A senhora prometeu intervir se quebrssemos o Pacto.
        No prometi nada. O Pacto foi criao sua, no minha.
Suas mentiras, no minhas.
Nick ergueu as mos, as palmas para cima, uma splica.
        O Pacto deteve as guerras entre os magos. Por algum
tempo.
A senhora Aidan/Madison bocejou, expelindo chamas at o
fim do vale.
        Matem-se uns aos outros, no me importo. O mundo
ficar melhor assim.
        Precisamos da sua ajuda  insistiu Nick.
        Ento seja criativo. Use o meu nome, se quiser. Voc o
tem feito por anos. Vou voltar a dormir. Tive os sonhos mais
maravilhosos.
Ela fechou os olhos, como se pretendesse retirar-se para
aquele lugar de sonhos e deixar Madison para trs.
        Eu cometi erros.
Os olhos se abriram. Ela o estudou imparcialmente.
        Talvez voc esteja mais sbio. Antes voc era arrogante.
Mas, realmente, acha justo usar uma extratora para me atrair
para fora?
         uma boa combinao, minha senhora. Ela  pintora,
amante da arte. E de coisas brilhantes. Como a senhora.
        Ningum  uma boa combinao para um drago. Ns
somos, aparentemente, feitos para a solido.  Ela fez uma
pausa, fechou os olhos, e Madison sentiu a intensidade de
seu exame.  Madison Moss. Que nome peculiar. Ela 
sedenta  maneira dos drages, cheia de desejo. Ela tem mais
imagens na mente do que poderia pintar em trs vidas
mortais.  Ela abriu os olhos.  Ela ama o rapaz  disse a
senhora Aidan abruptamente, olhando feio para Seph.
Nick assentiu.
        Sim.
        Ele a trair  disse a senhora, incendiando-se
perigosamente, estendendo a mo cheia de garras na direo
de Seph.
Ele ficou imvel e fechou os olhos.
"No! Deixe-o em paz!"
Madison lutou desajeitadamente contra a senhora dentro
dela, tentando arrebatar o controle.
        No!  disse Nick rapidamente, transformando-se mais
uma vez no jovem Demus.  Ele a ama tambm. Ele ,
acredito, mais sbio do que eu era.  Ele fez uma pausa. 
Sei que a senhora est cansada da vida. Mas h esperana nos
jovens. Acho que eles vo achar o caminho para a paz.
A senhora Aidan estudou-os, o olhar se transferindo de
Jack para Seph, que ainda tremia diante de seu exame
cintilante.
        O rapaz est em ms condies  disse ela, curvando o
lbio para trs para revelar dentes afiados.  Ele est usando
Chama de Mago.
        Ele est desesperado para salvar aqueles a quem ama. Ele
trocaria a prpria vida pelas deles.
        Humm.
Voltando  forma de Madison, ela estendeu a mo e tocou
Seph no centro da testa. Todo o corpo dele relaxou, as mos
se abriram, e a dor, a exausto e a ansiedade desapareceram-
lhe do rosto. Seph caiu de joelhos na grama, a cabea
inclinada.
        M... minha senhora  sussurrou ele, a voz arranhando a
garganta.  A Madison... ela est... bem? Por favor? Ela
nunca quis que nada disso acontecesse. No a leve. Em vez
dela, leve a mim.
Ela o fitou por um momento, inclinou-se e beijou-o no topo
da cabea. Ela se voltou para Demus.
        O que  que voc quer que eu faa?
        Ponha um fim neste conflito. Ponha ordem nas Rosas.
A senhora se inflamou.
        Eu nunca quis governar vocs. Voc, mais do que todos,
devia saber disso. Eu queria uma academia. Colaborao
entre colegas. Encontros de mentes e comunho de
coraes. Filosofia e conversas sob as rvores. E, mesmo
assim, voc liderou uma conspirao contra mim.
Demus no respondeu por um longo tempo e, quando falou,
sua voz soou embargada.
        Estou... to cansado... de tentar consertar as coisas. Se eu
pudesse desfazer tudo, eu o faria.  Ele se transformou de
novo no velho Nick.  Se a senhora no mediar esta
disputa, ento retome os dons que nos deu. As pedras Weirs.
Ela gesticulou na direo de Seph e dos outros.
        Voc viveu uma longa vida, mas eles so jovens. As
pedras Weirs seriam um preo muito alto para eles pagarem
a fim de purgar a sua culpa.  Ela sorriu com tristeza e
estendeu a mo.  Nicodemus, a era dos drages j passou.
Vou voltar a dormir na montanha. Venha comigo e
descanse.
        As Rosas vo aniquilar ou escravizar as outras ordens. 
Nick enfrentou os olhos de Madison, depois desviou o olhar.
 Depois vo assassinar umas s outras. Vo destruir o
mundo.
A senhora deu de ombros, como se quisesse dizer: "Quem se
importa?". Depois pareceu sentir pena de Nick.
         tarde demais, de qualquer forma. Eu abdiquei em favor
da menina  disse a senhora Aidan.
Nick ergueu a cabea.
        O qu?
        A menina  uma descendente de sangue da Guardi do
Drago. Ela traz a pedra dessa linhagem. Eu a nomeio
herdeira do Corao do Drago, a que d e toma o poder. Se
quiser algum para governar vocs, ela pode faz-lo.
"Ei, espere a um minuto", pensou Madison, debatendo- -se
contra seu confinamento como uma bolinha de gude num
pote de vidro. "Quem  essa menina de quem voc est
falando?"
Nick pigarreou.
        Mas... tanto poder nas mos de uma nica pessoa!
A senhora Aidan deu de ombros, indiferente.
        Ela tambm no quer o poder. E isso  um sinal
auspicioso. Vamos confiar que ela far bom uso dele, no ?
        Mas, minha senhora...
A senhora se empertigou.
        Adeus, Demus. Voc sabe onde me encontrar.
Madison sentiu o toque da mente da senhora quando
ela partiu e, de repente, se sentiu terrivelmente sozinha.
A paisagem verde desapareceu, e as paredes de pedra da
igreja se fecharam novamente. Os outros estremeceram,
como se um encantamento houvesse sido quebrado.
Madison baixou o olhar para si mesma. Sua viso estava
borrada, e ela sabia que devia estar tendo uma alucinao. A
pele ainda brilhava, e ela parecia se transformar sutilmente
de um aspecto para o outro  de uma garota de jeans para a
senhora com pele coberta de jias para algo mais parecido
com um drago. A pele cintilava quando a luz a atingia de
certo ngulo, e pareciam surgir chamas no rastro dos seus
gestos.
Seph segurou a extremidade de um banco e levantou.
        Madison?  voc mesma, no ? Mas voc est... se
transformando.
Ele estendeu as mos, e quando Snowbeard gritou-lhe para
ter cuidado, ele o ignorou.
Foi como segurar um fio eletrificado  os poderes se
misturaram e colidiram nas pontas dos dedos deles. O toque
de Seph pareceu ancor-la, e ela segurou firme, fitando
ansiosamente o rosto dele. Os olhos verdes de Seph estavam
lmpidos agora, no mais turvos pela dor. Ele se curvou e
beijou-a, uma outra troca intensa de poderes, deixando
Madison dominada pela culpa e pela gratido.
"Ele sabe o que fiz, sabe o que sou, e no me odeia."
        Nick. Ento foi voc  disse Jack, em tom gelado.
Madison se virou. Havia se esquecido de que havia mais
gente ali.
Jack puxou a adaga e apontou-a para Nick, os olhos azuis
brilhantes no rosto plido de fria.
        Voc era Demus... o mago que fundou as ordens, que...
que escreveu o Pacto.
Nick ficou em silncio por tanto tempo que Seph achou que
o velho no responderia. Quando falou, quase no dava para
escut-lo.
        Sim. Eu liderei a conspirao original contra a senhora
Aidan. Foi h muito tempo, Jack. Eu era... muito ambicioso.
Muito convencido. No vi nenhum motivo pelo qual
deveramos obedecer a um drago, por mais sbia e virtuosa
que ela fosse. O preo de viver por tanto tempo  que se
vem os erros que se cometeu.
        E os torneios?  A voz de Jack tremeu.  Foram idia
sua tambm?
Nick curvou a cabea.
        Eu no previ o nvel de destruio que resultaria de se pr
um poder to devastador nas mos de seres humanos
imperfeitos. No eram apenas os Weirs que estavam
morrendo, mas milhares de Anaweirs, em batalhas que
ardiam por todo o globo. Estvamos destruindo a
Terra tambm... envenenando a atmosfera, poluindo os
cursos de gua, encharcando o solo com sangue. Assim, com
a ajuda de alguns confederados, escrevi o Pacto, convenci os
representantes das ordens a assin-lo e persuadi o conjunto
dos magos de que um desastre mgico se abateria se no
aderssemos a ele. Criei uma lenda e a impus com magia.
Aqueles que a violaram pagaram o preo. Foi uma grande
proeza, mas eu estava no meu auge naquela poca.  Ele
ergueu os olhos para Jack.  Sei que isto  difcil de
acreditar, mas o Jogo salvou milhares de vidas.
        Mas no as vidas dos guerreiros  disse Jack com
amargura.  Somos descartveis.
Snowbeard desmoronou no banco mais prximo, os olhos
ainda fixos em Madison.
        Em certa poca, isso me pareceu... uma troca razovel.
        Uma troca razovel?  A voz de Jack se intensificou.  E
agora a Ellen est l deitada com um ferimento mortal...
Como que para pontuar aquela afirmao, um mssil
flamejante estilhaou o vitral acima do altar, lanando cacos
de vidro sobre eles. Seph ergueu uma mo, e o projtil caiu
no cho como se houvesse atingido uma barreira invisvel.
        Esto se aproximando  disse ele.   melhor irmos.
Mas Madison ps a mo no ombro de Nick. Ele estremeceu
violentamente quando ela o tocou, e ela retirou a mo.
        O que fez com que voc mudasse?  indagou ela.
Ele sorriu, o rosto enrugando-se em traos familiares.
        Ora, minha querida, eu me apaixonei. Ela era bem mais
jovem do que eu, a minha... dcima quinta esposa. Eu estava
totalmente enamorado. Eu no fazia idia de que ela possua
sangue guerreiro. Quando o nosso filho nasceu um
guerreiro, tentei escond-lo. Quando as Rosas o levaram para
o Jogo, eu... ah... o libertei e fugi para os Estados Unidos.
Isso foi em 1802.  Ele esfregou a mo no rosto. - Jack, a
sua trisav Susannah era minha tatatatataraneta.
Jack parou de andar de um lado para o outro e girou,
parecendo horrorizado.
        Quer dizer que voc  meu... av?
        Por assim dizer. Com muitos "tatara" antes. Eu me parecia
muito com voc quando jovem. Embora no to...
musculoso.  Nick afastou a lembrana.  Em anos
recentes, tentei refazer a hierarquia das ordens, mas descobri
que tinha perdido o poder sobre elas. O meu poder havia
enfraquecido, ao passo que o sistema tinha ganhado vida
prpria. Quando o Jason trouxe o Corao do Drago, eu tive
esperana de que pudesse ser uma ligao com a senhora
perdida. Uma ltima chance.
        O que... era, exatamente?  perguntou Seph.  O
Corao do Drago, digo.
Nick deu de ombros.
        O Corao do Drago  a memria codificada da senhora.
Tanto a essncia dela quanto a fonte do poder dado pela
senhora s ordens Weirs.
Do lado de fora, o combate movia-se na direo deles, o
avano marcado pelo ritmo percussivo das exploses.
Chamas tremulavam, projetando sombras bizarras nas
paredes e no piso, e uma densa fumaa penetrava pelas
janelas.
        Bem, nada disso vai importar para qualquer um de ns em
pouco tempo  disse Seph.  Eles entraram.  bvio.
        Ento acho que  o fim  disse Fitch, pressionando o
punho sobre o corao.  Tenho de admitir, foi realmente...
 Ele engoliu em seco.  No teria perdido isso por nada
 acrescentou ele, a voz fraca no interior cavernoso da
igreja.
Seph enfiou a mo dentro do casaco e tirou o frasco de
Chama de Mago. Fitou-o por um momento, depois abriu a
mo para que casse, despedaando-se no piso de pedra.
        Escutem  disse Seph.  O resto de vocs, peguem a
Ellen, desam para a cripta e vo pelo tnel at o lago. Eles
no vo saber quantos somos. Eles derrubaram as muralhas,
por isso deve ter uma sada.
        E o que voc vai fazer?  perguntou Will, desconfiado.
        Vou segur-los aqui o mais que puder. Para dar a vocs o
tempo de tirarem a Ellen daqui. Depois vou me encontrar
com vocs  disse Seph sem convico.
        Certo  disse Will, no engolindo aquela histria.  Sem
chance. Vamos todos, ou ningum vai.
         minha culpa  disse Madison.  Sinto muito. Eu s
estava... s estava tentando salvar a Grace e o J. R. Vocs
tinham uma nica chancezinha, e eu arruinei tudo.
Agora o Jason est morto, a Ellen est ferida, o Corao do
Drago desapareceu e eles vm nos pegar.
        Madison...  comeou Seph, mas ela sabia que no devia
olhar para ele.
        Enfim, vocs todos vo. Eu vou l fora ver se consigo
sugar o poder de alguns deles. Vale a pena tentar.
        Madison...  Desta vez era Nick.  Isso no vai
funcionar agora. No da maneira como pensa. Voc no suga
mais o poder. Mas...
        No discuta comigo; j me decidi.
Ela se sentia quase em paz, agora que tomara uma deciso.
        No  disse Seph.  Voc no queria se envolver nisso.
A gente arrastou voc, e agora...
        Escutem-me!  A voz de Nick Snowbeard retumbou
com algo da antiga fora, e todos pararam de falar. 
Madison...  continuou ele num tom mais suave.  Voc
realmente tem os meios para salvar a todos ns, mas deve
agir rpido e com inteligncia. Posso ensinar algumas coisas
a voc, mas no h muito tempo.
        Como? Com o qu?
Ela olhou para os outros em torno, mas eles pareciam to
perplexos quanto ela.
        Com o Corao do Drago.
Ela o olhou como se ele tivesse perdido a cabea.
        O Corao do Drago se foi.
        Est enganada.  Nick se levantou e pressionou os dedos
sobre o corao de Madison.  O Corao do Drago est
aqui.
Madison parecia totalmente aturdida.
        O qu?
Nick sorriu tristemente.
        Madison, goste ou no, voc , digamos assim, a herdeira
drago.

Captulo Trinta e Sete
A Herdeira Drago

Quando chegou o momento do ataque final, Jessamine
Longbranch ficou surpresa com a falta de resistncia na
muralha. Depois de dias e semanas de combate de stio,
parecia que a fora dos rebeldes era bem menor do que se
acreditava. Na verdade, as Rosas sofreram maiores perdas do
lado de fora da barreira  com as batalhas entre as Casas e
uma srie diablica de minas e explosivos no mgicos que
infestavam o solo entre as muralhas.
Era uma grande falta de polidez da parte de magos usar tais
tticas contra colegas dotados.
No final, eles romperam a muralha Weir em trs lugares.
Quando os exrcitos entraram na cidade, os rebeldes se
dissiparam como fumaa. As Rosas lanaram chamas pelas
ruas e becos de Trinity, mas era como caar poeira csmica.
Ainda assim, Jess sentia-se perturbada pelo fato de que
Joseph McCauley, Jack Swift e Ellen Stephenson estivessem
claramente ausentes. O seu maior medo era que eles
tivessem encontrado um modo de fugir com o Corao do
Drago e pudessem estar, naquele mesmo instante, a
caminho de encontrar Hastings e Downey.
Nenhum sinal de Madison Moss tambm. Mas no havia
nenhuma dvida de que o Corao do Drago ainda estava
por perto, em algum lugar junto ao centro da cidade. Agora
o objetivo de Jess era chegar l antes de Geoffrey Wylie e da
Rosa Vermelha.
Por isso, quando atravessou a muralha, ela no ficou l para
aniquilar os ltimos defensores. Deixando a limpeza para os
outros, ela liderou 20 de seus tenentes mais confiveis em
direo  fonte do poder que flua do centro da cidade.
A cidade estava em runas. A praa outrora pitoresca soltava
fumaa negra ao amanhecer, cercada por vitrines de lojas
bombardeadas e coberta de vidro quebrado. As casas
vitorianas estavam em chamas. As ruas estavam desertas, os
residentes Anaweirs em lugar algum.
Jess viu movimento  esquerda e  direita, um vislumbre de
uniformes vermelhos. No eram rebeldes, mas alguns dos
supostos aliados. Ela lanou chamas em espirais em ambas as
direes e ouviu berros quando estas atingiram o alvo. Era
melhor que ela tivesse um pouco menos de competio.
Disparou em um deselegante passo apressado. Se ela pudesse
encontrar o Corao do Drago, qualquer outro poderia
tambm.
Virou em uma esquina e teve de frear, praguejando com
fria. Diante dela havia uma enorme igreja de pedra, como
um grande navio a singrar num mar de magos  Rosa
Vermelha, Rosa Branca e alguns tolos valentes que haviam
adotado sinceramente o novo ecumenismo.
Ela estava atrasada. Contou o nmero de pessoas por alto e
balanou a cabea.
Geoffrey Wylie saudou-a nos degraus da igreja, um amplo
sorriso no rosto feio, os escudos firmes no lugar contra um
ataque de surpresa ao santurio. Ou aos aliados dele.
        Jess! Que bom que voc veio. Ns exigimos a entrega do
Corao do Drago e estamos aguardando a resposta dos
rebeldes.
Jess jogou o cabelo para trs e lanou-lhe um olhar de
escrnio abrasador.
        Francamente, Geoffrey. Para que negociar com eles?
O sorriso no diminuiu.
        Uma vez que tenhamos o Corao do Drago nas nossas
mos, vamos renegociar,  claro. Observe e aprenda.
Como que atrado pela conversa deles, o menino-mago
Joseph McCauley surgiu em uma galeria no primeiro andar,
vestido todo de preto, cintilando com feitios de proteo.
Alguns magos excessivamente entusiasmados (a maioria da
Rosa Vermelha) lanaram contra ele um ridculo ataque de
fogo, que ele repeliu com desdm. O rapaz examinou o
grupo como algum estudando uma infestao de formigas-
de-fogo  desagradvel, mas, de modo geral, controlvel.
Jess tinha de admitir que ele era bonito, embora ele j
houvesse adquirido o hbito do pai de olhar de cima para os
que eram melhores do que ele. Uma pena que ele tivesse
tanto sangue ruim.
"Eu devia ter segurado a garota", pensou ela. "Talvez
McCauley ainda pudesse ser convertido."
A voz do rapaz soou por todo o ptio da igreja.
        Ns discutimos a sua proposta. E temos uma contra-oferta.
 Ele fez uma pausa, como se quisesse se assegurar de que
tinha a ateno de todos.  Propomos um novo pacto de
paz e perdo. Se vocs todos voltarem para o lugar de onde
vieram e jurarem abster-se de violncia, coero e ataques
mgicos, vamos permitir que vocs vivam.
Por um momento, Wylie no conseguiu articular uma
resposta.
        Voc perdeu a cabea?  esbravejou ele.  Que raio de
proposta  essa?
        Se recusarem  continuou McCauley, imperturbvel ,
ns vamos retirar a magia de vocs e deix-los como
Anaweirs.
Um rumor de ultraje irrompeu dos magos reunidos.
Jess no pde deixar de admirar a arrogncia do rapaz.
Aparentemente McCauley tambm havia herdado a
inabilidade do pai em reconhecer quando estava derrotado.
Wylie ficou menos impressionado.
        Ora, seu jovem arrogante...
        Uma oferta generosa  a voz de McCauley retumbou de
novo, abafando os comentrios de Wylie e do resto da
multido , considerando os outros crimes cometidos por
alguns de vocs. Inclusive os assassinatos de Jason Haley e
Madison Moss.
A voz dele tremeu um pouco no final, Jess no soube dizer
se de raiva ou pesar.
Jess finalmente se sentiu motivada a falar.
        A garota est morta?
        Foi morta pelos destroos que caram durante o ataque.
Jess deu um bufo de desdm.
        O Haley levou o que merecia, por no entregar o que foi
prometido. E se a garota est morta, a culpa  de vocs
mesmos, por resistirem.
McCauley ficou imvel.
        Bem, ela continua morta, no ?  disse ele baixinho. 
E se no fosse por vocs, ela estaria viva.
        Chega de fazer pose  disse Wylie.  Passe o Corao do
Drago pra ns.
McCauley curvou a cabea e sorriu. Um sorriso horrvel.
        Cuidado com o que deseja  disse ele.
McCauley se virou e olhou para dentro da igreja. As janelas
se acenderam, iluminadas por uma luz to brilhante que Jess
teve de cobrir os olhos.
Houve um movimento na entrada: um pescoo longo e
sinuoso se desenrolando, envolvendo a torre da igreja, um
corpo refulgente seguindo atrs, uma cauda em armadura
batendo ruidosamente nas paredes de pedra, um vislumbre
de asas que permaneceu gravado na viso de Jess quando ela
fechou os olhos. Telhas de ardsia caram do telhado,
seguidas por uma calha em forma de grgula,  medida que a
besta se acomodava na estrutura do prdio, a cabea de
serpente curvando-se, inquisitiva, em direo aos magos no
solo, as patas da frente, cheias de garras, arranhando os
entalhes de pedra sobre a porta. Alguns magos caram,
aterrissando duramente no cho do estacionamento,
empurrados por um poder bruto e irresistvel.
        Drago!  A palavra percorreu a multido como uma
onda.
Jess conseguiu permanecer de p, com muita dificuldade. A
apario era to brilhante que era difcil olhar para ela por
muito tempo. A imagem piscou e, por um momento,
formou uma figura humana, alta e terrvel, com reluzentes
olhos azuis e uma nuvem de cabelos cintilantes. Tinha uma
expresso bastante espantada no rosto. Jessamine franziu a
testa, achando que a reconhecia de algum lugar.
Wylie havia cado e agora estava se levantando e tentando se
recompor.
        J vimos isto antes  disse ele, arquejante, o rosto to
branco quanto barriga de peixe.  Em Second Sister.  s
uma projeo. Um... um glamour. N-nada do que se ter
medo.
Ele prprio no parecia muito convencido.
Jessamine foi tomada por um terror frio e avassalador.
Aquilo era diferente de Second Sister. Horrivelmente dife-
rente. Poder bruto pulsava da besta, martelando contra a
conscincia de Jess como uma onda impulsionada por uma
tempestade.
Uma dzia de magos disparou numa correria pela praa
pavimentada. Chamas irromperam da linha irregular,
arqueando em direo  besta enrolada em torno do campa-
nrio da igreja. Os golpes de fogo atingiram seu alvo, mas
foram os magos que tombaram gritando.
Uma nova onda de 20 magos avanou, atacou e foi
derrubada.
Aps um momento de hesitao, os magos remanescentes
na praa se viraram e correram para fora da cidade. Jess,
entretanto, teve o mau pressentimento de que ela ainda teria
um papel importante a cumprir.
        Geoffrey Wylie  disse o monstro.
Era uma voz feminina, de cadncia suave, estranhamente
familiar. Wylie estremeceu e cobriu a cabea com os braos,
como se pudesse se esconder. O outrora procurador de
guerreiros da Rosa Vermelha recuou rapidamente at que o
drago o encarou com seus olhos de serpente. Ento ficou
paralisado, como um rato apanhado pelo olhar da cobra.
O drago tremeluziu, assumiu mais uma vez a forma da
senhora, vestida com o que parecia uma tnica tosca de
monge. O brilho tornava impossvel discernir-lhe as feies.
Lentamente ela desceu os degraus da igreja, tecido roando
sobre pedra, e parou trs degraus acima do ltimo.
        Aproxime-se  disse ela, em voz terrvel.
Wylie arrastou os ps em frente, os olhos baixos.
        Voc perverteu e ultrajou o dom que lhe dei  disse a
senhora, quase que gentilmente. Ela estendeu a mo at
tocar o peito de Wylie.  E por isso eu o tomo de volta.
Wylie ficou rgido, os olhos se arregalando at o branco
aparecer em toda a volta, agarrou o brao da senhora com
ambas as mos e tentou afast-lo. Ento gritou, um som alto,
lamurioso e desesperado, e caiu ao cho, chorando.
        Voc agora  Anaweir. A sua conexo com o Corao do
Drago est quebrada. Viva com o conhecimento do que
perdeu.
Jess havia quase chegado ao abrigo do beco antes que a
senhora lhe chamasse o nome.
        Jessamine Longbranch!
Jess se virou para correr, mas algo a derrubou no asfalto.
        Deixe-me em paz! No fiz nada de errado.
Ela tentou engatinhar para longe, mas a voz da senhora a
paralisou.
        Venha.
A conexo entre elas a atraiu para a frente. Incapaz de
resistir, Jess se virou e atravessou a praa aos tropees at
onde estava a senhora.
        Voc assassinou e escravizou pessoas, arruinou vidas. O
Jason e... e a Maddie esto mortos, e a Ellen est ferida, e
acredite, j estou por aqui com voc.  A senhora fez uma
pausa, como que para se recompor.  Voc profanou o dom
do poder. E por isso eu o tomo de volta.
A senhora mergulhou nas entranhas de Jessamine, agarrou-
lhe a pedra Weir e puxou-a para fora, como se removesse o
caroo de uma cereja. Jess sentiu como se a tivessem
estripado, embora a pele permanecesse intacta. Ela rolou e
deitou de costas, berrando em agonia.
        Voc  Anaweir  disse a senhora.
Jess ergueu o olhar para um mundo que havia sido drenado
de toda cor. Envolveu o corpo com os braos, respirando em
pesadas arfadas como se pudesse, de alguma forma,
preencher o vcuo dentro de si. Ela era um eunuco em
magia, com aguda percepo do que perdera.
Jess sentiu o toque da mente do monstro, e uma outra onda
de terror jorrou sobre ela. Acima da fria e da dor, Jessamine
ouviu a senhora dizer:
 Agora  melhor que o resto de vocs v para casa, mude
de atitude, conte aos amigos e reze para que eu no chame o
seu nome.
Os magos fugiram do ptio da igreja. Nem pararam para
ajudar os companheiros cados.
Madison estava to cheia de ansiedade que receava que, caso
abrisse a boca, a preocupao extravasaria e transformaria
todos os seus receios em realidade. Por isso ela mantinha a
boca bem fechada e olhava pela janela, a paisagem familiar
borrada pela velocidade e por lgrimas no derramadas.
Seph tambm estava calado. De vez em quando fazia uma
pergunta sobre a estrada em que estavam ou sobre o quanto
faltava at a montanha Booker. Ela podia sentir a tenso dele.
Pela rigidez de sua expresso e pelo modo como ele segurava
o volante, ela via que ele se sentia inteiramente responsvel
pelo que ela se tornara e pelo que ela poderia perder.
Tudo havia mudado. Ela perdera a profunda nsia que se
instalara em seu mago e que ela s reconhecera depois que
passara. Talvez um extrator fosse apenas um recipiente
vazio, sempre faminto de poder. Era algo insanamente
dilacerante. No pde deixar de se perguntar se fora o dom
de Seph que a atrara para ele em primeiro lugar.
Ela e Seph ainda davam voltas um ao redor do outro,
cautelosos como ces que no se conheciam. Ela sentia uma
conexo com ele que no existira antes. O poder dele estava
ligado, entrelaado ao dela. Ningum que no houvesse
experimentado o fluxo de poder vindo de dentro poderia
entender o quo inebriante era. Mas ela era como uma
criana com uma arma poderosa e destravada: toda cheia de
poder e sem nenhuma idia de como us-lo, o que Seph logo
lhe apontou.
        Tente se acalmar  disse ele, pousando a mo no joelho
dela, forando um sorriso.  Voc est faiscando. Vamos ter
de ir o resto do caminho a p se voc causar um curto no
sistema eltrico.
        Olha s quem fala.
         s um conselho.
        Ento me ensine.
Ela no conseguia se conter. Madison sentia uma nsia de
aprender como jamais sentira por nada, exceto a pintura.
Seph removeu a mo do joelho dela.
        Eu j falei que vou lhe ensinar. Mas voc no vai aprender
de um dia para o outro. Eu era um desastre antes de ser
treinado. Voc  bem mais poderosa do que eu, por isso h
mais riscos de que algo possa dar errado.
Vendo o rosto plido e cansado de Seph, ela sentiu uma
onda de culpa.
        Voc devia estar procurando pelos seus pais.
        Eu vou procurar. Quando isto estiver acabado.  Ele fez
uma pausa, procurando as palavras certas.  Pelo menos
eles so adultos. Podem se defender.
Verdade seja dita, ela estava feliz por ele ter insistido em
acompanh-la. Ela teria aceitado at um exrcito em sua
retaguarda. Faria qualquer coisa para trazer as crianas para
casa a salvo.
Se ela fosse realmente algum tipo de drago, voaria por sobre
as montanhas arredondadas de sua terra e mergulharia sobre
Warren Barber. Ela o ergueria no ar e o deixaria cair do
desfiladeiro mais prximo aps arrancar dele o paradeiro de
Grace e J. R.
Mas ela no conseguia controlar a metamorfose, assim como
no conseguia controlar nada mais. O seu lado drago era
como as lembranas de uma outra pessoa que emergiam sem
serem chamadas ou anunciadas.
De repente ela viu a fita amarela tremulando nos galhos de
um pinheiro retorcido.
        Aqui! Vire aqui!
Seph fez uma curva fechada para a direita, derrapando um
pouco, lutando para manter o carro no asfalto.
        Precisa me avisar um pouco antes.
        Esta  a estrada da montanha Booker  disse Madison,
perguntando-se se Barber planejava encontr-la nas terras
dela.  Onde ser que ele est mantendo as crianas? S
tem a minha casa. E a dos Ropers.
Ela no admitia, no podia admitir, a possibilidade de eles j
estarem mortos.
        O que ele disse quando voc ligou pra ele?
        Disse pra seguir as fitas amarelas. Ele faria contato.
Estava quase escuro. A luz do painel iluminava as feies de
Seph e fazia cintilar os amuletos que ele trazia ao redor do
pescoo. O ar da janela aberta repartia os cabelos dele em
mechas negras que esvoaavam contra a pele plida.
Em outros tempos ela pensara que morreria de embarao se
Seph visse de onde ela viera  a casa dos Booker, toda
dilapidada, majestosa e definhando; a me, Carlene, mais ou
menos na mesma situao. O irmo e a irm vivendo como
pequenos selvagens na montanha  resistentes  noo de
civilizao da irm mais velha. Agora ela queria respir-los
como o perfume das flores silvestres que crescem num
campo ensolarado.
Seph sentiu a intensidade do olhar de Madison e olhou para
ela de forma inquisitiva, depois olhou de novo para a estrada,
que no estava mais l: havia apenas um espao aberto onde
a ponte costumava estar. Seph pisou no freio e girou o
volante. O carro se inclinou para um lado, capotando uma
vez antes de cair pesadamente sobre as rodas no riacho
Booker. Por um instante, Madison lutou com o airbag lateral,
mas logo este sumiu e ela viu que o brao direito que erguera
 sua frente para no bater contra o painel tinha cortes
profundos e pingava sangue.
Ela olhou para Seph, que estava inconsciente, curvado sobre
o volante, um inchao roxo surgindo ao redor do olho
direito. Ela pressionou os dedos sobre a lateral do pescoo
dele. Sentiu a pulsao de Seph com a ponta do dedos e
soube que para mant-lo vivo precisava sair d carro.
Ela se contorceu para se livrar do cinto de segurana, forou
a porta com o brao bom para que abrisse deslizou para o
riacho, cujas guas felizmente chegavam s at seus joelhos
naquele ponto.
        Esse  o problema dos magos  disse Warren Barbe da
margem.  No esto acostumados a terem de se espertos.
Tudo o que se precisa  de um truque.
E tudo o que Madison tinha era um truque, aquele que Nick
lhe ensinara na igreja. Teria de ser o bastante.
        Idiota  disse ela, mais para si mesma do que para ele. 
Voc podia ter me matado. A nunca iria pr a mos no
Corao do Drago.
As sobrancelhas plidas se juntaram.
        Eu falei pra vir sozinha.
        Eu precisava de uma carona.
        Por isso pediu ao McCauley.
Madison respirou fundo, lutando para se controlar. No era
boa idia mostrar suas fracas cartas cedo demais.
        Quem mais voc acha que ia estar disposto a fazer toda a
viagem para me trazer at aqui?
        Achou que ele ia deixar voc me entregar o Corao do
Drago?
        Ele no sabe que eu peguei a pedra. Eu ia me separar dele
antes de a gente se encontrar.
        Ento onde est?
        Eu mostro, depois de ver a Grace e o J. R.
Ele cobriu os olhos como se ela fosse brilhante demais para
olhar para ela.
        Me mostre a pedra primeiro.
        No posso fazer isso agora.
Barber recuou. Ela percebeu que ele no estava acostumado
a receber um no.
         melhor que no esteja mentindo pra mim.
Ele deslizou da margem para o riacho, aterrissando de p
com agilidade, e andou na direo do carro.
        Deixe o Seph em paz  falou Madison em tom incisivo.
 Ele est inconsciente.
Quando Barber se inclinou pela janela, ela acrescentou:
        Se voc encostar num fio de cabelo dele, o acordo est
desfeito.
Barber se endireitou e a fitou, hesitante.
        O que est havendo? Voc parece diferente.
        S quero acabar logo com isso. Venha. Vamos.
O jipe de Barber estava estacionado junto a uma estrada de
cascalho que serpenteava pela montanha na propriedade dos
Ropers. Eles fizeram um retorno subindo por uma estrada
que era mais adequada  marcha arrastada de bois levando
entulho e ferro-gusa. Madison percebeu ento para onde
iam.
A Fornalha Coalton fora um empreendimento de seu bisav
que no durara muito. Ele construra a chamin de arenito
forrada com tijolo refratrio, extrara minrio de ferro da
montanha e produzira carvo a partir dos bosques de rvores
de madeira de lei. A fornalha produzia lingotes de ferro que
eram levados pelo riacho Booker at os rios Scioto e Ohio.
A chamin da fornalha permanecia na encosta da montanha,
embora a loja da companhia, a igreja e a escola houvessem
desmoronado havia muito tempo, vtimas da eroso e do
corte das rvores. Brice Roper sabia da fornalha. Ele podia
t-la sugerido a Barber como lugar onde manter os jovens
cativos.
Eles tiveram de caminhar as ltimas centenas de metros
sobre escombros e pedras, j que a trilha para carretas era
traioeira e instvel demais para irem adiante.
O muro de conteno da montanha havia desmoronado, por
isso a chamin estava parcialmente soterrada em trs lados.
Brotos de plantas germinavam na chamin nos locais onde
haviam encontrado um pouco de terra entre as pedras.
Algum instalara uma porta de ferro para impedir que os
vndalos entrassem e destrussem as runas histricas. A
porta ainda estava firme no lugar, trancada e meio enterrada
em escria.
Madison se virou para Barber.
        Onde eles esto?
Ele deu de ombros e apontou para o topo da chamin.
        Eu joguei os dois l de cima.
        Voc o qu?
Madison escalou com dificuldade a elevao instvel junto 
chamin. As pedras se soltavam sob seus ps; ela se segurou
na chamin com uma mo para no escorregar. No topo da
colina, pde olhar para o negro interior.
        Grace? John Robert?
Por um instante, nada. Ento ela ouviu movimento l
embaixo. Sentiu uma baforada de ar fedorento, o que era
esperado quando duas crianas haviam sido confinadas
juntas por dias.
        M-Madison?  Era Grace, a voz anormalmente
arquejante e fina.
        Gracie? O John Robert est com voc?
E ento estavam os dois gritando e chorando e chamando o
nome dela, como se achassem que ela se esqueceria deles e
iria embora se parassem.
        Agentem a, vou tirar vocs da.
Ela olhou para Warren Barber l de cima, pensando que
gostaria de jogar a montanha sobre ele e perguntando-se se
conseguiria. Mas primeiro precisava dele para fazer algo que
ela no era capaz de fazer.
        Voc precisa abrir a porta  disse ela, a fria superando
quaisquer temores que sentisse.  Abra agora.
        Primeiro o Corao do Drago.
        Eu no vi as crianas ainda. No sei se esto bem.
Ela apanhou um pedao grande de escria e jogou na direo
dele, atingindo-o no ombro. Um gesto idiota, mas
gratificante.
Ele esfregou o ombro, arreganhando os dentes.
        Voc vai pagar por isso.
Ela sabia que isso podia acontecer, mas no se importava.
Madison deslizou pela colina abaixo, aterrissando junto dele
numa chuva de pedras.
        Quero ver por mim mesma se eles no esto feridos.
Ela desejou saber como concentrar a mente do jeito que os
magos faziam para obrig-lo a fazer o que ela queria.
Em vez disso, a fora de vontade dela chocou-se contra ele
de forma descontrolada.
Barber estreitou os olhos para ela, cerrando os punhos ao
lado do corpo, remexendo-se em frustrao. Era quase como
se ela pudesse ler a essncia dos pensamentos dele. Ela
estava se mostrando inesperadamente teimosa, e naquele
momento nenhum deles tinha acesso s crianas, assim ele
no podia us-las para conseguir que ela fizesse o que queria.
Enfim.
        Muito bem  disse ele, com um sorriso que paralisou o
sangue nas veias de Madison.  Como quiser.
Ele esticou a mo para a frente, a palma para fora, e um forte
sopro de ar atingiu a porta de ferro, curvando-a para dentro.
Rochas saltaram da elevao instvel e caram aos ps deles.
        Quer ter cuidado?  rosnou Madison.
Barber fitou-a.
        O que h com os seus olhos?
Ela percebeu que estava faiscando de novo, como Seph
observara. Acalme-se, Maddie, disse ela a si mesma.
        Vai logo!  disse ela em voz alta.
Dessa vez, Barber fez uma linha de chamas contornar o lado
externo da porta como um maarico. Cutucou a porta com
um sopro de ar, e ela caiu para dentro com um estrondo.
De novo, uma onda de ar fedorento. Seguida por Grace,
pestanejando sob a luz da lua, o rosto listrado de fuligem e
lgrimas. Grace se abaixou  entrada e passou por cima do
metal denteado, iando John Robert atrs dela.
        Venha c  disse Barber, tentando alcanar Gracie. 
Terminou a hora do recreio.
        Corram!  gritou Madison, atingindo o trax de Barber
com o ombro.
Madison e Barber rolaram colina abaixo, Madison tateando
em busca da pedra Weir dele como Nick a ensinara.
Entretanto, sua cabea bateu contra uma rocha e ela viu
estrelas por um momento. Quando recuperou a conscincia,
Barber havia sumido, correndo pela lateral da montanha
atrs de Grace e John Robert. Se os apanhasse, ele teria
controle sobre Madison, e sabia disso.
Madison se levantou e quase caiu de novo, a cabea girando,
depois cambaleou atrs deles.
Os ps de John Robert escorregaram no xisto, e ele caiu.
Barber o agarrou, suspendendo-o nos ares, os braos e
pernas do menino movendo-se como um cata-vento no
esforo de se libertar. Grace ia voltar quando Madison,
avanando, gritou:
        No, Grace! Corra!
E Grace se virou e correu.
Barber estendeu o brao, e Madison sabia que ele no erraria
quando as chamas partiram-lhe da mo esticada. Madison
gritou quando o fogo atingiu Grace e continuou fluindo sem
parar, um rio impiedoso de chamas sendo sugado do corpo
dele.
A compreenso e em seguida o horror se estamparam no
rosto de Barber.
        No!  gritou ele, deixando John Robert cair e tentando
se livrar de Grace.
J. R. engatinhou at Grace, que estava de p como uma
deusa vingadora, os cabelos escuros esvoaando ao vento,
at que Barber desfaleceu e caiu da montanha para o espao.
Foi quase to bom quanto jog-lo de um desfiladeiro.
Provavelmente nunca ocorreu a Barber que, se os dons
mgicos eram hereditrios, ento a habilidade de sugar a
magia de pedras Weirs tambm devia ser.



Nicodemus Snowbeard faleceu um dia aps o trmino do
stio a Trinity, com idade estimada entre seiscentos e mil
anos. Ele foi enterrado na Ravina do Drago (que havia
voltado ao seu antigo nome), diante da caverna e sob o
Dente de Drago, onde estaria perto da senhora a quem
havia amado e trado.
Com o fim da linhagem dos D'Orsays, Leander Hastings e
Linda Downey se mudaram para o Castelo da Ravina do
Drago. Ningum parecia interessado em contestar-lhes a
posse.
Jason nunca retornou ao Reino Unido. Ele foi enterrado no
ptio da igreja de St. Catherine, o amuleto da me entre as
mos. Ergueram-lhe uma lpide, e nela estava gravado Draca
Heorte, Corao do Drago. Mercedes e Leesha plantaram
rosmaninho em sua memria, e vinhas subiram pela pedra e
flores desabrochavam no vero e no inverno sobre o
tmulo.
Trinity passou por tempos de confuso e investigaes,
invases de agentes do governo e rumores sobre planos
terroristas. Mas  difcil se obter a verdade quando toda uma
gama de possibilidades est fora de questo e os poucos que
sabem de alguma coisa no dizem nada.
Ellen foi uma paciente terrvel, mas se recuperou por
completo, exceto pelo novo conjunto de cicatrizes, como
tatuagens de um soldado. Jack e Ellen e at Leesha
Middleton se lanaram  tarefa de reconstruir a cidade, um
esforo liderado pela me de Jack, Becka, que sabia como
fazer as coisas acontecerem e do jeito certo. A tia de Leesha,
Millisandra, foi uma das principais doadoras.
Quando finalmente chegou o vero, Madison Moss foi para
casa tomar posse de sua herana.
Ela podia se sentar na varanda da frente, ouvir o riacho
Booker e olhar para os longos declives at o rio, cintilando
sob a luz oblqua do sol. Naquelas montanhas ela via o
reflexo de outras montanhas, cortadas por ravinas, pontuadas
por lagos cristalinos e meglitos.
Podia pintar e dormir ao sol se quisesse, algo que parecia cair
bem para os drages. Mas o que ela mais gostava era de
perambular pelo riacho Booker com Seph McCauley, que
parecia to confortvel ali quanto em qualquer outro lugar.
As pessoas no condado diziam que Madison Moss estava
diferente  mudada pelo tempo que passara junto ao lago.
Ela olhava mais as pessoas nos olhos, e os olhos dela estavam
diferentes tambm, quase hipnticos. E s vezes a pele dela
parecia brilhar e faiscar quando a luz do sol a atingia de certo
ngulo. Todos sabiam que no se devia mexer com Madison
Moss. Ningum sabia o que esperar da garota.
O assassino de Brice Roper nunca foi identificado.
A mina dos Ropers finalmente se esgotou e fechou, e Bryson
Roper Pai partiu para onde havia outras fortunas a serem
feitas.
Seph no entendia de drages, mas entendia de magia e,
assim, ele e Madison se acertaram a respeito de algumas
coisas e deixaram outras em paz. E se s vezes eles
derivavam para outros assuntos mais interessantes
dificilmente se poderia culp-los.
Eles se deitavam na rede que balanava sobre o riacho
Booker, fitavam o dossel das rvores e sonhavam sonhos
que, esperavam, um dia se realizariam.
Entre os Weirs, espalharam-se lendas sobre a herdeira
drago que aparecera em Trinity, lendas que foram se
tornando cada vez mais elaboradas, encorajadas por certos
grupos de contadores de histrias entre as vrias ordens.
Ningum sabia para onde a senhora havia ido ou se poderia
reaparecer. Os magos pressionavam as mos ansiosamente
contra o peito e viraram de um lado para o outro em suas
camas e se perguntavam como seria se fossem Anaweirs. E
se comportaram bem, pelo menos por uns tempos.
Em todo o mundo, as ordens mgicas celebraram - apesar de
saberem que o medo de drages no duraria para sempre.
